O desafio da recuperação da aprendizagem na retomada gradual das aulas presenciais

Em entrevista à Vivescer, Cleuza Repulho, consultora educacional e ex-presidente da Undime, discute a importância de refazer planejamentos, realizar atividades diagnósticas e identificar os melhores caminhos para recuperar conteúdos com crianças e jovens

desafio recuperar aprendizagem

Há mais de um ano, professores de todo o Brasil enfrentam os mesmos desafios no ensino remoto. Internet fraca ou inexistente para parte dos alunos, falta de celulares ou computadores, desinteresse e baixo aprendizado. Nesse cenário, impõe-se o desafio de pensar sobre a recuperação do conteúdo para quando as aulas presenciais forem retomadas.

Enquanto especialistas e estudiosos defendem que serão necessários esforços conscientes de diferentes instâncias para endereçar essa questão, professores encontram-se sobrecarregados diante da vasta quantidade de temas e conteúdos a serem revistos quando os alunos voltarem às escolas. Isso porque, considerando as desigualdades sociais que marcam o Brasil, não é possível afirmar que os estudantes aprenderam tudo o que deveriam durante 2020 e 2021, mesmo levando em conta os grandes esforços de professores país afora.

Para entender a importância de realizar planejamentos nesse momento delicado, a Vivescer conversou com Cleuza Repulho, consultora educacional e ex-presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação). Confira a seguir.

Vivescer: Considerando as desigualdades sociais brasileiras que prejudicaram o acesso à educação remota durante a pandemia, a recuperação do conteúdo é tema importante. Como começar esse debate?

Cleuza Repulho: Acredito que as redes devem realizar uma avaliação diagnóstica para saber qual é a situação [de aprendizagem] desses meninos e meninas e, principalmente, o que teremos que nos programar para fazer. As redes, tanto públicas como privadas, terão que se organizar em termos de trabalho e planejamento a partir dos PPPs, que são os Projetos Políticos Pedagógicos das escolas. Então o debate começa por uma avaliação diagnóstica, a certeza de que alguma coisa precisa ser feita e de que o prejuízo não é pequeno.

Vivescer: É razoável afirmar que não será possível promover uma recuperação dos conteúdos em apenas um ano ou em um curto espaço de tempo. O governo de São Paulo, por exemplo, estima que serão necessários de um a onze anos para recuperar o aprendizado em português e matemática na educação básica da rede pública do estado. Essas são áreas a serem priorizadas na recuperação?

Cleuza: A partir da avaliação diagnóstica será possível estabelecer um plano de ação. As crianças e jovens estarão em momentos muito diferentes e isso vai demandar situações e resoluções distintas para esses problemas. O relatório do UNICEF (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância) aponta que os mais penalizados serão as crianças entre seis e dez anos, pois elas estão em um processo de alfabetização, que é uma etapa essencial para o desenvolvimento de outras questões. O tempo que tudo isso irá levar depende da demanda e, principalmente, de qual é a capacidade que a rede tem de responder, de fazer novos agrupamentos de alunos, com grupos menores e com a ajuda de estagiários. Imagino um trabalho alinhado com os institutos de formação, as universidades públicas e privadas para que tenhamos um verdadeiro exército de profissionais da educação para ajudar esses alunos. Acredito que vai levar um tempo, entre três e cinco anos nesse processo para que possamos nos organizar e as crianças seguirem em frente.

Vivescer: Como medir as expectativas, tanto das famílias quanto dos próprios professores, diante desse cenário?

Cleuza: Em alguns momentos eu sinto apatia por parte das pessoas, pois não sabem muito bem como lidar com isso. O Brasil é o país que está há mais tempo com escolas fechadas. Então nós acabamos nos acostumando com isso, o que é muito perigoso. Precisamos trabalhar com campanhas sistemáticas para valorizar a importância da escola e sua retomada. A prioridade seria, então, a vacinação dos profissionais da educação, um plano de trabalho e os investimentos na área de educação. Tanto as famílias como os estudantes precisam estar muito próximos de todo esse processo para se sentirem responsáveis nessa retomada.

Vivescer: É possível priorizar conteúdos a serem ensinados ou revisados de acordo com ano ou faixa etária? Se sim, como professores e equipes pedagógicas podem entender o que priorizar?

Cleuza: Em primeiro lugar, precisamos colocar toda a nossa capacidade para desenvolver programas e alternativas para resolver essas questões. Nós não podemos trabalhar só português e matemática. Eles são conteúdos essenciais no processo, mas não estão sozinhos nessa construção. Precisamos trabalhar todas as áreas do conhecimento. Por isso, devemos colocar as cabeças para pensar e, principalmente, envolver pessoas que são estudiosas na área para desenvolver ações. Vai ser bem difícil escolher o que é mais ou menos importante nesse momento, mas precisamos focar no que é pré-requisito para outras aprendizagens.

Vivescer: Você avalia que a reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular podem ser ferramentas aliadas nesse processo de priorizar conteúdos?

Cleuza: Temos que continuar lutando para a implementação da Base. Ela foi um marco muito importante na educação no Brasil, e vem de um processo dos parâmetros curriculares e diretrizes nacionais curriculares. Agora estamos no momento de implantação. E a reforma do Ensino Médio com os itinerários formativos, mesmo precisando de ajustes, é um avanço e temos que nos debruçar sobre isso. A partir da vacinação da população, é necessário buscar a normalidade nas escolas, e lutar por uma ampliação do horário em que as crianças estão na escola para a retomada dos processos de aprendizagem e a construção do conhecimento. Vai demandar tempo, investimento e comprometimento, mas é possível. Então, para isso, precisamos de políticas públicas organizadas, de um investimento que dê conta das necessidades e que considere também as novas tecnologias e a questão do acesso. Mais do que nunca, as desigualdades se acentuaram… e, agora, como fazemos para combatê-las e minimizar os seus efeitos diante de todo esse processo? O desafio não será pequeno e vamos viver um ano muito difícil em 2022, com um contexto político muito importante. Precisaremos trabalhar com estados e municípios, além do Governo Federal, para encontrar soluções possíveis nos diferentes cenários que temos no país.

Como celebrar a Festa Junina nas aulas online

Evento tem grande importância cultural e emocional nas escolas e pode ser celebrado no ensino remoto

festa junina escolaA Festa Junina é um dos eventos mais importantes no ambiente escolar. Professores, alunos e familiares se envolvem em uma celebração cheia de cultura, danças, brincadeiras, comes e bebes. Mas com a pandemia, muitas escolas brasileiras começam mais um mês de junho com as portas fechadas. Para manter a tradição viva, preparamos essa matéria com dicas para celebrar a Festa Junina nas aulas online.

O clima da Festa Junina na escola

Nas escolas, a Festa Junina muitas vezes coroa o final do primeiro semestre e toda a comunidade escolar “lava a alma”, reconhecendo as aprendizagens do período e colocando um “pé” nas férias. Esse costuma ser o clima em que se prepara a escola, que por muitas mãos – de alunos e professores – vai trazendo as cores e símbolos dessa data tão marcante. Os dias da festa trazem a marca própria de cada instituição escolar e também de seu contexto e região. De norte a sul, cada pedacinho do Brasil começa a se preparar: trajes típicos, comidas, bandeirinhas, chapéus, bigodes e trancinhas.

Origem da Festa Junina

Apesar de ser uma festa tão presente no nosso calendário, poucas pessoas conhecem a origem da Festa Junina. Pode ser interessante compartilhar essa história com os alunos.

Na Antiguidade, no Hemisfério Norte, várias celebrações aconteciam durante o solstício de verão – o dia mais longo do ano e que marca a passagem do inverno para o verão. Lá, ele acontece nos dias 21 ou 22 de junho. Estas festividades prestavam homenagens a diversos deuses, com o objetivo de “garantir” boas plantações, colheitas e a fertilidade.

Na passagem da Idade Antiga para a Idade Média, com a cristianização dos povos romanos e germânicos, a Igreja substitui o culto aos deuses pagãos e passou a celebrar os santos.

No Brasil, antes da chegada dos portugueses, os índios já faziam rituais em junho também ligados à colheita, com cantos, danças e comidas. Com a colonização, essas festividades se fundem, originando as Festas Juninas que se mantém até hoje.

