Escola trabalha com a natureza e estimula o desenvolvimento socioemocional dos estudantes durante a pandemia

Localizada ao lado do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a escola Vila Verde combina autoconhecimento,valorização das emoções dos alunos, protagonismo, trabalho por projetos, independência e autonomia.

A frase ‘a natureza é uma escola’ ganha novo significado na escola Vila Verde, localizada ao lado do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso, em Goiás. Gerida pelo Instituto Caminho do Meio, a instituição usa sua área de 46 hectares e uma abordagem de ensino considerada inovadora e criativa para incentivar que alunos aprendam sobre o entorno e sobre suas próprias emoções.

Para Daniela Razuk, professora de turmas de oitavo e nono ano do Ensino Fundamental e membro da coordenação pedagógica, foi justamente essa abordagem voltada ao socioemocional que ajudou os alunos a lidarem melhor com a pandemia. Ela explica que, além do fato de os estudantes já estarem acostumados a falar sobre seus sentimentos, entendendo que existe essa abertura na escola e que se trata de um espaço seguro, as práticas online durante aulas remotas tiveram muitas conversas com esse caráter.

“Queríamos entender como nossas crianças e jovens estavam se sentindo, como foram as adaptações e quais eram as expectativas de futuro. Entendemos que, principalmente no começo da quarentena, era fundamental priorizar no currículo o trabalho com questões socioemocionais para que eles tivessem mais esse espaço de expressão e vazão de seus pensamentos”, afirma a professora, que também já esteve na gestão da escola em 2020.

 

Práticas pedagógicas e o socioemocional

A conversa sobre os sentimentos e as vivências durante a pandemia também apareceram em propostas pedagógicas ainda em 2020, como nas aulas de língua portuguesa para os anos finais do ensino fundamental. O projeto “Memórias de uma Quarentena” uniu o aprendizado de gêneros literários e os sentimentos. “Em uma semana, os estudantes aprenderam sobre poesia e as métricas, e depois precisaram escrever um poema sobre como se sentiram durante o ano. Em seguida, foi a vez de contar o fato mais engraçado do ano em um texto narrativo. Os alunos também aprenderam a fazer entrevistas, e conversaram com algum familiar sobre a vivência em quarentena”, explica Daniela.

Para a professora, esse trabalho com as emoções está muito relacionado à missão da escola de educar para a felicidade. Esse bem-estar está intimamente conectado ao autoconhecimento. Por isso, se expressar e refletir sobre seus sentimentos é uma forma de, primeiro, entender como cada pessoa funciona, o que faz bem ou não para cada um e o que é possível fazer para se sentir melhor.

“Esse processo de [os estudantes] reconhecerem e colocarem para fora tudo o que foi vivenciado e sentido, como ansiedade, medo e tristeza, foi a forma que encontramos para garantir um espaço para tudo isso sair de cada um e, uma vez no mundo, pensarmos juntos o que poderíamos fazer para ter uma adaptação melhor e mais saudável diante desse cenário. A busca da felicidade foi nesse sentido, de se adaptar à nova realidade, aceitá-la e, dentro dessa aceitação, buscar válvulas que te deixam melhor.”

 

Emoções, trabalho por projetos e o protagonismo estudantil

A pandemia trouxe, para muitas escolas, algo que já era institucionalizado na escola Vila Verde: o trabalho por projetos. Para Daniela, o fato dessa prática já estar internalizada entre os estudantes e ser encarada como algo do dia a dia da instituição foi de grande ajuda durante a adaptação para o mundo online. Isso porque os alunos já tinham a autonomia e consciência necessária para realizar suas pesquisas de forma independente.

“Observamos que os estudantes que mais estavam sofrendo nessa transição eram de escolas mais tradicionais, onde estavam acostumados a receber todas as orientações dos professores. Nós não tivemos dificuldade nenhuma nesse sentido, porque nossos alunos estão habituados e encaram com naturalidade essa independência. Há tranquilidade para buscarem as informações, enquanto os encontros online ficam reservados para professores tirarem dúvidas e orientarem”, explica a professora.

Além disso, a consciência dos estudantes também facilitou que eles participassem das decisões tomadas pela escola e pudessem, aos poucos, lapidar as práticas durante a pandemia. “Nós dialogamos muito abertamente, perguntando como poderíamos adaptar para que todo o processo ficasse mais leve. E eles realmente deram dicas, opiniões e sugestões sensatas e pertinentes e entenderam que, até certo ponto, poderíamos mudar, mas que em outros assuntos não havia o que fazer, então também foi um aprendizado de lidar com a própria frustração.”

 

Retomada verde no ensino híbrido

Ainda em 2020, a coordenação da escola, juntamente com os professores, percebeu a importância de diversificar as propostas pedagógicas para os estudantes e incentivar que desenvolvessem projetos mais práticos e menos teóricos, com o objetivo de ampliar os estímulos e reduzir o tempo de tela. “Começamos a estimular que os alunos desenvolvessem projetos ligados à saúde física, mental e aspectos relacionados à natureza, sugerindo informações sobre plantio, como fazer uma horta no quintal ou apartamento. Além disso, reforçamos a importância de praticar exercício físico, fazer alongamentos e priorizar atividades que fossem boas para o corpo e a mente.”

