Como trabalhar a empatia de forma prática na escola

 

Durante o último ano de pandemia, um dos sentimentos mais valorizados tem sido a empatia. Mas afinal, o que é empatia? E como promovê-la de forma prática nas escolas?

empatia escola

Para Laiali Chaar, docente, mestre e doutora em neurociência, mais do que se colocar no lugar do outro, empatia significa a capacidade humana de realmente sentir o que o outro sente. Portanto, trata-se de uma mistura de sentimento e habilidade, e a notícia boa é que se pode praticar a empatia desde cedo.

Laiali comenta que, apesar de estar relacionada com a genética, também é possível que uma pessoa se torne mais empática ao longo da vida. “É claro que desde cedo percebemos que umas crianças são mais empáticas que outras. Mas estudos mostram que, apesar desse traço genético, não nascemos com a empatia ‘completa’. Pesquisas com ressonância magnética e exames que analisam as ondas cerebrais apontam que, dependendo dos estímulos, conseguimos transformar nosso cérebro”, explica.

A especialista reforça, ainda, que as experiências vivenciadas ao longo da vida podem interferir na personalidade de cada um. Pessoas que sofreram traumas como, por exemplo, abandono, negligência e falta de cuidados ainda na infância, podem ter a tendência de ser menos empáticas.

Tudo isso está relacionado ao termo neuroplasticidade, que significa a capacidade de o cérebro humano aprender e se transformar de acordo com novas vivências e conhecimento. “Somos capazes de aprender muita coisa durante a vida. A empatia é uma delas. Então, as crianças nascem com uma empatia inata, mas podem desenvolvê-la ainda mais.”

Tema antigo

Laiali comenta que, desde os primórdios, os seres humanos precisam uns dos outros para se proteger dos perigos de predadores, para buscar alimento e para garantir a evolução da espécie. Segundo a neurocientista, a pandemia deixou ainda mais claro que, no caso de uma doença de disseminação global como a Covid-19, é importante que as pessoas entendam seu papel e permaneçam em casa sempre que possível para evitar a transmissão do vírus, em um gesto de empatia com o outro.

Além disso, a empatia impacta relações pessoais e profissionais. “Muitos pesquisadores mostram que o sucesso profissional não depende apenas de habilidades técnicas, mas também do nosso relacionamento com colegas e com chefe”, exemplifica Laiali.

Na área da saúde, por exemplo, a empatia se faz fundamental para que o médico entenda as queixas do paciente e também no estabelecimento de uma relação de confiança, para que o paciente sinta-se seguro e compreendido pelo profissional e, com isso, dê continuidade a seu tratamento.

Empatia na escola

Considerando que crianças e jovens passam grande parte do dia na escola, o ambiente educacional tem papel fundamental no desenvolvimento da personalidade das pessoas. Para Laiali, esse contexto convida professores a pensarem sobre como promover e estimular a empatia entre os alunos, seja na relação com os colegas ou a partir do contato com os próprios educadores.

“Os psicólogos estudam bastante como comportamentos que temos enquanto adultos têm origem em situações vivenciadas na infância. Então eu acho interessante que professores também trabalhem o tema”, explica.

Um fator importante para o desenvolvimento da empatia é o aprimoramento da capacidade de auto-observação e de autocompaixão. Isso está diretamente relacionado a abraçar a própria vulnerabilidade, tornando a pessoa mais sensível à vulnerabilidade alheia e, portanto, mais empática.

A atividade “a vulnerabilidade como caminho”, da plataforma Vivescer, é um convite a este movimento.

Existem outras estratégias que também podem ajudar nessa missão. Laiali comenta que diversos professores já colocam muitas delas em prática sem saber que estão contribuindo para o desenvolvimento da empatia. Confira exemplos:

Aulas de música

“A música transmite sentimentos, o que está relacionado com a letra da música e com as notas musicais. Muitas vezes, já sabemos que uma música é triste antes de começar a letra devido à melodia. Um cantor tem o papel de interpretar, seja uma canção mais feliz ou mais triste. Ouvir música, tocar um instrumento ou interpretar uma letra é uma forma de treinar a empatia, justamente porque conseguimos reconhecer o sentimento transmitido.”

Leitura de histórias

“Um estudo da revista “Science” mostrou que a partir da leitura é possível estimular a empatia nas pessoas por conta da identificação com os personagens. E para crianças menores, essa leitura pode ser de histórias com animais, porque elas se identificam e têm muita empatia com os bichos. Com isso, a criança se coloca no lugar dos personagens, o que pode ajudá-la a entender as relações humanas.”

Meditação e vivência ao ar livre

“É possível promover a meditação com crianças a partir de três anos. Esse momento de silenciar e refletir equilibra nossas emoções. Além disso, ter contato com a natureza também tem potencial de promover esse mesmo resultado. Ainda não se sabe exatamente o motivo, mas uma hipótese é que o contato visual e com os sons naturais fazem com que trabalhemos mais as emoções e, com isso, sejamos menos reativos e nos coloquemos no lugar do outro.”

– Trabalhos em grupo

“Trabalhar em grupo é, com certeza, algo que estimula a empatia, porque precisamos lidar com conflitos e procurar entender o outro. Uma boa atividade em conjunto é a dança em dupla. Dançando com outra pessoa precisamos buscar compreender, sem a nossa dupla falar, se ela está incomodada com algum passo, se devemos acelerar ou diminuir o ritmo, tudo isso para que a dança flua. É o trabalho com a capacidade de perceber o outro.”

 

 

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