Falar a mesma língua é fundamental para incluir pessoas com deficiência, diz finalista do Global Teacher Prize

Doani Emanuela Bertan usa a educação e seu trabalho para construir conhecimento junto com seus alunos e, assim, oferecer possibilidades de escolha e transformação de suas vidas 
 
“Conhecimento não ocupa espaço e ninguém consegue tirá-lo de você”. Essa é uma das frases que mais marcaram a vida de Doani Emanuela Bertan, professora de língua portuguesa e de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Por seu trabalho desenvolvido junto a turmas do terceiro ano do ensino fundamental em uma escola municipal de Campinas (SP), Doani foi reconhecida como uma das 10 finalistas do Global Teacher Prize 2020, premiação global que reconhece profissionais da educação do mundo todo.

Entretanto, qual caminho a educadora percorreu até ser selecionada entre 12 mil inscritos de 140 países? Tudo começa com a autora da frase que abre essa matéria: sua mãe. “Além de sempre ter gostado de ser professora das minhas bonecas, minha mãe sempre deixou muito forte na cabeça dos filhos que a educação transforma, e que, se quiséssemos sair da condição em que estávamos, seria por meio do estudo. Quando eu era criança, minha mãe era minha heroína, então levei essa fala muito a sério”, explica Doani, que também é embaixadora da Vivescer.

Esse incentivo veio desde muito cedo, quando, ainda menina, caminhava durante uma hora com a mãe para buscar livros na biblioteca municipal, cenário que só mudou quando sua escola construiu a biblioteca própria. “Na oitava série, quando me formei, tinha lido a biblioteca toda, menos a parte de romances, que não gostava muito. Acho que é por isso que sou tão criativa. Sempre tive essa ideia de que, se a educação pode promover transformações, eu queria oferecer isso a outras pessoas.”

Chaveirinhos e Xuxa: como Doani conheceu Libras  
A relação da professora com a língua brasileira de sinais começou por dois acasos quando ainda era criança: com o encarte de chaveirinhos vendidos nos semáforos por pessoas surdas, que vinha com desenhos do alfabeto de Libras, e com o lançamento da música do alfabeto da cantora Xuxa, também em Libras.

“Uma coisa que ficou muito marcada na minha mente é que, em várias situações, eu conversava com a minha mãe e irmã e ia treinando os sinaizinhos com as mãos. Nessa mesma época, a Xuxa lançou a música do abecedário todo em Libras.” Para Doani, esse interesse, que veio de forma natural, se deve pela valorização da comunicação. Ela reforça que acredita que a comunicação, ao romper barreiras, estabelece vínculos e relações, e é a partir das relações que é possível se transformar e transformar o meio no qual está inserido.

“Comunicação sempre foi algo me encantou, desde criança. Além disso, sempre fiz trabalhos manuais. Aprendi tricô com seis anos. Então acho que associou o interesse por comunicação, destreza e habilidade manual e ter uma mãe que sempre me incentivou. Os livros me trouxeram a criatividade e eu podia colocar em prática, não tinha ninguém para me podar. Pelo contrário. Se eu falasse ‘mãe, posso destruir esse tapete para fazer uma peruca da Emília?’. Ela me respondia que sim e que ficaria muito bom”, relembra Doani.

Curso e canal no YouTube  
Depois desse ponto de partida, Doani conta que, mais velha, em 2002, fez um curso de Libras, e conheceu uma amiga que a apresentou ao mundo da língua brasileira de sinais. Depois de anos de estudo, em 2017, teve a ideia de lançar um canal no YouTube para possibilitar que crianças surdas tivessem acesso ao que era trabalhado de forma presencial em sala de aula.

“Há escassez de material bilíngue para o público surdo. A criança surda recebe o mesmo livro didático da criança ouvinte. Mas, muitas vezes, acontece de ainda estar aprendendo Libras. Como professora de escola pública, entendo a questão das verbas para compra de material, então tentamos usar da melhor forma possível. Mas a perspectiva de que igualdade inclui não é real. Na verdade, igualdade também exclui porque não somos todos iguais”, explica a professora.

Nesse sentido, depois de receber diariamente ligações de seus estudantes para que ela auxiliasse com a tarefa de casa, Doani teve a ideia de criar um canal no YouTube partindo da equidade e pensando em atender às especificidades desse público, algo que, na época, não existia. Depois de muitas conversas, idas e vindas, reformulações, estudos e opiniões de diversos colaboradores, Doani lançou o Sala 8, em novembro de 2017. Hoje, com mais de 70 vídeos, o canal contabiliza mais de 7 mil inscritos.

Inclusão, convívio e interação 
Para Doani, não basta falar em convívio de estudantes com e sem deficiência em uma mesma sala de aula. De acordo com a professora, a real inclusão acontece pelas interações. “É importante que haja esse contato, mas que não se restrinja a compartilhar espaços. Isso não significa de maneira nenhuma estar incluído. Se as pessoas não falam a mesma língua, a barreira comunicativa estará ali.”

A inscrição no prêmio Global Teacher Prize veio justamente da vontade de conferir visibilidade à educação bilíngue, à educação de surdos, à Libras e à escola pública. “Eu carrego a bandeira da inclusão, mas não a inclusão igualitária. Não acredito na igualdade, acredito na diversidade e no respeito a ela. Ninguém nunca perguntou se uma pessoa surda, por exemplo, quer estar em uma escola especializada ou em uma escola inclusiva, porque nos julgamos melhores para decidir. Eu não concordo com isso.”

O que motiva Doani a continuar com seu trabalho é a possibilidade de construir conhecimento junto a seus alunos e, com isso, oferecer a eles a possibilidade de escolha e de transformação de suas vidas. “Inclusão virou um jargão. É uma prática bonita, sim, quando bem feita, mas também pode ser muito cruel e totalmente excludente. Acredito que inclusão é quando você oferece conhecimento e meios para aquele aluno se desenvolver e fazer suas escolhas”, completa.

Confira aqui o perfil da educadora no site do Global Teacher Prize.

Pesquisas mostram as percepções de professores e alunos sobre o ano letivo de 2020

Com 2020 chegando ao fim, já é possível entender com mais clareza o que significou esse ano letivo atípico para a comunidade escolar em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19).

Com professores sobrecarregados e alunos com problemas de acesso à internet e computadores, a experiência de aulas remotas mexeu muito com o emocional e demandou que todos aprendessem rápido a lidar com plataformas digitais que não eram usadas de forma constante em anos anteriores.

Só que o período de fechamento das escolas foi maior que o esperado e muitos alunos têm demonstrado a desmotivação com os estudos. Uma série de pesquisas recentes, com a participação de estudantes, educadores e gestores, resumem o que é ensinar e aprender longe da escola.

 

Professores preocupados
Voltar à sala de aula é motivo de preocupação para a maior parte dos educadores. A pesquisa “Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil”, do Instituto Península, realizada entre julho e agosto mostrou que, numa escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável, a média do nível de conforto de professores das redes privada, estadual e municipal em relação a volta às aulas é de 1,07.

