Encontrar tempo para autocuidado é fundamental em meio à rotina de aulas remotas

Desenho de uma mulher cumprindo muitas tarefas

Faça o exercício de perguntar a um professor ou professora quantas funções ele acumulou desde que as aulas presenciais foram suspensas em razão da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Muito provavelmente as novas tarefas não caberão nos dedos de uma mão.

Se antes da pandemia docentes já tinham suas vidas sobrecarregadas, a quarentena e a lógica das aulas remotas impuseram uma nova realidade: além de precisarem se adaptar a plataformas digitais – com as quais a maioria não tinha familiaridade –, os docentes tiveram que aprender a fazer roteiros, gravar e editar vídeos, lidar com demandas 24 horas por dia, tirar dúvidas por WhatsApp e Facebook, dar suporte às famílias e, somado a tudo isso, equilibrar tarefas domésticas e cuidados com os filhos. Nessa equação que parece não caber dentro de um dia, onde fica o cuidado consigo mesmo?

A primeira e a segunda etapa da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península, mostraram que os respondentes estão dedicando mais tempo a organizar a vida pessoal e familiar, incluindo questões do lar (71% no primeiro levantamento e 66% no segundo), e trabalhar nas atividades da(s) escola(s) (62%). Entretanto, se antes eram 30% os que afirmavam investir em momentos de autoconhecimento e autocuidado, como preces e meditação, o índice passou para 25%.

Falta tempo?

Silvia Breim, educadora, naturóloga, coordenadora de conteúdo da plataforma Vivescer e facilitadora da abordagem integral, afirma que existe uma soma de fatores que podem explicar a falta de dedicação a ações de autoconhecimento e autocuidado.

De um lado, professores ainda estão se adaptando ao universo online, muitas vezes tendo que buscar ativamente por novas ferramentas, tutoriais e treinamentos que o ajudem a preparar as novas aulas em ambientes virtuais. É um momento de exigência que soma-se à pressão imposta pela burocracia e à vontade de realmente ser bem-sucedido nessa nova função de educador à distância, ainda que temporariamente.

Do outro lado, a educadora defende que é necessário desconstruir a ideia de que ações de autocuidado demandam muito tempo. “Todos nós temos a sensação de que precisamos de muitas horas ou de que dez minutos não são suficiente para praticar o autocuidado.”

Por que investir nisso? 

À toda essa realidade de novos formatos de aula e interação com os estudantes, entram na equação demandas da casa e o cuidados com os filhos que, por sua vez, também estão aprendendo pelo ensino remoto e muitas vezes precisam de assistência. Então, em meio a tantas tarefas, por que deve-se separar um tempo para investir única e exclusivamente em você?

Para Silvia, essa ação é fundamental para que cada pessoa tenha mais recursos a sua disposição em momentos desafiadores, como o que está posto atualmente. Investir em autocuidado e autoconhecimento proporciona a sensação de que há algo a ser feito frente às adversidades que, muitas vezes, não podem ser controladas. “Conhecer diferentes recursos pode te ajudar a alcançar um estado de mais equilíbrio, plenitude, menos angústia e ansiedade. São ferramentas que podem ser usadas todas as vezes que você se perceber nessas situações.”

Além disso, um ser humano é composto de várias esferas: suas emoções, corpo físico, sua cidadania, trabalho, família, amigos e muitas outras, além de fazer parte de dimensões que são alteradas de acordo com as ações da população. Silvia explica que alterações em qualquer esfera ou dimensão produzem impactos sistêmicos nas outras. É intuitivo pensar que uma pessoa mais equilibrada, calma e estável provavelmente terá relações mais saudáveis do que uma pessoa irritadiça.

“O autoconhecimento e autocuidado são desafiadores, até porque não fomos ensinados sobre isso. A nossa educação é muito mais voltada para perceber o que se passa fora do que aquilo que se passa dentro. Mas há uma relação intrínseca entre o fora e o dentro.”

O que pode ser feito?

Para alcançar o equilíbrio entre tarefas pessoais e profissionais ou, ao menos, encaixar momentos de autocuidado na agenda, Silvia dá duas dicas.

– Entender qual é a sua rede de apoio

Silvia afirma que é necessário expandir a rede de apoio e compreender que essa vai além da avó que, no momento, está impossibilitada de ficar com os netos. Também compõem essa rede vizinhos e amigos para os quais é possível telefonar nem que seja para dividir as angústias.

“Podem ser coisas muito simples. Você pode combinar com um vizinho que, em um dia, ele vai cozinhar mais comida e deixar na sua porta, e no dia seguinte você faz o mesmo por ele. Cozinhar demanda tempo e esse tipo de iniciativa libera um tempo da agenda que você pode usar para você ou simplesmente para não fazer nada, já que a sobrecarga é tanta: temos que lidar com a casa, com a cozinha, com filho, trabalho, relacionamento. São muitas esferas ao mesmo tempo.”

– Separar intervalos de dez minutos durante o dia

Muitas pessoas passam mais de uma hora por dia empenhadas em rolar a linha do tempo nos inúmeros aplicativos de redes sociais, tempo que poderia ser melhor empregado em momentos de autoconhecimento e cuidado. Silvia indica e compartilha que ela mesma faz sua “lista do dez minutos”, ou seja, enumera ações que podem ser feitas nesse intervalo entre uma tarefa e outra, como tomar um banho, tomar uma xícara de chá ou sentar em frente à janela para dar um descanso de olhar telas o dia todo.

“Essas pausas são importantes para alternar entre estar fazendo alguma coisa e se cuidando. Se você conseguir encaixar mais de uma pausa por dia, ótimo. Mas eu indico começar com uma. Se inserirmos muita coisa, a tendência é que a gente não consiga fazer. Então deve-se começar com o que cabe na rotina, sem querer abraçar o mundo. Começar devagar faz com que possamos ganhar essa ‘musculatura’ e, quando ela está trabalhada, fica mais fácil de propor outras coisas.”