Entender o contexto do aluno ajuda a aproximar família da escola


Além dos estudantes, professores, coordenadores, diretores e demais funcionários da escola, as famílias também compõem a comunidade escolar e desempenham um papel importante na trajetória educacional de crianças e jovens. Entretanto, é consenso entre estudiosos e especialistas da área que a relação entre essas duas grandes instâncias – famílias e escolas – não é fácil. Pelo contrário.

Segundo Diana Mandelert, professora-adjunta de sociologia da educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), existem textos datados de 1930 que já relatavam as dificuldades desse diálogo. Para ela, apesar de muitas pessoas traçarem uma linha entre os papéis de cada ator nesse processo, as atribuições sobre o que é dever da escola e o que é dever da família são pouco claras.

Mudanças nas famílias
Diana defende que houve uma mudança no lugar que as crianças ocupam na sociedade, uma vez que passaram a ter mais autonomia e vontades externalizadas, o que acarreta alterações em inúmeros ambientes. Para a especialista, o contexto atual da pandemia traz dificuldades no que diz respeito à criação dos filhos. Famílias têm dificuldades em definir horários de dormir, controlar o tempo que passam nos videogames e diversos outros pontos, além da existência de um compromisso com a felicidade das crianças, o que acarreta um movimento de ‘não frustrá-las’ ao dizer não, por exemplo. E assim, essa responsabilidade é delegada à escola.

“Em muitos casos a família não consegue se impor ao filho e quer que a escola ocupe esse lugar de autoridade”, explica Diana. Esse cenário conversa diretamente com o fato de que inúmeros profissionais da educação afirmam que pais, mães e responsáveis delegam cada vez mais a educação de seus filhos à escola.

Entretanto, Diana reforça que também é preciso observar o outro lado e, para ela, as instituições de ensino não se dão conta de que também demandam iniciativa por parte das famílias. “A escola espera que a família produza um aluno informado, atencioso e obediente, o que não é fácil nos tempos atuais tendo em vista o lugar que essas crianças ocupam. Quando o aluno começa a não aprender, a primeira coisa que a escola faz é chamar a família. Mas ela é a profissional de ensino, e não as famílias. É uma relação ambivalente.”

Existe distanciamento?
Ao mesmo tempo em que muitos estudiosos falam em um distanciamento da famílias com relação à escola, com participações cada vez menores e pontuais na vida escolar de seus filhos, Diana vai por outro caminho ao levar em consideração as mudanças no funcionamento social das famílias. Se antigamente as mulheres de classe média não trabalhavam fora de casa e eram responsabilizadas pelo cuidado e acompanhamento da vida escolar dos filhos, o cenário começou a mudar ao passo que cada vez mais mães ingressam no mercado de trabalho.

A especialista também reforça que há um movimento de mudança na forma com que as famílias participam da vida escolar de seus filhos. Os grupos no WhatsApp constituem um caminho encontrado pelas famílias atarefadas no dia a dia de acompanhar tarefas e compromissos na escola, sendo também um espaço para dividir informações com responsáveis por outras crianças.

“A virada da mulher trabalhadora prejudicou a formação de um grupo de mães, realidade que também mudou com a chegada dos grupos de WhatsApp. Elas passaram a ter um grupo de encontro, uma ágora. Se um responsável coloca uma reclamação sobre um professor, o outro pode falar que seu filho não reclamou, e então a pessoa entende se é um problema individual ou coletivo. Mas, em geral, as escolas temem esses grupos. É uma questão muito mais complexa do que parece”, explica Diana.

O meio termo
De tão utilizado quando o tema é criação e educação, o conhecido provérbio africano “É preciso de uma vila inteira para criar uma criança” (em tradução livre do inglês It Takes a Village to Raise a Child) é adequado para esse contexto. Muito mais do que permanecer em uma queda de braço e discussões sem vencedores ou perdedores, o caminho ideal é dosar expectativas dos dois lados e sempre ter em mente que a parceria escola e família é fundamental para uma educação de qualidade para crianças e jovens.

No entanto, a especialista afirma que é preciso considerar as inúmeras diferentes realidades das famílias. “É importante notar que a escola é a profissional, e não as famílias. Logo, essa parceria tem que partir da escola, juntamente com um movimento de modular expectativas.”

Como a quarentena alterou a percepção sobre a educação
A mudança das aulas presenciais e introdução da sala de aula em casa com a quarentena foi um processo que alterou funcionamentos e percepções acerca da educação.

Se antes o que “acontecia na sala de aula ficava na sala de aula”, agora os professores passaram a ter suas práticas mais expostas, considerando que inúmeros responsáveis estão em trabalhando remotamente em casa.

Além disso, crianças e jovens também passaram por um período de adaptação às aulas online, o que demandou apoio especial por parte das famílias. “Com o fechamento das escolas, muitos pais passaram a dar um valor enorme para a escola porque estão percebendo que ser professor não é fácil. Outros julgam que as escolas fizeram um mau trabalho nessa transposição do presencial para o online. É uma ciência que está sendo feita de forma muito próxima. É necessário mais distanciamento para analisarmos o que, de fato, acontece.”

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