Como as rodas de conversa podem melhorar dinâmicas na escola

Lapis coloridos formando um círculo

No âmbito das escolas, além dos encontros entre professores e seus estudantes, foram muitas as reuniões virtuais de planejamento e formação com corpo docente, orientação e direção escolar. Apesar do contato constante, a volta às aulas presenciais vai demandar atenção especial.

De acordo com o guia Orientações de Acolhimento para Professores, criado pelo Instituto Península, é de extrema importância abrir espaços para que os professores possam falar e serem ouvidos. Além de apresentar um modelo de questionário que pode ser aplicado com docentes antes mesmo do retorno à escola, com o objetivo de refletir sobre as experiências e sentimentos durante a quarentena, bem como a sobrecarga de trabalho e a forma com a qual gostariam de ser acolhidos, o guia cita alguns caminhos para esse processo de retomada das atividades.

As rodas de conversa, que devem ser feitas com todos os cuidados para respeitar determinações e protocolos sanitários, são uma estratégia abordada pelo documento para promover uma escuta coletiva e apoio entre os docentes, além de ser uma forma de incluir diferenças e possibilitar o compartilhamento de conhecimento por profissionais com diferentes atribuições na escola.

“A inclusão dos diferentes pontos de vista na narrativa construída através das rodas, traz a oportunidade de que cada um amplie seu olhar na composição com o olhar do outro, contribuindo para a empatia e a colaboração. E, o conjunto dessa narrativa consiste num guia que vai apontar intervenções necessárias e apoiar a organização de grupos de trabalho comprometidos com a realização destas ações”, explica trecho do estudo.

Prática institucionalizada
Muito antes da pandemia, as rodas de acolhimento já são uma prática recorrente na escola municipal Dulce de Faria Martins Migliorini, de Itirapina, em São Paulo. Localizada próxima de dois presídios e inserida em um contexto periférico e de vulnerabilidade social, a instituição tinha resultados insatisfatórios na aprendizagem de seus estudantes. Por isso, em 2016 e com apoio do Instituto Península, teve início um verdadeiro processo de transformação, graças a um novo plano de ação, como explica Fabiana Costa, diretora da escola.

“Começamos a estudar várias metodologias e criar dispositivos para que as mudanças acontecessem em nossa escola. Nada foi feito a partir da imposição. Nós fomos escutando, conversando, falando sobre nossos desejos e conhecendo outras experiências. Criei grupos pela escola para praticar uma escuta mais ativa e, aos poucos, as coisas foram mudando.”

A educadora reforça que não foi um processo fácil, uma vez que, para promover uma transformação da escola, foi necessário envolver todos os profissionais, não só os professores. “É difícil tirar as pessoas da zona de conforto. Nós ouvimos muito a frase ‘dou aula há tantos anos e sei o que estou fazendo’. Então foi um processo longo e dolorido. Mas os professores foram vendo outras possibilidades”, explica Fabiana.

Além do pedagógico
Fabiana conta que os horários de trabalho pedagógicos coletivos (HTPC) da escola eram, antes da mudança, dedicados exclusivamente a questões pedagógicas e envolviam apenas a direção, coordenação e corpo docente. Quando teve início o processo de transformação, que contou com apoio e acompanhamento de diversos profissionais, um deles compartilhou com o grupo a metodologia das rodas de conversa.

As práticas tiveram início com o check-in, ou seja, um intervalo de tempo no início de cada encontro para que o grupo possa entender como cada um está se sentindo. “É muito importante sentir o clima da equipe para começar uma reunião. Não dá para abordar um tema complexo se a equipe está super para baixo.”

Práticas de meditação guiada com o uso de aromas e músicas na sala também são mecanismos utilizados para mudar o clima do ambiente para começar as reuniões. Além disso, a ordem de fala também foi uma prática que, apesar de desafiadora, deu bons resultados. Em linhas gerais, cada pessoa deve se posicionar e não pode ser interrompida pelos colegas. Quem quiser falar novamente, tem o nome anotado em uma lista a ser seguida quando todos se posicionarem.

“Uma vez fizemos uma reunião sobre brincar e convidamos professores de uma outra escola de tempo integral para mostrar como estávamos nos reunindo. Surgiu um assunto polêmico e o pessoal começou a ficar um pouco alterado, mas mesmo assim, como já estávamos acostumados, ninguém se intrometeu. Ao final, a diretora da outra escola veio me dizer que nunca tinha visto isso na vida, que nós não criticamos ou julgamos. Expliquei que foi necessário todo um processo para que os professores entendessem que não invalidamos a fala do outro, já que é o que a pessoa está sentindo, e sim escutamos, acolhemos e, se for o caso, desconstruímos isso junto, com respeito e educação. Parece algo pequeno, mas é super importante pontuar a necessidade de ouvir e respeitar o outro, mesmo quando não concordamos”, reforça Fabiana.

Estratégia para a escola inteira
Para que a escola obtivesse sucesso em seu processo de transformação, as mudanças não ficaram restritas aos momentos de reuniões de professores e demais funcionários. Uma sala do lado da direção, por exemplo, foi transformada em uma sala de acolhimento para alunos, famílias e funcionários, com alterações simples: um pallet no chão, almofadas coloridas, desenhos, frases motivacionais e mandalas pintadas por estudantes nas paredes.

“Quando algum aluno apronta e mandam para a minha sala, nós vamos para essa salinha, eu sento com ele no chão, converso e tento entender porque fez aquilo. Temos que tentar entender o que está acontecendo com a criança porque, muitas vezes, se ela está descontrolada, pode estar com problemas em casa, por exemplo”, explica Fabiana.

Segundo a diretora, todas essas mudanças possibilitaram que a escola mudasse de patamar na comunidade e passasse a ser admirada por todos, reconhecida como um espaço que realmente pratica e promove a educação integral. “Eu fico muito feliz com as pequenas coisas que estão por trás do aumento do nosso Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica]. Quando os alunos saem daqui, os diretores de outras escolas nos contam o quanto eles são diferentes de outros em termos de autonomia, resolução de conflitos e escuta. Essas são características de um ser humano inteiro, que vai além de português, matemática e história. É um aluno saber ter empatia, escutar o outro e ter oralidade. Tudo isso é resultado de mudanças no dia a dia e da relação dos professores e estudantes.”

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