É por isso que as festas celebram santos católicos, mas ao mesmo tempo oferecem uma variedade de pratos feitos com alimentos típicos dos nativos.

Os símbolos da Festa Junina

Todos nós conhecemos os elementos abaixo, mas será que sabemos o que eles representam? Converse com a sua turma a respeito!

A fogueira:

Presente nas festividades desde os tempos mais antigos – tanto nas celebrações pagãs quanto indígenas -, representa a luz, a vida e a transformação, e é acessa para agradecer a fertilização da terra e as colheitas. Com a cristianização, ganhou outra explicação: Santa Isabel (mãe de São João Batista) disse à Virgem Maria (mãe de Jesus) que quando São João nascesse acenderia uma fogueira para avisá-la. Maria viu as chamas de longe e foi visitar a criança recém-nascida.

Cada santo junino tem um tipo diferente de fogueira, sendo a de Santo Antônio quadrada, a de São João redonda e a de São Pedro triangular.

Os balões:

Tinham um papel de comunicação, anunciando a todos o início da festa. Seu significado espiritual também remete a comunicação com o divino, pois o balão vai da terra ao céu. Também era uma forma de agradecer aos santos pelos pedidos (namoros ou casamentos) atendidos. Como causavam acidentes e muitos incêndios, acabaram sendo proibidos, mas ainda é um elemento presente nas festas mantendo sua forma (não mais acesa) ou como lanterna para iluminar.

As bandeirinhas:

Simbolizam a espiritualidade e a proteção. Nelas, eram impressas imagens dos santos e foram ganhando cores e as formas que conhecemos. Presente também no budismo, com quem os portugueses tiveram contato no período das grandes navegações, que imprimem orações em tecidos coloridos para que os vento as leve e disperse.

A quadrilha:

Tem origem na corte francesa, nas danças de salão do século 17. Chegou ao Brasil no século 19, trazida pelos nobres portugueses, e foi sendo adaptada até fazer sucesso nas Festas Juninas. O baile representa a alegria e a vontade de viver.

Comidas típicas:

Simbolizam a fartura e a abundância, muito bem representadas pelo milho –de uma espiga, muitos grãos são semeados. A comida típica das festas é quase toda à base de grãos e raízes que nossos índios cultivavam, como milho, amendoim, batata-doce e mandioca. A colonização portuguesa adicionou novos ingredientes e hoje o cardápio inclui bolo de fubá, pé-de-moleque, pipoca, além das bebidas como quentão e vinho quente.

5 dicas para celebrar a Festa Junina remotamente

Além de explicar a história e símbolos da Festa Junina para os seus alunos, é possível criar um ambiente de celebração nas aulas online. Preparamos algumas sugestões para isso.

Fotos:

Através de fotos de anos anteriores, da própria família ou mesmo de obras de artistas que retratam o tema, acessamos a memória cultural, familiar e afetiva.

Essa memória nos conecta e resgata o sentido das Festas Juninas, e pode ser ampliado por novas informações e imagens trazendo seus elementos tradicionais – fogueira, bandeirinhas, brincadeiras, comidas, danças e música – e o significado de sua celebração – a colheita.

Repertório cultural:

Uma festa que acontece de norte à sul do país abrange a grande diversidade cultural brasileira. Que tal convidar os alunos a pesquisarem e desbravarem essa nossa riqueza? O que será elas têm em comum? O que as diferencia? Quais as marcas próprias da sua região? São algumas perguntas que podem nortear esse trabalho.

Comes e bebes:

Além de explicar o papel central que os comes e bebes tem na festa, é possível resgatar receitas típicas e ter a oportunidade de fazer algum prato com o grupo de alunos, por mais simples que seja, como uma boa pipoca ou milho verde.

Dança e música:

Não dá para dançar quadrilha? Os grupos de WhatsApp podem ser uma ótima ferramenta para compartilhar uma playlist com repertório musical diverso, que inclua as características regionais, a tradição e a história da Festa Junina. Que tal escolher a música preferida dos alunos e combinar uma apresentação entre todos?

Decoração:

Decorar os espaços é uma ótima maneira de transformar o ambiente e criar um clima temático e aconchegante. O convite é criar com o que se tem a mão! Barbante, fita, papel, jornal, revista, embalagens…. ganham vida pelas mãos das crianças e adolescentes. Quanto maiores são os alunos, mais complexos são os elementos que podem criar, de bandeirinhas a luminárias, tudo é possível utilizando poucos recursos. Há uma infinidade de tutoriais que podemos utilizar para apoiar a confecção dos elementos que se desejar. Mesmo quem não tem grandes habilidades manuais pode fazer parte. Os professores de Artes têm um prato cheio aqui!

Quer mais?

Então conheça as atividades de Corpo & Cultura da Vivescer. Elas fazem parte de uma jornada para professores, certificada em 32h, online e gratuita.

Afinal, Festa Junina sem corpo e cultura não existe, certo? Clique AQUI para fazer o cadastro e acessar o conteúdo.

Conheça a história inspiradora por trás do Dia das Mães

 

Todos os anos, milhões de pessoas do mundo todo vão às compras em busca de um presente para o Dia das Mães. No Brasil, o apelo comercial é tão grande que apenas o Natal supera o Dia das Mães em termos de vendas.

Mas esquecendo flores, chocolates e livros: você conhece a história por trás dessa celebração? O Dia das Mães é uma homenagem a Ann Maria Reeves Jarvis, uma mulher inspiradora.

Quem foi Ann Maria Reeves Jarvis

Nascida em 1832 nos Estados Unidos, Ann Jarvis passou pela dor de perder dez filhos por doenças infantis. Para evitar que mais pessoas tivessem o mesmo sofrimento, ela se tornou uma ativista social e passou a dedicar sua vida a ajudar outras mães e a sua comunidade.

Junto com um grupo de mulheres, ela fundou os “clubes de trabalho do dia das mães”, em 1858, na Virgínia, Estados Unidos. O grupo fornecia assistência e educação às famílias, a fim de reduzir as doenças e a mortalidade infantil. Um dos focos eram melhorias necessárias nas condições sanitárias.

Quando o estado da Virgínia foi dividido pela Guerra Civil americana, Ann e os clubes de trabalho ampliaram sua atuação e passaram a atender os soldados feridos. Os cuidados oferecidos eram neutros, ajudando a todos que precisavam, independente do lado da Virginia que estivessem defendendo.

A ação de Ann Jarvis se desdobrou no pós-guerra, quando sua ajuda foi solicitada para intervir nos conflitos que perduravam. Ela e membros do clube planejaram o “Dia da Amizade das Mães”, para que os soldados e suas famílias, de ambos os lados, se reconciliassem em um processo de cura. A partir daí, Ann passou a organizar piqueniques anuais nos “Dias das Mães”, para encorajar as mulheres a participarem na política e promoverem a paz.

O papel da filha de Ann no Dia das Mães

Sua filha, Anna Maria Jarvis, foi quem lutou, por três anos, para tornar o dia da morte de Ann em uma data que representasse e homenageasse todas as mães. Finalmente, em 1914, o segundo domingo do mês de maio foi reconhecido como um feriado nacional. Deveria ser um dia em que os filhos agradecessem os esforços de suas mães em sua criação, mas o apelo comercial crescente fez com que Anna se arrependesse de sua criação.

No final de sua vida, ela se empenhou em campanhas contra o feriado, investindo nisso toda a herança da família, a fim de devolver à data seu propósito original baseado em sentimentos, e não na obtenção de lucros.

A importância de resgatar a origem da história

Voltar à origem da história de uma data tão especial é importante, pois traz à tona não só o sentido e o significado dela, mas também toda sua força.

Ann, que foi capaz de transformar uma dor profunda em um propósito de vida voltado ao bem-estar e saúde de todas as crianças, teve uma vida muito inspiradora. Nosso período histórico é bem diferente do de Ann, mas o perfil batalhador e de total entrega para garantir que crianças e jovens do nosso país tenham acesso a uma educação de qualidade, que tenham seus direitos assegurados e a possibilidade de viverem um futuro melhor, está presente em milhares de mães brasileiras – e em muitas educadoras também! Você se identifica com elas?

A linha de vida de Elaine

“Imagine que você está em uma sala de cinema vendo a história da sua vida passar na tela. Você é o roteirista e diretor deste filme. O que podemos aprender sobre nós mesmos?”