Entre as maiores preocupações dos docentes, estão: o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação do coronavírus (86%), lidar com o receio da contaminação do coronavírus (83%) e recuperar a aprendizagem perdida dos estudantes com a retomada das aulas presenciais (67%).

Quando perguntados sobre os apoios mais necessários na volta às aulas, orientações para lidar com os protocolos de retorno e questões de saúde (73%), assim como apoio para dar suporte emocional para os alunos (68%) e, finalmente, receber atendimento emocional para si (56%) são os mais citados.

 

Fatores que dificultam o acesso
Enquanto as aulas remotas continuam, o estudo Painel TIC COVID-19, divulgado em novembro pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), reitera a dificuldade de conexão por parte dos alunos, que nas classes mais pobres adotam o celular para acompanhar as aulas, o que já limita a possibilidade de produzir conteúdos ou de acompanhar aulas mais diversificadas. No entanto, chama a atenção para outros fatores que interferem na rotina do estudante, como a crise financeira.

Com a renda familiar comprometida, entrevistados citam a necessidade de buscar emprego (56%); de cuidar da casa, dos irmãos, filhos ou de outros parentes (48%). Longe do convívio social que escolas e universidades proporcionam, 45% também disseram que não acompanham aulas por falta de motivação.

 

Estudantes desmotivados
Ainda sobre a desconexão com os estudos, a pesquisa  “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus”, promovida pelo CONJUVE (Conselho Nacional da Juventude), alerta que essa falta de engajamento pode trazer prejuízos para além da vida escolar. Em junho, quase 30% dos jovens pensavam em deixar a escola e, entre os que planejavam fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), 49% já pensavam em desistir.

Divulgada também em novembro, uma quarta onda da pesquisa Datafolha, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures também alerta que 54% estão desmotivados, mesmo em uma situação em que 92% dispõem de materiais didáticos (uma alta expressiva em relação a maio, quando 74% acessavam recursos pedagógicos)

O mesmo estudo apontou que diante de todas as dificuldades enfrentadas pelos alunos,  51% das famílias consideram que estão participando mais da educação dos estudantes, no período da pandemia. Além disso, uma outra boa notícia, 71% dos responsáveis pelos estudantes reconhecem e estão valorizando mais o trabalho desenvolvido pelos professores.

 

 

Foto: jcomp/Freepik

A importância da sensibilidade e o autoconhecimento como fonte de inspiração para professores

A importância da sensibilidade e o autoconhecimento como fonte de inspiração para professores“Com o socioemocional Quase sempre revirado, O valente educador Tem ficado atribulado. Tem feito de tudo um pouco, Tem vivido no sufoco, E muitas vezes, calado.” Esse é um trecho de um cordel escrito por José Gilson Lopes Franco, um dos professores embaixadores da Vivescer.

Especialista no ensino da Língua Portuguesa, Gilson comenta que conhecer a plataforma foi como um divisor de águas em sua vida, mudando a forma como se relaciona tanto no ambiente de trabalho como com sua família. “A Vivescer chama atenção para a importância dos professores e do trabalho com a emoção, além da necessidade de estarmos bem consigo mesmo para estar bem com o outro. O professor que está bem interiormente é capaz de coisas incríveis.”

Assim como muitos outros educadores que navegam pelas jornadas e trajetos propostos na plataforma, Gilson tomou conhecimento da ferramenta por indicação de outros dois colegas embaixadores que, como ele, integram um coletivo de professores do Brasil no Facebook. “A professora Rita Vasconcelos, com quem eu tinha contato, me indicou a plataforma e contou que a jornada emoções foi a que mais tinha gostado.”

Essa é uma frase comum entre diversos professores embaixadores da Vivescer. Eles afirmam que, até conhecer a proposta da ferramenta de realmente olhar para dentro de si e analisar seus sentimentos, muito passava despercebido. Gilson também começou seus trabalhos pela jornada emoções e, para ele, que é poeta e cordelista, o caminho para o autoconhecimento foi ainda mais especial.

“Nós vamos vivendo meio no automático, cumprindo nossas obrigações e afazeres, sem tempo para observar como é importante estar bem consigo mesmo. Há muito tempo que não encontrava razões para escrever. Mas passar por essa jornada me fez olhar para dentro de mim e, a partir de um olhar de sensibilidade, voltar a escrever. Só nesse ano, produzi de 30 a 40 cordéis”, explica o educador.

Para ele, além dos ensinamentos, a Vivescer oferece um espaço para que professores de todo o Brasil possam estabelecer uma ligação de qualidade entre si, em conexões sensíveis, acolhedoras e que priorizam o olhar sobre esses profissionais a partir de seu lado mais sensível.

O professor além da sala de aula
Para Gilson, um dos pontos altos da plataforma é que, ao trabalhar o professor em diferentes dimensões, os ensinamentos reverberam para além do profissional, como em sua prática na sala de aula com os estudantes, com os colegas de profissão e também fora do âmbito da escola.

“Antes da Vivescer, eu já fazia uso de algumas estratégias voltadas ao socioemocional, mas era sem muito estudo e formação. A plataforma trouxe isso, e os ensinamentos não são pontuais. As jornadas mexem com o íntimo da gente, e há um contato permanente entre os professores cadastrados. Essa conexão empodera muita gente”, explica.

Essa autopercepção levou o educador a tomar mais do seu tempo para reparar ao redor e fazer ajustes que, mesmo pontuais, surtem grandes e importantes efeitos. Observando que os alunos esperavam muito tempo para encontrar um lugar no refeitório na hora do almoço, Gilson passou a fazer esse horário em sala de aula, o que, segundo o professor, gerou emoção e valor entre os estudantes.

“Eu quero ser reconhecido e lembrado como alguém que foi capaz de amar os seus alunos, alguém que foi capaz de propor almoços, que foi capaz de abrir mão do seu planejamento para jogar uma partida de voleibol na quadra, de futebol. Uma pessoa capaz de abrir mão do seu intervalo para ficar com eles. Nós não temos noção do quanto isso empodera as crianças”, comenta o educador.

Trecho do cordel “Os desafios do professor em tempos de pandemia e a importância do autocuidado”.

Tem uma íntima ligação
Do que o professor sente
Com o momento que vivemos,
Pois é tudo diferente.
Em tempos de pandemia,
Que abalam a nossa alegria,
Tudo ocorreu de repente.

Com o socioemocional
Quase sempre revirado,
O valente educador
Tem ficado atribulado.
Tem feito de tudo um pouco,
Tem vivido no sufoco,
E muitas vezes, calado.

Cobranças de toda parte
Se dirigem ao professor,
Que com a cabeça erguida
Demonstra o seu valor.
Nunca se dá por vencido;
É ousado e atrevido,
É, de fato, um sonhador.

A aula foi transferida
Para a sala de estar.
O modelo agora é outro,
Tivemos que adaptar:
Por vezes, aulas gravadas,
Remotas, mas planejadas;
Outras formas de ensinar.