Pensar em práticas alternativas será, inclusive, algo a ser mantido na retomada gradual das aulas presenciais. Seguindo as diretrizes de retorno com apenas 30% da capacidade, Daniela explica que a equipe da escola tem discutido sobre formas de aproveitar melhor os momentos presenciais, unindo a necessidade de estar ao ar livre por conta da pandemia, com os benefícios que essa vivência traz aos estudantes.

Para a professora, uma das práticas que foi prejudicada em 2020 e que poderá ser resgatada nesse retorno é a vivência do lado artístico com pinturas e desenhos, que indiretamente está relacionado à regulação das emoções.

“Estamos pensando em manter a parte mais formal, do desenvolvimento de projetos, de forma online para que, quando estivermos na escola, possamos fazer atividades juntos, respeitando o distanciamento. É um movimento de resgatar a sociabilidade, o que não significa estar em contato físico, mas estar junto, mesmo que distante, nessas micro-sociedades que são a escola e as turmas”, completa.

 

Foto: jcomp/Freepik 

Mensagens positivas de professores ajudam a controlar ansiedade matemática

De acordo com dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o desempenho brasileiro em matemática é o pior entre os países latino-americanos analisados. Segundo a edição 2018, 68,1% dos estudantes com 15 anos de idade não possuem nível básico na disciplina, mesmo depois de tantos anos na escola. E para isso existem infinitas hipóteses.

O desafio diante da disciplina é tão grande que existe até mesmo um termo para designar o medo da matemática: ansiedade matemática. “Esse cenário pode ter origem na forma equivocada que ensinamos a disciplina nas escolas, um método procedimental, voltado a fórmulas, e não voltado às conexões e à beleza da matemática”, explica Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, citando estudos que mostram o Brasil no terceiro lugar no ranking mundial de ansiedade matemática.

Segundo a especialista, uma das formas de contornar essa aversão à disciplina é mostrar, desde crianças até adultos, que a matemática é inerente ao ser humano e está em todos os lugares no dia a dia: na escolha em atravessar uma rua em linha reta, no lugar da cama onde se senta para deitar-se com apenas um movimento, a posição na qual coloca o despertador para facilitar desligá-lo pela manhã, todas são escolhas que, invariavelmente, envolvem a matemática.

 

A importância das mensagens
É devido a esse cenário que programas como o Mentalidades Matemáticas encontram solo fértil no Brasil. Cocriado pelo Instituto Sidarta e pelo Centro de Pesquisas Youcubed, da Universidade de Stanford e inspirado em estudos de especialistas da universidade americana, como da professora e pesquisadora Jo Boaler, o programa tem como objetivo mostrar que a matemática pode utilizar práticas abertas, criativas e visuais de aprendizagem colaborativa centradas em investigações.

Um dos pilares importantes do programa é o conjunto de mensagens que são passadas aos alunos, com o objetivo de permitir cada vez mais processos de exploração da disciplina, e não delimitá-la a procedimentos e padrões desconectados de sentido.

Pesquisadores envolvidos na metodologia defendem que toda criança é capaz de aprender a disciplina em profundidade e, por isso, uma das principais abordagens é considerar e valorizar todas as diferentes formas de pensar e solucionar problemas. A metodologia também reforça que a velocidade de resposta a um desafio, por exemplo, não tem relação direta ao nível de conhecimento da pessoa sobre a disciplina.

Considerado não apenas aceitável, mas parte do processo de aprendizagem, o erro é outro quesito muito abordado. “A aprendizagem é um processo, e não um momento final. Quando aprendemos a andar de bicicleta ou a dirigir, na maioria das vezes caímos ou deixamos o carro morrer. Por que em todas as outras áreas do conhecimento entendemos que errar faz parte do processo e na educação o erro é punido?”, reflete Ya Jen.

 

Trabalho em grupo

Trabalhos em grupo podem ser desafiadores, mas é impossível negar que várias cabeças pensando em um mesmo problema ampliam as possibilidades de solução. “Nós costumamos brincar que a melhor resposta para um desafio matemático começa com a palavra ‘depende’”, explica Ya Jen. Quantas pessoas cabem em uma mesa de festa de 1,60m por 1,20m? Isso depende se todos sentarão à mesa, qual é a medida de cada cadeira e muitos outros fatores que podem ser observados por várias pessoas que formam um grupo de estudos.

“Quando falamos em trabalho em grupo, não significa dividir tarefas, mas sim o debate sobre os exercícios matemáticos, que possibilita conjecturas e os processos de se convencer e convencer o outro. É nesse trabalho de discussão que aprofundamos nosso pensamento matemático. Quando trabalhamos com uma visão fechada ou binária de resposta – certo e errado – na educação, limitamos as possibilidades de desenvolvimento de raciocínio mais profundo.”

 

Aplicando a metodologia na rotina escolar

Todos os conceitos teóricos citados por Ya Jen ganham vida na rotina da Escola Estadual Henrique Dumont Villares, em São Paulo (SP). Nádia Moya Brocarrdo, coordenadora pedagógica da instituição, orgulha-se em comentar que a aplicação da nova abordagem surtiu efeitos que vão além da aprendizagem dos estudantes.

