Devolutiva do professor deve equilibrar desafio e motivação de estudantes

Parte importante do processo de aprendizagem dos estudantes, os feedbacks podem ser usados ao longo do ano de forma a incentivar o desenvolvimento de crianças e jovens.

Desde o nascimento, o ser humano aprende a cada segundo. Primeiro, a mamar. Depois, a comer, beber, andar, falar, escrever e por aí vai. Por isso, até o momento da morte, pode-se aprender a cada dia e, dessa forma, não existe alguém que detenha todos os conhecimentos.

Essa mesma lógica deve ser aplicada na escola. Mesmo diante daquele estudante que está muito à frente dos colegas, professores precisam estimulá-lo para que não se acomode e continue empenhado em suas descobertas educacionais. Por outro lado, alunos com dificuldades de aprendizagem também precisam ouvir palavras encorajadoras e não serem desmotivados por seus professores. Como encontrar esse equilíbrio?

No ambiente educacional, os docentes têm um papel central no processo de ensino-aprendizagem, o que envolve dar feedbacks aos alunos, ou seja, as devolutivas sobre o desempenho nas atividades propostas. Para entender o que está por trás dessas mensagens às crianças e jovens, bem como algumas técnicas para acertar o tom, a Vivescer conversou com Vanessa Zito, professora e especialista em psicopedagogia. Confira a seguir.

 

Vivescer: Qual é a importância do feedback personalizado e individualizado do professor no processo de aprendizagem dos estudantes?

Vanessa: Acredito que, em primeiro lugar, o feedback em relação às tarefas é respeitoso com o aluno. Essa devolutiva faz com que ele ou ela se sinta pertencente ao processo de aprendizagem. É diferente quando corrigimos uma tarefa e mandamos um recado automático, seja ‘parabéns’ para alguns ou ‘reveja’ para outros, de quando realmente paramos para olhar com mais sensibilidade, percebendo quais habilidades foram atingidas e quais ainda estão abaixo do esperado. Ao longo do ano, elenco algumas tarefas e atividades para realmente me dedicar ao feedback. Penso nas expectativas que tenho de aprendizagem, nas habilidades que os alunos precisam alcançar e, a partir disso, penso em devolutivas mais direcionadas, tanto escrita como de forma mais pessoal, com conversas para apontar caminhos para a criança desenvolver aquilo que ainda não foi possível.

 

Vivescer: Qual deve ser a postura dos docentes diante de estudantes que têm mais facilidade? Como é possível ser honesto com esse aluno e, ao mesmo tempo, garantir que ele não irá se acomodar no seu processo de aprendizagem?

Vanessa: Para estudantes que têm altas habilidades e que caminham com mais autonomia, o feedback se torna uma forma de ir além e desenvolver outras competências. Essa devolutiva pode, justamente, servir para que ele não se desmotive no seu processo de aprendizagem por estar em uma situação mais confortável. Eu trabalho com plataformas educacionais, então quando percebo que o aluno já está nessa posição mais avançada, passo desafios que não estavam no meu planejamento e observo como responde. Outra forma de estimular essas crianças é trazê-las como tutoras de colegas que precisam de mais apoio. Esse trabalho entre pares é uma forma de motivar os dois lados: tanto o aluno que já desenvolveu o que é esperado, como aquele que ainda não chegou nesse ponto.

 

Vivescer: Nos casos de estudantes que apresentam maior dificuldade, quais cuidados o professor precisa tomar para passar a mensagem de que é preciso melhorar, mas não desmotivá-lo completamente?

Vanessa: Quando vamos dar um feedback, precisamos olhar com sensibilidade para a atividade ou trabalho em questão, e elencar, sim, o que é necessário modificar, mas também ter um olhar cuidadoso para aquilo que o aluno conseguiu fazer e jogar o holofote em cima disso. Independente do retorno e da qualidade da tarefa, eu acredito que o professor precisa reforçar um ponto positivo com o objetivo de motivar. Além disso, escolher as palavras que vai direcionar à criança ou ao adolescente. Muito mais do que falar ou escrever, é necessário dar suporte, ensinar e mediar para que esse aluno consiga desenvolver a habilidade. Isso é muito importante para o processo de metacognição, ou seja, o estudante pensar no seu processo de ensino-aprendizagem, refletir sobre o que ele já sabe e sobre o que vai fazer para desenvolver aquilo que ainda não foi possível.

 

Vivescer: Esse trabalho entre pares pode ser um caminho para os casos em que a explicação do professor não consegue atingir alguns alunos?

Vanessa: A linguagem utilizada no trabalho entre os pares é muito mais próxima. Nesses casos, vejo o professor como um mediador desse processo, ou seja, pensar nos pares ou grupos, estabelecer um roteiro, elencar objetivos, ajustar o processo quando for necessário. Acho que é um conjunto: não é apenas a responsabilidade daquele aluno considerado excelente, e também não só do professor. É justamente o aluno como protagonista do processo de aprendizagem, o que vale tanto para aqueles que já atingiram o esperado como para os que ainda não.

 

Vivescer: Pode ser que, mesmo que sem intenção, professores acabem repetindo estereótipos no processo de ensino-aprendizagem que podem criar barreiras nos estudantes, como a frase ‘ciências não é para menina’ ou ‘você não é de exatas’. Como é possível contornar essas eventuais situações?

Vanessa: Isso é uma questão de mentalidade fixa e de mentalidade de crescimento. O feedback contínuo é importante nesse sentido. Ao elencar algumas atividades ao longo do ano para fornecer um feedback mais profundo, ajudamos que o próprio aluno possa perceber seus avanços e, com isso, mostrá-lo o quanto é capaz. Nesse processo, vamos ajudando-o a modificar essa mentalidade fixa de que não é bom em Língua Portuguesa, por exemplo, ou que não é bom em matemática. Por isso que também é importante pensar no suporte depois do feedback, ou seja, quais caminhos serão usados para que o estudante supere as dificuldades e quais mensagens serão usadas quando ele atingir seus objetivos. Tudo isso faz parte do processo de metacognição, durante o qual o aluno vai se conscientizando sobre seus avanços. Esse percurso demanda uma sensibilidade do educador, com um trabalho muito específico e cuidadoso.

 

Vivescer: Para terminar, qual seria o primeiro passo para quem deseja começar a entender mais a fundo o processo de dar retorno direcionados aos estudantes?

Vanessa: Eu acredito que o primeiro passo é se colocar no lugar do aluno. Há pouco tempo, concluí uma formação na qual me senti muito frustrada ao enviar tarefas e receber apenas uma nota. Quando eu e outros alunos fomos questionar, nos disseram que não era possível um retorno personalizado pela grande quantidade de estudantes no curso. Com isso, fui me desmotivando. Às vezes tinha uma nota muito boa, outras vezes nem tanto. Queria saber o que deveria modificar para a próxima entrega, não apenas para ter uma nota 10, mas para avançar no processo de aprendizagem. Antes disso eu não tinha esse olhar e essa experiência me ajudou muito como educadora. Passei a valorizar ainda mais esse retorno de atividades e tarefa de casa, com mais cuidado, respeito e atenção, porque sei o quanto pode fazer a diferença.

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7 dicas de perfis para qualificar seu tempo nas redes sociais

Ao invés de desconectar completamente, que tal qualificar o tempo nas redes sociais? Produtores de conteúdo incentivam novos hábitos, prática de exercício físico sem sair de casa, reorganização da rotina e reflexão sobre propósito. Confira

Não é mais segredo para ninguém que as redes sociais são pensadas de forma a fisgar os usuários e viciá-los na navegação pelos feeds infinitos. O filme “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix, traz depoimentos de profissionais envolvidos em grandes empresas de tecnologia afirmando que de fato existem estratégias pensadas especificamente para manter as pessoas conectadas, navegando pelos aplicativos.

