Educadores dão dicas para vencer indisciplina e aumentar engajamento de estudantes durante quarentena

Criança colorindo com lápis de cera

A suspensão de aulas e o fechamento das escolas durante a pandemia do coronavírus (COVID-19) levou alunos, professores e famílias a estabelecerem uma nova forma de convivência. Acompanhar um roteiro de estudos no próprio livro didático ou no computador implica combinados que até pouco tempo atrás não eram habituais para nenhum dos lados envolvidos no processo educativo.

Como se não bastassem os relatos sobre maior carga de trabalho por parte dos professores, estudantes, por sua vez, nem sempre conseguem manter o mesmo comprometimento que tinham na escola. Se a proximidade das aulas presenciais é eventualmente quebrada por conta de indisciplina, como fazer acordos em tempos de aulas via videoconferência, lembretes por WhatsApp e prazos virtuais? Como garantir que os estudantes de fato separem um tempo para se dedicar às tarefas durante o período de isolamento social?

A professora e psicopedagoga Vanessa Zito conta que a escola onde trabalha organizou uma dinâmica própria, com sistema de aulas com transmissões ao vivo diariamente. Antes disso, entretanto, a professora elaborou uma apresentação de PowerPoint com alguns combinados para que as aulas fluíssem e todos estivessem na mesma página. O arquivo foi compartilhado previamente com os estudantes e as famílias e, posteriormente, a turma fez uma reunião online para discutir as propostas.

Apesar de a primeira aula via videoconferência ter sido tumultuada, ela conta que, aos poucos, os estudantes foram entendendo o funcionamento e respeitando os acordos como, por exemplo, deixar os microfones silenciados. “Algumas vezes preciso dar uma pausa e chamar o nome de algum aluno de forma mais pontual. Mas também procuro reconhecer quando eles estão cooperando, agradeço se o encontro foi produtivo, reforço atitudes e comento o que precisamos melhorar para a próxima aula”, afirma.

A importância da atenção individual

Quando o assunto é engajamento dos estudantes, a educadora compartilha que, no caso daqueles que não estavam participando das atividades online, o primeiro passo foi mandar e-mails para os próprios alunos, investindo na parte mais afetiva ao afirmar que as professoras estavam com saudades. Em outros casos, a orientação pedagógica da escola também buscou pelas famílias, ao que Vanessa afirma ser fundamental a parceria entre escolas e responsáveis.

Lápis apontadosUma ação fundamental que tem ajudado a aumentar a participação e, consequentemente, o comprometimento com os estudos em casa é a atenção individual. “No final das lives (transmissões), digo que gostaria de conversar com fulano e fulano, e tento entender, nesse momento mais individual, porque não estão entregando as tarefas. No caso de duas crianças, elas não estavam entendendo o movimento de digitar e enviar o arquivo. Elas conhecem o Instagram e o Tik Tok, mas ainda há certa dificuldade, em alguns casos, com ferramentas do Google, por exemplo. Então eu gravei um tutorial e realizei uma videoconferência só com elas, e o trabalho começou a funcionar. É preciso, mesmo nesse momento, ter um olhar mais individual para as necessidades de cada um.”

Como questões externas interferem no aprendizado a distância

Fábio Mendes, doutor em filosofia com cinco livros publicados sobre o desenvolvimento da autonomia, reforça que questões externas interferem no comportamento dos estudantes, como a conectividade. Segundo o especialista, para que a aula seja de qualidade, o ideal é que a escola ofereça um suporte de tecnologia da informação (TI). “Como um estudante que quer prestar atenção consegue fazê-lo em uma aula que fica caindo toda hora? Esse é um problema novo, que não existia na sala de aula.”

Outra questão é a própria falta de formação docente e o modelo tradicional das aulas, que colocam os alunos em estado de passividade, o que facilita a distração e possíveis situações de indisciplina. Além disso, para Fábio, todo o contexto de educação a distância e isolamento social é uma oportunidade para que as famílias participem mais da educação dos filhos. “Dentro da sala de aula, há um ambiente controlado e, segundo diriam alguns, quase um sistema prisional. Em casa, o aluno pode levantar e ir tomar Nescau. Quem vai fazer a gestão física do aluno são os pais.”

Nesse tipo de situação, o protagonismo dos responsáveis esbarra na questão da autonomia do estudante. Para Fábio, crianças e adolescentes precisam ser estimulados a desenvolver a capacidade de seguir determinadas regras para um objetivo. Além disso, o educador pontua a importância de escolas e professores repensarem o modelo de educação proposto durante a quarentena. “Acredito que é preciso moderar a quantidade de conteúdos expositivos em uma live e transformá-los em atividades que sejam menos massacrantes. A prioridade na escola é promover aprendizado e não vencer uma lista de conteúdos. Esse pode ser um momento de as escolas enxugarem o currículo e promover aprendizados mais significativos e profundos”, afirma.

Envolver os alunos na organização de uma rotina diária que, ao mesmo tempo, dá importância ao lazer e aos estudos, pode ser um caminho para promover participação e comprometimento, além de considerar todas as especificidades do momento na hora de designar tarefas. “Nós estamos falando de qualidade de vida dentro de uma quarentena. A prioridade é preservar a saúde mental, e não dar conta dos conteúdos da escola. Senão, os alunos acordam pensando ‘meu dia vai ser horrível’. As escolas devem se preocupar que essas pessoas durmam bem, acordem bem, façam atividades e terminem o dia com força para enfrentar a quarentena.”

Foto: Free Photo e Jigsawstocker/Pixabay

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