Estimado professor,
Adorável professora:
Vocês são a esperança
De uma nação promissora,
Depositando uma semente,
Crendo muito firmemente
Na escola transformadora.

 

A sensibilidade como forma de resistência
Gilson comenta que dedicou-se inteiramente à jornada emoções, sem deixar nenhum conteúdo sem ser visto nos mínimos detalhes. Para ele, essa dedicação trouxe novas descobertas a cada exploração. “Eu chorei para lavar a alma mesmo. Pude olhar para dentro de mim, perceber como sou importante, quem eu sou, e assim, melhorar para o meu aluno e para a minha família.”

Enquanto docente, ele comenta que é necessário ir além do que a profissão pede. “De vez em quando, temos que fazer alguns atrevimentos. Temos que ter muita criatividade, mas também muita paixão para se manter animado, com a narrativa sempre otimista e alto astral, porque realmente não é fácil.”

Apesar dos desafios, ele vê na comunidade de professores um refúgio, onde pode recarregar as energias e se inspirar com as trajetórias e vivências dos colegas. “O professor embaixador da Vivescer tem que ter esse perfil. É o cara que traz conhecimento, serenidade, que tem uma fala mansa e acolhedora, mas também é sensível, criativo, apaixonado. Não é por acaso que professores incríveis estão na Vivescer. Eles são capazes de mudar uma escola e toda uma região.”

Gilson completa afirmando que, nesse momento, a função desses atores é mostrar para outros profissionais da educação a importância da sensibilidade e da capacidade de amar, entendendo que a educação tem desafios, mas que existe beleza em ser educador.

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José Gilson Lopes Franco é licenciado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará, especialista em ensino da Língua Portuguesa, professor de Língua Portuguesa na Rede Pública Municipal de Fortaleza (CE), coordenador da Rede Conectando Saberes, apoiada pela Fundação Lemann, poeta e cordelista. Está na educação pública há 15 anos e, atualmente, é professor de Língua Portuguesa de turmas do Ensino Fundamental 2 na Escola Municipal de Tempo Integral Prof. Ademar Nunes Batista, em Fortaleza.

Reforçar comunicação e contato humano é primeiro passo para retomada das aulas, defende educadora

Para Terê Fogaça de Almeida, recuperação de conteúdo é importante, mas não deve ser a prioridade neste momento. Educadora reforça a importância de enxergar a escola como espaço de interação entre diferentes seres humanos e suas experiências

Mais do que um espaço para aprender e trocar experiências, a escola é um ambiente essencial de trocas entre seres humanos. Essa é a visão de Terezinha Fogaça de Almeida, mais conhecida como Terê, educadora, fundadora e diretora da escola Ágora.

Nascida e criada em uma família de professores, Terê pensa educação desde criança e critica o sistema tradicional de ensino adotado por muitas escolas, que remete ao sistema fabril adotado aos moldes da Revolução Industrial: crianças enfileiradas, uniformizadas, com um sino separando os períodos na escola e notas atribuindo o conhecimento.

Para a educadora, hoje são as escolas que precisam fazer o que chama de alfabetização social, isto é, promover o contato de crianças e jovens com realidades diferentes das suas, uma vez que os núcleos familiares estão cada vez mais fechados e a convivência fora de casa mais restrita.

Esses e outros temas foram pauta da live semanal realizada pela Vivescer no dia 29 de outubro, que inspirou a conversa a seguir.

 

Vivescer: Na live da qual você participou na Vivescer, você comenta que a escola ‘tem que construir esse espaço para o aluno conviver com os colegas como pessoas diferentes e entender que o mundo é uma colcha de retalhos de gente, de mil cores’. O que você acredita que é um bom processo de retomada das aulas presenciais?  

Terê Fogaça de Almeida: A primeira coisa que a escola devia fazer na volta é não ter pressa em retomar os conteúdos tradicionais nas áreas de estudo. Na minha opinião, acredito que, na primeira semana de aula, são necessárias conversas olho no olho, de pessoa para pessoa, e não de professor para alunos e vice-versa. Falar sobre o que foi difícil e o que foi bom. É a realização de uma ampla conversa entre os seres humanos daquela sala, incluindo o professor, para fazer um balanço da pandemia e contar experiências interessantes. Em seguida, também é interessante fazer uma integração entre alunos mais velhos e mais novos.

 

Vivescer: ‘A boa escola é aquela que oferece o que está faltando para a sociedade’. Nesse sentido, o que falta nesse momento que deve receber mais atenção do corpo docente e equipe pedagógica?

Terê: O que mais está faltando nesse momento é presença humana em nossas vidas. Em primeiro lugar, precisamos da possibilidade de olhar em outros olhos, ouvir outras vozes presencialmente. É o olho no olho, é mandar um beijo e abraço de longo, e sentir a presença humana ao vivo, e não virtualmente. A comunicação entre pessoas é o que falta nesse momento e é o que deveria vir em primeiríssimo lugar.

 

Vivescer: Como a pressa em retomar o conteúdo, que remete ao que você chama de escola no modelo fabril – com crianças uniformizadas e enfileiradas – se contrapõe a essa escola enquanto espaço de promoção do ser humano, como defende a psicóloga e educadora argentina Sara Paín? 

Terê: A primeira coisa que a instituição escolar precisa reconhecer nesse momento é que, entre muitas aspas, a escola ‘ficou para trás’ de outros setores da sociedade em 2020. A instituição escolar tem que aceitar, humildemente, que a realidade se sobrepôs ao papel dela, e que, por isso, o resgate que deve tentar fazer é de corações e mentes, no sentido da concentração, da comunicação, da empatia, e não no sentido da inteligência e da intelectualidade em si. Não se deve ter pressa ou ter essa visão distorcida de que é possível recuperar 2020 pedagogicamente. Apesar dos prejuízos, nós vamos para frente, porque é do futuro que a educação trata. Não é que não temos que recuperar o conteúdo. Temos sim. Mas isso não deve ser a prioridade nesse momento.

 

Vivescer: Por onde você acredita que é possível iniciar uma conversa com os professores? Que coisas que pediria que mudassem já na primeira semana em relação ao que a escola era em março?

Terê: As mudanças iniciais são as conversas de gente com gente, olho no olho, pessoa a pessoa, que mencionei. Na Ágora, antes de retomar as aulas presenciais, fizemos uma reunião de equipe e começamos pedindo para que os professores se colocassem pessoalmente em relação ao que aconteceu esse ano: o que sentiram, suas ansiedades, seus sentimentos de perda, o que foi mais difícil de enfrentar. Acredito que, com os alunos, devemos seguir o mesmo caminho. Agora é hora de cuidar muito bem dos nossos seres humanos que fazem parte da nossa comunidade. É hora de ouvir, de consolar, de reorientar.

 

Vivescer: Você vê que esse período acarretará mudanças duradouras em crianças e jovens? 

