A importância da conexão entre educação e artes

O período de aulas remotas levou professores a se questionarem diariamente sobre o que era essencial investigar com os alunos. Agora, durante as férias, isso vale também para o próprio educador, que pode encontrar na arte uma forma de mudar o olhar para o mundo e encontrar novas ideias que o mobilizem.

É sobre esse tema que conversamos com a educadora Stela Barbieiri. Artista, escritora, diretora do Binåh Espaço de Arte, Stela foi curadora do educativo da Fundação Bienal, em São Paulo(SP), diretora do educativo do Instituto Tomie Ohtake e prestou assessoria para diversas instituições de ensino e cultura. Sempre trabalhando com a relação entre educação e arte.

Nessa entrevista, ela falou sobre a potência artística dos territórios escolares e a importância da arte permear todo o currículo. Stela também ressaltou  que a pandemia ressignificou o trabalho artístico: “Em busca da sobrevivência do espírito,  muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Enquanto uns passaram a bordar, outros projetaram palavras de indignação com a política na parede dos prédios”, afirma.

 

Vivescer  – Em um perfil da senhora para o site Diálogos e Vivências Pedagógicas é definida assim sua relação com a escola: “ Já na hora de ir para a escola, ah, a escola, essa deixava a desejar. Stela gostava de estar com os amigos, mas o jeito que o ensino era feito não era algo bom”. Até hoje o grande desafio da escola é dialogar com as diferenças todas para que todas as crianças e jovens possam habitá-la”, explica Stela. Ela reforça uma palavra bem importante, que apareceu várias vezes durante a nossa conversa: “possibilidade”. Isto posto, a senhora pode explicar um pouco mais a sua relação com a escola e com o desempenho escolar?

Stela Barbieri –  A minha relação com a escola era por meio da relação com as pessoas,  gostava de conviver com meus colegas e professores, mas os processos pedagógicos não me engajavam. Eu pulava o muro da escola pra ir com meus amigos pra praça. Nas aulas, minha atenção estava voltada para as histórias da minha imaginação.

Meus pais eram rigorosos e me orientavam a me envolver mais com a escola, mas o modo como as questões eram apresentadas não me gerava curiosidade ou vontade. Fazia as lições porque era necessário fazê-las, mas raramente com desejo ou envolvimento.

Foi na biblioteca municipal de Araraquara onde mais aprendi sobre artes, literatura, convívio com diferentes universos e faixas etárias, e também as singularidades dos modos de ser e as diferentes expressões por meio das linguagens. Na biblioteca, fazíamos saraus de poesia, aulas de xilogravura, grupos de leitura e escrita. Também nos quintais das minhas três tias educadoras, aprendi sobre a educação com afeto e com escuta atenta. Meus pais percebiam estes movimentos e sempre me apoiaram.

 

Vivescer – Como a senhora avalia o impacto do isolamento social?

Stela Barbieri – A pandemia escancarou muitos problemas na vida do nosso planeta e a arte fala da vida o tempo todo. Muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Alguns fazendo aquarelas semanais, outros fotografando o cotidiano, outros experimentando tintas fritas em casa.

Ficaram gritantes para a grande maioria da população do planeta, as questões de saúde, políticas, as disparidades econômicas e sociais, os problemas com o meio ambiente, as questões raciais, de gênero, as questões familiares e comunitárias. Esta situação nos convocou a olhar para a vida e nos perguntar: o que é essencial aprender agora?

Como nos relacionamos neste momento? Como “acordar” a casa para viver o isolamento físico num ambiente de imersão total, onde tudo acontece no mesmo lugar (trabalho dos pais, estudo das crianças, necessidades essenciais de sobrevivência). Como acordar a escola para não repetir a infelicidade de uma educação sem sentido para os seus participantes, ainda mais agora com a distância física e as dificuldades sociais que se desdobram na falta de acesso à tecnologia?

 

Vivescer – E a partir disso, que novas possibilidades foram geradas para um contato com a arte?

