Alunos estão assistindo às aulas online na velocidade 2x. E agora?

Para o educador, o desafio está relacionado à falta de adaptação das aulas do ambiente presencial para o online e relação diferente das novas gerações com questões como espera e paciência.

velocidade aulas online

É fato que, em março de 2020, eram raras as pessoas que imaginavam que a pandemia se prolongaria por tanto tempo no Brasil. Entretanto, um ano e meio depois, o país continua enfrentando questões decorrentes das medidas diante da crise. Um desses debates é a aceleração dos vídeos e aulas online pelos estudantes em um movimento de reduzir o tempo que ficam em frente às telas.

Assim como diversos outros temas no universo da educação, o debate é complexo, uma vez que o fenômeno tem diferentes causas. Doug Alvoroçado, professor da rede pública do Rio de Janeiro (RJ) que trabalha com implementação de tecnologias em sala de aula, explica que o ponto de partida nessa discussão é entender que os alunos desse momento são muito diferentes dos estudantes de outras épocas.

Na sala de aula presencial, o poder do estudante sobre seu contexto era menor. No ambiente online, essa criança ou jovem ganha o poder de pausar o vídeo de explicação do professor, voltar, acelerar ou até ver depois. “Assim como todo mundo, o aluno tem uma vida corrida. Com esse novo poder sobre a fala do professor, ele pode acelerar o que já sabe para dedicar esse tempo a outros estudos e voltar e assistir de novo o que não entendeu.”

Além disso, para o pedagogo, o aceleramento das videoaulas tem outras explicações, como um possível desinteresse. Depois de tantos meses de aulas a distância, o desafio de encontrar recursos, ferramentas e formatos que despertam a atenção dos alunos é um desafio ainda maior. Para Doug, aulas consideradas maçantes podem incentivar que os alunos acelerem o conteúdo.

“Se a aula estiver chata ou desinteressante, o aluno pode estar só marcando presença enquanto faz outra coisa ou fica no celular, ou pode acelerar o vídeo para cumprir aquela obrigação logo, mas não podemos afirmar essa relação sem uma pesquisa mais aprofundada”, explica.

Sociedade impaciente

Outro fator que desempenha papel importante na escolha por acelerar o conteúdo é o funcionamento da sociedade na qual escola, alunos e professores estão inseridos. Para Doug, a lógica atual é a de acelerar todos os processos, devido à impaciência e a uma possível percepção diferente dos tempos e processos pelas gerações mais novas.

“Eu costumo usar o exemplo do desenho. Se eu queria assistir um desenho, precisava esperar a hora específica e só assistir um novo episódio no dia seguinte. Essa geração faz maratona, assiste o desenho, filme ou série de uma vez só e na hora que quiser. Por isso, crianças e jovens estão desacostumados com a questão da espera, o que se reflete na forma com que consomem material.”

De acordo com o professor, essa questão, ligada diretamente às habilidades socioemocionais, pode ter efeitos não apenas na aprendizagem, mas também no próprio perfil do aluno, que torna-se cada vez mais impaciente.

Não é possível afirmar que há uma relação de causa e efeito entre vídeos acompanhados de forma acelerada e conteúdos absorvidos de forma superficial, mas essa possibilidade existe e deve ser considerada no debate.

“Acredito que quando uma aula começa a despertar a impaciência do aluno, ele vai acelerar o vídeo, o que pode fazer com que perca detalhes e informações preciosas. Não acredito que o prejuízo é na fixação do conteúdo, porque eu quero crer que esse estudante entende e conhece seu próprio ritmo de aprendizagem”, pontua Doug.

O desafio da transposição do conteúdo

Para o educador, o debate em relação à aceleração dos vídeos está relacionado à dificuldade que escolas, universidades e outras instituições de ensino encontraram e ainda enfrentam na entrega de conteúdos e realização de uma educação de forma remota. Segundo Doug, o Brasil vive uma educação digitalizada, e não uma educação remota digital, ou seja, a mesma aula que antes era ministrada no ambiente presencial passou para o online, sem adaptações para esse novo formato e ambiente.

Entretanto, o pedagogo reforça a importância de sempre realizar um movimento de considerar as potencialidades de cada formato. “O digital pode oferecer recursos e dinâmicas diferentes daquilo que o presencial possibilita.”

Uma dessas ferramentas pode ajudar, inclusive, no desafio da impaciência dos estudantes. Doug cita o Edpuzzle, uma funcionalidade que permite ao professor inserir questionários interativos, perguntas e desafios no meio de vídeos, questionando sobre o conteúdo ou sobre trechos anteriores do vídeo. O aluno só pode avançar se atender à proposta. “Essa é uma maneira de o estudante estar presente de verdade.”

Outra estratégia que pode render bons resultados é a prática de “mindfulness”, também conhecido como atenção plena. Se antes estudantes podiam ir para a escola e não prestar atenção nas aulas, estando apenas “de corpo presente”, hoje a presença se dá a partir do engajamento e participação, defende Doug. “Procuro reforçar com os meus alunos que eu sei que eles têm outras coisas para fazer, mas que naquele momento iremos aproveitar o que de melhor o digital tem a nos oferecer.”

Aulas emocionalmente envolventes

Uma das estratégias para que os alunos não sintam vontade de acelerar as aulas é que elas sejam emocionalmente envolventes. Quanto mais conseguirmos dialogar com aspectos que interessem aos jovens, mais entregues eles estarão ao conteúdo. No curso Emoções, da Vivescer, abordamos algumas estratégias para fortalecer os laços e o interesse durante o aprendizado. Acesse AQUI.