Terê: Algo que venho percebendo há tempos, é que crianças e jovens da atualidade não tinham perspectivas de futuro até março. Falar de futuro com elas causava um estranhamento. É um palpite, mas acredito que a relação das crianças e jovens com o futuro deve estar mudando a partir da pandemia, porque eles experimentaram um tempo estendido no qual não podiam fazer o que queriam. De repente, uma maior que não é nem vista a olho nu se impôs e falou ‘você não é o dono do mundo’. Então eles precisaram se rever diante do mundo e da sociedade, e tiveram que se render a essa força maior.

 

Vivescer: Como você acredita que será a passagem de 2020 para 2021 nas escolas? 

Terê: Atualmente, não estou indo para a escola porque pertenço ao grupo de risco. Mas os professores da Ágora ainda estão fazendo ajustes, corrigindo lições, esclarecendo eventuais dúvidas que ficaram, ministrando aulas de reforço. Em 2020, vamos fazer um fechamento muito diferente, trazendo esses balanços pessoais do que foi para cada um passar por esse período, além de fazer uma investigação para ver como a visão de mundo dos nossos alunos se alterou a partir do que vem acontecendo desde março. Queremos saber é da condição humana diante desse cenário.

 

Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/garoto-levantando-a-mao-em-sala-de-aula_2245196.htm#page=1&query=school&position=44

Como a quarentena apoiou a aprendizagem entre estudantes

Lápis de cera

Quando uma criança é perguntada sobre o que mais gosta na escola, é grande a chance que ela responda que é a possibilidade de ver os amigos. Para além de despertar o sentimento de pertencimento a um grupo, o convívio diário também desempenha papel fundamental na aprendizagem dos estudantes, complementando o trabalho do professor.

E no contexto de distanciamento social, como as interações virtuais conseguem colocar estudantes em debates e diálogos que incentivam a aprendizagem entre pares? A criação dessa estratégia parte da compreensão sobre a forma com a qual as crianças aprendem, como explica Josca Baroukh, do setor de tecnologia educacional da Escola Vera Cruz e coordenadora do curso de pós-graduação “Educação Infantil, Investigações e Fazeres das Crianças de zero a três anos” do Instituto Singularidades.

“Ainda se pensa que o adulto é quem ensina e a criança só aprende. Mas quando consideramos que a criança também aprende com outras, a maneira de planejar atividades e o respeito pelo saber delas muda, porque assumimos que crianças têm algo a ensinar e, por isso, têm conhecimentos sobre o mundo. Isso está alinhado ao pensamento de que elas não são tábulas rasas, mas sim que aprendem com suas experiências, seja em família, na escola ou com os amigos.”

Convivência e socialização
Em muitos casos, crianças e jovens passam mais tempo com professores e colegas do que em casa com suas famílias. A escola é, portanto, o principal espaço de convivência e socialização, onde as diversas situações do dia a dia proporcionam oportunidades de aprendizagem.

“Costumamos dizer que o fim último da educação é criar cidadãos capazes de intervir e transformar o mundo. Mas a vida cidadã só acontece em grupo e, por isso, a escola tem o dever de promover momentos de interação entre crianças para que elas aprendam a conviver em várias instâncias, como em debates, apresentações de pesquisa ou negociação de regras, por exemplo. A escola não está além ou aquém do social. Ela é o espaço público que os alunos frequentam e isso tem que envolver a vida cidadã”, explica Josca.

A metodologia da investigação entre pares
As interações são um dos quatro elementos que professores devem levar em consideração para promover um ambiente de aprendizagem, juntamente com o espaço, tempo e os materiais disponíveis em sala para exploração. A mudança de lógica do ambiente físico para o mundo online durante a quarentena demandou algumas adaptações. Uma das principais, segundo Josca, está relacionada à faixa etária dos estudantes.

Se antes da quarentena instituições e especialistas reforçavam que crianças pequenas deveriam passar menos tempo em frente às telas, a pandemia fez com que a maioria dos contatos sociais passassem a acontecer virtualmente, incluindo aqueles que tinham a escola como palco. Com menor autonomia, crianças da educação infantil e das séries iniciais do fundamental demandaram ajuda constante das famílias para continuar aprendendo.

Nesses casos, um exemplo de metodologia é dividir a turma em grupos menores, para que os estudantes consigam interagir e trocar ideias. “Em uma atividade de alfabetização, por exemplo, o professor pode criar uma sala online com dois ou três alunos e propor a escrita de um título do livro. Ele compartilha na tela um documento coletivo e as crianças vão negociando que letras devem ser usadas para a escrita. Essa é uma prática que conseguiu ser transposta para o mundo online, e que na sala de aula acontecia com as letras móveis.”

Para os anos finais do ensino fundamental 1, e conforme as crianças avançam pelo ensino fundamental 2 e médio, a prática de interação no ambiente virtual fica mais fácil. Uma estratégia que tem sido amplamente utilizada é a subdivisão de uma sala virtual em várias salas paralelas.

Já na aula presencial, trabalhos em duplas, trios ou até mesmo em grupos maiores, e com metodologias diversas como o uso de projetos, são interessantes para estimular o contato entre estudantes. “Precisamos começar a trazer para a escola a produção de textos que estão no mundo, não só os suportes mais tradicionais aos quais já estamos acostumados. Pode-se propor a produção de um audiovisual com os próprios alunos se gravando em vídeo, ou a produção de podcasts sobre determinado tema como um bate-papo.”

Seja qual for a proposta, Josca enfatiza que esses momentos de interação devem estar claramente pensados e dispostos no planejamento do professor e considerar os saberes dos estudantes. “Como coordenador do grupo, o professor deve assumir esse papel, que é diferente de mandar, e sim de articular, perceber onde precisa intervir, quem pode fazer sem ajuda, quem precisa de apoio maior, que duplas vai colocar para trabalhar juntas para se ajudar e explicitar quais critérios ele usou para essa divisão. Todos esses aspectos devem ser avaliados. No ambiente de aprendizagem, é necessário ter momentos de interação entre pares planejados. Não é algo por acaso ou só no intervalo.”

A educadora reforça, ainda, que, ao contrário de muitos colegas de profissão, não enxerga 2020 como um “ano perdido”, e sim como um período capaz de incentivar os docentes a perceber a potência das crianças, bem como novas maneiras de intervir para promover a aprendizagem sob novos formatos e metodologias, como é o caso do ensino híbrido.

Crédito: Zainab Aamir/Pexels

Como as rodas de conversa podem melhorar dinâmicas na escola

Lapis coloridos formando um círculo

No âmbito das escolas, além dos encontros entre professores e seus estudantes, foram muitas as reuniões virtuais de planejamento e formação com corpo docente, orientação e direção escolar. Apesar do contato constante, a volta às aulas presenciais vai demandar atenção especial.

