Como está a saúde mental dos jovens na volta às aulas?

Os jovens estão preocupados e conscientes sobre os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre sua saúde mental. Esse é um dos principais achados da segunda edição da pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus. Iniciativa do Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) e correalizada por sete organizações, a pesquisa tem como objetivo analisar o que adolescentes e jovens entre 15 e 29 anos pensam sobre saúde, trabalho e renda, educação e vida pública.

A percepção sobre os efeitos da pandemia na saúde dos jovens mostra um cenário alarmante. 56% declaram uso exagerado de redes sociais, 51% relatam exaustão ou cansaço constante e 40% tiveram ou têm insônia. Todos esses dados se refletem na percepção de que 61% deles dizem estar mais ansiosos.

Gustavo Estanislau, coordenador do projeto Cuca Legal, iniciativa ligada ao Departamento de Psiquiatria da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), explica que esse estado de alerta, no qual as pessoas ficam mais preocupadas e enxergam o mundo de forma mais hostil, deve ser levado em consideração no momento do retorno, mesmo que gradual, às aulas presenciais.

“Não querer interagir socialmente, não sair de casa e não querer conhecer coisas novas são alguns desdobramentos de um quadro de ansiedade. É muito importante que consideremos que as pessoas vão passar um tempo um pouco mais ressabiadas do mundo. Acredito que um pouco desse contexto já foi visto com alunos que não queriam abrir as câmeras [no ensino remoto], algo que às vezes poderia estar relacionado com essa questão de não querer se expor ao novo”, defende.

Autoconhecimento docente

Além de os professores entenderem que haverá certas resistências por parte dos estudantes, quase como em um período de “readaptação”, Gustavo também pontua a importância de os próprios docentes estarem atentos ao seu estado emocional, uma vez que estar ansioso perto de outra pessoa ansiosa pode aumentar o grau desse sentimento.

“O professor funciona como um tradutor do mundo. Quando ele está em um estado de muita angústia, tende a traduzir o mundo de uma forma mais ansiosa, o que só aumenta a ansiedade de crianças e jovens. Crianças menores ainda têm pouco repertório e precisam maciçamente dos pais, claro, mas também dos professores para traduzir tudo o que está à volta. Por isso é fundamental que o professor se alerte.”

Outro ponto importante é um investimento dos docentes em seu autoconhecimento, para que saibam quais estratégias funcionam ou não antes de tentar aplicá-las junto aos alunos.

A relação entre saúde mental e aprendizagem

Se alguém ainda tem dúvida sobre a importância de dedicar atenção ao estado de saúde mental dos jovens antes de partir para a aprendizagem e para a recuperação de conteúdo, Gustavo reforça que a relação entre os dois mundos não poderia ser mais clara.

Uma criança aprendendo a andar, por exemplo, precisa se adaptar a um cenário: precisa ter força interna e externa para se expor, perseverar e, aos poucos, se adaptar e finalmente aprender a caminhar. No contexto escolar acontece a mesma coisa. Para realizar uma tarefa ou desafio, os alunos precisam de força externa e interna para insistir no aprendizado, bem como curiosidade para buscar novos conhecimentos. Tudo isso demanda saúde mental.

“Se eu estiver mais estressado ou ansioso, não vou ter força interna para me expor ao que é estímulo novo, vou querer continuar sempre com as mesmas coisas, com a tendência de ficar mais impulsivo. Ao falhar em um cálculo matemático, por exemplo, vou parar de fazer. Se estiver com desânimo ou tristeza, terei uma perspectiva de que as coisas vão dar errado, de que não adianta nada estudar pois serei sempre burro ou que eu vou me dar mal na vida. Então saúde mental é a base de todo processo adaptativo”, aponta Gustavo.

Como a escola pode ajudar?

Outro ponto de alerta trazido pela pesquisa é o fato de que 37% dos jovens apontam que o acompanhamento psicológico nas escolas é uma das ações que devem ser priorizadas para ajudá-los a lidar com os efeitos da pandemia. Gustavo é cauteloso ao pontuar que as demandas dos jovens devem ser levadas em consideração, mas que esse tipo de solicitação dos alunos – que não deve virar uma exigência – talvez não seja papel exclusivo das escolas.

Nesse sentido, o coordenador defende que pode ser mais interessante que a instituição de ensino de fato tenha um olhar cuidadoso nesse momento para a saúde mental de crianças e jovens para que possa ser uma aliada no encaminhamento de eventuais casos mais sérios e graves para os profissionais adequados, como psicoterapeutas. “Quando surge esse tipo de expectativa [sobre a escola], eu penso na angústia dos professores, que não estão conseguindo lidar com a própria ansiedade”, aponta Gustavo.

Dividir as responsabilidades não significa eximir a escola de qualquer papel. Nesse sentido, uma das ações que professores podem desenvolver é um mapeamento de sua turma de alunos, com bolinhas verdes, amarelas e vermelhas ao lado dos nomes daqueles que apresentam baixo, médio e alto risco de abandono escolar, a fim de evitar esse cenário e facilitar o olhar cuidadoso e a busca ativa por essas crianças e jovens. Essa atividade pode ser realizada por cada professor individualmente ou em grupo, promovendo a troca de percepções dos docentes.

Também é possível realizar atividades como meditação com a turma, de forma prática e sem parecer “blábláblá”. Veja AQUI uma solução para isso.