Stela – A pandemia gerou outros tipos de encontros, a presença na ausência, inventada a cada dia.

Aprendemos que a escola não está restrita a um prédio, a escola se concretiza nas concepções e nos modos de fazer a educação acontecer em todos os lugares, mas ao mesmo tempo pudemos perceber como a escola com seu espaço físico, o convívio com professores e colegas fez falta na vida da maioria das crianças, como lugar de nutrição em todos os sentidos.

A expressão por meio das linguagens nos encontros remotos foi fundamental para manter a vitalidade.

As pessoas passaram a investigar modos de fazer a arte acontecer a distância – shows, narrativas de histórias, peças de teatro, leituras partilhadas, saraus de poesia, exposições. Penso que os modos de se relacionar a distância estão sendo reinventadas a cada dia. O estado da arte esteve muito presente nestes momentos de suspensão da vida ordinária e perda de pessoas queridas.

 

Vivescer – Como as novas formas de apresentação artísticas, notadamente aquelas desenvolvidas durante a pandemia, especificamente, o teatro, online, os shows em formato de live, podem impactar o ensino de arte?

Stela  – A arte tem sido um caminho de sanidade para muitas pessoas ao longo da pandemia, ouvir músicas, assistir shows, filmes, ler poemas, romances, ouvir histórias narradas, assistir peças de teatro nos trás deslocamentos e abre caminho para re-existir inventando outros modos para cuidar do planeta e de nossa própria alma.

As ferramentas tecnológicas estão sendo investigadas na construção das linguagens e creio que, neste sentido, temos um longo caminho pela frente.

 

Vivescer – Como educadores podem  criar uma cultura forte de visitas a exposições, peças de teatros e shows na rede pública?

Stela – A escola aberta à cidade, aberta à floresta, a escola aberta às instituições culturais e as manifestações artísticas se nutre do vivo, gerando mais vida.

Esta prática da escola em diálogo com o mundo,  produz um movimento de aproximação entre a riqueza dos pensamentos e expressões das crianças,  encontrando com a riqueza dos pensamentos e linguagens de outros habitantes da cidade.

 

Vicescer – Como a escola pode dialogar com a comunidade artística onde houver deficiência de espaços culturais?

Stela – Penso que os artistas locais podem estar mais presentes na escola, dando oficinas para toda a comunidade escolar, crianças, professores e famílias. A escola também pode se deslocar visitando os ateliês dos artistas.

 

Vicescer – E dentro da escola, o que pode ser feito para utilizar os diferentes espaços para um trabalhar da arte como componente curricular e como uma forma de desenvolvimento do estudante?

Stela – Os espaços escolares comunicam valores e revelam sistemas de estruturação e de funcionamento de cada lugar, são expressões do cotidiano. Para que os espaços tenham significação no dia a dia, é preciso problematizá-los e transformá-los constantemente em formação e troca entre educadores, por meio da escuta atenta aos estudantes e aos colegas, além da criação de contextos de aprendizagens ricos (levando em conta tempo, espaço e materialidade) com perguntas de qualidade como sustentação, gerando caminhos de investigação engajadores .

A arte pode estar presente em todos os momentos da escola e em todos os espaços, não ficando reduzida unicamente ao ateliê, mas podendo expandir a ocupação conforme as intencionalidades do trabalho a ser realizado.

 

Vivescer  – Que recomendações você  poderia dar para o professor expandir seu olhar ou conhecimento em arte ainda que a distância durante as férias?

Stela – Penso que nas férias nos faz bem andar, nadar, ver as estrelas. Observar a natureza, os acontecimentos a nossa volta, o céu, mar, as plantas, dar tempo ao tempo…. ler bons livros, conversar, assistir belos filmes!

Estudar a obra de artistas e as questões pelas quais foram mobilizados. Estar em contato consigo, ouvir música e nos nutrirmos do que é bom e faz bem em todas as instâncias da existência.

 

Foto: jcomp/Freepik

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