De acordo com o guia Orientações de Acolhimento para Professores, criado pelo Instituto Península, é de extrema importância abrir espaços para que os professores possam falar e serem ouvidos. Além de apresentar um modelo de questionário que pode ser aplicado com docentes antes mesmo do retorno à escola, com o objetivo de refletir sobre as experiências e sentimentos durante a quarentena, bem como a sobrecarga de trabalho e a forma com a qual gostariam de ser acolhidos, o guia cita alguns caminhos para esse processo de retomada das atividades.

As rodas de conversa, que devem ser feitas com todos os cuidados para respeitar determinações e protocolos sanitários, são uma estratégia abordada pelo documento para promover uma escuta coletiva e apoio entre os docentes, além de ser uma forma de incluir diferenças e possibilitar o compartilhamento de conhecimento por profissionais com diferentes atribuições na escola.

“A inclusão dos diferentes pontos de vista na narrativa construída através das rodas, traz a oportunidade de que cada um amplie seu olhar na composição com o olhar do outro, contribuindo para a empatia e a colaboração. E, o conjunto dessa narrativa consiste num guia que vai apontar intervenções necessárias e apoiar a organização de grupos de trabalho comprometidos com a realização destas ações”, explica trecho do estudo.

Prática institucionalizada
Muito antes da pandemia, as rodas de acolhimento já são uma prática recorrente na escola municipal Dulce de Faria Martins Migliorini, de Itirapina, em São Paulo. Localizada próxima de dois presídios e inserida em um contexto periférico e de vulnerabilidade social, a instituição tinha resultados insatisfatórios na aprendizagem de seus estudantes. Por isso, em 2016 e com apoio do Instituto Península, teve início um verdadeiro processo de transformação, graças a um novo plano de ação, como explica Fabiana Costa, diretora da escola.

“Começamos a estudar várias metodologias e criar dispositivos para que as mudanças acontecessem em nossa escola. Nada foi feito a partir da imposição. Nós fomos escutando, conversando, falando sobre nossos desejos e conhecendo outras experiências. Criei grupos pela escola para praticar uma escuta mais ativa e, aos poucos, as coisas foram mudando.”

A educadora reforça que não foi um processo fácil, uma vez que, para promover uma transformação da escola, foi necessário envolver todos os profissionais, não só os professores. “É difícil tirar as pessoas da zona de conforto. Nós ouvimos muito a frase ‘dou aula há tantos anos e sei o que estou fazendo’. Então foi um processo longo e dolorido. Mas os professores foram vendo outras possibilidades”, explica Fabiana.

Além do pedagógico
Fabiana conta que os horários de trabalho pedagógicos coletivos (HTPC) da escola eram, antes da mudança, dedicados exclusivamente a questões pedagógicas e envolviam apenas a direção, coordenação e corpo docente. Quando teve início o processo de transformação, que contou com apoio e acompanhamento de diversos profissionais, um deles compartilhou com o grupo a metodologia das rodas de conversa.

As práticas tiveram início com o check-in, ou seja, um intervalo de tempo no início de cada encontro para que o grupo possa entender como cada um está se sentindo. “É muito importante sentir o clima da equipe para começar uma reunião. Não dá para abordar um tema complexo se a equipe está super para baixo.”

Práticas de meditação guiada com o uso de aromas e músicas na sala também são mecanismos utilizados para mudar o clima do ambiente para começar as reuniões. Além disso, a ordem de fala também foi uma prática que, apesar de desafiadora, deu bons resultados. Em linhas gerais, cada pessoa deve se posicionar e não pode ser interrompida pelos colegas. Quem quiser falar novamente, tem o nome anotado em uma lista a ser seguida quando todos se posicionarem.

“Uma vez fizemos uma reunião sobre brincar e convidamos professores de uma outra escola de tempo integral para mostrar como estávamos nos reunindo. Surgiu um assunto polêmico e o pessoal começou a ficar um pouco alterado, mas mesmo assim, como já estávamos acostumados, ninguém se intrometeu. Ao final, a diretora da outra escola veio me dizer que nunca tinha visto isso na vida, que nós não criticamos ou julgamos. Expliquei que foi necessário todo um processo para que os professores entendessem que não invalidamos a fala do outro, já que é o que a pessoa está sentindo, e sim escutamos, acolhemos e, se for o caso, desconstruímos isso junto, com respeito e educação. Parece algo pequeno, mas é super importante pontuar a necessidade de ouvir e respeitar o outro, mesmo quando não concordamos”, reforça Fabiana.

Estratégia para a escola inteira
Para que a escola obtivesse sucesso em seu processo de transformação, as mudanças não ficaram restritas aos momentos de reuniões de professores e demais funcionários. Uma sala do lado da direção, por exemplo, foi transformada em uma sala de acolhimento para alunos, famílias e funcionários, com alterações simples: um pallet no chão, almofadas coloridas, desenhos, frases motivacionais e mandalas pintadas por estudantes nas paredes.

“Quando algum aluno apronta e mandam para a minha sala, nós vamos para essa salinha, eu sento com ele no chão, converso e tento entender porque fez aquilo. Temos que tentar entender o que está acontecendo com a criança porque, muitas vezes, se ela está descontrolada, pode estar com problemas em casa, por exemplo”, explica Fabiana.

Segundo a diretora, todas essas mudanças possibilitaram que a escola mudasse de patamar na comunidade e passasse a ser admirada por todos, reconhecida como um espaço que realmente pratica e promove a educação integral. “Eu fico muito feliz com as pequenas coisas que estão por trás do aumento do nosso Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica]. Quando os alunos saem daqui, os diretores de outras escolas nos contam o quanto eles são diferentes de outros em termos de autonomia, resolução de conflitos e escuta. Essas são características de um ser humano inteiro, que vai além de português, matemática e história. É um aluno saber ter empatia, escutar o outro e ter oralidade. Tudo isso é resultado de mudanças no dia a dia e da relação dos professores e estudantes.”

Foto: Freepik

6 dicas para professores no contexto da volta às aulas

Sala de aula de ensino fundamental com crianças sentadas e desenvolvendo trabalho em grupo

O coronavírus é o primeiro item na lista de muitas preocupações entre os docentes quando o assunto é volta às aulas. De acordo com a terceira onda da pesquisa Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil, do Instituto Península, 86% dos professores respondentes afirmam se preocupar com o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação da Covid-19.

Entre os apoios que mais gostariam de receber está orientações para lidar com os protocolos de retorno e questões de saúde (73%), assim como apoio para dar suporte emocional para os alunos (68%). Todas essas informações apontam para o fato de que são poucos os que se sentem encorajados a voltar ao trabalho presencial. Numa escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável, a média do nível de conforto de professores das redes privada, estadual e municipal em relação a volta às aulas é de 1,07.

Pensando em formas de acolher essas questões e, ao mesmo tempo, promover estratégias para que todos se sintam mais confortáveis com os próximos meses, a Vivescer conversou com Walquíria Castelo Branco, consultora e professora da CESAR School, centro de tecnologia, inovação e transformação digital localizado no Recife (PE) Confira seis atitudes que podem ajudar os docentes no retorno.

