Do presencial para o online: como combater a indisciplina em aulas virtuais

Indisciplina

O fechamento das escolas e suspensão das aulas, com migração da educação principalmente para o ambiente virtual, fez com que toda a equipe escolar e as famílias precisassem se adaptar a uma nova modalidade, até então pouco utilizada de forma recorrente: a educação mediada por tecnologia.

É intuitivo dizer que, com a novidade, surgiram também novos desafios, inéditos para todos. Um deles é a indisciplina virtual. Conversas paralelas, trocas de bilhetes durante a aula e risadas e brincadeiras fora de hora, comportamentos que todos os professores já enfrentaram em algum momento de suas carreiras, deram origem a câmeras desligadas, conversas fora de hora nos bate-papos das transmissões de aula ou no WhatsApp, bullying virtual e até situações mais graves de desrespeito em tempos de ensino remoto.

Em um momento de pandemia, incertezas sobre o futuro e ânimos a flor da pele, como é possível, mesmo à distância, estabelecer combinados que ajudem a criar um ambiente propício para o ensino e a aprendizagem?

Para Adriana Ramos, pesquisadora, especialista em classes consideradas difíceis e coordenadora do curso de pós-graduação em Relações Interpessoais na Escola pelo Instituto Vera Cruz, é preciso, em primeiro lugar, diferenciar situações de indisciplina, caracterizadas pela quebra de combinados presentes no contrato pedagógico, e casos de desrespeito que vão além ao envolver agressão verbal e atitudes como exposição de imagens e vídeos impróprios.

“É claro que a indisciplina é um desrespeito com o professor e com o grupo, uma vez que atrapalha atingir o objetivo da aula. Mas essas são as chamadas incivilidades, quase como microviolências. Entretanto, existem inúmeros e milhares de relatos de situações de desrespeito profundo”, explica Adriana.

Segundo a coordenadora, o ambiente virtual confere uma falsa ideia de proteção, uma vez que é possível logar nas salas de aula virtuais com nomes falsos, ou até mesmo passar as informações de login para uma pessoa de fora do círculo da turma.

O desafio da novidade

Para Adriana, não se tratam de novas indisciplinas, mas sim de um novo ambiente. A partir de sua experiência no contato com docentes e coordenadores pedagógicos, ela afirma que as ocorrências eram muito mais numerosas no início do processo, quando estudantes e professores ainda estavam explorando o ambiente online. A diminuição dos casos, entretanto, não significa que não acontecem mais, mas sim que conversas paralelas, por exemplo, são realizadas em conversas privadas.

Além disso, existem questões delicadas relacionadas às aulas online, como o fato de que o professor entrou na casa dos estudantes, onde as famílias têm fácil acesso às aulas e, em alguns casos, ocorrem conflitos, por exemplo, entre pais e docentes no horário das transmissões.

Também é importante considerar que a quase totalidade das instituições de ensino não estavam preparadas para essa nova realidade, fazendo com que muitas decisões tomadas precisassem ser revistas ao longo do caminho. “Escolas conteudistas, que tinham um ensino muito diretivo, por exemplo, migraram para o virtual e decidiram conferir aos alunos uma autonomia que eles não tinham. Isso gera várias situações de indisciplina porque há a criação de um ambiente de insegurança. Também não foi positivo o caso de algumas escolas que optaram por fazer a transposição exata do ambiente real para o virtual. Aulas expositivas, com lousa e pouca interação, geram um sentimento de frustração muito grande no professor, porque ele sente que fica falando sozinho”, explica Adriana.

A importância do diálogo

Para a especialista, é o tipo de situação que irá determinar a forma com que a escola deve tratar o caso. Separar situações de indisciplina de casos mais graves de desrespeito é o primeiro passo. De qualquer maneira, ela aconselha que as instituições mantenham o que já deviam fazer no ambiente presencial: investir em uma relação dialógica.

Para casos mais leves, nos quais nenhuma violência foi cometida, Adriana sugere o uso da leveza e bom humor, ferramentas que podem ajudar a redirecionar a atenção da turma. Intervir em brigas e ofensas entre os próprios estudantes nos chats das transmissões online, por exemplo, também é importante. Por isso, são positivas as experiências de docentes que trabalham em duplas: enquanto um monitora as interações por texto, outro fala com a turma.

Já para situações graves de desrespeito, a especialista reforça a importância de os docentes se indignarem e imporem limites, mas nunca faltando com o respeito, o que pode agravar o caso. “É muito mais um movimento de o professor conseguir aproveitar esse momento para falar da situação. Muitas vezes a escola quer saber quem fez para punir e acabar com o caso, mas isso não é educativo. É muito melhor conversar com a turma, onde o professor pode expressar como se sentiu, ouvir os alunos e pensarem juntos em formas de, enquanto um grupo, conseguirem organizar uma aula online. Reconhecer que isso é difícil também é importante e que, apesar de ninguém querer estar nessa situação, deverão fazer da melhor forma enquanto ela permanecer.”

Segundo ela, não são raros os casos de estudantes que enviam e-mails para a escola fora do horário de aula, afirmando saber quem foi que cometeu algum tipo de deslize nas aulas online. “Os alunos ficam querendo achar culpados, o que reflete a postura da escola, mas ninguém defende o professor ou outro colega na frente do grupo todo. O que desqualifica as ações de indisciplina e faz com que elas parem de acontecer é quando o coletivo é mais forte. A conversa com o grupo é importante não só para que não se legitime esse tipo de ação, mas para que alguém fale ‘não acredito que fizeram isso com a professora’”.

Nos casos em que a situação se repete, uma das opções é envolver, também, a família ou os responsáveis pelo estudante e, em uma reunião, fazer o chamado “acordo educativo”, onde se estabelece o que é ou não permitido e qual é a postura esperada do aluno. “No acordo educativo, ficam claros quais são os princípios e valores da escola e o que não será mais permitido. Se as situações voltarem a acontecer, a escola estará, inclusive, autorizada a usar outras sanções. Normalmente, as instituições de ensino acabam advertindo, suspendendo ou até excluindo o aluno, o que só adia ou transfere o problema. Mas o trabalho com a autorregulação leva tempo, é algo a ser construído.”

 

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