Com a pandemia, muitas pessoas tentaram suprir o distanciamento social com uma conexão 24/7, ou seja, 24 horas por dia e sete dias por semana. Com quase um ano da chegada do novo coronavírus ao Brasil, já foi possível notar que esse modelo está longe do ideal. Mas, como muitas coisas, o segredo é o equilíbrio. Ao mesmo tempo em que as redes sociais podem despertar sentimentos de comparação, ansiedade e consumismo, também existem produtores de conteúdos que se especializam em determinados nichos e, com isso, qualificam o tempo que as pessoas passam nos aplicativos.

Por isso, a Vivescer fez uma seleção de alguns perfis que mostram um outro lado das redes sociais, ao incentivarem novos hábitos, darem dicas de organização da rotina, sugerirem exercícios físicos e de autoconhecimento e reflexões relacionadas ao propósito de vida, todas elas de alguma forma ligadas ao princípio de desenvolvimento integral do ser humano defendido pela plataforma. Confira a seguir.

 

– Corpo e mente

Pri Leite Yoga

Com 931 mil inscritos no YouTube, o canal de Priscilla traz a mensagem ‘Retire os sapatos, receba o meu abraço e pode entrar: você está em casa!’. São 344 vídeos que trazem exercícios de yoga tanto para pessoas iniciantes que nunca praticaram, como para aqueles mais avançados, que desejam aprimorar seus movimentos. Os vídeos incentivam o trabalho com flexibilidade, relaxamento, equilíbrio, fortalecimento e alongamento. A prática de yoga é conhecida por unir o trabalho entre corpo e mente: ao mesmo tempo que o corpo é exercitado, a mente relaxa. O canal conta também com conteúdos produzidos especialmente para a realização junto com crianças. Confira.

Norton Mello

Treinos online sem a necessidade de materiais de ginástica. Essa é a proposta do personal trainer e orientador físico Norton Mello, que, desde o começo da quarentena, realiza transmissões ao vivo para seus 595 mil seguidores no Instagram. A ideia é mostrar que qualquer pessoa pode praticar exercícios sem a necessidade de estar na academia. Os treinos, com duração média de 40 minutos, podem ser realizados por qualquer pessoa, independente de seu condicionamento físico. O preparador defende que as transmissões foram a forma encontrada para manter a atividade mesmo em meio à quarentena, fundamental, sobretudo, para quem passa o dia todo sentado em frente ao computador. Saiba mais.

Monja Coen

Engana-se quem pensa que o perfil de Monja Coen no Instagram é dedicado a falar exclusivamente sobre budismo. Com 2,4 milhões de seguidores, Monja Coen fala sobre assuntos diversos que se aplicam a todas as pessoas do mundo, como a importância de fazer o bem, como lidar com a dor, dicas de leituras, a busca por caminhos alternativos à violência, entre outros conteúdos. Além da série Monja Coen Responde, essa no YouTube, seu canal no Instagram é abastecido com vídeos sobre budismo, ansiedade e estresse, mensagens e preces, que alcançam milhares de reproduções. Assista.

 

– Autoconhecimento e hábitos

Eurekka.me

Originalmente uma clínica de psicologia fundada em 2017 por três jovens psicólogos de Porto Alegre (RS), a Eurekka conseguiu, com sua presença online, levar conteúdos sobre saúde emocional para todo o Brasil, além dos atendimentos presenciais. As produções envolvem vídeos no YouTube, a publicação de livros, terapia online e presencial, um aplicativo de fácil acesso aos conteúdos e uma ferramenta de inteligência artificial para fornecer apoio emocional. Diariamente os 553 mil seguidores no Instagram recebem dicas sobre relacionamentos profissionais e pessoais, comportamentos, como praticar autoconhecimento, enfrentamento da ansiedade, transtornos de alimentação e muitos outros temas, todos abordados de forma simples e acessível. Conheça.

Bookster

Qualquer um dos 293 mil seguidores de Pedro Pacífico no Instagram já sabe que “leitura é hábito”. O advogado usa sua página na rede social para incentivar o hábito da leitura. Além de publicar resenhas das obras que lê, ele mostra novas leituras e incentiva o engajamento dos seguidores com desafios do tipo clubes de leitura. Considerado uma das 30 pessoas mais influentes com menos de 30 anos pela Forbes, Pedro comanda um perfil literário que visa descomplicar a leitura, desencorajar comparações do tipo ‘quantos livros você lê?’, discutir produções brasileiras e internacionais e mostrar que o conhecimento das páginas pode não somente ser um passatempo, mas também mudar vidas. Acesse.

Hábitos que mudam

Trabalhando com planejamento estratégico há mais de sete anos, Laris Rodrigues decidiu criar a Hábitos que Mudam, página no Instagram dedicada ao compartilhamento de dicas e sugestões que, ao serem implementadas na rotina, podem ajudar na organização, produtividade, criação de novos hábitos e aprimoramento de práticas não tão boas. Com mais de 135 mil seguidores, os posts apostam em cores e desenhos para chamar a atenção do público para práticas de foco, como lidar com situações no home office, dicas de séries e filmes sobre organização, a importância da criação do hábito do descanso, como se planejar para mais realizações, como tirar projetos do papel, entre outros conteúdos. Saiba mais.

 

– Propósito

Marisa Bussacos

Com um olhar integral para o ser humano, Marisa Bussacos atua em processos de coaching, biografia humana e propósito. A partir dos princípios da antroposofia, Marisa incentiva, em mais de mil publicações, reflexões sobre vida, propósito, valores e conexão interna. Com posts no Instagram, em seu site e em outras redes sociais, aborda temas diversos como integração entre as chamadas hard e soft skills, dicas para como encerrar bem um ciclo, autoconhecimento, a compreensão de jornadas, a separação entre a pessoa e sua vida profissional e outros assuntos. Conheça.

 

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A importância da conexão entre educação e artes

O período de aulas remotas levou professores a se questionarem diariamente sobre o que era essencial investigar com os alunos. Agora, durante as férias, isso vale também para o próprio educador, que pode encontrar na arte uma forma de mudar o olhar para o mundo e encontrar novas ideias que o mobilizem.

É sobre esse tema que conversamos com a educadora Stela Barbieiri. Artista, escritora, diretora do Binåh Espaço de Arte, Stela foi curadora do educativo da Fundação Bienal, em São Paulo(SP), diretora do educativo do Instituto Tomie Ohtake e prestou assessoria para diversas instituições de ensino e cultura. Sempre trabalhando com a relação entre educação e arte.

Nessa entrevista, ela falou sobre a potência artística dos territórios escolares e a importância da arte permear todo o currículo. Stela também ressaltou  que a pandemia ressignificou o trabalho artístico: “Em busca da sobrevivência do espírito,  muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Enquanto uns passaram a bordar, outros projetaram palavras de indignação com a política na parede dos prédios”, afirma.

 

Vivescer  – Em um perfil da senhora para o site Diálogos e Vivências Pedagógicas é definida assim sua relação com a escola: “ Já na hora de ir para a escola, ah, a escola, essa deixava a desejar. Stela gostava de estar com os amigos, mas o jeito que o ensino era feito não era algo bom”. Até hoje o grande desafio da escola é dialogar com as diferenças todas para que todas as crianças e jovens possam habitá-la”, explica Stela. Ela reforça uma palavra bem importante, que apareceu várias vezes durante a nossa conversa: “possibilidade”. Isto posto, a senhora pode explicar um pouco mais a sua relação com a escola e com o desempenho escolar?