Ainda no debate sobre como a nossa origem pode influenciar o nosso propósito de vida, a Vivescer conta a história da professora Elaine. Assim como Ann, ela perdeu um filho, e seguiu uma outra direção para ajudar a sua comunidade.

Confira esse vídeo acessando a nossa jornada certificada: https://vivescer.org.br/cursos/proposito/lessons/7-linha-de-vida/

Por que escutar os estudantes é essencial no ensino remoto?

Contar com a participação dos alunos para repensar estratégias usadas sobretudo durante a pandemia pode ajudar a manter engajamento. 

Como saber o que, de fato, os estudantes estão conseguindo aprender do conteúdo que está sendo ensinando remotamente? O que está atrapalhando-os para que possam seguir em seus percursos de aprendizagem, e o que os ajuda? Muitos educadores têm se deparado com estas e outras questões desde que tiveram que se reinventar e passar a ensinar remotamente. Por isso, contar com a contribuição e o parecer dos alunos para avaliar se suas propostas estão no caminho certo, a partir de uma escuta genuína, pode ser um excelente caminho. Para Simone Lederman, mestre em psicologia da educação e gestora do Instituto Catalisador, essa e outras formas de protagonismo estudantil são importantes em todos os contextos, não só os de pandemia. Entretanto, nesse momento se faz ainda mais relevante considerando que muitas das interações que permeiam o processo de ensino-aprendizado não estão acontecendo, como a troca de olhares entre professores e alunos, a vivência na escola, as comunicações nos corredores, entre outros momentos.

“Perguntar para o aluno o que está acontecendo na casa dele e o que está o afetando não é uma tarefa tão simples como montar um formulário online. O tipo de informações que coletamos nesse modelo remoto não é o mesmo tipo que o professor coleta de maneira mais autêntica e espontânea quando está realmente conectado a seus estudantes na sala de aula. É um desafio enorme, nesse contexto, estabelecer uma conexão genuína. Eu acredito que o propósito de escutar os estudantes é esse: possibilitar que essa conexão aconteça. Conseguir que os vínculos permaneçam e sejam fortalecidos e não diluídos durante a pandemia não é algo banal”, comenta Simone.

Mudança de cenário

Um dos aspectos fundamentais da pandemia que interferem no fazer educacional é a mudança de cenário. Para Simone, se na escola os professores devem levar em consideração que os alunos trazem suas bagagens e vivências pessoais para um espaço que é de todos, coletivo, com a pandemia houve uma transformação nessa lógica de modo que, agora, crianças e jovens estão estudando e acompanhando aulas no ambiente familiar.

Dito isso, existem infinitas possibilidades considerando os diversos contextos nas casas brasileiras. O estudante pode ter que compartilhar um computador ou celular com uma ou mais pessoas, pode não ter espaço e tempo definidos para o estudo, pode estar em um ambiente barulhento, entre outras hipóteses.

Assim, Simone reforça que algumas estratégias podem ajudar nesse processo, como sempre praticar a escuta ativa na busca por entender que cada estudante vive um contexto singular que irá afetar a forma como ele se comporta e aprende na escola, a importância de mapear os conhecimentos prévios dos alunos na disciplina em questão e procurar compreender qual ambiente a criança ou jovem está estudando durante a pandemia e com qual nível de dedicação e atenção.

“Quanto mais tivermos um olhar sensível sobre quem é esse estudante que recebemos na sala de aula, poderemos trabalhar de uma maneira mais potente e sempre dentro de um âmbito coletivo a partir do que é possível. Não adianta falar que o contexto está inviável e que nada é possível. Agora podemos, justamente, flexibilizar.”

Intencionalidade é a chave

Esse processo de procurar conhecer quem é o estudante, com o objetivo de direcionar melhor as estratégias pedagógicas, está diretamente ligado à intencionalidade do professor, isto é, ao seu real interesse e à vontade de entender como o estudante está e estabelecer uma conexão e vínculo com ele.

A centralidade da intenção do professor foi ainda mais reforçada pela pandemia, explica Simone, considerando que a educação remota mostrou que estar presencialmente no mesmo ambiente, por exemplo, não significa necessariamente a garantia de vínculos, que só acontecem se o docente tiver, de fato, uma intenção envolvida em suas práticas.

“É possível começar uma aula fazendo uma enquete com uma pergunta simples. Em muitos casos, o mecanismo é simples mesmo, e o que importa é a intenção por trás, ao pedir uma opinião, chamar para a aula, e tentar saber o que o outro pensa. É um querer saber não intrometido, porque o professor não vai resolver a vida pessoal do aluno. Mas ele pode levar isso em consideração no processo de aprendizagem e promover acolhimento, e só de acolher, pode causar um movimento de deslocamento na posição do aluno, que pode se sentir melhor e mais potente porque foi acolhido.”

Na prática

Entre algumas estratégias utilizadas na escuta ativa dos estudantes, Simone destaca duas: a criação de murais virtuais e o uso de três passos na hora de realizar uma devolutiva ao aluno: “vejo, penso e pergunto”. No caso do mural, a ideia é criar uma exibição de textos, imagens ou outros trabalhos e possibilitar que estudantes comentem nas produções uns dos outros, possibilitando que aprendam com os comentários e produções dos colegas.

Já o caso do “vejo, penso e pergunto”, é o processo de o professor elencar uma coisa que vê na produção do aluno, algo que pensou a partir do que está vendo e uma pergunta para o estudante. Esse modelo de devolutiva pode gerar explicações dos estudantes e o início de uma interação mais profunda entre professor e aluno.

Entretanto, considerar a visão e opinião dos alunos nos processos pedagógicos não é algo intuitivo e demanda treino. Denise Manso, professora do ensino médio da escola estadual Fernão Dias Paes, em São Paulo, levou 30 anos em sala de aula para aperfeiçoar o modelo que segue atualmente. Hoje, ela conta que tem ex-alunos que se tornaram amigos pessoais, tamanha a proximidade que estabelece com seus estudantes.

“Eu sempre promovi esse tipo de conversa, tanto que sou sempre aquela que sabe se o aluno está passando necessidade, se aconteceu algo na casa dele, ou o porquê de não poder entregar a tarefa. Os alunos têm meu WhatsApp, podem me chamar o dia inteiro. E eu sempre dei essa liberdade. Quando entramos na pandemia, todas as minhas salas já tinham um grupo no WhatsApp”, comenta Denise.

Para a educadora, é importante um olhar atento do educador para as necessidades de cada turma. Ela comenta que precisou empenhar todo um bimestre na recuperação de um conteúdo básico de matemática, disciplina que leciona, para poder seguir com novos aprendizados mais complexos. “Para fazer tudo isso, eu tive que ouvi-los. O fato de escutar os alunos é muito importante. Eu vim de uma educação muito rigorosa, em que não podíamos tirar dúvida com o professor porque ele explicava da mesma forma, só que bravo. Não tinha essa liberdade.”

No caso das turmas de Denise, a pandemia serviu para reforçar ainda mais a importância desse contato próximo com a professora e a liberdade para repensar os caminhos escolhidos. Foi por meio da escuta ativa que ela descobriu que os alunos não estavam acompanhando e se motivando com aulas que adotavam apresentações em Powerpoint e teve que mudar de estratégia. Aos poucos, a motivação voltou e alunos já se sentiam à vontade para pedir reuniões paralelas no contraturno para esclarecer dúvidas.

No caso das turmas de Denise, a pandemia serviu para reforçar ainda mais a importância desse contato próximo com a professora e a liberdade para repensar os caminhos escolhidos. Foi por meio da escuta ativa que ela descobriu que os alunos não estavam acompanhando e se motivando com aulas que adotavam apresentações em Powerpoint e teve que mudar de estratégia. Aos poucos, a motivação voltou e alunos já se sentiam à vontade para pedir reuniões paralelas no contraturno para esclarecer dúvidas.

Quer entender melhor a importância da escuta ativa e conhecer caminhos para promovê-la com seus estudantes? Então clique aqui e conheça um percurso de aprendizagem inteirinho só sobre isso!

