Pandemia e tecnologia: por que algumas propostas são e outras não são consideradas ensino híbrido?

Como definições diversas, modalidade de ensino que integra o presencial e o online prega protagonismo estudantil e visa despertar curiosidade e criatividade dos alunos.

Por mais que seu uso não seja novidade para a educação, a tecnologia figurou como protagonista em 2020 por possibilitar que milhões de estudantes ao redor do mundo continuassem conectados às suas escolas, universidades e professores. Esse novo elemento na equação que é o processo educacional trouxe avanços, adaptações, processos de tentativas e erros e também muitas dúvidas.

Ao longo dos meses, foi possível notar escolas que adotaram diferentes estratégias para manter o contato com os alunos. Se algumas driblaram a falta de internet e equipamentos enviando apostilas aos estudantes em casa, outras criaram grupos de discussão no WhatsApp, promoveram encontros por plataformas online, fizeram transmissões e muitas outras ações. Entretanto, algumas medidas estão sendo erroneamente classificadas como ensino híbrido, o que tem contribuído para disseminar concepções incorretas sobre a abordagem.

 

Multiplicidade de conceitos e abordagens 

Leandro Holanda, diretor da Tríade Educacional, explica que o conceito começou a ser discutido muito antes do surgimento do novo coronavírus por uma gama de autores, o que acarreta a existência de diferentes abordagens e compreensões sobre o mesmo tema.

“Existem vários referenciais e o que nós seguimos é a abordagem dos autores Clayton Christensen e Michael Horn, que define ensino híbrido como uma modalidade de ensino que integra o presencial e o online”, afirma Leandro.

Mas o que tem se observado durante a pandemia é a substituição da parte ‘online’ do conceito por atividades remotas, ou seja, na casa de cada estudante. Portanto, o que está acontecendo em 2021 com a reabertura parcial das escolas é a integração entre aulas presenciais e propostas remotas.

“Até a pandemia, as dinâmicas estavam muito focadas no ensino híbrido que acontecia dentro da escola, na sala de aula. Essa etapa remota praticamente não existia. A discussão estava focada nas dinâmicas, nas metodologias ativas e em como colocar o aluno no centro do processo. Hoje, o debate enveredou para um lado que é como cuidar, ao mesmo tempo, de quem está na escola e em casa. E essa não é a discussão do ensino híbrido”.

Leandro explica que um dos princípios da modalidade é criar estratégias para engajar os estudantes. Muitos modelos adotados de forma emergencial por algumas escolas diante da pandemia não têm essa preocupação, e sim dão prioridade para um mesmo professor conseguir atender dois grupos de estudantes. “Para alguns autores, a transmissão das aulas é um modelo possível de ensino híbrido, mas essa configuração não estimula criatividade e colaboração entre os alunos. É um modelo com foco na logística, e não no pedagógico.”

Além disso, a mera transposição das aulas que eram realizadas presencialmente para o online tem contribuído para criar certa resistência dos estudantes diante das aulas remotas. Isso porque não promover adaptações e submetê-los a longas jornadas diante da tela, além de não estimular a criatividade e protagonismo, é cansativo.

 

Estratégias para a pandemia

●      Sala de aula invertida

Existem alguns princípios dessa modalidade de ensino que podem ser úteis principalmente nesse momento de aulas semipresenciais e rodízio entre grupos de uma mesma turma. Um deles é a sala de aula invertida: o estudante recebe uma proposta para fazer em casa e, quando for presencialmente para a escola, a aula terá início com uma discussão do que foi feito em casa. Essa técnica também pode ser aplicada ao trabalho com projetos. “Uma atividade não vai sobrepor o que já foi feito, mas sim trabalhar em cima da produção feita de forma assíncrona em casa. No presencial, o aluno conta o que fez em casa e reflete sobre os conteúdos envolvidos nessa experiência.”

●      Uso de dados e acompanhamento das produções

A tecnologia também pode ajudar os professores a elaborar as atividades e pensar na configuração dos grupos de alunos de forma a potencializar a aprendizagem. Algumas ferramentas podem ajudar o professor a entender se os estudantes estão ou não fazendo os trabalhos e, a partir desses dados, ele pode criar grupos específicos para ajudar a combater a defasagem da aprendizagem.

Por exemplo: se o professor já sabe que determinado grupo de estudantes não está realizando as propostas, para o dia que esse grupo frequentar a escola, serão necessárias atividades de reforço. Já para aqueles que estão realizando os trabalhos, o momento em sala de aula será destinado para aprofundar os conhecimentos.

Essas informações podem ser coletadas em planilhas ou até mesmo de forma mais simples: estudantes que realizam as propostas podem enviar fotos, áudios e vídeos curtos para o professor. “Acredito que o maior risco das atividades é os alunos se sentirem sem suporte e apoio dos professores. De certa forma, esse acompanhamento mostra que as atividades estão sendo vistas. Sabemos que o processo não se restringe a entrega de conteúdos, mas nesse momento estamos lutando para não perder alunos. Então em uma primeira camada pode-se verificar se estão fazendo ou não e, na segunda, mais profunda, como e o quanto estão aprendendo.”

●      Replanejamento curricular

Um movimento que pode ser interessante nesse momento é repensar o currículo e esclarecer o que é essencial que os alunos aprendam. Para isso, Leandro indica os Mapas de Foco produzidos pelo Instituto Reúna.

 

O que é e o que não é?

Definir o que é e o que não é ensino híbrido é uma tarefa desafiadora justamente por existirem muitos autores com diferentes concepções e abordagens do mesmo conceito. Entretanto, ao seguir a visão de determinado autor, é possível estabelecer alguns limites da modalidade. Seguindo a concepção de Clayton Christensen e Michael Horn, Leandro explica que:

Não pode ser configurado como ensino híbrido:

●      estratégias voltadas apenas a resolver a logística presencial e à distância de professores e estudantes;

●      gravação e envio de videoaulas como única estratégia sem outros complementos;

●      abordagens que não façam uso de metodologias ativas.

Pode ser considerado ensino híbrido:

●      integrar atividades online com atividades presenciais;

●      possibilitar e planejar processos que estudantes tenham contato entre si;

●      pensar em propostas que envolvam uma camada de produção dos estudantes além das videoaulas e textos, de forma a incentivar processamento e reflexão das informações.

 

Foto: jcomp/Pexels