Stela Barbieri –  A minha relação com a escola era por meio da relação com as pessoas,  gostava de conviver com meus colegas e professores, mas os processos pedagógicos não me engajavam. Eu pulava o muro da escola pra ir com meus amigos pra praça. Nas aulas, minha atenção estava voltada para as histórias da minha imaginação.

Meus pais eram rigorosos e me orientavam a me envolver mais com a escola, mas o modo como as questões eram apresentadas não me gerava curiosidade ou vontade. Fazia as lições porque era necessário fazê-las, mas raramente com desejo ou envolvimento.

Foi na biblioteca municipal de Araraquara onde mais aprendi sobre artes, literatura, convívio com diferentes universos e faixas etárias, e também as singularidades dos modos de ser e as diferentes expressões por meio das linguagens. Na biblioteca, fazíamos saraus de poesia, aulas de xilogravura, grupos de leitura e escrita. Também nos quintais das minhas três tias educadoras, aprendi sobre a educação com afeto e com escuta atenta. Meus pais percebiam estes movimentos e sempre me apoiaram.

 

Vivescer – Como a senhora avalia o impacto do isolamento social?

Stela Barbieri – A pandemia escancarou muitos problemas na vida do nosso planeta e a arte fala da vida o tempo todo. Muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Alguns fazendo aquarelas semanais, outros fotografando o cotidiano, outros experimentando tintas fritas em casa.

Ficaram gritantes para a grande maioria da população do planeta, as questões de saúde, políticas, as disparidades econômicas e sociais, os problemas com o meio ambiente, as questões raciais, de gênero, as questões familiares e comunitárias. Esta situação nos convocou a olhar para a vida e nos perguntar: o que é essencial aprender agora?

Como nos relacionamos neste momento? Como “acordar” a casa para viver o isolamento físico num ambiente de imersão total, onde tudo acontece no mesmo lugar (trabalho dos pais, estudo das crianças, necessidades essenciais de sobrevivência). Como acordar a escola para não repetir a infelicidade de uma educação sem sentido para os seus participantes, ainda mais agora com a distância física e as dificuldades sociais que se desdobram na falta de acesso à tecnologia?

 

Vivescer – E a partir disso, que novas possibilidades foram geradas para um contato com a arte?

Stela – A pandemia gerou outros tipos de encontros, a presença na ausência, inventada a cada dia.

Aprendemos que a escola não está restrita a um prédio, a escola se concretiza nas concepções e nos modos de fazer a educação acontecer em todos os lugares, mas ao mesmo tempo pudemos perceber como a escola com seu espaço físico, o convívio com professores e colegas fez falta na vida da maioria das crianças, como lugar de nutrição em todos os sentidos.

A expressão por meio das linguagens nos encontros remotos foi fundamental para manter a vitalidade.

As pessoas passaram a investigar modos de fazer a arte acontecer a distância – shows, narrativas de histórias, peças de teatro, leituras partilhadas, saraus de poesia, exposições. Penso que os modos de se relacionar a distância estão sendo reinventadas a cada dia. O estado da arte esteve muito presente nestes momentos de suspensão da vida ordinária e perda de pessoas queridas.

 

Vivescer – Como as novas formas de apresentação artísticas, notadamente aquelas desenvolvidas durante a pandemia, especificamente, o teatro, online, os shows em formato de live, podem impactar o ensino de arte?

Stela  – A arte tem sido um caminho de sanidade para muitas pessoas ao longo da pandemia, ouvir músicas, assistir shows, filmes, ler poemas, romances, ouvir histórias narradas, assistir peças de teatro nos trás deslocamentos e abre caminho para re-existir inventando outros modos para cuidar do planeta e de nossa própria alma.

As ferramentas tecnológicas estão sendo investigadas na construção das linguagens e creio que, neste sentido, temos um longo caminho pela frente.

 

Vivescer – Como educadores podem  criar uma cultura forte de visitas a exposições, peças de teatros e shows na rede pública?

Stela – A escola aberta à cidade, aberta à floresta, a escola aberta às instituições culturais e as manifestações artísticas se nutre do vivo, gerando mais vida.

Esta prática da escola em diálogo com o mundo,  produz um movimento de aproximação entre a riqueza dos pensamentos e expressões das crianças,  encontrando com a riqueza dos pensamentos e linguagens de outros habitantes da cidade.

 

Vicescer – Como a escola pode dialogar com a comunidade artística onde houver deficiência de espaços culturais?

Stela – Penso que os artistas locais podem estar mais presentes na escola, dando oficinas para toda a comunidade escolar, crianças, professores e famílias. A escola também pode se deslocar visitando os ateliês dos artistas.

 

Vicescer – E dentro da escola, o que pode ser feito para utilizar os diferentes espaços para um trabalhar da arte como componente curricular e como uma forma de desenvolvimento do estudante?

Stela – Os espaços escolares comunicam valores e revelam sistemas de estruturação e de funcionamento de cada lugar, são expressões do cotidiano. Para que os espaços tenham significação no dia a dia, é preciso problematizá-los e transformá-los constantemente em formação e troca entre educadores, por meio da escuta atenta aos estudantes e aos colegas, além da criação de contextos de aprendizagens ricos (levando em conta tempo, espaço e materialidade) com perguntas de qualidade como sustentação, gerando caminhos de investigação engajadores .

A arte pode estar presente em todos os momentos da escola e em todos os espaços, não ficando reduzida unicamente ao ateliê, mas podendo expandir a ocupação conforme as intencionalidades do trabalho a ser realizado.

 

Vivescer  – Que recomendações você  poderia dar para o professor expandir seu olhar ou conhecimento em arte ainda que a distância durante as férias?

Stela – Penso que nas férias nos faz bem andar, nadar, ver as estrelas. Observar a natureza, os acontecimentos a nossa volta, o céu, mar, as plantas, dar tempo ao tempo…. ler bons livros, conversar, assistir belos filmes!

Estudar a obra de artistas e as questões pelas quais foram mobilizados. Estar em contato consigo, ouvir música e nos nutrirmos do que é bom e faz bem em todas as instâncias da existência.

 

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A importância de trabalho com o corpo para professores e alunos

A rotina desgastante vivida ao longo das aulas remotas ligou o alerta para muitos professores sobre o autocuidado. Na Vivescer, a jornada do corpo é destinada justamente a esse tema e, em breve, os educadores cadastrados vão poder acessar novo percurso, também de olho em enriquecer o trabalho sobre desenvolvimento integral.

O programa contou com a parceria do educador André Trindade, que desde 1997 desenvolve um trabalho de conscientização corporal em escolas públicas e particulares, que deu origem ao livro “Mapas do corpo: Educação postural de crianças e adolescentes” (Summus Editorial, 291 páginas).

A obra traz um conjunto de referências capazes de determinar distâncias, direções e ligações entre as partes do corpo, a fim de facilitar o movimento coordenado. Além disso, apresenta atividades para estimular a boa postura, a flexibilidade, a autoconfiança e o prazer da brincadeira.

O saldo da iniciativa é tão positivo que atualmente os alunos que passaram pela experiência pedem que ela seja repetida. “É comum que os estudantes peçam pausas e alguns minutos de silêncio”, conta Trindade. Na entrevista que você lê abaixo, Trindade comenta a importância de conhecer o próprio corpo, como o tema está presente nas escolas e o impacto da pandemia no desenvolvimento de professores e estudantes.

 

Vivescer – Como o corpo pode ser um grande aliado no processo de autoconhecimento?

