O desafio da recuperação da aprendizagem na retomada gradual das aulas presenciais

Em entrevista à Vivescer, Cleuza Repulho, consultora educacional e ex-presidente da Undime, discute a importância de refazer planejamentos, realizar atividades diagnósticas e identificar os melhores caminhos para recuperar conteúdos com crianças e jovens

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Há mais de um ano, professores de todo o Brasil enfrentam os mesmos desafios no ensino remoto. Internet fraca ou inexistente para parte dos alunos, falta de celulares ou computadores, desinteresse e baixo aprendizado. Nesse cenário, impõe-se o desafio de pensar sobre a recuperação do conteúdo para quando as aulas presenciais forem retomadas.

Enquanto especialistas e estudiosos defendem que serão necessários esforços conscientes de diferentes instâncias para endereçar essa questão, professores encontram-se sobrecarregados diante da vasta quantidade de temas e conteúdos a serem revistos quando os alunos voltarem às escolas. Isso porque, considerando as desigualdades sociais que marcam o Brasil, não é possível afirmar que os estudantes aprenderam tudo o que deveriam durante 2020 e 2021, mesmo levando em conta os grandes esforços de professores país afora.

Para entender a importância de realizar planejamentos nesse momento delicado, a Vivescer conversou com Cleuza Repulho, consultora educacional e ex-presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação). Confira a seguir.

Vivescer: Considerando as desigualdades sociais brasileiras que prejudicaram o acesso à educação remota durante a pandemia, a recuperação do conteúdo é tema importante. Como começar esse debate?

Cleuza Repulho: Acredito que as redes devem realizar uma avaliação diagnóstica para saber qual é a situação [de aprendizagem] desses meninos e meninas e, principalmente, o que teremos que nos programar para fazer. As redes, tanto públicas como privadas, terão que se organizar em termos de trabalho e planejamento a partir dos PPPs, que são os Projetos Políticos Pedagógicos das escolas. Então o debate começa por uma avaliação diagnóstica, a certeza de que alguma coisa precisa ser feita e de que o prejuízo não é pequeno.

Vivescer: É razoável afirmar que não será possível promover uma recuperação dos conteúdos em apenas um ano ou em um curto espaço de tempo. O governo de São Paulo, por exemplo, estima que serão necessários de um a onze anos para recuperar o aprendizado em português e matemática na educação básica da rede pública do estado. Essas são áreas a serem priorizadas na recuperação?

Cleuza: A partir da avaliação diagnóstica será possível estabelecer um plano de ação. As crianças e jovens estarão em momentos muito diferentes e isso vai demandar situações e resoluções distintas para esses problemas. O relatório do UNICEF (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância) aponta que os mais penalizados serão as crianças entre seis e dez anos, pois elas estão em um processo de alfabetização, que é uma etapa essencial para o desenvolvimento de outras questões. O tempo que tudo isso irá levar depende da demanda e, principalmente, de qual é a capacidade que a rede tem de responder, de fazer novos agrupamentos de alunos, com grupos menores e com a ajuda de estagiários. Imagino um trabalho alinhado com os institutos de formação, as universidades públicas e privadas para que tenhamos um verdadeiro exército de profissionais da educação para ajudar esses alunos. Acredito que vai levar um tempo, entre três e cinco anos nesse processo para que possamos nos organizar e as crianças seguirem em frente.

Vivescer: Como medir as expectativas, tanto das famílias quanto dos próprios professores, diante desse cenário?

Cleuza: Em alguns momentos eu sinto apatia por parte das pessoas, pois não sabem muito bem como lidar com isso. O Brasil é o país que está há mais tempo com escolas fechadas. Então nós acabamos nos acostumando com isso, o que é muito perigoso. Precisamos trabalhar com campanhas sistemáticas para valorizar a importância da escola e sua retomada. A prioridade seria, então, a vacinação dos profissionais da educação, um plano de trabalho e os investimentos na área de educação. Tanto as famílias como os estudantes precisam estar muito próximos de todo esse processo para se sentirem responsáveis nessa retomada.

Vivescer: É possível priorizar conteúdos a serem ensinados ou revisados de acordo com ano ou faixa etária? Se sim, como professores e equipes pedagógicas podem entender o que priorizar?

Cleuza: Em primeiro lugar, precisamos colocar toda a nossa capacidade para desenvolver programas e alternativas para resolver essas questões. Nós não podemos trabalhar só português e matemática. Eles são conteúdos essenciais no processo, mas não estão sozinhos nessa construção. Precisamos trabalhar todas as áreas do conhecimento. Por isso, devemos colocar as cabeças para pensar e, principalmente, envolver pessoas que são estudiosas na área para desenvolver ações. Vai ser bem difícil escolher o que é mais ou menos importante nesse momento, mas precisamos focar no que é pré-requisito para outras aprendizagens.

Vivescer: Você avalia que a reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular podem ser ferramentas aliadas nesse processo de priorizar conteúdos?

Cleuza: Temos que continuar lutando para a implementação da Base. Ela foi um marco muito importante na educação no Brasil, e vem de um processo dos parâmetros curriculares e diretrizes nacionais curriculares. Agora estamos no momento de implantação. E a reforma do Ensino Médio com os itinerários formativos, mesmo precisando de ajustes, é um avanço e temos que nos debruçar sobre isso. A partir da vacinação da população, é necessário buscar a normalidade nas escolas, e lutar por uma ampliação do horário em que as crianças estão na escola para a retomada dos processos de aprendizagem e a construção do conhecimento. Vai demandar tempo, investimento e comprometimento, mas é possível. Então, para isso, precisamos de políticas públicas organizadas, de um investimento que dê conta das necessidades e que considere também as novas tecnologias e a questão do acesso. Mais do que nunca, as desigualdades se acentuaram… e, agora, como fazemos para combatê-las e minimizar os seus efeitos diante de todo esse processo? O desafio não será pequeno e vamos viver um ano muito difícil em 2022, com um contexto político muito importante. Precisaremos trabalhar com estados e municípios, além do Governo Federal, para encontrar soluções possíveis nos diferentes cenários que temos no país.