* Conteúdo em parceria com Porvir

 

 

 

Pandemia reforçou a importância e a potência do contato com a natureza

Distanciamento social produz efeitos prejudiciais à saúde de todos, principalmente de crianças. Conheça alternativas para diminuir o peso da quarentena.

É bem verdade que os seres humanos têm perfis e gostos individuais. Mas é praticamente unanimidade a sensação de bem-estar proporcionada por um dia passado ao ar livre, com os pés na grama ou na areia, respirando ar puro e em contato com a natureza. O distanciamento social, entretanto, impediu que milhares de pessoas no mundo todo pudessem ter esse contato tão essencial.

Maria Thereza Marcilio, presidente da Avante – Educação e Mobilização Social, explica que a pandemia deixou ainda mais óbvios os impactos provocados pela falta de contato com a natureza, como ansiedade, depressão e até dificuldades de interação. Para ela, apesar de ser parte da vida, ao longo do tempo a humanidade tem se desligado dos ecossistemas naturais e assumido uma posição de agressora.

“Conviver com a natureza é saudável do ponto de vista fisiológico. Estamos vendo agora o quanto isso faz falta. Uma criança passa horas entretida quando está brincando com areia, água, pegando folhas ou observando uma trilha de formigas. Podemos achar que são horas perdidas, mas não são, pois ela está construindo ideias, usando os sentidos, e pensando como usa os elementos no jogo simbólico. É uma perspectiva mais gratuita de lidar com a natureza do que a perspectiva utilitária que nós geralmente temos”, explica.

Essa interação com os ambientes naturais possibilita o desenvolvimento das crianças em termos sociais, cognitivos, motor e da sensibilidade, o que não é possível por nenhum outro estímulo, defende a especialista. O Começo da Vida 2 – Lá Fora, filme produzido antes da pandemia de Covid-19, passeia por diferentes países mostrando que as crianças são as mais atingidas por processos de urbanização, por exemplo, que retiram o verde e o trocam por cimento, impondo a reclusão em espaços menores.

Ao mesmo tempo que aborda o tema de forma prática e com uma linguagem acessível, o filme mostra, de forma poética, imagens da simplicidade de crianças interagindo com os elementos da natureza, como um bebê pulando em poças de água da chuva e uma criança boiando em um riacho. Com o apoio de especialistas brasileiros e internacionais, a produção aponta que somente se as crianças estiverem vivenciando a natureza é que poderão amar o meio ambiente e, assim, construir uma relação em que se sentem parte da natureza e, não apartados dela, permitindo que a sua preservação ocorra espontaneamente.

 

É possível contornar a quarentena em prol da natureza?

O distanciamento social foi adotado não só no Brasil, mas em inúmeros países como forma de diminuir a contaminação pela Covid-19. É claro que não se deve ultrapassar bloqueios em praias ou desobedecer a decretos públicos. Entretanto, Maria Thereza aponta que é possível encontrar algumas alternativas para diminuir minimamente o peso da quarentena e proporcionar, principalmente às crianças, algum tempo na natureza.

“Se você mora em ambientes abertos, naturais e sem aglomeração, ir para fora tem que ser incentivado mesmo. Ou, por exemplo, ir para a praia em um horário que não tenha ninguém e que fique só você, de máscara, com a sua criança, tomando todos os cuidados. Eu acredito que devemos favorecer toda e qualquer oportunidade de estar na natureza, respeitando os decretos e escolhendo horários com menos gente”, explica.

E para aqueles que moram em cidades sem praia, longe de parques e praças? Inegavelmente, esse é um cenário mais desafiador. Mas também existem opções temporárias para esse momento de crise. Uma delas é aproveitar que as crianças estão passando mais tempo em frente a telas, seja da televisão, tablet ou celular, e propor programas educativos que tenham a natureza como tema central.

Maria Thereza cita programas do canal National Geographic, e também o filme Professor Polvo, que traz a reflexão de um homem que passa a mergulhar todos os dias para ter contato com um polvo e, assim, faz reflexões sobre a relação do ser humano com a natureza. “Já que as crianças estão na tela, pelo menos você cria uma oportunidade para que a natureza chegue até elas nesse lugar de pertencimento e aprendizagem.”

A outra opção é usar pequenos espaços para proporcionar o contato com areia, água, terra e outros elementos. Em um passeio perto de casa, é possível recolher folhas que, em casa, podem virar construções diferentes. A brincadeira com argila também traz inúmeras possibilidades, inclusive de a criança trabalhar seus sentidos. Ou, ainda, pais e responsáveis podem propor a criação de pequenas plantações, seja em um canteiro ou em vasos, que é a proposta principal do projeto TiNis – Terra das Crianças.

A iniciativa do Instituto Alana e Gisele Bündchen tem como objetivo fortalecer e estimular o contato e o vínculo emocional da criança com a natureza, a partir da criação de um espaço verde para brincar, aprender e vivenciar. ‘TiNi’ é o nome dado ao cultivo de plantas em pequenos espaços. São necessários, pelo menos, três vasos para a prática.

 

Uma nova escola pós-pandemia

Com uma longa trajetória na educação, Maria Thereza diz que o movimento defendido por ela e por outros especialistas no tema para derrubar, simbolicamente, os muros da escola, isso é, possibilitar cada vez mais participação da comunidade e integrar a escola ao território ao qual pertence, ganha novos contornos diante da pandemia.

“A pandemia ajudou a mudar a concepção física e arquitetônica das escolas, que precisam ter mais espaços abertos, áreas que sejam naturais com areia, planta e grama. A escola não deve mais ser só o prédio ou a quadra cimentada. Agora estamos falando de, literalmente, tirar o muro, a porta, a janela e abrir a escola. Sempre foi, mas agora, mais do que nunca, inimaginável uma escola que não tenha uma área externa e natural”, aponta Maria Thereza, reforçando que os espaços abertos tornaram-se uma demanda de saúde.

Além disso, a especialista também reforça o papel do poder público nesse contexto, de praticar a limpeza urbana para que crianças e jovens possam vivenciar os espaços no entorno das escolas com segurança. “Ao invés de tanto viaduto, asfalto e via expressa, vamos fazer parques e praças para as pessoas viverem e conviverem e para as escolas usarem. No meu mundo ideal, deveria ter praças perto de cada escola, para que aquilo fosse uma extensão do trabalho pedagógico.”

Apesar de acreditar que as crianças representam, sim, uma nova chance para a humanidade e para um mundo mais sustentável, Maria Thereza pontua que é importante que os adultos considerem suas responsabilidades nesse processo e passem a fazer as coisas de forma diferente. “Não posso imaginar que, do nada, vai surgir um ser que ame a natureza se ele conviver, desde o nascimento, em um lugar que deteste, agrida, não respeite e não valorize a natureza. A criança é sempre um potencial, é sempre esperança, mas ela nasce em uma cultura e vai crescer e se desenvolver nessa cultura. Por isso, ela só vai fazer diferente se nós a ajudarmos a fazer diferente. Então, a mudança tem que começar na gente.”

 

* Conteúdo em parceria com Porvir

 

Desigualdades, resiliência docente, uso de tecnologia e importância da interação: quais foram as percepções trazidas e reforçadas pela pandemia

Em entrevista à Vivescer, Luciano Meira, professor da UFPE e empreendedor, reflete como as escolas fechadas incentivaram reflexões que vão desde o uso da tecnologia, a gestão local, a disponibilidade para a mudança e a necessidade de uma coordenação do MEC.

A pandemia de Covid-19 impôs à educação uma mudança estrutural profunda, que vai além do lugar físico e a forma como as aulas acontecem, envolvendo o próprio fazer docente, a interação com os estudantes, metodologias, técnicas de engajamento e outros elementos.

No ano passado, entretanto, dois fatores trabalharam contra diretores, coordenadores e professores: a falta de tempo para planejar um esquema de educação a distância que funcionasse de acordo com as especificidades de cada local e a pouca ou quase nenhuma experiência diante desse tipo de situação. Agora, o cenário é outro.

Depois de mais de um ano de pandemia, quais aprendizados foram contabilizados no fazer educação? Como os professores se adaptaram? As redes de ensino se mobilizaram para discutir a questão do acesso de estudantes à tecnologia e internet? Para debater todas essas questões, a Vivescer conversou com Luciano Meira, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e empreendedor. Confira a seguir.