André Trindade – Habitamos nosso corpo desde o ventre de nossas mães. Nos primeiros três anos de vida, as conquistas motoras, como rolar, engatinhar, sentar, andar estão fortemente associadas à noção de si mesmo. O corpo também permeia as relações afetivas com o mamar, o colo, a troca de afetos e carinhos. E a criança aprende com as nossas atitudes. Ao longo da primeira infância, as conquistas corporais permanecem de grande interesse para a criança: correr, saltar, equilibrar-se, andar de bicicleta, além da conquista da autonomia como alimentar-se sozinho, vestir-se, aprender a escrever.

Em nossa cultura, a partir do ensino fundamental, isso vai perdendo importância. Depois, quando conquistamos um certo nível de controle sobre a motricidade, passamos a ter interesse por outras áreas, isso é humano, mas, o que acontece é que na nossa cultura o corpo vai sendo deixado de lado diferentemente de outras culturas. A gente continua com o trabalho corporal, mas ele é menos valorizado.

 

Vivescer – O que você  passa nas formações? Como convencer professores sobre a importância da educação corporal?

Trindade – Os professores não são formados sobre a importância da organização postural, da coordenação motora e do impacto que isso tem no aprendizado dentro da sala de aula.

Por exemplo, se o educador tivesse instrumentos para ensinar os alunos a se sentarem em posturas saudáveis, com certeza a capacidade de atenção do grupo seria muito maior.

Hoje sabemos pelos estudos da neurociência que a postura física influencia enormemente a capacidade de foco e atenção.

Da mesma forma, se o professor conhecesse melhor a própria postura durante as aulas, evitaria uma série de problemas ortopédicos futuros. A voz faz parte do “corpo” e é exageradamente utilizada pelo professor em sua comunicação. Isso traz problemas para este instrumento tão precioso. Porém, há inúmeros outros recursos corporais que podem aliviar o excesso de uso da voz e tornar a comunicação mais efetiva.

Os professores podem inicialmente se sentir envergonhados de aprender sobre o corpo e trazer essas informações para suas rotinas. Mas, quando experimentam e veem o resultado, aderem às propostas.

 

Vivescer – O que fazer quando se está limitado ao espaço de casa?

Trindade – A pandemia prendeu os nossos corpos nos espaços privados e rompeu, de certa forma, essa relação de corpo a corpo. Mas a gente percebeu o quanto dependemos do nosso corpo. O lado do ganho, é alcançar outras tecnologias, é um ganho para o professor, porque ele teve que se renovar. O professor tem um trabalho com nobreza, comparável ao do médico. É gente que está na linha de frente, as escolas não estavam preparadas , diferente de outras profissões. É preciso manter os alunos, conectados, vinculados e interessados. Inclusive por causa da evasão escolar brutal. Manter a conexão hoje, é tão ou mais importante do que transmitir os conteúdos. O aspecto pessoal do professor e o vínculo que ele consegue estabelecer com o aluno, ao meu ver, tem mais valor do que sua capacidade técnica como profissional.

 

Vivescer – Como qualquer professor, não só o de educação física, pode levar esses conceitos a seus alunos?

Trindade – O trabalho corporal tem relação direta com o autoconhecimento e a liberdade de escolhas. Na escola, isso é um aprendizado muito importante. As crianças estão muito mais ligadas à linguagem corporal do que nós, adultos, e aprendem por meio da expressão corporal dos seus professores, muito mais com gestos do que com palavras. Se o professor está nervoso e agitado, não adianta falar pra criança “ficar calma”. É preciso que ele próprio se acalme e isso faz com que os alunos encontrem coerência no pedido.

 

Vivescer –  O Brasil tem uma cultura sedentária. Dito isso, como o professor consegue levar a questão do exercício e da mobilidade corporal para sala de aula?

Trindade – Discordo que o Brasil seja um país sedentário. Penso que a cultura ocidental é sedentária. O Brasil tem uma corporalidade festiva, carnavalesca, somos inclusive, na minha visão, mais sensoriais do que os europeus ou os norte-americanos. O corpo representa a minha porção atuante, viva. Na escola, já ocorre uma formação da consciência corporal, tanto nas aulas de educação física, quanto na utilização do espaço.

Agora, dentro da sala de aula, eu dizia que é muito pouco o que se aprende sobre o corpo. Colocar uma criança sentada por cinco horas e esperar que ela fique sentada não dá certo. Não há quem mantenha o interesse.

É preciso ter humildade para aprender. Em seguida, todos podem ensinar. Meus livros são bastante didáticos e logo mais teremos uma Jornada na plataforma do Vivescer com todo esse conteúdo.

 

Vivescer – No caso dos alunos, como essa abordagem pode ajudá-los a se sentir melhor em casa? A questão emocional tem sido muito falada.

Trindade – O ensino remoto, que foi necessário por causa da pandemia, afetou ainda mais o processo de comunicação corporal entre os estudantes e os professores. Percebemos como a relação presencial é rica na comunicação dos conteúdos.

O confinamento prendeu os nossos corpos em espaços privados, rompendo a relação de comunicação corpo a corpo, tornando o trabalho do professor e do aluno muito mais difícil. Por outro lado, houve um ganho para o professor por acessar novas tecnologias.

 

Vivescer – Algumas empresas já desenvolvem programas em que os funcionários param por 5 minutos para fazer exercícios, é possível implementar processos como esses nas escolas? Se sim, como fazer?

Trindade – Proponho que os professores façam pausas, cinco, dez minutos, uma dança livre, exercícios de relaxamento, de respiração… Desenvolvo esse trabalho desde 1997, em escolas particulares e da rede pública e escrevi um livro chamado “Mapas do Corpo”, que trata da educação postural de crianças e adolescentes, nas escolas e nas famílias.

 

Vivescer – Como pensar as suas formações quando há pessoas com deficiência, sejam professores ou estudantes?

Trindade – Para a inclusão ocorrer, é preciso haver condições de ocorrência. Muitas vezes não existem essas condições. Para mim a palavra chave para poder incluir é o respeito à diversidade. Não podemos uniformizar o corpo ou a busca de um corpo ideal. Cada um deve respeitar seus limites e, ao mesmo tempo, tentar superá-los. Hoje vemos cadeirantes praticando esportes e dança. É preciso adaptar as propostas para os diferentes “corpos”.

 

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Pesquisas mostram as percepções de professores e alunos sobre o ano letivo de 2020

Com 2020 chegando ao fim, já é possível entender com mais clareza o que significou esse ano letivo atípico para a comunidade escolar em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19).

Com professores sobrecarregados e alunos com problemas de acesso à internet e computadores, a experiência de aulas remotas mexeu muito com o emocional e demandou que todos aprendessem rápido a lidar com plataformas digitais que não eram usadas de forma constante em anos anteriores.

Só que o período de fechamento das escolas foi maior que o esperado e muitos alunos têm demonstrado a desmotivação com os estudos. Uma série de pesquisas recentes, com a participação de estudantes, educadores e gestores, resumem o que é ensinar e aprender longe da escola.

 

Professores preocupados
Voltar à sala de aula é motivo de preocupação para a maior parte dos educadores. A pesquisa “Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil”, do Instituto Península, realizada entre julho e agosto mostrou que, numa escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável, a média do nível de conforto de professores das redes privada, estadual e municipal em relação a volta às aulas é de 1,07.

Entre as maiores preocupações dos docentes, estão: o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação do coronavírus (86%), lidar com o receio da contaminação do coronavírus (83%) e recuperar a aprendizagem perdida dos estudantes com a retomada das aulas presenciais (67%).

Quando perguntados sobre os apoios mais necessários na volta às aulas, orientações para lidar com os protocolos de retorno e questões de saúde (73%), assim como apoio para dar suporte emocional para os alunos (68%) e, finalmente, receber atendimento emocional para si (56%) são os mais citados.

