Reforçar comunicação e contato humano é primeiro passo para retomada das aulas, defende educadora

Para Terê Fogaça de Almeida, recuperação de conteúdo é importante, mas não deve ser a prioridade neste momento. Educadora reforça a importância de enxergar a escola como espaço de interação entre diferentes seres humanos e suas experiências

Mais do que um espaço para aprender e trocar experiências, a escola é um ambiente essencial de trocas entre seres humanos. Essa é a visão de Terezinha Fogaça de Almeida, mais conhecida como Terê, educadora, fundadora e diretora da escola Ágora.

Nascida e criada em uma família de professores, Terê pensa educação desde criança e critica o sistema tradicional de ensino adotado por muitas escolas, que remete ao sistema fabril adotado aos moldes da Revolução Industrial: crianças enfileiradas, uniformizadas, com um sino separando os períodos na escola e notas atribuindo o conhecimento.

Para a educadora, hoje são as escolas que precisam fazer o que chama de alfabetização social, isto é, promover o contato de crianças e jovens com realidades diferentes das suas, uma vez que os núcleos familiares estão cada vez mais fechados e a convivência fora de casa mais restrita.

Esses e outros temas foram pauta da live semanal realizada pela Vivescer no dia 29 de outubro, que inspirou a conversa a seguir.

 

Vivescer: Na live da qual você participou na Vivescer, você comenta que a escola ‘tem que construir esse espaço para o aluno conviver com os colegas como pessoas diferentes e entender que o mundo é uma colcha de retalhos de gente, de mil cores’. O que você acredita que é um bom processo de retomada das aulas presenciais?  

Terê Fogaça de Almeida: A primeira coisa que a escola devia fazer na volta é não ter pressa em retomar os conteúdos tradicionais nas áreas de estudo. Na minha opinião, acredito que, na primeira semana de aula, são necessárias conversas olho no olho, de pessoa para pessoa, e não de professor para alunos e vice-versa. Falar sobre o que foi difícil e o que foi bom. É a realização de uma ampla conversa entre os seres humanos daquela sala, incluindo o professor, para fazer um balanço da pandemia e contar experiências interessantes. Em seguida, também é interessante fazer uma integração entre alunos mais velhos e mais novos.

 

Vivescer: ‘A boa escola é aquela que oferece o que está faltando para a sociedade’. Nesse sentido, o que falta nesse momento que deve receber mais atenção do corpo docente e equipe pedagógica?

Terê: O que mais está faltando nesse momento é presença humana em nossas vidas. Em primeiro lugar, precisamos da possibilidade de olhar em outros olhos, ouvir outras vozes presencialmente. É o olho no olho, é mandar um beijo e abraço de longo, e sentir a presença humana ao vivo, e não virtualmente. A comunicação entre pessoas é o que falta nesse momento e é o que deveria vir em primeiríssimo lugar.

 

Vivescer: Como a pressa em retomar o conteúdo, que remete ao que você chama de escola no modelo fabril – com crianças uniformizadas e enfileiradas – se contrapõe a essa escola enquanto espaço de promoção do ser humano, como defende a psicóloga e educadora argentina Sara Paín? 

Terê: A primeira coisa que a instituição escolar precisa reconhecer nesse momento é que, entre muitas aspas, a escola ‘ficou para trás’ de outros setores da sociedade em 2020. A instituição escolar tem que aceitar, humildemente, que a realidade se sobrepôs ao papel dela, e que, por isso, o resgate que deve tentar fazer é de corações e mentes, no sentido da concentração, da comunicação, da empatia, e não no sentido da inteligência e da intelectualidade em si. Não se deve ter pressa ou ter essa visão distorcida de que é possível recuperar 2020 pedagogicamente. Apesar dos prejuízos, nós vamos para frente, porque é do futuro que a educação trata. Não é que não temos que recuperar o conteúdo. Temos sim. Mas isso não deve ser a prioridade nesse momento.

 

Vivescer: Por onde você acredita que é possível iniciar uma conversa com os professores? Que coisas que pediria que mudassem já na primeira semana em relação ao que a escola era em março?

Terê: As mudanças iniciais são as conversas de gente com gente, olho no olho, pessoa a pessoa, que mencionei. Na Ágora, antes de retomar as aulas presenciais, fizemos uma reunião de equipe e começamos pedindo para que os professores se colocassem pessoalmente em relação ao que aconteceu esse ano: o que sentiram, suas ansiedades, seus sentimentos de perda, o que foi mais difícil de enfrentar. Acredito que, com os alunos, devemos seguir o mesmo caminho. Agora é hora de cuidar muito bem dos nossos seres humanos que fazem parte da nossa comunidade. É hora de ouvir, de consolar, de reorientar.

 

Vivescer: Você vê que esse período acarretará mudanças duradouras em crianças e jovens? 

Terê: Algo que venho percebendo há tempos, é que crianças e jovens da atualidade não tinham perspectivas de futuro até março. Falar de futuro com elas causava um estranhamento. É um palpite, mas acredito que a relação das crianças e jovens com o futuro deve estar mudando a partir da pandemia, porque eles experimentaram um tempo estendido no qual não podiam fazer o que queriam. De repente, uma maior que não é nem vista a olho nu se impôs e falou ‘você não é o dono do mundo’. Então eles precisaram se rever diante do mundo e da sociedade, e tiveram que se render a essa força maior.

 

Vivescer: Como você acredita que será a passagem de 2020 para 2021 nas escolas? 

Terê: Atualmente, não estou indo para a escola porque pertenço ao grupo de risco. Mas os professores da Ágora ainda estão fazendo ajustes, corrigindo lições, esclarecendo eventuais dúvidas que ficaram, ministrando aulas de reforço. Em 2020, vamos fazer um fechamento muito diferente, trazendo esses balanços pessoais do que foi para cada um passar por esse período, além de fazer uma investigação para ver como a visão de mundo dos nossos alunos se alterou a partir do que vem acontecendo desde março. Queremos saber é da condição humana diante desse cenário.

 

Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/garoto-levantando-a-mao-em-sala-de-aula_2245196.htm#page=1&query=school&position=44