Saiba como conduzir uma boa reunião de pais e responsáveis

Reuniões e contatos periódicos estão entre as maneiras mais eficazes de aproximar a família da escola

Ao assumir a gestão da Escola Técnica Estadual Cícero Dias/NAVE Recife, em 2012, Aldineide de Queiroz estranhou que os pais dos alunos apareciam na escola somente para deixar e buscar seus filhos. “Por um lado, isso demonstra a total confiança que depositam em nossos educadores”, observa a gestora. “Por outro, senti a necessidade de trazê-los mais para perto, dividindo o dever da educação conosco. Afinal, é muita responsabilidade para a escola fazer todo o processo de ensino-aprendizagem sozinha.”

De fato, muito além de acompanhar a frequência escolar dos estudantes, os pais e responsáveis devem se interessar pelo processo de ensino como um todo. Corroborando essa ideia, uma pesquisa do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), de 2019, aponta que alunos com pais bastante presentes na vida escolar tiveram desempenhos melhores.

Nesse cenário, uma das maneiras mais eficazes de aproximar a família da escola é durante a reunião de pais e responsáveis. “Ao longo do processo de ensino, é necessário levar os responsáveis a refletir sobre a vida escolar do estudante. E são nessas reuniões que podemos cativar e levar conhecimento às famílias”, aponta Carla Borges, professora das redes municipais de Sarzedo e de São Joaquim de Bicas, ambas em Minas Gerais. “A reunião de pais é uma excelente oportunidade de integração, possibilitando que eles se envolvam no ensino dos filhos a partir de uma posição de conhecimento e participação.”

Reunião envolve toda a comunidade escolar

Desde o início de sua gestão, Aldineide testou diferentes formatos para a reunião de pais e responsáveis, para que não se tornasse um espaço no qual apenas os profissionais da educação falassem e os pais escutassem. “Buscamos aquilo que surtia mais efeito, para que fosse um momento atrativo às famílias”, conta. “Então, passamos a definir uma temática para cada reunião, sendo mediada pelos nossos profissionais ou até mesmo por parceiros externos. A intenção é atualizar os pais diante das questões primordiais da educação, pois às vezes fica subentendido que as famílias têm esses conhecimentos, mas muitas não têm.”

Estreitar a relação entre família e escola é uma das estratégias do PNE (Plano Nacional de Educação), aprovado em 2014, para aumentar a qualidade da educação. A meta 19 do PNE, que trata da gestão democrática nas escolas públicas, estabelece que a rede de educação básica constitua ou fortaleça as associações de pais e os grêmios estudantis.

Em sua escola, as reuniões são bimestrais e envolvem toda a comunidade escolar: os representantes de sala recebem pais e responsáveis, que são conduzidos para um café da manhã no refeitório; então, uma outra turma os leva para a sala onde acontecerá a reunião, que também é palco de ações artísticas dos estudantes, com música e dança. “Esse formato ficou bem mais interessante para eles, que começaram a participar mais”, revela Aldineide.

A gestão utiliza recursos multimídia, como vídeos, para abrir a reunião, que também conta com informes gerais sobre os acontecimentos escolares – e até mesmo uma orientação digital para os pais que não têm costume de usar as novas tecnologias de comunicação. “Estamos juntos também para fazer esse papel. Compete à escola ajudar nesse processo como um todo.”

Incentivos à participação

Para escolher a melhor data para realizar a reunião, Aldineide abriu uma enquete virtual com todos os pais e responsáveis. Segundo ela, muitos pegam justificativa da escola para apresentar no trabalho. De acordo com o PLS 620/ 2011, o trabalhador que precisar faltar ao trabalho para participar de reunião na escola de seus filhos poderá ter a ausência abonada, sem prejuízo do salário, até uma vez por semestre. Aos pais que não conseguem estar presentes, é enviada uma ata com o resumo do que foi discutido, via e-mail e WhatsApp.