 

Fatores que dificultam o acesso
Enquanto as aulas remotas continuam, o estudo Painel TIC COVID-19, divulgado em novembro pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), reitera a dificuldade de conexão por parte dos alunos, que nas classes mais pobres adotam o celular para acompanhar as aulas, o que já limita a possibilidade de produzir conteúdos ou de acompanhar aulas mais diversificadas. No entanto, chama a atenção para outros fatores que interferem na rotina do estudante, como a crise financeira.

Com a renda familiar comprometida, entrevistados citam a necessidade de buscar emprego (56%); de cuidar da casa, dos irmãos, filhos ou de outros parentes (48%). Longe do convívio social que escolas e universidades proporcionam, 45% também disseram que não acompanham aulas por falta de motivação.

 

Estudantes desmotivados
Ainda sobre a desconexão com os estudos, a pesquisa  “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus”, promovida pelo CONJUVE (Conselho Nacional da Juventude), alerta que essa falta de engajamento pode trazer prejuízos para além da vida escolar. Em junho, quase 30% dos jovens pensavam em deixar a escola e, entre os que planejavam fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), 49% já pensavam em desistir.

Divulgada também em novembro, uma quarta onda da pesquisa Datafolha, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures também alerta que 54% estão desmotivados, mesmo em uma situação em que 92% dispõem de materiais didáticos (uma alta expressiva em relação a maio, quando 74% acessavam recursos pedagógicos)

O mesmo estudo apontou que diante de todas as dificuldades enfrentadas pelos alunos,  51% das famílias consideram que estão participando mais da educação dos estudantes, no período da pandemia. Além disso, uma outra boa notícia, 71% dos responsáveis pelos estudantes reconhecem e estão valorizando mais o trabalho desenvolvido pelos professores.

 

 

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Reforçar comunicação e contato humano é primeiro passo para retomada das aulas, defende educadora

Para Terê Fogaça de Almeida, recuperação de conteúdo é importante, mas não deve ser a prioridade neste momento. Educadora reforça a importância de enxergar a escola como espaço de interação entre diferentes seres humanos e suas experiências

Mais do que um espaço para aprender e trocar experiências, a escola é um ambiente essencial de trocas entre seres humanos. Essa é a visão de Terezinha Fogaça de Almeida, mais conhecida como Terê, educadora, fundadora e diretora da escola Ágora.

Nascida e criada em uma família de professores, Terê pensa educação desde criança e critica o sistema tradicional de ensino adotado por muitas escolas, que remete ao sistema fabril adotado aos moldes da Revolução Industrial: crianças enfileiradas, uniformizadas, com um sino separando os períodos na escola e notas atribuindo o conhecimento.

Para a educadora, hoje são as escolas que precisam fazer o que chama de alfabetização social, isto é, promover o contato de crianças e jovens com realidades diferentes das suas, uma vez que os núcleos familiares estão cada vez mais fechados e a convivência fora de casa mais restrita.

Esses e outros temas foram pauta da live semanal realizada pela Vivescer no dia 29 de outubro, que inspirou a conversa a seguir.

 

Vivescer: Na live da qual você participou na Vivescer, você comenta que a escola ‘tem que construir esse espaço para o aluno conviver com os colegas como pessoas diferentes e entender que o mundo é uma colcha de retalhos de gente, de mil cores’. O que você acredita que é um bom processo de retomada das aulas presenciais?  

Terê Fogaça de Almeida: A primeira coisa que a escola devia fazer na volta é não ter pressa em retomar os conteúdos tradicionais nas áreas de estudo. Na minha opinião, acredito que, na primeira semana de aula, são necessárias conversas olho no olho, de pessoa para pessoa, e não de professor para alunos e vice-versa. Falar sobre o que foi difícil e o que foi bom. É a realização de uma ampla conversa entre os seres humanos daquela sala, incluindo o professor, para fazer um balanço da pandemia e contar experiências interessantes. Em seguida, também é interessante fazer uma integração entre alunos mais velhos e mais novos.

 

Vivescer: ‘A boa escola é aquela que oferece o que está faltando para a sociedade’. Nesse sentido, o que falta nesse momento que deve receber mais atenção do corpo docente e equipe pedagógica?

Terê: O que mais está faltando nesse momento é presença humana em nossas vidas. Em primeiro lugar, precisamos da possibilidade de olhar em outros olhos, ouvir outras vozes presencialmente. É o olho no olho, é mandar um beijo e abraço de longo, e sentir a presença humana ao vivo, e não virtualmente. A comunicação entre pessoas é o que falta nesse momento e é o que deveria vir em primeiríssimo lugar.

 

Vivescer: Como a pressa em retomar o conteúdo, que remete ao que você chama de escola no modelo fabril – com crianças uniformizadas e enfileiradas – se contrapõe a essa escola enquanto espaço de promoção do ser humano, como defende a psicóloga e educadora argentina Sara Paín? 

Terê: A primeira coisa que a instituição escolar precisa reconhecer nesse momento é que, entre muitas aspas, a escola ‘ficou para trás’ de outros setores da sociedade em 2020. A instituição escolar tem que aceitar, humildemente, que a realidade se sobrepôs ao papel dela, e que, por isso, o resgate que deve tentar fazer é de corações e mentes, no sentido da concentração, da comunicação, da empatia, e não no sentido da inteligência e da intelectualidade em si. Não se deve ter pressa ou ter essa visão distorcida de que é possível recuperar 2020 pedagogicamente. Apesar dos prejuízos, nós vamos para frente, porque é do futuro que a educação trata. Não é que não temos que recuperar o conteúdo. Temos sim. Mas isso não deve ser a prioridade nesse momento.

 

Vivescer: Por onde você acredita que é possível iniciar uma conversa com os professores? Que coisas que pediria que mudassem já na primeira semana em relação ao que a escola era em março?

Terê: As mudanças iniciais são as conversas de gente com gente, olho no olho, pessoa a pessoa, que mencionei. Na Ágora, antes de retomar as aulas presenciais, fizemos uma reunião de equipe e começamos pedindo para que os professores se colocassem pessoalmente em relação ao que aconteceu esse ano: o que sentiram, suas ansiedades, seus sentimentos de perda, o que foi mais difícil de enfrentar. Acredito que, com os alunos, devemos seguir o mesmo caminho. Agora é hora de cuidar muito bem dos nossos seres humanos que fazem parte da nossa comunidade. É hora de ouvir, de consolar, de reorientar.

 

Vivescer: Você vê que esse período acarretará mudanças duradouras em crianças e jovens? 

Terê: Algo que venho percebendo há tempos, é que crianças e jovens da atualidade não tinham perspectivas de futuro até março. Falar de futuro com elas causava um estranhamento. É um palpite, mas acredito que a relação das crianças e jovens com o futuro deve estar mudando a partir da pandemia, porque eles experimentaram um tempo estendido no qual não podiam fazer o que queriam. De repente, uma maior que não é nem vista a olho nu se impôs e falou ‘você não é o dono do mundo’. Então eles precisaram se rever diante do mundo e da sociedade, e tiveram que se render a essa força maior.

 

Vivescer: Como você acredita que será a passagem de 2020 para 2021 nas escolas? 

Terê: Atualmente, não estou indo para a escola porque pertenço ao grupo de risco. Mas os professores da Ágora ainda estão fazendo ajustes, corrigindo lições, esclarecendo eventuais dúvidas que ficaram, ministrando aulas de reforço. Em 2020, vamos fazer um fechamento muito diferente, trazendo esses balanços pessoais do que foi para cada um passar por esse período, além de fazer uma investigação para ver como a visão de mundo dos nossos alunos se alterou a partir do que vem acontecendo desde março. Queremos saber é da condição humana diante desse cenário.

