Os desafios da prática docente em escolas indígenas com turmas multisseriadas

Foto em contraluz de indígena no Xingu (MT)Grande parte da infância e adolescência de crianças e jovens acontece no ambiente escolar, assim como amizades, aprendizados e a aquisição de conhecimentos que serão levados pela vida toda. Não seria esse, então, o lugar ideal para expressar seus pensamentos, vivências e usar experiências pessoais como instrumento de novas aprendizagens?

Para criar ambientes abertos ao compartilhamento de vivências, é necessário, antes de tudo, ter em mente que, no caso da educação, o famoso ditado ‘O Brasil é um país continental’ é extremamente acurado: são centenas de milhares de realidades onde estão inseridas as redes pública e privada de educação. Independente disso, agregar os conhecimentos tanto dos estudantes, como de suas famílias e dos professores e demais atores da comunidade escolar, pode ser uma oportunidade de diversificar as práticas pedagógicas e promover um engajamento dos alunos com mais propósito, uma vez que envolve suas histórias de vida e também de seus colegas e conhecidos.

Essa é a vivência de Janaína Reis, professora de duas escolas localizadas em uma aldeia indígena no Mato Grosso. Muito antes da chegada da Covid-19, Janaína já enfrentava desafios diversos, uma vez que dá aulas para turmas multisseriadas da educação infantil, ensino fundamental e médio.

O desafio das turmas multisseriadas

No caso da Escola Municipal Indígena Emkia, sua turma tem alunos entre cinco e 13 anos, o que demanda que divida a aula de acordo com as necessidades de cada grupo. Segundo ela, além de a diferença de idade, a presença de crianças com algum grau de parentesco em uma mesma sala, bem como a demanda por atenção, trazem diferentes desafios para sua prática.

“Às vezes você para de dar atenção para uma criança para atender outra e, quando olha, o rosto de uma delas está cheio de cola. Ou quando eu proponho uma atividade que as crianças acham legal, mas quando um aluno de 12 anos vê que o outro de seis anos gosta da mesma coisa que ele, ele acaba não fazendo por estar nessa fase pré-adolescente de negar a infância”, exemplifica Janaína.

Outro desafio é o idioma. As crianças falam diferentes idiomas e muitas delas só passam a ter um contato mais frequente com a língua portuguesa por meio de suas aulas, o que demanda um processo de adaptação e aprendizado.

Muitas dessas questões também se fazem presentes em seu trabalho com a turma de ensino médio na Escola Estadual Indígena Leonardo Villas Boas, localizada no Parque Indígena do Xingu. Nessa etapa, Janaína reforça que o maior desafio é lidar com a diferença de idade dos alunos na mesma turma, bem como graus de parentesco. “Imagina você ter 15 anos e, ao seu lado, na mesma turma, estar seu pai, de 60 anos. Ou o sogro. São situações que acontecem, mas eu tento ver pelo lado bom para trazer o conhecimento das pessoas mais velhas.”

A valorização da cultura local

Janaína explica que começou a trabalhar na escola Leonardo Villas Boas a partir de um pedido feito pelos próprios professores indígenas. Eles ainda estavam em trabalho de formação e, para se sentirem mais seguros, demandaram a presença de um profissional com mais experiência em sala de aula para atender à turma de ensino médio. Entretanto, a ideia é que, no futuro, apenas professores indígenas assumam o posto.

Como alguém que não faz parte da cultura local, a docente comenta que sempre procura maneiras de possibilitar que os estudantes, principalmente os mais velhos, possam compartilhar saberes, conhecimentos e aprendizados durante as aulas e as atividades propostas.

“Acho que toda troca de ensino e aprendizagem deve valorizar conhecimentos prévios que os alunos já têm e também os conhecimentos da educação fora da escola. No meu contexto, isso é ainda mais evidenciado. Eu sempre tenho que pensar nessas questões até mesmo para não parecer que somente o conhecimento não indígena é reconhecido e valorizado”, explica.

Segundo Janaína, o movimento de pensar como integrar e valorizar os saberes e aplicá-los nas atividades também é uma forma de abarcar discussões desenvolvidas em algumas aldeias sobre a função das escolas na região. “Algo que discuto sempre com outros professores é a valorização do conhecimento local e quais ferramentas eu tenho para oferecer que façam sentido na vida dos estudantes.”

Na prática

Existe um verdadeiro leque de experiências, propostas e atividades que podem incentivar o desenvolvimento dos estudante e integrar conhecimentos e saberes culturais. No estudo sobre processos químicos e reações, por exemplo, durante as aulas de química, Janaína incentivou reflexões sobre o sal que os indígenas produzem na região e qual processo realizam para isso. “Em história, nós aprendemos sobre a invasão dos europeus no Brasil e eu perguntei a eles como foi a versão deles sobre o contato, incentivando que os mais novos perguntassem aos mais velhos.”

Durante a pandemia do novo coronavírus, o desenvolvimento de atividades está ainda mais desafiador por conta de falta de infraestrutura de internet e de equipamentos nas aldeias, bem como a ameaça do novo vírus aos indígenas. Segundo Janaína, o processo definido para a região foi a elaboração de apostilas com atividades. Mesmo assim, existem dificuldades logísticas como a impressão, transporte e entrega segura do material nas aldeias.

Ouvir e considerar a experiência dos estudantes no momento da volta às aulas presenciais é uma forma encontrada pela professora para iniciar um processo de acolhimento e respeitar o momento desafiador vivido por todos durante a pandemia.

“Contextualizar e trazer a vivência é muito importante porque isso impactou a vida de todas as pessoas. Todo mundo passou por um momento difícil, mas as dificuldades não foram as mesmas. É como se estivéssemos todos sob o mesmo céu, mas com horizontes muito diferentes. As vulnerabilidades são diversas. Então é importante conversarmos para não parecer uma coisa meio doida, de paramos e de repente voltamos. Não foram férias. Foi uma questão importante que pode ajudar até a repensar algumas práticas da escola”, pontua.

Foto: Thiago Gomes/Agência Pará