Menos cobrança, mais trabalho em grupo (mesmo que remotamente ou online)
“Nós sabemos de toda a complexidade do papel do professor em um momento como esse. Apesar de muito se exigir deles, os docentes precisam compreender que não podem fazer tudo sozinhos. Eles podem, sim, fazer muito, mas de forma estratégica. Aqui no Recife, um professor andava, todos os dias, 15 quilômetros de bicicleta para entregar a lição dos alunos porque a escola estava fechada e ele achava que era seu dever. O Brasil está cheio desses exemplos de educadores querendo resolver sozinhos problemas que, muitas vezes, são estruturais. Com isso, eles acabam se frustrando muito. Então, é preciso entender que há momentos, e esse é um deles, em que não poderão atuar sozinhos. É um tipo de problema tão complexo que ele precisará estar em contato com profissionais da saúde, da assistência social e de órgãos governamentais, além das famílias e comunidade.”

Acolher e considerar as aprendizagens da pandemia
“Não é porque crianças e jovens estavam fora da escola que não aprenderam. Eles aprenderam e muito, alguns deles aprenderam coisas dolorosas. Em um primeiro momento, o papel do professor é de acolher e entender o que se passou com cada estudante.”

Avaliar e não acelerar o conteúdo
“Uma coisa é a aprendizagem da vida e do cotidiano. Mas também tem a aprendizagem curricular. Um caminho é o professor realizar uma avaliação para saber o que os alunos aprenderam em termos de currículo. É a partir desses resultados que ele vai se planejar e entender o que é mais importante para o momento e, com isso, criar uma jornada qualitativa de conteúdos que consiga integrar o conhecimento da realidade que vem da experiência e o conteúdo curricular. Mas vale reforçar que não se deve fazer coisas como querer ensinar em dois meses o que os alunos não aprenderam no ano. Esse tipo de aprendizagem não existe. O Brasil vem em um movimento de melhorar seus índices da educação básica com muito esforço e trabalho dos professores, apesar de todas as dificuldades. Mas isso leva anos. Da mesma forma que levamos décadas para melhorar nossos índices, essa tragédia que se abateu sobre nós vai precisar de calma, planejamento, acolhimento e estratégia.”

Incentivar movimentos de repensar currículo e novas metodologias
“Acredito que essa é uma boa chance para a escola se repensar. Juntamente com os alunos que estão voltando, os educadores podem aproveitar que o currículo estará bem flexível por conta de tudo o que aconteceu para criar novas abordagens e metodologias que levem em consideração as experiências das pessoas, que compreendam os problemas e desafios da vida e o contexto da comunidade. Além disso, é importante colocar os alunos para falar e serem ouvidos, criando um verdadeiro protagonismo.”

Abordar assuntos epidêmicos em sala de aula
“Não podemos tentar engessar tudo dentro de sala e promover para uma aprendizagem voltada a atender grades curriculares e disciplinas como se nada estivesse acontecendo. Durante esses meses, foram faladas muitas coisas sobre ciência e tecnologia, de grupos interdisciplinares para produzir uma vacina, de um conhecimento complexo que a medicina e computação não dão conta sozinhas. A escola deve trabalhar com os alunos de forma interdisciplinar e conectar esses elementos que fizeram parte da vida deles com o currículo, e isso envolve tudo, como alimentação, vida social, o viver isolado, a parte de biologia, dos vírus, o aumento da pobreza e miséria, desemprego e desigualdade social, fake news (notícias falsas), negacionistas. Os professores precisam organizar tudo isso com as crianças, o que é muito mais importante do ponto de vista do equilíbrio emocional e intelectual, do que uma corrida frenética atrás de um conteúdo que está em um programa formal de ensino.”

Fortalecer comunidade de práticas
“Ao fazer uma busca, o professor com certeza vai encontrar outros educadores com os problemas que ele, seja no Brasil ou em outros países se ele tiver acesso a outros idiomas. Com isso, vai ter uma visão de quais problemas a educação está enfrentando de modo geral. Fortalecer sua comunidade de práticas significa compartilhar com outros suas experiências, coisas que deram certo, opiniões e orientações. Isso faz com que exista um sentimento de pertencimento bem arraigado.” Foto: Tânia Rêgo/EBC

Os desafios da prática docente em escolas indígenas com turmas multisseriadas

Foto em contraluz de indígena no Xingu (MT)Grande parte da infância e adolescência de crianças e jovens acontece no ambiente escolar, assim como amizades, aprendizados e a aquisição de conhecimentos que serão levados pela vida toda. Não seria esse, então, o lugar ideal para expressar seus pensamentos, vivências e usar experiências pessoais como instrumento de novas aprendizagens?

Para criar ambientes abertos ao compartilhamento de vivências, é necessário, antes de tudo, ter em mente que, no caso da educação, o famoso ditado ‘O Brasil é um país continental’ é extremamente acurado: são centenas de milhares de realidades onde estão inseridas as redes pública e privada de educação. Independente disso, agregar os conhecimentos tanto dos estudantes, como de suas famílias e dos professores e demais atores da comunidade escolar, pode ser uma oportunidade de diversificar as práticas pedagógicas e promover um engajamento dos alunos com mais propósito, uma vez que envolve suas histórias de vida e também de seus colegas e conhecidos.

Essa é a vivência de Janaína Reis, professora de duas escolas localizadas em uma aldeia indígena no Mato Grosso. Muito antes da chegada da Covid-19, Janaína já enfrentava desafios diversos, uma vez que dá aulas para turmas multisseriadas da educação infantil, ensino fundamental e médio.

O desafio das turmas multisseriadas

No caso da Escola Municipal Indígena Emkia, sua turma tem alunos entre cinco e 13 anos, o que demanda que divida a aula de acordo com as necessidades de cada grupo. Segundo ela, além de a diferença de idade, a presença de crianças com algum grau de parentesco em uma mesma sala, bem como a demanda por atenção, trazem diferentes desafios para sua prática.

“Às vezes você para de dar atenção para uma criança para atender outra e, quando olha, o rosto de uma delas está cheio de cola. Ou quando eu proponho uma atividade que as crianças acham legal, mas quando um aluno de 12 anos vê que o outro de seis anos gosta da mesma coisa que ele, ele acaba não fazendo por estar nessa fase pré-adolescente de negar a infância”, exemplifica Janaína.

Outro desafio é o idioma. As crianças falam diferentes idiomas e muitas delas só passam a ter um contato mais frequente com a língua portuguesa por meio de suas aulas, o que demanda um processo de adaptação e aprendizado.

Muitas dessas questões também se fazem presentes em seu trabalho com a turma de ensino médio na Escola Estadual Indígena Leonardo Villas Boas, localizada no Parque Indígena do Xingu. Nessa etapa, Janaína reforça que o maior desafio é lidar com a diferença de idade dos alunos na mesma turma, bem como graus de parentesco. “Imagina você ter 15 anos e, ao seu lado, na mesma turma, estar seu pai, de 60 anos. Ou o sogro. São situações que acontecem, mas eu tento ver pelo lado bom para trazer o conhecimento das pessoas mais velhas.”