 

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Como as rodas de conversa podem melhorar dinâmicas na escola

Lapis coloridos formando um círculo

No âmbito das escolas, além dos encontros entre professores e seus estudantes, foram muitas as reuniões virtuais de planejamento e formação com corpo docente, orientação e direção escolar. Apesar do contato constante, a volta às aulas presenciais vai demandar atenção especial.

De acordo com o guia Orientações de Acolhimento para Professores, criado pelo Instituto Península, é de extrema importância abrir espaços para que os professores possam falar e serem ouvidos. Além de apresentar um modelo de questionário que pode ser aplicado com docentes antes mesmo do retorno à escola, com o objetivo de refletir sobre as experiências e sentimentos durante a quarentena, bem como a sobrecarga de trabalho e a forma com a qual gostariam de ser acolhidos, o guia cita alguns caminhos para esse processo de retomada das atividades.

As rodas de conversa, que devem ser feitas com todos os cuidados para respeitar determinações e protocolos sanitários, são uma estratégia abordada pelo documento para promover uma escuta coletiva e apoio entre os docentes, além de ser uma forma de incluir diferenças e possibilitar o compartilhamento de conhecimento por profissionais com diferentes atribuições na escola.

“A inclusão dos diferentes pontos de vista na narrativa construída através das rodas, traz a oportunidade de que cada um amplie seu olhar na composição com o olhar do outro, contribuindo para a empatia e a colaboração. E, o conjunto dessa narrativa consiste num guia que vai apontar intervenções necessárias e apoiar a organização de grupos de trabalho comprometidos com a realização destas ações”, explica trecho do estudo.

Prática institucionalizada
Muito antes da pandemia, as rodas de acolhimento já são uma prática recorrente na escola municipal Dulce de Faria Martins Migliorini, de Itirapina, em São Paulo. Localizada próxima de dois presídios e inserida em um contexto periférico e de vulnerabilidade social, a instituição tinha resultados insatisfatórios na aprendizagem de seus estudantes. Por isso, em 2016 e com apoio do Instituto Península, teve início um verdadeiro processo de transformação, graças a um novo plano de ação, como explica Fabiana Costa, diretora da escola.

“Começamos a estudar várias metodologias e criar dispositivos para que as mudanças acontecessem em nossa escola. Nada foi feito a partir da imposição. Nós fomos escutando, conversando, falando sobre nossos desejos e conhecendo outras experiências. Criei grupos pela escola para praticar uma escuta mais ativa e, aos poucos, as coisas foram mudando.”

A educadora reforça que não foi um processo fácil, uma vez que, para promover uma transformação da escola, foi necessário envolver todos os profissionais, não só os professores. “É difícil tirar as pessoas da zona de conforto. Nós ouvimos muito a frase ‘dou aula há tantos anos e sei o que estou fazendo’. Então foi um processo longo e dolorido. Mas os professores foram vendo outras possibilidades”, explica Fabiana.

Além do pedagógico
Fabiana conta que os horários de trabalho pedagógicos coletivos (HTPC) da escola eram, antes da mudança, dedicados exclusivamente a questões pedagógicas e envolviam apenas a direção, coordenação e corpo docente. Quando teve início o processo de transformação, que contou com apoio e acompanhamento de diversos profissionais, um deles compartilhou com o grupo a metodologia das rodas de conversa.

As práticas tiveram início com o check-in, ou seja, um intervalo de tempo no início de cada encontro para que o grupo possa entender como cada um está se sentindo. “É muito importante sentir o clima da equipe para começar uma reunião. Não dá para abordar um tema complexo se a equipe está super para baixo.”

Práticas de meditação guiada com o uso de aromas e músicas na sala também são mecanismos utilizados para mudar o clima do ambiente para começar as reuniões. Além disso, a ordem de fala também foi uma prática que, apesar de desafiadora, deu bons resultados. Em linhas gerais, cada pessoa deve se posicionar e não pode ser interrompida pelos colegas. Quem quiser falar novamente, tem o nome anotado em uma lista a ser seguida quando todos se posicionarem.

“Uma vez fizemos uma reunião sobre brincar e convidamos professores de uma outra escola de tempo integral para mostrar como estávamos nos reunindo. Surgiu um assunto polêmico e o pessoal começou a ficar um pouco alterado, mas mesmo assim, como já estávamos acostumados, ninguém se intrometeu. Ao final, a diretora da outra escola veio me dizer que nunca tinha visto isso na vida, que nós não criticamos ou julgamos. Expliquei que foi necessário todo um processo para que os professores entendessem que não invalidamos a fala do outro, já que é o que a pessoa está sentindo, e sim escutamos, acolhemos e, se for o caso, desconstruímos isso junto, com respeito e educação. Parece algo pequeno, mas é super importante pontuar a necessidade de ouvir e respeitar o outro, mesmo quando não concordamos”, reforça Fabiana.

Estratégia para a escola inteira
Para que a escola obtivesse sucesso em seu processo de transformação, as mudanças não ficaram restritas aos momentos de reuniões de professores e demais funcionários. Uma sala do lado da direção, por exemplo, foi transformada em uma sala de acolhimento para alunos, famílias e funcionários, com alterações simples: um pallet no chão, almofadas coloridas, desenhos, frases motivacionais e mandalas pintadas por estudantes nas paredes.

“Quando algum aluno apronta e mandam para a minha sala, nós vamos para essa salinha, eu sento com ele no chão, converso e tento entender porque fez aquilo. Temos que tentar entender o que está acontecendo com a criança porque, muitas vezes, se ela está descontrolada, pode estar com problemas em casa, por exemplo”, explica Fabiana.

Segundo a diretora, todas essas mudanças possibilitaram que a escola mudasse de patamar na comunidade e passasse a ser admirada por todos, reconhecida como um espaço que realmente pratica e promove a educação integral. “Eu fico muito feliz com as pequenas coisas que estão por trás do aumento do nosso Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica]. Quando os alunos saem daqui, os diretores de outras escolas nos contam o quanto eles são diferentes de outros em termos de autonomia, resolução de conflitos e escuta. Essas são características de um ser humano inteiro, que vai além de português, matemática e história. É um aluno saber ter empatia, escutar o outro e ter oralidade. Tudo isso é resultado de mudanças no dia a dia e da relação dos professores e estudantes.”

Foto: Freepik

6 dicas para professores no contexto da volta às aulas

Sala de aula de ensino fundamental com crianças sentadas e desenvolvendo trabalho em grupo

O coronavírus é o primeiro item na lista de muitas preocupações entre os docentes quando o assunto é volta às aulas. De acordo com a terceira onda da pesquisa Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil, do Instituto Península, 86% dos professores respondentes afirmam se preocupar com o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação da Covid-19.

Entre os apoios que mais gostariam de receber está orientações para lidar com os protocolos de retorno e questões de saúde (73%), assim como apoio para dar suporte emocional para os alunos (68%). Todas essas informações apontam para o fato de que são poucos os que se sentem encorajados a voltar ao trabalho presencial. Numa escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável, a média do nível de conforto de professores das redes privada, estadual e municipal em relação a volta às aulas é de 1,07.

Pensando em formas de acolher essas questões e, ao mesmo tempo, promover estratégias para que todos se sintam mais confortáveis com os próximos meses, a Vivescer conversou com Walquíria Castelo Branco, consultora e professora da CESAR School, centro de tecnologia, inovação e transformação digital localizado no Recife (PE) Confira seis atitudes que podem ajudar os docentes no retorno.

