Escuta individual apoia professores na retomada da vida na escola

Estratégia de conversas individuais soma-se a conjunto de práticas indicadas no guia Orientações de Acolhimento para Professores, elaborado pelo Instituto Península

Tornar o aluno protagonista e colocá-lo no centro do processo de aprendizagem é uma estratégia cada vez mais debatida por escolas no Brasil e no mundo. Entretanto, a pandemia de Covid-19 direcionou luz ao outro lado da moeda da educação: os professores. Sejam elas ou eles recém-formados ou com décadas de experiência, docentes precisaram adaptar suas rotinas para o ambiente virtual, ensinando e conectando-se a seus alunos a distância.

Se esse processo pode ter sido mais tranquilo para alguns, foi um desafio e tanto para outros, que tinham pouquíssimo contato com computadores e recursos digitais para uso pedagógico. Por isso, a retomada gradual das aulas presenciais em 2021 vai demandar um longo e paciente percurso de readaptação, que deve levar em consideração as demandas dos docentes, suas facilidades e dificuldades.

Tendo isso em mente, ainda em 2020 o Instituto Península lançou o guia Orientações de Acolhimento para Professores, com o objetivo de esclarecer possíveis caminhos e metodologias a serem adotados por escolas, possibilitando que toda a equipe tenha suas considerações ouvidas. Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer, que participou da elaboração do guia, explica que a ideia do acolhimento acontece tanto no plano das ideias, ou seja, de compartilhar pensamentos e sentimentos dentro da possibilidade de confiar no outro, bem como no espaço físico, isto é, as pessoas se encontrarem e, nesse determinado espaço, se sentirem bem e acolhidas.

“Nós estamos vivendo um momento de luto nacional, muitas vidas foram perdidas. As pessoas podem ter passado por situações de necessidade, com perda de empregos e ajustes de vida. Além disso, quando estamos vivendo uma pandemia, há um medo do contágio, a necessidade de reclusão e muitos outros fatores, que acabam por deixar as pessoas mais vulneráveis para, eventualmente, uma depressão. Nesse meio todo, os professores precisaram aprender a dar aula à distância e mesmo com grandes esforços, nós sabemos que muitos alunos não foram alcançados”, expõe Ana Flávia.

Esse complexo conjunto de situações e fatores, explica a especialista, pode ser uma das razões pelas quais professores podem optar por não expor dificuldades ou desafios em momentos coletivos de conversa na retomada presencial das aulas ou atividades na escola.

 

A importância da escuta individual

Considerando essa possível reserva e retração que alguns docentes podem apresentar perante o grupo, o guia do Instituto Península apresenta a possibilidade das conversas individuais. Além do compromisso mútuo ao sigilo do que for conversado nessa circunstância, os espaços individuais de escuta podem servir para que a equipe gestora entenda mais profundamente determinadas situações pelas quais os professores passaram, o que possibilita a reflexão sobre como é possível atender as demandas dos profissionais.

“Esses momentos individuais de escuta são importantes para que as pessoas se sintam à vontade para conversar, expor sua situação, que possam se sentir acompanhadas. Tudo isso dá escape aos sentimentos, deixa fluir, e é aí que as pessoas conseguem se reerguer e construir caminhos. Quando tudo isso fica represado, há um peso muito grande nos ombros. Sabemos que não serão todos os professores, mas com certeza alguns vão precisar desse momento”, explica Ana Flávia.

 

O que esperar da conversa?

Para que a conversa seja produtiva para todos os envolvidos, é importante observar alguns pontos – muitos vem antes mesmo da realização do encontro. Para Ana Flávia, deve-se ressaltar que o movimento de disponibilizar horários para que os docentes possam conversar individualmente com a coordenação da escola não deve ser encarado como uma garantia de que todas as demandas serão atendidas, uma vez que a escola tem um escopo de ajustes que podem ser realizadas dentro da instituição, e outros que estão fora de seu alcance.

Nesses casos, ela cita uma dica que o guia de orientação traz: a conexão da escola com redes externas. “No exemplo de uma eventual depressão de um professor, como o sistema de saúde se integra com o educacional? É possível encaminhar essa pessoa para conversar com um profissional? Um psicólogo pode ir até a escola? Isso é algo que deve ser avaliado individualmente por cada instituição, pois cada município tem sua rede.”

Entretanto, apesar da possibilidade de ocorrência desses casos que demandam maior atenção e acompanhamento, Ana Flávia acredita que o movimento de externalizar preocupações já pode ser de grande ajuda para os docentes. “Escutar, compreender, mostrar até onde a escola pode ir, o que ela não pode fazer, o que é possível solicitar à Secretaria de Educação, tudo isso é curativo e terapêutico em si, pois essa conversa mostra que o professor não está sozinho, que sua situação é compreendida, que ele tem a quem procurar se precisar de apoio.”

 

Preparação

Os encontros individuais demandam a empatia de realmente tentar compreender a situação de colegas. Mas, além disso, há outras formas de se preparar tanto para as conversas como para a retomada gradual da vida na escola.

Uma delas é a aplicação prévia do questionário trazido pelo guia de orientações do Instituto Península. A partir das devolutivas, que são anônimas, é possível que a coordenação e direção da escola pensem em respostas às primeiras queixas e dúvidas que os professores colocaram, inclusive pensando em dinâmicas mais direcionadas de acordo com a situação do corpo docente.

Outra estratégia que pode ajudar no retorno é avaliar a infraestrutura da escola e estudar possíveis novos arranjos e melhorias que podem conferir maior segurança aos professores, estudantes e demais funcionários. “Se a escola tem uma área aberta, por exemplo, como uma quadra ou jardim, é possível pensar em um rodízio para que cada dia uma turma possa ter aula vivenciar esses espaços.”

Mapear as redes externas – como possíveis apoios do sistema de saúde – também pode ajudar (como no caso da situação descrita acima), considerando como a região onde a escola está inserida vivenciou e está enfrentando a pandemia.

 

Para além da pandemia

Ponto de atenção importante é reforçar o quanto momentos de troca, compartilhamento de vivências, desafios e situações pode beneficiar toda a comunidade escolar não apenas na situação de readaptação necessária após a pandemia, mas em todas as outras questões que uma escola enfrenta todos os anos.

“Se pensarmos a escola como um organismo vivo, o ato de os gestores abrirem um canal de escuta para além desse momento de início das aulas garante que questões possam ser encaminhadas mais rapidamente, antes que virem desafios maiores, como o adoecimento de um professor, ou em uma situação de eventual perda de controle, por exemplo.” Para Ana Flávia, toda e qualquer instituição se beneficia de canais de comunicação eficientes, que sejam cuidadosos com os funcionários que ali trabalham.

 

Foto: jcomp/Freepik