 

Vivescer: Se em 2020 a maioria dos profissionais de educação foi pega de surpresa com o cenário imposto sobre o mundo todo, esse ano já é possível conversar a partir das experiências vividas. O que nós não sabíamos sobre educação no ano passado e já sabemos hoje?

Luciano: Do ponto de vista estrutural, tem dois aspectos. O primeiro deles nós já sabíamos, mas com a pandemia ficou ainda mais evidente, que são as intensas desigualdades vividas no mundo da educação do ponto de vista demográfico, geográfico, de classe, cor e gênero. Nesse momento, elas ficam ainda mais intensamente dolorosas, porque os impactos são muito grandes nos sistemas de educação. O segundo ponto é que o Brasil não tem a educação como prioridade ou como estratégia nacional de transformação social que busca melhorar esses sistemas de ensino.

Também tem os aspectos do cotidiano da escola. Mesmo com toda a desigualdade e dificuldade de acesso, a ideia de transformação digital por meio de mudanças comportamentais habilitadas por plataformas finalmente chega e se instaura no mundo da educação de forma bastante contundente. Outra percepção é que não é a tecnologia que vai mudar a engenharia didática da escola. Nesse processo de transformação digital, as tecnologias habilitam as mudanças comportamentais, mas para isso requerem um design instrucional, inovador e adequado a cada contexto de uso. O design instrucional não é só o planejamento de aula, é algo mais amplo, um conjunto de abordagens que vão envolver metodologias ativas e diversificadas. Ele é absolutamente essencial para qualquer mudança que queremos implementar. Não são as aulas que vão mudar a escola. São as experiências inovadoras e significativas que o farão, junto com metodologias e novos materiais didáticos. Tudo isso nasce, emerge e se desenvolve no contexto de um design instrucional inovador.

 

Vivescer: Durante esse ano, muitos professores relataram uma mudança de mentalidade que foi necessária para ‘virar a chave’ do presencial para a distância. Quais foram alguns dos principais aprendizados do fazer docente nesse período?

Luciano: A maioria das pessoas pensava que os educadores eram muito resistentes a mudanças e inovação tecnológica. Eu sabia que não era bem assim, e agora há uma percepção diferente. Isso se conecta a uma maior ênfase na construção de relacionamentos durante a pandemia. Acredito que a distância fez com que mais professores percebessem que uma das principais funções da escola é criar e manter relacionamentos entre estudantes e educadores e com a comunidade. A escola é um grande engenho conversacional e, sem isso, mesmo as práticas mais tradicionais de ensino não vão se dar de maneira apropriada sem o estabelecimento de relações. Uma pesquisa do Instituto Península mostra, inclusive, que a primeira coisa que 50% dos professores tentaram fazer logo no início da pandemia não foi dar aula, mas sim estabelecer relações com seus estudantes, mantendo no grupo do WhatsApp, perguntando como eles estavam.

Outra pergunta extremamente inadequada que muitos consultores e palestrantes fazem é como substituir alguma atividade que o professor faz por tecnologia. Acho que uma coisa que os docentes aprenderam e estão fazendo é a busca por tecnologias que melhor apoiam as suas propostas, já que eles não querem ser substituídos. Não vai ser uma revolução no curso de um ano, mas acho que os professores estão mais na busca da instrumentalização tecnológica para apoiar a inovação que eles já realizam ou pretendem realizar.

 

Vivescer: Sabemos que foram muitos os desafios. É possível elencar os três principais que dificultaram a educação durante esses meses?

Luciano: Primeiro: o acesso certamente é um deles. Geralmente há um reducionismo do acesso apenas à conectividade à internet, mas na verdade, ele se divide em três dimensões: conectividade, oferta de dispositivos e recursos digitais. Sem dispositivos, o acesso não vale nada. E sem acesso, os dispositivos valem pouco, porque as principais funcionalidades estão na internet. Ao mesmo tempo, podemos ter acesso e dispositivos, mas recursos digitais mal distribuídos e apresentados. O terceiro setor tem desempenhado um papel fundamental para organizar recursos para dispositivos específicos em ambientes que têm conectividade.

Em segundo lugar, do ponto de vista de gestão, temos que fazer uma revolução de gestão escolar nesse país. Quando falo na necessidade de uma estratégia nacional do MEC [Ministério da Educação], é para facilitar mudanças locais. Em todas as situações, mas especialmente em crises, precisamos ter líderes de verdade que sejam capazes de usar essa imaginação para construir ação, inovação e futuros possíveis. No Brasil, temos desigualdades muito grandes entre gestores: enquanto há profissionais excelentes e inovadores, outros são meros operadores do presente.

O terceiro ponto tem a ver com a minha tese pessoal. A maioria dos professores está disponível para mudança e temos muitos jovens na escola. Mas eles não são instrumentalizados para a transformação. Temos que cuidar melhor da base nacional de formação de professores. Eu vejo processos formativos que só enfatizam o tradicionalismo dos processos escolares, quando na verdade queremos construir futuros possíveis. O Chile tem desenvolvido programas de formação que são referência mundial. Precisamos de uma coordenação nacional para fazer isso, ou ao menos de lideranças regionais. Se formos esperar essa mudança acontecer por geração espontânea, levará décadas. Precisamos de gente puxando isso com velocidade.

 

Vivescer: Estamos no mês em que é celebrado o dia mundial da educação. Você é otimista em relação à educação brasileira?

Luciano: Todo educador deveria ser. Educadores são pessoas responsáveis por projetos de futuro orgânicos, que são os nossos estudantes, são seres corpóreos. Na escola e na academia, cada um é um projeto de futuro que estamos alimentando com processos de aprendizagem diversificados. Mas para isso, esses locais deveriam ser esse ‘engenho de produção de futuros possíveis’, do ponto de vista imaginativo. Dentro desse meu otimismo, imagino que a escola pode ganhar centralidade nas comunidades, como um centro de reflexão onde as pessoas vão discutir coisas interessantes. O futuro do mundo do trabalho e do empreendimento na comunidade depende desses micro futuros sendo gerados na escola. Eu sou muito otimista, mas essas coisas levam tempo. Acredito que temos que investir nisso muito pesadamente para acelerar a chegada desse futuro.

 

 

* Conteúdo em parceria com Porvir

Pandemia traz a urgência de discutir solidariedade e ações de cidadania em sala de aula

O contexto de emergência reforçou debates sobre empatia, cultura de doação, solidariedade e responsabilidade coletiva. Saiba por que e como professores podem trabalhar os temas durante as aulas

O financiamento coletivo foi uma das principais ferramentas usadas por diversos setores desde a chegada do novo coronavírus no país. O Monitor das Doações, por exemplo, criado para contabilizar o montante doado, aponta mais de R$ 6 bilhões arrecadados em todo o Brasil. Essa mobilização e o próprio estado de emergência colocaram na pauta do dia assuntos como solidariedade, apoio, cultura de doação, empatia, responsabilidade coletiva e muitos outros, que invariavelmente chegaram aos ouvidos das crianças.

Para Marina Pechlivanis, sócia da Umbigo do Mundo e idealizadora da Plataforma Todo Dia é Dia de Doar Kids, a pandemia fez com que esses temas ficassem muito mais próximos da realidade de crianças e jovens, com um conjunto de fatores atuando nessa direção. Muitas pessoas que perderam empregos precisaram buscar fontes de renda alternativas, grupos organizaram campanhas para vizinhos, amigos e conhecidos, multiplicaram-se as arrecadações de alimentos e iniciativas que passaram a ser abordadas diariamente pela mídia.

“Não dá para generalizar, mas assuntos como gentileza e generosidade eram tratados pontualmente pelas famílias com as crianças. Era um tema que vinha à tona no Natal, em alguma data especial ou quando a criança via uma pessoa na rua, por exemplo. A pandemia criou um contato sem precedentes com o assunto, e de forma inesperada as crianças tiveram que se aproximar de todo esse repertório”, explica Marina.

 

Importância da mudar a abordagem

Katia Campanile, consultora em aprendizagem solidária, vê a questão por outro ângulo. Para ela, esses temas não ficaram tão próximos de crianças e jovens durante a pandemia quanto poderiam, já que muitas escolas ainda seguem um padrão conteudista e, por priorizar as disciplinas tradicionais, não abrem espaço para debater outros temas.

