Combater violência na internet é papel de todos, inclusive da escola

Atuar na prevenção, antes de violências acontecerem, é o caminho para promover uma cultura de paz, tolerância e respeito à diversidade. Alunos podem participar na elaboração de soluções. 

Em meio a tantas redes sociais e possibilidades de interação na internet, crianças e jovens passam cada vez mais tempo mergulhados em telas. O grande desafio é que, com essa frequência intensa de uso, vem também as ameaças e perigos que o mundo online oferece. 

Dados da pesquisa TIC Kids Online 2021 mostram que comportamentos de violência e preconceito na internet estão diretamente conectados a violências estruturais que acontecem em outros espaços da sociedade. O levantamento aponta que pelo menos 44% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos já viram alguém ser discriminado na internet. Entre os principais tipos de discriminação testemunhadas estão: pela cor ou raça (31%), pela aparência física (20%), por gostar de pessoas do mesmo sexo (20%), por ser pobre (14%), pela religião (13%), por ser mulher ou menina (12%), entre outros. 

“É importante reforçar que o bullying e o cyberbullying não são “brincadeiras” de crianças e adolescentes e não são episódios isolados, e sim violências que se repetem e causam constrangimento e afastamento”, afirmam Guilherme Alves, gerente de projetos; Isabella Ferro, assistente de projetos e Rodrigo Nejm, diretor de educação, todos da Safernet Brasil.

Nesse sentido, eles pontuam que deve haver uma união de esforços entre diferentes atores, como famílias e escola, para não só monitorar eventuais casos de violência, mas também atuar de forma preventiva. 

Papel central da escola

Diversas legislações mostram que a escola tem um papel fundamental no combate a violências, mesmo que aconteçam apenas no mundo online. A Lei 13.185/2015, que cria o Programa Nacional de Combate à Intimidação Sistemática, prevê o dever de escolas, clubes e agremiações recreativas de assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate ao bullying e ao cyberbullying. 

“As discussões devem fazer parte, transversalmente, do cotidiano das escolas, seja estabelecendo protocolos internos para lidar com o problema, seja inserindo em todas as disciplinas discussões que prezem pela criação de uma cultura de paz e tolerância”, apontam os especialistas, uma vez que é na escola que crianças e jovens passam grande parte do seu tempo e desenvolvem suas relações sociais. 

Considerando que a convivência é fundamental para a qualidade do ambiente de aprendizagem, esse é apenas mais um motivo para a escola manter-se atenta ao que acontece mesmo fora de seus limites. Recomenda-se, por exemplo, a adoção de protocolos para toda a comunidade escolar para acolher denúncias e envolver vítimas, autores e testemunhas na resolução dos conflitos. 

Cultura digital

Também há indicações legais que apontam para a importância do preparo dos estudantes para lidarem com a natureza do mundo digital, suas oportunidades e perigos. A competência geral cinco da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e o Art. 26 do Marco Civil da Internet preveem o desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas ao uso seguro, crítico e responsável das tecnologias digitais e da internet nas práticas educacionais e pedagógicas.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação são outros exemplos de legislações que reforçam o caráter educativo e de prevenção no uso seguro de tecnologias. 

Para Guilherme, Isabella e Rodrigo, as discussões e atividades sobre respeito, empatia, direitos humanos, cultura de paz e resolução pacífica de conflitos devem estar presentes desde a pré-escola, acompanhando toda a educação básica e até mesmo o ensino superior. É importante, por exemplo, que escolas e famílias estejam em contato para que a instituição de ensino conheça os hábitos de uso de internet de cada estudante e, assim, consiga elaborar intervenções educativas que dialoguem, de fato, com a rotina online de cada um. 

“Desde o primeiro acesso à internet, as crianças precisam entender que há riscos, há pessoas e conteúdos perigosos. Saber pedir ajuda e compreender que nem tudo é para elas faz parte dos primeiros passos ao digital.” 

Outra estratégia interessante, segundo os especialistas, é investir na prevenção, ou seja, antecipar os problemas a partir de ações como reforçar a promoção de uma convivência baseada na valorização da diversidade, o estímulo a relações empáticas e cocriação de modelos de respostas entre pares são exemplos de atividades pedagógicas que podem ajudar antes mesmo de uma situação grave ocorrer. 

Trabalhando o uso seguro da internet

Ao contrário do que alguns podem pensar, não é necessário que educadores sejam especialistas em tecnologias e conheçam inúmeras funcionalidades online para trabalhar o uso seguro da internet em sala de aula. Classificar estudante como “nativo digital” não é algo que tira a responsabilidade da escola nesse tipo de letramento. Na verdade, até reforça a necessidade de desenvolver habilidades para a construção de um senso crítico que colabore para o uso seguro e responsável das tecnologias.

Confira abaixo algumas formas de abordar o tema em sala de aula: 

– Criar espaços seguros de troca de experiências, diálogo e acolhimento sobre as temáticas; 

– Orientar sobre o cuidado com o que se escreve e com as imagens que cada um divulga na rede;

– Convidar estudantes para protagonizar discussões sobre as temáticas por meio de pesquisas e apresentações para a turma; 

– Promover rodas de conversa sobre os temas. 

Como identificar? 

Para não correr o risco de banalizar a violência ou exagerar nas respostas a eventuais brincadeiras, os especialistas ressaltam a importância de ouvir as crianças para entender todo o contexto antes de tomar alguma decisão. 

Além disso, há alguns comportamentos e mudanças nas rotinas que devem ser observadas de perto para identificar casos de violência, como: 

– Mudanças repentinas no uso da internet;

– Medo de compartilhar o que faz na internet;

– Medo de ir para a escola e encontrar amigos;

– Evitar participar de atividades coletivas;

– Sinais incomuns de tristeza;

– Isolamento no intervalo da escola.

Como agir? 

A partir do momento que um educador ou pai/mãe ou responsável identifica que uma criança ou jovem está sofrendo violência, o primeiro passo é oferecer apoio e orientação, tendo em mente que nem sempre mudanças de comportamento decorrem de casos de violência. Entretanto, se a violência sistemática for de fato identificada, algumas medidas que podem ser tomadas são: 

– Criar um ambiente de diálogo e não julgamento; 

– Ofereça apoio e mostre que a vítima não está sozinha e não é culpada pelas ofensas que está sofrendo; 

– Provocações e ofensas na Internet não devem ser respondidas. Ao passar por isso, grave todas as mensagens ou imagens;

– Imagens ou comentários ofensivos podem ser denunciados ao próprio site, sendo possível bloquear o contato no celular, chat, e-mail e redes sociais;

– Se perceber que algum colega de seu filho está sofrendo agressões pela Internet, encoraje-o a denunciar e ajude-o;

– Em casos de cyberbullying, é importante buscar diálogo com todas as partes envolvidas – autores, vítimas, pais/responsáveis e a escola, quando for o caso e quando for possível;

– Os pais podem ser responsabilizados judicialmente pelas agressões que os filhos cometem, porém, o mais adequado é tentar resolver essa situação com diálogo e orientação, já que crianças precisam do cuidado dos adultos, de ambos os lados da questão;

– Acesse canais de ajuda para mais orientações, como o canal de ajuda na SaferNet.

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