Flexibilidade e acolhimento são chave para apoiar o trabalho do professor diante das incertezas

Professores embaixadores da Vivescer relatam receio de contaminação e importância do acolhimento e flexibilidade para adaptar processos nesse período

Se no final de 2020 a maioria das pessoas não acreditava que 2021 traria de volta a vida nas escolas, o aumento no número de infectados e vítimas da doença no Brasil demanda ainda mais paciência e novas medidas para possibilitar a continuidade da educação. O cenário criou terreno fértil para o surgimento de múltiplos arranjos adaptados à realidade enfrentada em cada região. A Vivescer conversou com dois de seus embaixadores para entender como tem sido o início das aulas.

A escola Nelson de Miranda Coutinho, da rede municipal de Joinville, em Santa Catarina, por exemplo, dividiu as turmas em dois grupos, que fazem um rodízio semanal. O grupo que está em casa recebe atividades via plataforma do Google. “Nós planejamos um roteiro de estudos quinzenal, onde o professor já contempla atividades presenciais e remotas. Para alunos que não têm acesso à internet em casa, a escola disponibiliza tablets com todos os materiais de maneira offline para que as crianças possam acompanhar as atividades de casa”, explica Rosiane Justino, coordenadora pedagógica da escola.

A realidade é bem diferente em Paripiranga, município da Bahia. José dos Santos, mestrando em linguística e professor de Língua Portuguesa da escola municipal Maria Dias Trindade, explica que o ano letivo de 2021 foi dividido em dois: até junho serão trabalhados conteúdos de 2020, que darão lugar ao conteúdo de 2021 de junho a dezembro.

O grupo de professores da escola se reuniu para elaborar, de forma colaborativa, sequências didáticas que são enviadas a cada 15 dias para os estudantes no formato de apostilas. Além disso, também são promovidos encontros online síncronos, pela plataforma Google Meet, e assíncronos, nos quais os professores se disponibilizam para esclarecer dúvidas e conversas com os alunos via WhatsApp. “Os alunos estão fazendo de tudo para não perder a aula. Aqueles que não têm internet em casa vão para a casa do vizinho, outros dividem o celular com o irmão. Eu vejo que esse modelo está fazendo efeito porque os alunos estão interagindo”, comenta José.

 

Sentimento docente

Rosiane explica que muitos docentes da escola sentem-se esperançosos com relação ao novo modelo adotado para o ano letivo de 2021 e estão empenhados em seguir o planejamento à risca. Entretanto, o aumento de casos nesse primeiro trimestre do ano – e mais acentuadamente em março – gera uma situação de desconforto.

“Na primeira semana de março tivemos uma baixa grande do número de estudantes frequentando a escola presencialmente, porque as famílias começaram a deixar os filhos em casa. Isso acarreta uma desmotivação dos docentes, porque eles planejam a aula com cuidado, o que gera uma expectativa, e quando chegam na sala de aula encontram três ou quatro estudantes, sendo que tivemos cerca de 12 em semanas anteriores”, comenta a coordenadora.

José, por sua vez, comenta que ficou assustado diante da proposta de dividir o ano letivo em dois, mas que o balanço até agora tem sido positivo. “O trabalho do professor dobrou, porque precisamos corrigir as atividades das sequências didáticas de muitos alunos. Mas, ao mesmo tempo, nos sentimos mais confortáveis pois a questão principal era o medo de voltar ao presencial, pois sabemos que o vírus ainda está circulando muito”, explica.

 

Maior familiaridade com tecnologia

O uso de tecnologia foi uma constante durante o distanciamento social e têm sido ferramenta fundamental para possibilitar a continuidade das aulas. As atividades produzidas para as sequências didáticas oferecidas pela escola de Paripiranga foram elaboradas pelos próprios professores e, segundo José, esse movimento incentivou que se aproximassem ainda mais da tecnologia.

“Muitos professores não tinham esse molejo de lidar com a tecnologia. Então foram obrigados a aprender, e alguns sofreram bastante e ficaram emocionalmente abalados, porque é tudo muito novo.”

No caso de Joinville, Rosiane reforça que a vivência da suspensão das aulas fez com que professores pudessem desenvolver mais intimidade com as ferramentas tecnológicas e passassem a utilizá-las por mais tempo.

“As lousas digitais nas salas de aula estão ligadas em tempo integral, o que não era uma vivência de um ou dois anos atrás. Além disso, os professores passaram a fazer seu planejamento usando o notebook que a rede disponibiliza, sendo que até então era um movimento de usar caderno e caneta”, explica.

 

Momento demanda flexibilidade

O planejamento das próprias atividades também precisou mudar. Rosiane explica que a escola em que trabalha precisou montar uma organização para que os professores conseguissem corrigir as atividades dos estudantes e realizar uma devolutiva. “O planejamento que antes era semanal agora é quinzenal, porque se repete para os dois grupos. Além disso, para as devolutivas, organizamos roteiros em dois cadernos: o par e o ímpar. Na semana que um está com o aluno, o outro está na escola para ser corrigido.”

A flexibilidade para encontrar novas soluções a problemas nunca antes vivenciados pela educação também deve se aplicar ao tratamento dos docentes para consigo mesmos. Para a coordenadora, é importante que os professores permitam-se sentir vulneráveis. “Às vezes, vejo que alguns profissionais se frustram e até adoecem porque se sentem incompetentes diante dessa situação. Mas é necessário entender que uma estratégia pode dar certo hoje e amanhã não, e não trazer isso para o pessoal.”

 

Importância do acolhimento

Para Rosiane, umas das estratégias que mais têm ajudado na retomada gradual das atividades na escola é o acolhimento tanto para professores como para estudantes. “Toda a compreensão e o olhar humano para professores, famílias e alunos é algo que conseguimos perceber como importante em todas as ações. Esse ‘novo normal’ na escola fez com que nós olhássemos para o outro como seres humanos”, explica Rosiane.

O acolhimento denota a importância de apoios e de redes nesse momento, onde professores podem buscar suporte uns nos outros. “Por mais que você tente ser forte e empoderado, isso não vai dar certo agora. Não podemos fazer isso sozinhos. É necessário manter um vínculo.”

 

 

Foto: jcomp/Pexels