“Um dos pontos que explicam por que o tema não está tão evidente é porque infelizmente escolas não tiveram como premissa oferecer espaço e tempo para olhar para essas questões. Em escolas que ainda são focadas no conteúdo e que não respeitam a capacidade de concentração dos estudantes, fica tudo mais exaustivo. Por outro lado, aquelas que já romperam com esse olhar conteudista e que consideram a BNCC [Base Nacional Comum Curricular] e apoiam o trabalho nas habilidades, competências e projeto de vida, têm uma vantagem maior”, explica.

Katia defende que, nesse momento, uma possibilidade é adotar a aprendizagem solidária, ou seja, propor ações solidárias atreladas a eixos de aprendizagem do currículo como uma forma de aproveitar temas que estão em alta devido à pandemia e abordá-los em sala de aula, seja presencial ou virtualmente.

“É possível estudar um desafio social brasileiro levando em consideração os aspectos geográficos, políticos, históricos, de línguas, artes e diversos outros eixos, por exemplo. O bacana disso tudo é que, no final, esse trabalho dá origem a ações mais consistentes com maior possibilidade de promover transformações.”

 

Participação das famílias

Um dos pontos fundamentais desse trabalho voltado à solidariedade desde cedo é a participação das famílias. Estabelecer essa parceria possibilita a aproximação e fortalece relações. Além disso, Katia reforça que esse contato mais próximo pode, inclusive, potencializar ações dentro e fora da escola.

“Em 2019, quando no episódio do derramamento de óleo no litoral brasileiro, as crianças estavam muito preocupadas. Tenho relatos de alunos que falaram para os pais que não podiam jogar plástico fora porque as praias estavam cheias de óleo e as tartarugas não poderiam lidar com as duas coisas. Então mesmo famílias nas quais isso não era costume, passaram a mudar o comportamento diante de materiais recicláveis, por exemplo. As crianças têm um potencial incrível de ver o mundo com a lente delas, às vezes muito mais prático do que nós”, explica a consultora.

 

Existe assunto de criança?

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu – ou até mesmo falou – “isso não é assunto de criança”. Mas no caso de solidariedade e empatia, é sim. Para Marina, quanto antes esse tipo de repertório for discutido com os alunos, mais cedo despertarão sua consciência social, o que, consequentemente, terá efeitos disseminados nas sociedades do futuro. “Devemos entender que, além de seus direitos, as crianças também têm deveres cívicos e para com o próximo, já que vivem em uma sociedade na qual todos os processos são interdependentes.”

O projeto Todo Dia é Dia de Doar Kids visa trabalhar um conjunto de sete princípios com as crianças: gentileza, generosidade, sustentabilidade, solidariedade, respeito, cidadania e diversidade. Para Marina, a não valorização desses temas explica diversos acontecimentos atuais, como a inconsequência de gestos políticos e econômicos. “Se você aprende ou tem contato com esses temas desde cedo, naturaliza gestos e hábitos que, depois de crescidos, fica bem mais difícil de entrar com essa informação. As crianças captam as informações muito rápido e facilmente, e logo entendem que ser generoso é bom, ser gentil é melhor ainda e que quando ela doa, a sociedade ganha como um todo.”

Iniciar esse tipo de discussão desde cedo significa atuar na formação das pessoas, e não na correção de um comportamento. “Se a escola não oferece tempo e espaço para esse tipo de diálogo, como saberemos de fato se crianças têm ou não maturidade para essas discussões? Eu discordo. Acredito que elas são solidárias em sua essência”, completa Katia.

 

Como debater o tema

Existe uma multiplicidade de atividades a serem realizadas com os estudantes para refletir, debater e colocar os temas em prática. No âmbito da doação, as crianças podem fazer as doações mais intuitivas, como brinquedos ou roupas. Marina aponta, entretanto, que também é possível doar tempo para ensinar alguma coisa que se sabe.

Já na sala de aula, seja presencial ou virtual, a especialista reforça a importância de professores e estudantes mapearem junto a comunidade onde a escola está inserida e, a partir desse levantamento, elencar possibilidades de ações. No contato com associações e instituições do entorno, as crianças podem compreender quais são as maiores necessidades.

“Ao invés de só pedir alimentos, por exemplo, é importante trazer o problema para a sala e discuti-lo. Tenho certeza que os alunos trarão soluções muito especiais para resolver os desafios. Isso é assunto para criança sim, pois é a comunidade delas, e essa é uma forma de tratarem dos desafios conjuntamente e pensar na melhor forma de resolvê-los”, explica Marina.

Katia, por sua vez, reforça outras possibilidades, como alinhar as propostas pedagógicas com a BNCC e o trabalho por competências e habilidades, e aponta para a importância do protagonismo dos alunos. Ela cita uma experiência que usou a metodologia de aprendizagem por projetos para trabalhar desafios sociais e alimentação. Um dos grupos decidiu falar sobre o tema a partir da ótica de desigualdade social. Apesar de ter iniciado a pesquisa olhando para a África, os estudantes perceberam que também existe fome na cidade de São Paulo, e com isso quiseram saber como contribuir.

“Nesse projeto os estudantes trabalharam química, usaram matemática para entender quanto de alimento precisavam para fazer kits de entrega, envolveram arte para fazer as embalagens. Por isso sempre reforço a importância de perguntar aos alunos. São perguntas simples. ‘Como você acha que as pessoas estão se virando para se alimentar?’ ‘Como uma pessoa em situação de rua tem acesso a água potável?’. Eu acho uma tristeza e um desperdício as escolas estarem só focadas em resultado e desempenho. Infelizmente não existe momento melhor para falar sobre isso do que o que estamos vivendo”, completa Katia.

 

* Conteúdo em parceria com Porvir

 

Foto: jcomp/Freepik 

Campanha propõe reflexão sobre mudanças necessárias nas escolas no pós-pandemia

Iniciativa do Centro de Referências em Educação Integral, a campanha #ReviravoltaDaEscola reúne ideias para um novo modelo de escola que faça sentido para educadores, alunos e famílias 

Incentivar uma reflexão sobre qual é o papel da escola hoje e no cenário de pós-pandemia, bem como assegurar que a transformação da educação seja sinônimo de garantia de direitos são alguns dos principais objetivos da campanha #ReviravoltaDaEscola.

Apesar de o momento de emergência ter delimitado o que é possível de ser feito, Helena Singer, vice-presidente da Ashoka para a América Latina – uma das organizações que integram a campanha –, explica que tem visto algumas iniciativas que estão tentando promover mudanças, ainda que pontualmente.

“Tenho recebido notícias de coisas novas que se criam sem necessariamente um planejamento, mas que são, de fato, muito transformadoras no universo escolar. Um exemplo simples: a professora estava dando aula e a avó de um dos alunos estava no mesmo ambiente do neto e acompanhou a aula. Aquilo não estava no planejamento e a professora não estava preparada, mas a participação da avó na aula foi muito rica e contribuiu para a conversa. Outro caso é que professores percebem que os alunos não estão realizando nenhuma tarefa de casa. Assim, decidem se organizar e mandar uma única proposta conjunta. O trabalho interdisciplinar, que nunca antes foi colocado em pauta e planejado em uma escola regular, passa a acontecer”, explica Helena.

Diante de inúmeros debates que estão marcando a educação nesse momento, como discussão sobre o retorno ou não das aulas presenciais, a vacinação de professores e funcionários e o atendimento prioritário às crianças e jovens, Helena reforça que um movimento como a #ReviravoltaDaEscola é importante por promover uma mudança coletiva de postura e atitude.

“O que nós podemos fazer é aprender com essa experiência para projetar um mundo melhor que esse. Precisamos entender o que causou a pandemia e como nos organizamos enquanto humanidade para evitar que aconteça novamente, além de, coletivamente, reinventar práticas, instituições, relações e projetos. Isso nos dá energia e ânimo e estimula a solidariedade, pois é um trabalho colaborativo que ajuda a não cair no desespero e enxergar novas possibilidades.”

Participação das famílias  

Algumas escolas já estão usando o momento de suspensão de aulas presenciais para repensar seu funcionamento e os moldes das instituições de ensino brasileiras. É o caso do Centro Municipal de Educação Infantil Pio Bittencourt, em Salvador (BA). Sob a gestão de Consuelo Almeida, o centro deu início, em 2020, a um processo de reconstrução de suas práticas.

