Falar a mesma língua é fundamental para incluir pessoas com deficiência, diz finalista do Global Teacher Prize

Doani Emanuela Bertan usa a educação e seu trabalho para construir conhecimento junto com seus alunos e, assim, oferecer possibilidades de escolha e transformação de suas vidas 
 
“Conhecimento não ocupa espaço e ninguém consegue tirá-lo de você”. Essa é uma das frases que mais marcaram a vida de Doani Emanuela Bertan, professora de língua portuguesa e de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Por seu trabalho desenvolvido junto a turmas do terceiro ano do ensino fundamental em uma escola municipal de Campinas (SP), Doani foi reconhecida como uma das 10 finalistas do Global Teacher Prize 2020, premiação global que reconhece profissionais da educação do mundo todo.

Entretanto, qual caminho a educadora percorreu até ser selecionada entre 12 mil inscritos de 140 países? Tudo começa com a autora da frase que abre essa matéria: sua mãe. “Além de sempre ter gostado de ser professora das minhas bonecas, minha mãe sempre deixou muito forte na cabeça dos filhos que a educação transforma, e que, se quiséssemos sair da condição em que estávamos, seria por meio do estudo. Quando eu era criança, minha mãe era minha heroína, então levei essa fala muito a sério”, explica Doani, que também é embaixadora da Vivescer.

Esse incentivo veio desde muito cedo, quando, ainda menina, caminhava durante uma hora com a mãe para buscar livros na biblioteca municipal, cenário que só mudou quando sua escola construiu a biblioteca própria. “Na oitava série, quando me formei, tinha lido a biblioteca toda, menos a parte de romances, que não gostava muito. Acho que é por isso que sou tão criativa. Sempre tive essa ideia de que, se a educação pode promover transformações, eu queria oferecer isso a outras pessoas.”

Chaveirinhos e Xuxa: como Doani conheceu Libras  
A relação da professora com a língua brasileira de sinais começou por dois acasos quando ainda era criança: com o encarte de chaveirinhos vendidos nos semáforos por pessoas surdas, que vinha com desenhos do alfabeto de Libras, e com o lançamento da música do alfabeto da cantora Xuxa, também em Libras.

“Uma coisa que ficou muito marcada na minha mente é que, em várias situações, eu conversava com a minha mãe e irmã e ia treinando os sinaizinhos com as mãos. Nessa mesma época, a Xuxa lançou a música do abecedário todo em Libras.” Para Doani, esse interesse, que veio de forma natural, se deve pela valorização da comunicação. Ela reforça que acredita que a comunicação, ao romper barreiras, estabelece vínculos e relações, e é a partir das relações que é possível se transformar e transformar o meio no qual está inserido.

“Comunicação sempre foi algo me encantou, desde criança. Além disso, sempre fiz trabalhos manuais. Aprendi tricô com seis anos. Então acho que associou o interesse por comunicação, destreza e habilidade manual e ter uma mãe que sempre me incentivou. Os livros me trouxeram a criatividade e eu podia colocar em prática, não tinha ninguém para me podar. Pelo contrário. Se eu falasse ‘mãe, posso destruir esse tapete para fazer uma peruca da Emília?’. Ela me respondia que sim e que ficaria muito bom”, relembra Doani.

Curso e canal no YouTube  
Depois desse ponto de partida, Doani conta que, mais velha, em 2002, fez um curso de Libras, e conheceu uma amiga que a apresentou ao mundo da língua brasileira de sinais. Depois de anos de estudo, em 2017, teve a ideia de lançar um canal no YouTube para possibilitar que crianças surdas tivessem acesso ao que era trabalhado de forma presencial em sala de aula.

“Há escassez de material bilíngue para o público surdo. A criança surda recebe o mesmo livro didático da criança ouvinte. Mas, muitas vezes, acontece de ainda estar aprendendo Libras. Como professora de escola pública, entendo a questão das verbas para compra de material, então tentamos usar da melhor forma possível. Mas a perspectiva de que igualdade inclui não é real. Na verdade, igualdade também exclui porque não somos todos iguais”, explica a professora.

Nesse sentido, depois de receber diariamente ligações de seus estudantes para que ela auxiliasse com a tarefa de casa, Doani teve a ideia de criar um canal no YouTube partindo da equidade e pensando em atender às especificidades desse público, algo que, na época, não existia. Depois de muitas conversas, idas e vindas, reformulações, estudos e opiniões de diversos colaboradores, Doani lançou o Sala 8, em novembro de 2017. Hoje, com mais de 70 vídeos, o canal contabiliza mais de 7 mil inscritos.

Inclusão, convívio e interação 
Para Doani, não basta falar em convívio de estudantes com e sem deficiência em uma mesma sala de aula. De acordo com a professora, a real inclusão acontece pelas interações. “É importante que haja esse contato, mas que não se restrinja a compartilhar espaços. Isso não significa de maneira nenhuma estar incluído. Se as pessoas não falam a mesma língua, a barreira comunicativa estará ali.”

A inscrição no prêmio Global Teacher Prize veio justamente da vontade de conferir visibilidade à educação bilíngue, à educação de surdos, à Libras e à escola pública. “Eu carrego a bandeira da inclusão, mas não a inclusão igualitária. Não acredito na igualdade, acredito na diversidade e no respeito a ela. Ninguém nunca perguntou se uma pessoa surda, por exemplo, quer estar em uma escola especializada ou em uma escola inclusiva, porque nos julgamos melhores para decidir. Eu não concordo com isso.”

O que motiva Doani a continuar com seu trabalho é a possibilidade de construir conhecimento junto a seus alunos e, com isso, oferecer a eles a possibilidade de escolha e de transformação de suas vidas. “Inclusão virou um jargão. É uma prática bonita, sim, quando bem feita, mas também pode ser muito cruel e totalmente excludente. Acredito que inclusão é quando você oferece conhecimento e meios para aquele aluno se desenvolver e fazer suas escolhas”, completa.

Confira aqui o perfil da educadora no site do Global Teacher Prize.