A valorização da cultura local

Janaína explica que começou a trabalhar na escola Leonardo Villas Boas a partir de um pedido feito pelos próprios professores indígenas. Eles ainda estavam em trabalho de formação e, para se sentirem mais seguros, demandaram a presença de um profissional com mais experiência em sala de aula para atender à turma de ensino médio. Entretanto, a ideia é que, no futuro, apenas professores indígenas assumam o posto.

Como alguém que não faz parte da cultura local, a docente comenta que sempre procura maneiras de possibilitar que os estudantes, principalmente os mais velhos, possam compartilhar saberes, conhecimentos e aprendizados durante as aulas e as atividades propostas.

“Acho que toda troca de ensino e aprendizagem deve valorizar conhecimentos prévios que os alunos já têm e também os conhecimentos da educação fora da escola. No meu contexto, isso é ainda mais evidenciado. Eu sempre tenho que pensar nessas questões até mesmo para não parecer que somente o conhecimento não indígena é reconhecido e valorizado”, explica.

Segundo Janaína, o movimento de pensar como integrar e valorizar os saberes e aplicá-los nas atividades também é uma forma de abarcar discussões desenvolvidas em algumas aldeias sobre a função das escolas na região. “Algo que discuto sempre com outros professores é a valorização do conhecimento local e quais ferramentas eu tenho para oferecer que façam sentido na vida dos estudantes.”

Na prática

Existe um verdadeiro leque de experiências, propostas e atividades que podem incentivar o desenvolvimento dos estudante e integrar conhecimentos e saberes culturais. No estudo sobre processos químicos e reações, por exemplo, durante as aulas de química, Janaína incentivou reflexões sobre o sal que os indígenas produzem na região e qual processo realizam para isso. “Em história, nós aprendemos sobre a invasão dos europeus no Brasil e eu perguntei a eles como foi a versão deles sobre o contato, incentivando que os mais novos perguntassem aos mais velhos.”

Durante a pandemia do novo coronavírus, o desenvolvimento de atividades está ainda mais desafiador por conta de falta de infraestrutura de internet e de equipamentos nas aldeias, bem como a ameaça do novo vírus aos indígenas. Segundo Janaína, o processo definido para a região foi a elaboração de apostilas com atividades. Mesmo assim, existem dificuldades logísticas como a impressão, transporte e entrega segura do material nas aldeias.

Ouvir e considerar a experiência dos estudantes no momento da volta às aulas presenciais é uma forma encontrada pela professora para iniciar um processo de acolhimento e respeitar o momento desafiador vivido por todos durante a pandemia.

“Contextualizar e trazer a vivência é muito importante porque isso impactou a vida de todas as pessoas. Todo mundo passou por um momento difícil, mas as dificuldades não foram as mesmas. É como se estivéssemos todos sob o mesmo céu, mas com horizontes muito diferentes. As vulnerabilidades são diversas. Então é importante conversarmos para não parecer uma coisa meio doida, de paramos e de repente voltamos. Não foram férias. Foi uma questão importante que pode ajudar até a repensar algumas práticas da escola”, pontua.

Foto: Thiago Gomes/Agência Pará

‘Eu estou aprendendo a melhorar enquanto professora com a Vivescer’

Além de ajudar a melhorar sua relação com outros colegas professores, a plataforma Vivescer também apoiou Rita Vasconcelos a reavaliar suas próprias práticas profissionais. Coordenadora de uma escola pública municipal no Piauí e docente de língua portuguesa em uma escola da rede estadual, Rita conheceu a plataforma em 2019 por intermédio do professor José Souza, um dos pioneiros entre os embaixadores da Vivescer.

Assim como muitos outros professores, ela conta que a jornada sobre emoções, sua favorita, é uma oportunidade de enxergar situações cotidianas da vida docente sob outra ótica. “Essa trilha me pegou. Acredito que estava precisando muito desse conteúdo e a cada percurso que fazia, ia pesquisar ainda mais coisas para entender melhor aquele universo de informações que estava se apresentando a minha frente e que coincidiu muito com a realidade que eu vivenciava. A jornada te acolhe e faz você mergulhar em si”, explica.

Antes de trabalhar na gestão do ensino fundamental, Rita ministrava aulas para alunos do sexto ano e vivia um dilema quase cotidianamente: ao mesmo tempo em que diversos alunos tinham um desempenho exemplar em sua aula, outros não conseguiam acompanhar a turma, o que causava grande angústia.

Segundo a professora, foram as jornadas mente e emoções que lhe apresentaram novos conceitos, como no percurso estilos de aprendizagem. “Até então, eu entendia ritmo de aprendizagem como uma criança que tem mais facilidade de acompanhar e outra menos. Mas não é só isso. Estão envolvidas outras questões, como a forma com que o aluno aprende, quais atividades são mais acessíveis, como eu enquanto professora estou me sentindo e como levo o conteúdo para a sala de aula, com uma linguagem mais ou menos acessível e atividades que despertam ou não o interesse”, reforça.

Para a docente, os conteúdos e atividades das jornadas possibilitaram a compreensão de que o aprendizado acontece por diferentes perspectivas, e o professor tem a possibilidade de buscar múltiplas alternativas de fazer isso acontecer.

Empatia e diálogo lado a lado

A pandemia de Covid-19 fez com que aumentasse ainda mais a necessidade de diálogo entre gestores e professores, uma vez que o corpo docente precisa de apoio no contato e acompanhamento a distância dos estudantes. Nesse sentido, Rita explica que foram fundamentais os ensinamentos da Vivescer que falam sobre a importância de conversas, acolhimento e se colocar à disposição do outro.

“As jornadas me apoiaram muito na condução do diálogo com os professores na escola em que sou coordenadora, e dizer para eles ‘estamos aqui para apoiá-los’. Muitos querem, por exemplo, que os alunos respondam as tarefas sem atraso. Nesses casos, sentamos para conversar e explicar que o momento é diferenciado, que a situação que as crianças têm em casa não é a da escola, e que as aulas que estamos levando também não são as mesmas. A jornada emoções me ensinou muito sobre ter essa abertura para diálogo.”

Além disso, Rita também reforça que outros ensinamentos, como o sobre sistemas na jornada mente, também ajudam os educadores a desenvolver maior senso de empatia sobre como os colegas pensam e se posicionam. “Entender como eu reajo diante do colega e de suas proposições é fundamental, porque existem situações muito desafiadoras no cotidiano. Entender que as pessoas têm sistemas diferentes do seu e compreendê-los é fundamental para o diálogo.”