A instituição já contava com alguns projetos que prezavam pela gestão democrática da escola, o que implicava na ampla participação das famílias em diversos processos, bem como na intersetorialidade, isto é, parceria com diversos setores e instituições em prol do bom cuidado para com as crianças, como postos de saúde, universidades e conselho tutelar, por exemplo.

Consuelo explica, ainda, que mesmo que a prefeitura de Salvador tenha os protocolos próprios de retorno que as escolas devem seguir, cada instituição pode elaborar suas diretrizes. Para isso, a escola realizou algumas pesquisas junto às famílias, como para entender quais redes sociais eram mais utilizadas e quais seriam as mudanças necessárias na rotina da instituição para aquelas que se sentissem confortáveis em mandar novamente os filhos para a escola.

“Nós procuramos ouvir essas famílias sobre as estratégias que usamos nos vídeos produzidos pelos professores e também nos blocos de vivência impressos. Quisemos saber o que acharam da qualidade dos materiais, se estavam ajudando ou não, se eles conseguiam entender as propostas e quais eram as maiores dificuldades, ao que responderam que era o tempo para estar junto com a criança e executar as atividades”, afirma a gestora.

Atenção ao professor 

Antes de todo esse processo, entretanto, a escola precisou dar dois passos atrás para atender a equipe de professores e funcionários, que, com a chegada da pandemia no Brasil e a falta de respostas concretas sobre o cenário, sentiu-se vulnerável e fragilizada. Nesse sentido, Consuelo explica que a instituição continuou com a ideia de pensar articulações com as famílias nesse momento inicial e, paralelamente, também apoiar os próprios funcionários da instituição por meio de uma rede de parceiros.

“Nós trouxemos terapeutas e psicólogos para realizarem oficinas de relaxamento e respiração, promovemos uma conversa com uma infectologista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para explicar a doença e criamos o Café Pedagógico, que são encontros sobre poesia e bate-papo. Se alguém demandasse um atendimento mais individualizado, verificávamos se algum psicólogo poderia atender gratuitamente. Com isso, fomos fortalecendo nossa equipe para que, depois, o planejamento pudesse fluir.”

Outro ponto de destaque ao longo de 2020 foi a possibilidade de entrar em contato com redes de ensino de outras regiões e compreender o que estavam vivenciando e quais soluções estavam adotando para seus desafios. Nessa linha, ela reforça a importância de considerar as particularidades e características dos territórios, bem como incentivar a participação de diversos atores na elaboração dos protocolos de retornos e das mudanças que serão necessárias para as escolas no pós-pandemia.

“Não dá para o Executivo e as secretarias de educação do município ou do estado fazerem protocolos únicos ou pensarem a rede como uma só. É importante que se pense não de forma globalizada nem uniforme, mas sim respeitando as especificidades de cada local a partir de uma escuta”, completa.

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Como a formação continuada de professores pode ajudar o ensino durante a pandemia

Estratégias inovadoras usadas na formação inicial podem ser adaptadas para formações online, estreitando laços entre teoria e prática na sala de aula.

A formação de professores é uma verdadeira equação constituída por etapas finitas e contínuas durante a trajetória profissional, que devem observar tanto aprendizados teóricos, a prática e também o desenvolvimento integral do educador enquanto ser humano.

A formação inicial, por exemplo, é uma etapa que precisa ser repensada, o que já vem acontecendo em diversos países que têm promovido maior aproximação entre teoria e prática. Esse movimento de aproximar o que futuros professores veem ainda enquanto estudantes e o que vivenciam em estágios durante sua formação também pode ser aplicado na formação continuada, outra fase importante da trajetória profissional.

“Esse movimento de buscar na teoria subsídios que ajudem a resolver questões da vida real na escola tende a ser muito mais eficiente e ter muito mais impacto tanto na formação do professor, quanto em sua atuação em sala de aula, o que vai se refletir na melhor aprendizagem dos alunos. Países com resultados de aprendizagem mais satisfatórios do que o Brasil realizam as formações dessa maneira”, explica Maria Alice Carraturi, doutora em educação pela USP (Universidade de São Paulo), organizadora da BNC (Base Nacional Comum para a Formação de Professores) e uma das consultoras da nota técnica “Formação inicial de professores: Uma visão para a construção de propostas pedagógicas orientadas para a prática”, publicada pelo Instituto Península

A especialista comenta que as formações brasileiras são demasiadamente teóricas, e que palestras sobre um determinado tema, como metodologias ativas, por exemplo, têm baixo impacto efetivo na atuação do professor em sala de aula. Adotar formações mais práticas e “mão na massa”, entretanto, não significa fazer com que o professor vivencie as mesmas propostas que irá oferecer a seus alunos. “O docente é um adulto, com um desenvolvimento cognitivo diferente do estudante. O que ele precisa entender é quais são as competências e habilidades que são desenvolvidas com determinada proposta ou objeto, quais são os raciocínios dos alunos e como é possível ajudá-los a atingir níveis mais elevados de compreensão”, explica Maria Alice.

 

Importância da formação continuada

Estudos e pesquisas mostram que os docentes brasileiros buscam cursos, formações e atividades para se manterem atualizados, ao passo que o contexto da pandemia de Covid-19 chamou ainda mais atenção para a importância desse constante aprimoramento. Na primeira etapa da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, do Instituto Península, 60% dos professores indicaram que estavam usando seu tempo para estudar e se aprimorar.

Maria Alice pontua que as formações continuadas, sobretudo no momento de pandemia que migrou desde a educação infantil até o ensino superior para o ambiente online, devem se atentar a três pontos principais. São eles: 1. investir em reflexões e planejamentos, 2. que ajudem a modelar essa nova metodologia de ensino para a educação básica que é a educação a distância – inclusive inspirando-se na experiência EAD no ensino superior -, e 3. entender quais mídias estão disponíveis e qual é a melhor forma de usar cada uma delas.

“Neste momento, existem vários recursos online, mas eu acredito que o principal é colocar o professor como pensador, pesquisador, que comece na prática, vá para a reflexão, e volte para a prática. Nós nunca podemos perder o contato com a sala de aula, pois ela é o grande foco de atuação e pesquisa e precisa estar sempre em voga”, afirma.

Vale ressaltar que um dos pilares para que o professor esteja bem em sala de aula é a atenção ao lado emocional. Para Maria Alice, o desenvolvimento socioemocional docente é fundamental não apenas por conta do próprio professor enquanto ser humano, mas também para que seja possível o mesmo trabalho com os alunos. Além disso, a especialista pontua que, apesar de muitas pessoas estarem preocupadas principalmente com conteúdos curriculares, o momento também pode ser usado para o desenvolvimento de competências gerais descritas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), como solidariedade, relacionamento, flexibilidade, comunicação e outras.

 

Estratégias para formação continuada e online

Algumas estratégias que são aplicadas na formação inicial podem ser adaptadas para a formação continuada de professores. Entretanto, o momento impõe um desafio a mais: a necessidade de fazer as formações a distância, em razão do agravamento da pandemia. Maria Alice cita alguns exemplos que podem ser adaptados para as capacitações online. Confira a seguir.

→ Troca de experiências entre professores da mesma escola de forma estruturada

“Na Finlândia e na China, o locus de formação é na escola e entre pares. Os próprios professores se organizam e fazem a formação. Na Finlândia, se um professor faz um curso, depois ele compartilha com outros colegas da escola. Se um aprende uma coisa diferente, divide com os outros. Também existem as formações oferecidas pela rede no início do semestre letivo, mas durante o ano são os docentes que tocam o processo.”

→ Filmar a aula

“Tem algumas técnicas usadas na formação inicial por instituições de ensino superior públicas de Michigan, nos Estados Unidos, que podem ser usadas na formação continuada, como o professor filmar a sua aula e discuti-la posteriormente com colegas a partir de rubricas de qualidade. Não basta assistir o vídeo e discutir, mas sim eleger um critério para avaliar a aula ministrada. Nesse processo é possível identificar falhas, ganhos e o que ainda pode melhorar.”