Menos cobrança, mais trabalho em grupo (mesmo que remotamente ou online)
“Nós sabemos de toda a complexidade do papel do professor em um momento como esse. Apesar de muito se exigir deles, os docentes precisam compreender que não podem fazer tudo sozinhos. Eles podem, sim, fazer muito, mas de forma estratégica. Aqui no Recife, um professor andava, todos os dias, 15 quilômetros de bicicleta para entregar a lição dos alunos porque a escola estava fechada e ele achava que era seu dever. O Brasil está cheio desses exemplos de educadores querendo resolver sozinhos problemas que, muitas vezes, são estruturais. Com isso, eles acabam se frustrando muito. Então, é preciso entender que há momentos, e esse é um deles, em que não poderão atuar sozinhos. É um tipo de problema tão complexo que ele precisará estar em contato com profissionais da saúde, da assistência social e de órgãos governamentais, além das famílias e comunidade.”

Acolher e considerar as aprendizagens da pandemia
“Não é porque crianças e jovens estavam fora da escola que não aprenderam. Eles aprenderam e muito, alguns deles aprenderam coisas dolorosas. Em um primeiro momento, o papel do professor é de acolher e entender o que se passou com cada estudante.”

Avaliar e não acelerar o conteúdo
“Uma coisa é a aprendizagem da vida e do cotidiano. Mas também tem a aprendizagem curricular. Um caminho é o professor realizar uma avaliação para saber o que os alunos aprenderam em termos de currículo. É a partir desses resultados que ele vai se planejar e entender o que é mais importante para o momento e, com isso, criar uma jornada qualitativa de conteúdos que consiga integrar o conhecimento da realidade que vem da experiência e o conteúdo curricular. Mas vale reforçar que não se deve fazer coisas como querer ensinar em dois meses o que os alunos não aprenderam no ano. Esse tipo de aprendizagem não existe. O Brasil vem em um movimento de melhorar seus índices da educação básica com muito esforço e trabalho dos professores, apesar de todas as dificuldades. Mas isso leva anos. Da mesma forma que levamos décadas para melhorar nossos índices, essa tragédia que se abateu sobre nós vai precisar de calma, planejamento, acolhimento e estratégia.”

Incentivar movimentos de repensar currículo e novas metodologias
“Acredito que essa é uma boa chance para a escola se repensar. Juntamente com os alunos que estão voltando, os educadores podem aproveitar que o currículo estará bem flexível por conta de tudo o que aconteceu para criar novas abordagens e metodologias que levem em consideração as experiências das pessoas, que compreendam os problemas e desafios da vida e o contexto da comunidade. Além disso, é importante colocar os alunos para falar e serem ouvidos, criando um verdadeiro protagonismo.”

Abordar assuntos epidêmicos em sala de aula
“Não podemos tentar engessar tudo dentro de sala e promover para uma aprendizagem voltada a atender grades curriculares e disciplinas como se nada estivesse acontecendo. Durante esses meses, foram faladas muitas coisas sobre ciência e tecnologia, de grupos interdisciplinares para produzir uma vacina, de um conhecimento complexo que a medicina e computação não dão conta sozinhas. A escola deve trabalhar com os alunos de forma interdisciplinar e conectar esses elementos que fizeram parte da vida deles com o currículo, e isso envolve tudo, como alimentação, vida social, o viver isolado, a parte de biologia, dos vírus, o aumento da pobreza e miséria, desemprego e desigualdade social, fake news (notícias falsas), negacionistas. Os professores precisam organizar tudo isso com as crianças, o que é muito mais importante do ponto de vista do equilíbrio emocional e intelectual, do que uma corrida frenética atrás de um conteúdo que está em um programa formal de ensino.”

Fortalecer comunidade de práticas
“Ao fazer uma busca, o professor com certeza vai encontrar outros educadores com os problemas que ele, seja no Brasil ou em outros países se ele tiver acesso a outros idiomas. Com isso, vai ter uma visão de quais problemas a educação está enfrentando de modo geral. Fortalecer sua comunidade de práticas significa compartilhar com outros suas experiências, coisas que deram certo, opiniões e orientações. Isso faz com que exista um sentimento de pertencimento bem arraigado.” Foto: Tânia Rêgo/EBC

Os desafios da prática docente em escolas indígenas com turmas multisseriadas

Foto em contraluz de indígena no Xingu (MT)Grande parte da infância e adolescência de crianças e jovens acontece no ambiente escolar, assim como amizades, aprendizados e a aquisição de conhecimentos que serão levados pela vida toda. Não seria esse, então, o lugar ideal para expressar seus pensamentos, vivências e usar experiências pessoais como instrumento de novas aprendizagens?

Para criar ambientes abertos ao compartilhamento de vivências, é necessário, antes de tudo, ter em mente que, no caso da educação, o famoso ditado ‘O Brasil é um país continental’ é extremamente acurado: são centenas de milhares de realidades onde estão inseridas as redes pública e privada de educação. Independente disso, agregar os conhecimentos tanto dos estudantes, como de suas famílias e dos professores e demais atores da comunidade escolar, pode ser uma oportunidade de diversificar as práticas pedagógicas e promover um engajamento dos alunos com mais propósito, uma vez que envolve suas histórias de vida e também de seus colegas e conhecidos.

Essa é a vivência de Janaína Reis, professora de duas escolas localizadas em uma aldeia indígena no Mato Grosso. Muito antes da chegada da Covid-19, Janaína já enfrentava desafios diversos, uma vez que dá aulas para turmas multisseriadas da educação infantil, ensino fundamental e médio.

O desafio das turmas multisseriadas

No caso da Escola Municipal Indígena Emkia, sua turma tem alunos entre cinco e 13 anos, o que demanda que divida a aula de acordo com as necessidades de cada grupo. Segundo ela, além de a diferença de idade, a presença de crianças com algum grau de parentesco em uma mesma sala, bem como a demanda por atenção, trazem diferentes desafios para sua prática.

“Às vezes você para de dar atenção para uma criança para atender outra e, quando olha, o rosto de uma delas está cheio de cola. Ou quando eu proponho uma atividade que as crianças acham legal, mas quando um aluno de 12 anos vê que o outro de seis anos gosta da mesma coisa que ele, ele acaba não fazendo por estar nessa fase pré-adolescente de negar a infância”, exemplifica Janaína.

Outro desafio é o idioma. As crianças falam diferentes idiomas e muitas delas só passam a ter um contato mais frequente com a língua portuguesa por meio de suas aulas, o que demanda um processo de adaptação e aprendizado.

Muitas dessas questões também se fazem presentes em seu trabalho com a turma de ensino médio na Escola Estadual Indígena Leonardo Villas Boas, localizada no Parque Indígena do Xingu. Nessa etapa, Janaína reforça que o maior desafio é lidar com a diferença de idade dos alunos na mesma turma, bem como graus de parentesco. “Imagina você ter 15 anos e, ao seu lado, na mesma turma, estar seu pai, de 60 anos. Ou o sogro. São situações que acontecem, mas eu tento ver pelo lado bom para trazer o conhecimento das pessoas mais velhas.”

A valorização da cultura local

Janaína explica que começou a trabalhar na escola Leonardo Villas Boas a partir de um pedido feito pelos próprios professores indígenas. Eles ainda estavam em trabalho de formação e, para se sentirem mais seguros, demandaram a presença de um profissional com mais experiência em sala de aula para atender à turma de ensino médio. Entretanto, a ideia é que, no futuro, apenas professores indígenas assumam o posto.

Como alguém que não faz parte da cultura local, a docente comenta que sempre procura maneiras de possibilitar que os estudantes, principalmente os mais velhos, possam compartilhar saberes, conhecimentos e aprendizados durante as aulas e as atividades propostas.

