Aproximação com famílias e troca de experiência entre professores são legados da pandemia 

Mão de criança desenhando família e casa em uma folha de papel

Praticamente todos os planos e objetivos traçados no final do ano passado para o ano de 2020 precisaram ser revistos e até mesmo redirecionados já que, mesmo com as notícias de um vírus desconhecido se espalhando pela China, poucas pessoas imaginavam que o mundo viveria uma pandemia global. Apesar de indesejada, a experiência, que fez com que grande parte da vida fosse transferida para o mundo online, rendeu aprendizados.

Para Marcelo Martins, diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Emília de Moura Marcondes, de Tremembé, em São Paulo, as aulas remotas mudaram permanentemente algumas práticas do ambiente escolar. A introdução de novos costumes e o desenvolvimento de habilidades mostrou a diretores e coordenadores, professores, alunos e famílias que há diversas formas de possibilitar a aprendizagem de crianças e jovens.

O uso de tecnologia é uma delas. Segundo o diretor, a escola viu nascer uma experiência de apoio entre professores. “Docentes que já tinham familiaridade com a tecnologia se aprofundaram ainda mais. Além disso, atuaram como tutores de colegas que apresentavam dificuldade ou até certa resistência”, explica.

A realização de videoconferências ao vivo foi um ponto positivo da tecnologia. Foram organizadas transmissões com psicólogos e outros especialistas para ir além do suporte pedagógico e oferecer apoio a outras questões que as famílias poderiam enfrentar. Além disso, Marcelo comenta que os professores também descobriram recursos como gravar aulas e áudios e montar apresentações em que a gravação acompanha a passagem de slides. “São várias ferramentas usadas em um momento de socorro, mas que com certeza enriqueceram as práticas.”

Rede de professores
A necessidade de passar a atuar de forma online também possibilitou novos desenhos na rede municipal como um todo. Marcelo explica que, se antes as reuniões por área e etapa de ensino aconteciam bimestral ou trimestralmente para reunir os professores da rede, os encontros passaram a ser semanais, com a construção de um novo calendário de atividades para o corpo docente, composto por atendimento direto aos estudantes, às famílias e os encontros entre pares.

Segundo o diretor, a unificação das atividades e dos trabalhos passados para todos os alunos da rede é uma maneira de garantir que não exista grande diferença entre o ensino de diferentes escolas, considerando que o município tem altos índices de rotatividade dos estudantes entre as instituições.

“Quem estuda aqui na Emília tem a mesma atividade que o colega que estuda no centro da cidade ou na zona rural, com a garantia que estarão no mesmo ritmo, tendo a mesma atividade e sequência didática. Além disso, os encontros acabam enriquecendo a troca de experiências e de retorno avaliativo das atividades que os professores preparam, pois agora eles estão semanalmente juntos produzindo conteúdo. O que um professor trabalhou de um jeito aqui na escola, pode beneficiar os alunos da outra escola na hora em que o professor compartilhar a experiência na reunião”, explica Marcelo.

A aproximação entre o corpo docente aconteceu na rede municipal mas também na própria escola. Marcelo comenta que professores passaram a sugerir trabalhos interdisciplinares para os estudantes, usando transmissões para combinar projetos em conjunto. “O que antes seria feito na quadra ou em um evento na escola, passou a ser feito de forma online e também no YouTube. O legal foi a reação positiva das famílias nos comentários, além de o envolvimento e participação dos estudantes ter crescido.”

Incentivo à participação: como engajar alunos e famílias
Ficar conectado a computadores e smartphones praticamente 24 horas por dia foi a forma que muitas pessoas encontraram de manter vínculos sociais e de trabalho durante o período de distanciamento social. Em alguns casos, esse processo de conexão constante serviu para estreitar laços e aproximar relações, como a que existe entre famílias e escola.

“Na época presencial, professores não tinham contato tão frequente com as famílias. Com a pandemia, foi necessário que todo mundo se conectasse via WhatsApp ou redes sociais e, com isso, vimos que famílias passaram a acessar mais facilmente os professores e vice-versa”, afirma Marcelo.

Além de laços mais estreitos, o diretor comenta que também houve uma mudança na qualidade da relação. “Muitas vezes, escola e família se conectavam para resolver problemas de aprendizagem, indisciplina ou de outras naturezas. Hoje temos situações que famílias e estudantes sugerem conteúdos e materiais no grupo de WhatsApp. Acho que essa nova conexão veio para trazer muitas coisas positivas, saindo daquela coisa ‘vou chamar seus pais na escola porque você não fez a lição’. A escola virtual abriu campo para muita coisa boa, que gera produtividade dentro das aulas.”

Apesar dos pontos positivos, alguns desafios apareceram pelo caminho. Marcelo conta que, no início, alguns professores ficaram com receio de passar o número do celular para centenas de estudantes. Essa barreira foi rompida, entretanto, à medida que mais docentes entravam em grupos de WhatsApp e começavam a relatar que os contatos se restringem a questões pedagógicas.

Assim como diversas outras redes espalhadas pelo Brasil, a rede de Tremembé também teve dificuldades com a participação dos estudantes no momento de transição do presencial para o online e com a tecnologia, considerando que muitas famílias não têm celulares para que os filhos acessassem as aulas. Marcelo comenta que uma campanha foi realizada no âmbito da rede para arrecadação de aparelhos celulares, chips e tablets, que foram distribuídos às famílias que precisavam, além de um processo de busca ativa de estudantes e entrega de material impresso.

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