Momento de incerteza exige exercício da autoescuta

Mulher alonga o corpo enquanto olha para o horizonte

Os tempos são desafiadores. A pandemia adicionou ingredientes extras em rotinas que, antes da chegada do novo coronavírus, já eram muito atribuladas: aos cuidados com a casa, atenção aos filhos, demandas no trabalho, equilibrar as contas, manter-se saudável e dedicar-se aos relacionamentos, somou-se medo, insegurança, incerteza, ansiedade, insônia e preocupações extras, que podem custar a saúde mental de inúmeras pessoas.

Entretanto, existem algumas estratégias que podem ajudar a aliviar o peso de viver uma crise global sem proporções. Assistir a um filme, ouvir uma música favorita, assar um bolo e até mesmo arrastar o sofá da sala para praticar exercícios físicos são opções muito válidas. E quando olhamos para dentro? Uma das possibilidades é a autoescuta.

O exercício pode ser praticado em todos os momentos do dia a dia e contribui para que as todos consigam compreender melhor seus comportamentos e sentimentos diante de determinadas situações. Para entender como esse processo pode ajudar também os professores, a reportagem conversou com Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer. Confira a seguir.

Vivescer: Diante de um contexto de desafios que se manifestam em diferentes instâncias de nossas vidas – profissional, pessoal, familiar –, existem ferramentas ou métodos a serem utilizados que ajudem a lidar com a complexidade do momento?
Ana Flávia: Todos os dias, o professor enfrenta muitos desafios. Dar aula é uma tarefa complexa que envolve várias tomadas de decisão e a observação de diversas questões: como os alunos estão, como interagem, qual é a possibilidade de compreenderem uma consigna. Então o professor está, o tempo todo, muito atento ao que está acontecendo na aula, seja a aula feita presencialmente, seja uma aula nesses modelos de educação remota. Estamos vivendo tempos altamente complexos e difíceis, seja na vida pessoal e profissional, que causam insegurança, medo, tristeza e incerteza. Um dos melhores caminhos a seguir para que possamos fazer frente a essa complexidade, tendo clareza das decisões que precisamos tomar, é o da autoescuta.

Vivescer: Muitos especialistas comentam que elaboramos melhor nossas ideias quando pronunciamos em voz alta. Isso é autoescuta?
Ana Flávia: Acho que, em um primeiro nível, autoescuta é se escutar mesmo. Em qualquer linha de terapia na qual nós falamos bastante, é possível que a gente saia com o problema mais claro depois de tudo o que falamos. Nós, professores, temos isso muito claro: quando ministramos uma aula, passamos a saber mais sobre o assunto do que sabíamos antes. Então quanto mais explicamos um tema para os alunos, maior a nossa clareza. Às vezes, retomar na parte da tarde uma aula que demos de manhã possibilita um aprofundamento muito maior, porque já paramos para refletir sobre aquilo. Isso é autoescuta. Quando escutamos o nosso próprio pensamento articulado, conseguimos saber mais sobre aquele tema.

Vivescer: Como a autoescuta melhora nossa relação com nossos próprios sentimentos?
Ana Flávia: A autoescuta não é apenas uma ferramenta de metacognição. Ela possibilita integrarmos as diferentes esferas da nossa experiência como seres humanos, porque além dos nossos pensamentos diante de uma situação que estamos vivendo e que sabemos que é muito complexa, alguns sentimentos e emoções despertam. Então ter um tempo para observar que sentimentos e emoções se articulam em certas situações que eu vivo, sejam profissionais ou pessoais, é uma pista para pensar o que me incomoda, como estou reagindo diante daquilo e quais seriam outros caminhos. A autoescuta também é a escuta do corpo. Então, se enfrentar um certo tipo de situação está me dando dor de cabeça ou dor de estômago, se fico tensa e com um desconforto postural nos ombros, isso tudo está dizendo a maneira com a qual estou me relacionando com os problemas.

Vivescer: É possível realizar um trabalho que alie escuta e empatia para a diminuição da ansiedade neste momento desafiador em que vivemos?
Ana Flávia: Algumas perguntas que podemos fazer: por que estou tão tenso? O que me irrita e incomoda? O que dessa situação me afeta? Por que esses sentimentos? Por que estou tão triste depois de um dia em que fiz tantas coisas? Por que o meu coração disparou quando estava tendo essa conversa sobre como encaminhar a vida nesses tempos? E, a partir dessas reflexões, começar a se preparar para viver essa situação. Com esse olhar de carinho e acolhida para consigo mesmo, podemos começar a perceber e mapear o que mais nos afeta mais, entristece e irrita, onde encontro segurança e paz e o que me possibilita descanso. Ter essas coisas muito claras permite que tomemos decisões com mais cuidado, nos preservando mais e pensando em melhores caminhos. Estamos vivendo épocas muito difíceis, e todos nós estamos fazendo o máximo possível.

Vivescer: Todas as pessoas podem fazer uso dessa ferramenta, uma vez que é gratuita?
Ana Flavia: A autoescuta é importante para qualquer pessoa que queira se conhecer, se cuidar, pensar caminhos mais harmônicos com seu propósito de vida, e que respondam aos seus ideais. Mas, no caso atual, ela é uma ferramenta para os professores conseguirem modular emoções e equacionar caminhos, porque estamos vivendo épocas novas, e por isso geram uma pressão muito maior em cada um de nós. Construir essas estratégias de autoescuta é ter um tempo de pausa e de retirada desse turbilhão de atividades diárias e também um tempo de reflexão para pensar como me posiciono e me protejo, e como encaro esse desafio profissional. É uma ferramenta importante, sobretudo nos tempos em que estamos vivendo, e que vai trazer bem a cada um de nós.

Vivescer: Qual o papel da escuta e autoescuta na estruturação de processos de acolhimento aos educadores nesse contexto de pandemia?
Ana Flávia: Como seres de relações que somos, nos interconectamos por nossos afetos, ideias, ações e compromissos em cada grupo do qual fazemos parte. Construímos e colaboramos em redes de apoio. Aprendemos a acolher e, em diferentes situações da nossa vida, precisamos ser acolhidos. Nesse ano que estamos vivendo, acolher e receber acolhida tornam-se dinâmicas cada vez mais presentes e necessárias nas nossas relações. Para acolher e ser acolhido é imprescindível exercitar a escuta sensível do outro e comprometer-se a, juntos, buscar caminhos para desenvolver ideias, sentimentos e necessidades que afloraram neste diálogo. Por isso, a escuta aberta do outro e a autoescuta dos nossos pensamentos, emoções, sensações e sentimentos, são ferramentas vitais para encontrar estes novos caminhos.

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