“Acho que toda troca de ensino e aprendizagem deve valorizar conhecimentos prévios que os alunos já têm e também os conhecimentos da educação fora da escola. No meu contexto, isso é ainda mais evidenciado. Eu sempre tenho que pensar nessas questões até mesmo para não parecer que somente o conhecimento não indígena é reconhecido e valorizado”, explica.

Segundo Janaína, o movimento de pensar como integrar e valorizar os saberes e aplicá-los nas atividades também é uma forma de abarcar discussões desenvolvidas em algumas aldeias sobre a função das escolas na região. “Algo que discuto sempre com outros professores é a valorização do conhecimento local e quais ferramentas eu tenho para oferecer que façam sentido na vida dos estudantes.”

Na prática

Existe um verdadeiro leque de experiências, propostas e atividades que podem incentivar o desenvolvimento dos estudante e integrar conhecimentos e saberes culturais. No estudo sobre processos químicos e reações, por exemplo, durante as aulas de química, Janaína incentivou reflexões sobre o sal que os indígenas produzem na região e qual processo realizam para isso. “Em história, nós aprendemos sobre a invasão dos europeus no Brasil e eu perguntei a eles como foi a versão deles sobre o contato, incentivando que os mais novos perguntassem aos mais velhos.”

Durante a pandemia do novo coronavírus, o desenvolvimento de atividades está ainda mais desafiador por conta de falta de infraestrutura de internet e de equipamentos nas aldeias, bem como a ameaça do novo vírus aos indígenas. Segundo Janaína, o processo definido para a região foi a elaboração de apostilas com atividades. Mesmo assim, existem dificuldades logísticas como a impressão, transporte e entrega segura do material nas aldeias.

Ouvir e considerar a experiência dos estudantes no momento da volta às aulas presenciais é uma forma encontrada pela professora para iniciar um processo de acolhimento e respeitar o momento desafiador vivido por todos durante a pandemia.

“Contextualizar e trazer a vivência é muito importante porque isso impactou a vida de todas as pessoas. Todo mundo passou por um momento difícil, mas as dificuldades não foram as mesmas. É como se estivéssemos todos sob o mesmo céu, mas com horizontes muito diferentes. As vulnerabilidades são diversas. Então é importante conversarmos para não parecer uma coisa meio doida, de paramos e de repente voltamos. Não foram férias. Foi uma questão importante que pode ajudar até a repensar algumas práticas da escola”, pontua.

Foto: Thiago Gomes/Agência Pará

‘Eu estou aprendendo a melhorar enquanto professora com a Vivescer’

Além de ajudar a melhorar sua relação com outros colegas professores, a plataforma Vivescer também apoiou Rita Vasconcelos a reavaliar suas próprias práticas profissionais. Coordenadora de uma escola pública municipal no Piauí e docente de língua portuguesa em uma escola da rede estadual, Rita conheceu a plataforma em 2019 por intermédio do professor José Souza, um dos pioneiros entre os embaixadores da Vivescer.

Assim como muitos outros professores, ela conta que a jornada sobre emoções, sua favorita, é uma oportunidade de enxergar situações cotidianas da vida docente sob outra ótica. “Essa trilha me pegou. Acredito que estava precisando muito desse conteúdo e a cada percurso que fazia, ia pesquisar ainda mais coisas para entender melhor aquele universo de informações que estava se apresentando a minha frente e que coincidiu muito com a realidade que eu vivenciava. A jornada te acolhe e faz você mergulhar em si”, explica.

Antes de trabalhar na gestão do ensino fundamental, Rita ministrava aulas para alunos do sexto ano e vivia um dilema quase cotidianamente: ao mesmo tempo em que diversos alunos tinham um desempenho exemplar em sua aula, outros não conseguiam acompanhar a turma, o que causava grande angústia.

Segundo a professora, foram as jornadas mente e emoções que lhe apresentaram novos conceitos, como no percurso estilos de aprendizagem. “Até então, eu entendia ritmo de aprendizagem como uma criança que tem mais facilidade de acompanhar e outra menos. Mas não é só isso. Estão envolvidas outras questões, como a forma com que o aluno aprende, quais atividades são mais acessíveis, como eu enquanto professora estou me sentindo e como levo o conteúdo para a sala de aula, com uma linguagem mais ou menos acessível e atividades que despertam ou não o interesse”, reforça.

Para a docente, os conteúdos e atividades das jornadas possibilitaram a compreensão de que o aprendizado acontece por diferentes perspectivas, e o professor tem a possibilidade de buscar múltiplas alternativas de fazer isso acontecer.

Empatia e diálogo lado a lado

A pandemia de Covid-19 fez com que aumentasse ainda mais a necessidade de diálogo entre gestores e professores, uma vez que o corpo docente precisa de apoio no contato e acompanhamento a distância dos estudantes. Nesse sentido, Rita explica que foram fundamentais os ensinamentos da Vivescer que falam sobre a importância de conversas, acolhimento e se colocar à disposição do outro.

“As jornadas me apoiaram muito na condução do diálogo com os professores na escola em que sou coordenadora, e dizer para eles ‘estamos aqui para apoiá-los’. Muitos querem, por exemplo, que os alunos respondam as tarefas sem atraso. Nesses casos, sentamos para conversar e explicar que o momento é diferenciado, que a situação que as crianças têm em casa não é a da escola, e que as aulas que estamos levando também não são as mesmas. A jornada emoções me ensinou muito sobre ter essa abertura para diálogo.”

Além disso, Rita também reforça que outros ensinamentos, como o sobre sistemas na jornada mente, também ajudam os educadores a desenvolver maior senso de empatia sobre como os colegas pensam e se posicionam. “Entender como eu reajo diante do colega e de suas proposições é fundamental, porque existem situações muito desafiadoras no cotidiano. Entender que as pessoas têm sistemas diferentes do seu e compreendê-los é fundamental para o diálogo.”

Nova professora em sala de aula

Não apenas sua prática enquanto coordenadora mudou a partir da realização das jornadas na plataforma, mas também sua forma de ensinar e de se portar enquanto professora. Rita conta que, há algum tempo, gostava de saber que os alunos não tinham domínio sobre todo o conteúdo e precisavam de sua presença para aprender. “Eu achava interessante ter o aluno perto de mim dizendo que não sabia alguma coisa. Eu me sentia importante, gostava de saber que o aluno dependia de mim. Apesar de sentir vergonha de ter pensado assim um dia, já aprendi a lidar com isso”, relata.

Atualmente, ela conta que constrói juntamente com os estudantes a melhor forma de visitar um conteúdo, de acordo com o que os próprios jovens expõem. Além disso, a professora explica que também mudou sua mentalidade no que diz respeito ao compartilhamento de aprendizados. Se antes guardava tudo o que aprendia para si, hoje entende e defende que os retornos sobre o que aprende são mais significativos à medida que divide com colegas.

“Quando os professores superam as minhas expectativas, fico contente e manifesto isso para eles. Aprendi a admirar os meus colegas, a olhar os detalhes e as miudezas em seu trabalho diário. Estou aprendendo a melhor enquanto professora com a Vivescer.”

Rita Ferreira Marcelino Vasconcelos mora em Castelo, município do Piauí. Licenciada em Letras Português/Espanhol, atualmente está cursando pedagogia, um sonho antigo. Pós-graduada gestão educacional em rede, hoje é coordenadora de uma escola pública municipal de ensino fundamental 2 e professora de língua portuguesa no ensino médio de uma escola da rede pública estadual do Piauí. “A sala de aula é o lugar onde eu quero morar a vida inteira, pois é onde me construo cotidianamente.”