Nova professora em sala de aula

Não apenas sua prática enquanto coordenadora mudou a partir da realização das jornadas na plataforma, mas também sua forma de ensinar e de se portar enquanto professora. Rita conta que, há algum tempo, gostava de saber que os alunos não tinham domínio sobre todo o conteúdo e precisavam de sua presença para aprender. “Eu achava interessante ter o aluno perto de mim dizendo que não sabia alguma coisa. Eu me sentia importante, gostava de saber que o aluno dependia de mim. Apesar de sentir vergonha de ter pensado assim um dia, já aprendi a lidar com isso”, relata.

Atualmente, ela conta que constrói juntamente com os estudantes a melhor forma de visitar um conteúdo, de acordo com o que os próprios jovens expõem. Além disso, a professora explica que também mudou sua mentalidade no que diz respeito ao compartilhamento de aprendizados. Se antes guardava tudo o que aprendia para si, hoje entende e defende que os retornos sobre o que aprende são mais significativos à medida que divide com colegas.

“Quando os professores superam as minhas expectativas, fico contente e manifesto isso para eles. Aprendi a admirar os meus colegas, a olhar os detalhes e as miudezas em seu trabalho diário. Estou aprendendo a melhor enquanto professora com a Vivescer.”

Rita Ferreira Marcelino Vasconcelos mora em Castelo, município do Piauí. Licenciada em Letras Português/Espanhol, atualmente está cursando pedagogia, um sonho antigo. Pós-graduada gestão educacional em rede, hoje é coordenadora de uma escola pública municipal de ensino fundamental 2 e professora de língua portuguesa no ensino médio de uma escola da rede pública estadual do Piauí. “A sala de aula é o lugar onde eu quero morar a vida inteira, pois é onde me construo cotidianamente.”

Aproximação com famílias e troca de experiência entre professores são legados da pandemia 

Mão de criança desenhando família e casa em uma folha de papel

Praticamente todos os planos e objetivos traçados no final do ano passado para o ano de 2020 precisaram ser revistos e até mesmo redirecionados já que, mesmo com as notícias de um vírus desconhecido se espalhando pela China, poucas pessoas imaginavam que o mundo viveria uma pandemia global. Apesar de indesejada, a experiência, que fez com que grande parte da vida fosse transferida para o mundo online, rendeu aprendizados.

Para Marcelo Martins, diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Emília de Moura Marcondes, de Tremembé, em São Paulo, as aulas remotas mudaram permanentemente algumas práticas do ambiente escolar. A introdução de novos costumes e o desenvolvimento de habilidades mostrou a diretores e coordenadores, professores, alunos e famílias que há diversas formas de possibilitar a aprendizagem de crianças e jovens.

O uso de tecnologia é uma delas. Segundo o diretor, a escola viu nascer uma experiência de apoio entre professores. “Docentes que já tinham familiaridade com a tecnologia se aprofundaram ainda mais. Além disso, atuaram como tutores de colegas que apresentavam dificuldade ou até certa resistência”, explica.

A realização de videoconferências ao vivo foi um ponto positivo da tecnologia. Foram organizadas transmissões com psicólogos e outros especialistas para ir além do suporte pedagógico e oferecer apoio a outras questões que as famílias poderiam enfrentar. Além disso, Marcelo comenta que os professores também descobriram recursos como gravar aulas e áudios e montar apresentações em que a gravação acompanha a passagem de slides. “São várias ferramentas usadas em um momento de socorro, mas que com certeza enriqueceram as práticas.”

Rede de professores
A necessidade de passar a atuar de forma online também possibilitou novos desenhos na rede municipal como um todo. Marcelo explica que, se antes as reuniões por área e etapa de ensino aconteciam bimestral ou trimestralmente para reunir os professores da rede, os encontros passaram a ser semanais, com a construção de um novo calendário de atividades para o corpo docente, composto por atendimento direto aos estudantes, às famílias e os encontros entre pares.

Segundo o diretor, a unificação das atividades e dos trabalhos passados para todos os alunos da rede é uma maneira de garantir que não exista grande diferença entre o ensino de diferentes escolas, considerando que o município tem altos índices de rotatividade dos estudantes entre as instituições.

“Quem estuda aqui na Emília tem a mesma atividade que o colega que estuda no centro da cidade ou na zona rural, com a garantia que estarão no mesmo ritmo, tendo a mesma atividade e sequência didática. Além disso, os encontros acabam enriquecendo a troca de experiências e de retorno avaliativo das atividades que os professores preparam, pois agora eles estão semanalmente juntos produzindo conteúdo. O que um professor trabalhou de um jeito aqui na escola, pode beneficiar os alunos da outra escola na hora em que o professor compartilhar a experiência na reunião”, explica Marcelo.

A aproximação entre o corpo docente aconteceu na rede municipal mas também na própria escola. Marcelo comenta que professores passaram a sugerir trabalhos interdisciplinares para os estudantes, usando transmissões para combinar projetos em conjunto. “O que antes seria feito na quadra ou em um evento na escola, passou a ser feito de forma online e também no YouTube. O legal foi a reação positiva das famílias nos comentários, além de o envolvimento e participação dos estudantes ter crescido.”

Incentivo à participação: como engajar alunos e famílias
Ficar conectado a computadores e smartphones praticamente 24 horas por dia foi a forma que muitas pessoas encontraram de manter vínculos sociais e de trabalho durante o período de distanciamento social. Em alguns casos, esse processo de conexão constante serviu para estreitar laços e aproximar relações, como a que existe entre famílias e escola.

“Na época presencial, professores não tinham contato tão frequente com as famílias. Com a pandemia, foi necessário que todo mundo se conectasse via WhatsApp ou redes sociais e, com isso, vimos que famílias passaram a acessar mais facilmente os professores e vice-versa”, afirma Marcelo.

Além de laços mais estreitos, o diretor comenta que também houve uma mudança na qualidade da relação. “Muitas vezes, escola e família se conectavam para resolver problemas de aprendizagem, indisciplina ou de outras naturezas. Hoje temos situações que famílias e estudantes sugerem conteúdos e materiais no grupo de WhatsApp. Acho que essa nova conexão veio para trazer muitas coisas positivas, saindo daquela coisa ‘vou chamar seus pais na escola porque você não fez a lição’. A escola virtual abriu campo para muita coisa boa, que gera produtividade dentro das aulas.”

Apesar dos pontos positivos, alguns desafios apareceram pelo caminho. Marcelo conta que, no início, alguns professores ficaram com receio de passar o número do celular para centenas de estudantes. Essa barreira foi rompida, entretanto, à medida que mais docentes entravam em grupos de WhatsApp e começavam a relatar que os contatos se restringem a questões pedagógicas.

Assim como diversas outras redes espalhadas pelo Brasil, a rede de Tremembé também teve dificuldades com a participação dos estudantes no momento de transição do presencial para o online e com a tecnologia, considerando que muitas famílias não têm celulares para que os filhos acessassem as aulas. Marcelo comenta que uma campanha foi realizada no âmbito da rede para arrecadação de aparelhos celulares, chips e tablets, que foram distribuídos às famílias que precisavam, além de um processo de busca ativa de estudantes e entrega de material impresso.

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