→ Assistir gravações de aulas de terceiros

“É possível encontrar aulas online de professores desconhecidos, criar rubricas sobre o que os professores deverão olhar no vídeo e depois discutir o conteúdo. Essa análise e trabalho de reflexão pode ajudar a pensar o que faria se isso acontecesse em sua sala de aula, e faz o professor refletir sobre sua prática.”

→ Transcrição

“Uma estratégia é ter casos, reais ou fictícios, apresentados aos professores com um objetivo de aprendizagem. Essa transcrição pode ser de uma boa prática ou não. E então, usando critérios, o professor reflete como atuaria naquela situação. Existem diversas situações em sala de aula que o professor tem uma reação mais imediata. Mas ter esses momentos em que ele pode refletir sobre esses eventos reais e ver situações similares, possibilita uma reação mais apropriada da próxima vez. O exemplo usado pode ser, inclusive, de vivência dos próprios professores, em um movimento de discutir um problema da vida real no grupo e depois procurar algo teórico nesse sentido, sobre quais reflexões já foram feitas sobre o tema.”

→ Dramatização

“A dramatização consiste em colocar cinco professores atuando em determinada situação como quando, por exemplo, um aluno xinga o outro em sala de aula. O que o professor pode fazer na hora? Ele pode ficar bravo, pode conversar. Mas essa conversa precisa ser qualificada, para que ele aborde a questão de um jeito que leve o estudante a refletir.”

→ Vivência de ambientes de bem-estar

“Na Finlândia, o bem-estar faz parte do currículo. Ele é essencial para a realização pessoal. Não tenho dúvida que isso tem um significado muito importante não apenas na formação do professor, mas em sua vida. É necessário que a pessoa esteja em um ambiente acolhedor e amigável para desenvolver o bem-estar, e acredito que nós aprendemos melhor quando vivenciamos alguma situação, do que quando só ouvimos alguém falar sobre. Por isso, é importante que o professor vivencie ambientes de bem-estar na formação continuada, para que ele possa observar e replicar em sua sala de aula.”

 

Foto: jcomp/Freepik 

* Conteúdo em parceria com Porvir

Pandemia e tecnologia: por que algumas propostas são e outras não são consideradas ensino híbrido?

Como definições diversas, modalidade de ensino que integra o presencial e o online prega protagonismo estudantil e visa despertar curiosidade e criatividade dos alunos.

Por mais que seu uso não seja novidade para a educação, a tecnologia figurou como protagonista em 2020 por possibilitar que milhões de estudantes ao redor do mundo continuassem conectados às suas escolas, universidades e professores. Esse novo elemento na equação que é o processo educacional trouxe avanços, adaptações, processos de tentativas e erros e também muitas dúvidas.

Ao longo dos meses, foi possível notar escolas que adotaram diferentes estratégias para manter o contato com os alunos. Se algumas driblaram a falta de internet e equipamentos enviando apostilas aos estudantes em casa, outras criaram grupos de discussão no WhatsApp, promoveram encontros por plataformas online, fizeram transmissões e muitas outras ações. Entretanto, algumas medidas estão sendo erroneamente classificadas como ensino híbrido, o que tem contribuído para disseminar concepções incorretas sobre a abordagem.

 

Multiplicidade de conceitos e abordagens 

Leandro Holanda, diretor da Tríade Educacional, explica que o conceito começou a ser discutido muito antes do surgimento do novo coronavírus por uma gama de autores, o que acarreta a existência de diferentes abordagens e compreensões sobre o mesmo tema.

“Existem vários referenciais e o que nós seguimos é a abordagem dos autores Clayton Christensen e Michael Horn, que define ensino híbrido como uma modalidade de ensino que integra o presencial e o online”, afirma Leandro.

Mas o que tem se observado durante a pandemia é a substituição da parte ‘online’ do conceito por atividades remotas, ou seja, na casa de cada estudante. Portanto, o que está acontecendo em 2021 com a reabertura parcial das escolas é a integração entre aulas presenciais e propostas remotas.

“Até a pandemia, as dinâmicas estavam muito focadas no ensino híbrido que acontecia dentro da escola, na sala de aula. Essa etapa remota praticamente não existia. A discussão estava focada nas dinâmicas, nas metodologias ativas e em como colocar o aluno no centro do processo. Hoje, o debate enveredou para um lado que é como cuidar, ao mesmo tempo, de quem está na escola e em casa. E essa não é a discussão do ensino híbrido”.

Leandro explica que um dos princípios da modalidade é criar estratégias para engajar os estudantes. Muitos modelos adotados de forma emergencial por algumas escolas diante da pandemia não têm essa preocupação, e sim dão prioridade para um mesmo professor conseguir atender dois grupos de estudantes. “Para alguns autores, a transmissão das aulas é um modelo possível de ensino híbrido, mas essa configuração não estimula criatividade e colaboração entre os alunos. É um modelo com foco na logística, e não no pedagógico.”

Além disso, a mera transposição das aulas que eram realizadas presencialmente para o online tem contribuído para criar certa resistência dos estudantes diante das aulas remotas. Isso porque não promover adaptações e submetê-los a longas jornadas diante da tela, além de não estimular a criatividade e protagonismo, é cansativo.

 

Estratégias para a pandemia

●      Sala de aula invertida

Existem alguns princípios dessa modalidade de ensino que podem ser úteis principalmente nesse momento de aulas semipresenciais e rodízio entre grupos de uma mesma turma. Um deles é a sala de aula invertida: o estudante recebe uma proposta para fazer em casa e, quando for presencialmente para a escola, a aula terá início com uma discussão do que foi feito em casa. Essa técnica também pode ser aplicada ao trabalho com projetos. “Uma atividade não vai sobrepor o que já foi feito, mas sim trabalhar em cima da produção feita de forma assíncrona em casa. No presencial, o aluno conta o que fez em casa e reflete sobre os conteúdos envolvidos nessa experiência.”

●      Uso de dados e acompanhamento das produções

A tecnologia também pode ajudar os professores a elaborar as atividades e pensar na configuração dos grupos de alunos de forma a potencializar a aprendizagem. Algumas ferramentas podem ajudar o professor a entender se os estudantes estão ou não fazendo os trabalhos e, a partir desses dados, ele pode criar grupos específicos para ajudar a combater a defasagem da aprendizagem.

Por exemplo: se o professor já sabe que determinado grupo de estudantes não está realizando as propostas, para o dia que esse grupo frequentar a escola, serão necessárias atividades de reforço. Já para aqueles que estão realizando os trabalhos, o momento em sala de aula será destinado para aprofundar os conhecimentos.

Essas informações podem ser coletadas em planilhas ou até mesmo de forma mais simples: estudantes que realizam as propostas podem enviar fotos, áudios e vídeos curtos para o professor. “Acredito que o maior risco das atividades é os alunos se sentirem sem suporte e apoio dos professores. De certa forma, esse acompanhamento mostra que as atividades estão sendo vistas. Sabemos que o processo não se restringe a entrega de conteúdos, mas nesse momento estamos lutando para não perder alunos. Então em uma primeira camada pode-se verificar se estão fazendo ou não e, na segunda, mais profunda, como e o quanto estão aprendendo.”

●      Replanejamento curricular

Um movimento que pode ser interessante nesse momento é repensar o currículo e esclarecer o que é essencial que os alunos aprendam. Para isso, Leandro indica os Mapas de Foco produzidos pelo Instituto Reúna.

 

O que é e o que não é?

Definir o que é e o que não é ensino híbrido é uma tarefa desafiadora justamente por existirem muitos autores com diferentes concepções e abordagens do mesmo conceito. Entretanto, ao seguir a visão de determinado autor, é possível estabelecer alguns limites da modalidade. Seguindo a concepção de Clayton Christensen e Michael Horn, Leandro explica que:

Não pode ser configurado como ensino híbrido:

●      estratégias voltadas apenas a resolver a logística presencial e à distância de professores e estudantes;

●      gravação e envio de videoaulas como única estratégia sem outros complementos;

●      abordagens que não façam uso de metodologias ativas.

Pode ser considerado ensino híbrido:

●      integrar atividades online com atividades presenciais;

●      possibilitar e planejar processos que estudantes tenham contato entre si;

●      pensar em propostas que envolvam uma camada de produção dos estudantes além das videoaulas e textos, de forma a incentivar processamento e reflexão das informações.

 

Foto: jcomp/Pexels