Por fim, para estimular a continuidade da participação dos pais e responsáveis, em 2023 foi implementado um “cartão fidelidade” da reunião. Quando o responsável vai, o cartão é rubricado e quem tiver participado de todas as reuniões vai concorrer a um sorteio no final do ano. “É um prêmio simples, como uma caixa de chocolate ou um produto de beleza, mas é algo que transforma o espírito dessa reunião: em vez de cobrança e reclamação, passa a ser um lugar de diversão”, conclui Aldineide.

Resultados da parceria

Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), 50,2% dos estudantes brasileiros dizem que os pais têm interesse pelas atividades escolares. O dado coloca o país na 24ª posição entre 49 nações. Os números indicam ainda que há diferença entre aqueles com maior nível socioeconômico, grupo no qual 63,2% dos estudantes relatam a participação dos pais, e aqueles com menor nível socioeconômico, com 46%.

“A cada reunião de pais, procuro tocar nas temáticas que são inerentes à turma, ampliando para reflexão e instigando os responsáveis a sempre participar, desmistificando a ideia de que reuniões são chatas e sempre a mesma coisa”, afirma Carla. “São momentos únicos e que resultam em uma parceria magnífica.”

A professora compartilha uma experiência que considera marcante: durante uma reunião, pais e responsáveis foram desafiados a reconhecer seus filhos apenas pela imagem de seu sorriso.

“Alguns nem repararam no sorriso da criança em processo de trocas de dentes. Outros diziam que o filho não sorria daquela forma em casa, também desconfiando da imagem. Pudemos assim fazer uma rica discussão sobre a correria do dia a dia na atualidade, e como cada momento na infância pode passar tão rápido que, em um descuido, perdemos.”

Dicas para conduzir uma boa reunião de pais e responsáveis

Veja a seguir algumas dicas e sugestões para tornar a reunião de pais e responsáveis mais produtiva, acolhedora e significativa para as famílias, de acordo com Aldineide de Queiroz e Carla Borges:

  • Encontre o dia da semana e horário que funcione para a maioria dos participantes e, durante um ano, mantenha essa data fixa;
  • Escolha um tema transversal da educação para ser o fio condutor;
  • Utilize recursos multimídia para captar a atenção;
  • Mantenha o microfone aberto para as manifestações dos pais e responsáveis;
  • Envolva a comunidade escolar na reunião;
  • Organize um espaço onde os participantes se sintam acolhidos e importantes;
  • Envie um resumo com os principais pontos discutidos, para quem não puder comparecer.

Respostas

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  1. Bom dia!
    Estou coordenadora pedagógica da Escola Indígena Capitãozinho Maxakalí. Temos uma dinâmica de acompanhamento pedagógico que nem sempre é igual á uma escola regular não indígena, porém tenho sido enriquecida com tantos estudos e orientações nesse ano 2023. Estou adequando as ideias e colocando em prática. Parabéns á todos que tem cooperado para que nossos estudantes tenham um bom desenvolvimento no ensino aprendizagem. Nosso alvo é termos uma parceria maior com as famílias para que seus filhos se sintam acolhidos em todos os territórios que eles percorrem. Na família eles vivenciam na prática aquilo que estamos ensinando. Ou seja, na educação escolar indígena Maxakali é apenas um reflexo daquilo que vivem na prática na educação indígena que acontece no dia a dia de nossos estudantes. Há muitos locais de aprendizagem: na roça, no rio, na mata, no caminho (entre uma aldeia e outra), na casa religiosa dos homens (kuxex). E sabemos que, nós, professores, especialistas e professores indígenas e não indígenas, não retemos todos os conhecimentos e nem pretendemos isso. Daí a importância de termos a comunidade, os pais e as lideranças indígenas como parceiros nessa grande caminhado do saber/viver/reviver.

  2. Muito interessante, rica e oportuna a publicação. Atualmente, é imprescindível a conexão família/ estudante/escola. As experiências que tive com escolas que conseguiram implantar essa conexão foram altamente positivas, tanto em relação à produção pedagógica, quanto em relação à apresentação de indicadores positivos.