Resiliência, bem-estar e felicidade: os efeitos da descoberta do propósito

Carol Shinoda, especialista em propósito, explica como cercar-se de pessoas encorajadoras apoia desenvolvimento do propósito, e explica estratégia para essa descoberta

Juntamente com emoção, corpo e mente, propósito é o tema de uma das quatro jornadas de aprendizagem que representam o desenvolvimento integral de professores proposto pela Vivescer. Mas, afinal, porque refletir intencionalmente sobre seu propósito é importante? Isso faz diferença na prática profissional?

Ana Carolina Shinoda, coordenadora acadêmica e professora de pós-graduação com doutorado em propósito de vida, comenta que não é possível afirmar se as pessoas já nascem com um propósito ou se o descobrem ao longo da vida: essa é uma questão relacionada à crença de cada um. Entretanto, estudos apontam que ter uma razão para viver está diretamente relacionado à maior sensação de bem-estar, um dos espectros que compõem a felicidade.

“Pessoas que têm maior clareza sobre seu propósito declaram sentirem-se mais felizes, com maior sensação de gratidão, de empatia. Tudo isso tem relação com a longevidade, bem-estar físico e emocional, e menos propensão a depressão e ansiedade”, explica.

 

O propósito é tão importante assim?

Mais do que descobrir a razão da vida, o propósito tem efeitos diversos em uma pessoa. Carol Shinoda cita o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, personalidade da área de propósito que, tendo passado por campos de concentração durante o Holocausto, observa que pessoas que tinham uma razão para viver suportavam melhor as condições nesses locais. “Frankl traz uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche, que diz: ‘Quem tem porque viver, suporta quase qualquer como’. Ou seja, se você tem uma razão, você aguenta melhor as situações difíceis.”

Essa reflexão pode ser particularmente útil na área de educação, onde sabidamente os desafios são enormes e diários. “Se não há essa força interna do sentido, de ‘porque estou fazendo isso?’, é quase como se não existisse uma força para levantar quando caímos, e isso acontece muitas vezes, pois há muitas pedras no caminho da vida”, defende a especialista.

Para Ana Carolina, essa reflexão sobre o propósito pode ajudar, inclusive, a lidar com questões envolvendo pandemia, coronavírus, quarentena, e o ano que está por vir. “O propósito traz clareza de nossas prioridades. Em um ano que tivemos e que ainda teremos muitas dificuldades e obstáculos, temos que saber onde investir nossa energia, clareza e foco, e o propósito ajuda a fazer escolhas mais direcionadas e que façam sentido, evitando o desgaste com assuntos que não importam tanto assim.”

 

Dá para descobrir o propósito?

Ministrar aulas para bichos de pelúcia, bonecas e até animais de estimação são relatos comuns entre professores que afirmam que, desde criança, já sabiam que queriam trabalhar com educação. Há quem diga, também, que a área foi crescendo à sua percepção aos poucos, e muitos buscaram carreira na educação como segunda graduação.

Aqueles que ainda não sabem ao certo qual é seu propósito podem fazer uma série de vivências para ajudar nessa descoberta. Para sua tese de doutorado, Carol conta que criou um método de desenvolvimento do propósito baseado em quatro pilares, vivências para incentivar que pessoas se aproximem dessa identificação de sua razão de vida ou que aprimorem uma ideia já concebida.

O primeiro passo dessa jornada é o autoconhecimento. “William Damon, professor de educação da Universidade de Stanford [EUA], afirma que o propósito é ‘uma intenção estável e generalizada de encontrar algo significativo para si e que gere consequências no mundo além de si’. Dessa afirmação, podemos entender que a pessoa precisa se conhecer, porque é esse autoconhecimento que vai possibilitar a identificação de algo importante para si”, explica a especialista.

Também relacionado à frase de Damon está o segundo passo da jornada, a empatia. Se é preciso gerar consequências para o mundo, o propósito não pode ser egocêntrico, ou seja, focado no bem-estar e satisfação unicamente de uma pessoa.

Logo em seguida vem a etapa da experimentação. Querer, de alguma forma, fazer a diferença no mundo por meio de seu propósito requer tentativas concretas, caso contrário o propósito ficaria no âmbito da idealização. A última etapa dessa caminhada é o planejamento, ou seja, o ato de pensar e refletir como concretizar sua intenção e torná-la uma ação para o mundo.

 

Experiência de vida e mudança de propósito

Essa e outras metodologias para descoberta ou desenvolvimento do propósito não significam, entretanto, que essa é uma descoberta única na vida. Para Carol, o propósito evolui ao longo da vida e das experiências vividas. “Com a sua caminhada, você pode adquirir mais força, competência e habilidades e, com isso, talvez você queira expandir o seu propósito, ou modificá-lo para outro público, dar uma dimensão maior. E tudo bem. O propósito não é algo que descobrimos uma vez, escrevemos em pedra e nunca mais muda.”

Além disso, a especialista também reforça que não se trata de um ponto de chegada, mas sim uma reflexão, busca e refinamento constante, processos que podem e serão influenciados por diferentes momentos da vida das pessoas. É possível, por exemplo, que alguém precise se distanciar, mesmo que momentaneamente, de seu propósito por não conseguir um emprego na área que gostaria, mas uma ocupação que ajude a pagar as contas.

“Essa reflexão constante é muito necessária para você ter um propósito autêntico, assim como você se respeitar enquanto ser humano nesse processo. Nós passamos por diversos estágios e estamos em um contexto onde não vivemos sozinhos e independentes das pessoas e condições que nos cercam. Então é um alinhamento constante.”

 

A caminhada conjunta do propósito

Apesar do propósito ser algo individual, é possível, ao longo da vida, encontrar apoiadores  nesta caminhada pessoal ou ainda quem compartilhe dos mesmos objetivos. Para Carol, essa busca por parceiros que energizam o processo é positiva e deve ser encorajada.

“Isso nos dá força porque entendemos que não estamos sozinhos na batalha; é algo que alimenta a alma. Fora que, quando desenvolvemos projetos em conjunto com outras pessoas, podemos unir habilidades, competências e visões de mundo, construindo propostas muito mais ricas por meio da diversidade do que faríamos sozinhos”, completa.

A tese completa de Carol Shinoda sobre propósito está disponível neste link. Pelo instagram @carolshinoda.proposito, é possível entrar em contato com a especialista e esclarecer dúvidas.

 

 

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