Para ela, o primeiro passo para mudar toda a cultura da escola é começar com a formação dos professores. “Muito se fala em letramento de alfabetização, mas pouco sobre letramento de matemática, sobre como ensinar essa disciplina. A cultura matemática dos nossos professores era ‘um mais um são dois e só’. Começamos a mostrar, a partir da neurociência, como acontece a aprendizagem, as conexões cerebrais e então começamos a abordar a importância do erro”, explica a coordenadora.

“Nós não colocamos mais o ‘x’ de errado no caderno, colocamos um risquinho para que a criança saiba que ainda não chegou no resultado. Essa mudança na forma de tratar o erro mudou até mesmo como os estudantes enxergam a avaliação. Se antes tinham medo da prova, hoje eles gostam e ficam felizes, porque não há mais o medo de arriscar.”

Pode parecer utópico para quem vê de fora, mas Nádia faz questão de reforçar que não foi um caminho fácil, sendo necessário alguns anos de formação e conscientização docente. Para a coordenadora, muito do medo que crianças têm da disciplina pode vir dos próprios professores que, inconscientemente, repetem padrões sobre os quais foram ensinados. Além disso, a participação de todos os docentes da escola nos processos de formação facilitou a construção dessa nova cultura que valoriza os desafios e dificuldades e não condena o erro durante a aprendizagem. “Começamos a mostrar que quando um professor acredita no potencial do aluno e faz boas perguntas, isso impacta a aprendizagem. Assim, demos voz aos alunos e o professor saiu daquela posição de maestro que ocupava na frente da sala.”

 

Foto: jcomp/Freepik 

Aprendizados ao longo de 2020 ajudam escola a acolher professores neste ano letivo

Práticas de acolhimento e escuta de professores ao longo de 2020 pode continuar em 2021. Conheça exemplos

EMEI Orígenes Lessa, de São Paulo, criou o hábito de realizar encontros virtuais para incentivar autoconhecimento, meditação e autocuidado dos professores.

Muito tem se falado sobre a importância de garantir espaços e momentos na ressível, mais seguros para retomar a vida na escola?

Essas são algumas perguntas que começaram a ser estudadas ainda em 2020 pela Escola Municipal de Educação Infantil Orígenes Lessa, em São Paulo (SP). Rosamaria Cristina Silvestre, diretora da instituição, explica que as atividades foram pensadas para incentivar o autoconhecimento em um movimento de promover um cuidado com as profissionais. Para Rosamaria, somente quando um profissional é assistido que ele poderá assistir os outros.

“Durante o ano passado, nossas professoras precisaram lidar com as emoções das crianças, que ainda não sabem verbalizá-las, e também com as emoções das famílias, já que muitos responsáveis perderam o emprego e tinham entes queridos infectados com a Covid-19. Se as professoras não estivessem minimamente fortalecidas ou com uma abertura para acolher as crianças e os pais, o trabalho com as crianças não poderia ser feito. Sempre soubemos da importância da relação família-escola, mas 2020 deixou isso ainda mais evidenciado”, explica a diretora.

Parceria com curso de pedagogia

Em parceria com a UniSant’Anna, cada aluno do curso de pedagogia ficou responsável pela tutoria de duas professoras. A ideia era aproveitar o conhecimento em tecnologia dos jovens estudantes de ensino superior, para apoiar professores da escola a produzir e editar vídeos e outros conhecimentos para possibilitar as aulas a distância. “Ao mesmo tempo, havia uma troca na outra via também, porque as professoras contavam aos alunos como é a realidade do trabalho com crianças na educação infantil”, afirma Rosamaria. Ao final do processo, as professoras receberam um comprovante da universidade, atestando sua participação.

Luto e perda: como lidar?

Assim como muitas outras escolas, a Orígenes Lessa também vivenciou situações de luto: uma funcionária da escola faleceu em 2020 e professoras perderam parentes para a Covid-19. Por isso, a escola convidou a professora Maria Khadiga Saleh, supervisora escolar aposentada da rede municipal de São Paulo, para participar de uma conversa online com o corpo docente. “Depois que a professora se aposentou, ela atuou no serviço funerário de São Paulo. Em razão disso e de sua vasta experiência nas escolas, convidamos para uma conversa sobre perda, sobre luto e sobre morte.”

A importância do autoconhecimento, autocuidado e de conhecer os professores

Em outra parceria, dessa vez com o Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, a escola contou com a participação de psicólogos em quatro encontros, que ajudaram em conversas sobre a vivência da pandemia, como professores podem se acolher e se conhecer cada vez mais. Rosamaria conta que ao longo do ano passado precisou estar atenta a diversas situações entre o corpo docente. “Certa vez marquei reunião com uma professora e ela não entrou online na hora combinada. Fui verificar o que estava acontecendo e ela explicou que, como tinha insônia e não dormia à noite, trocava o dia pela noite e acabou perdendo a hora.”  Segundo a diretora, os psicólogos conseguiram mostrar que são pequenas ações do cotidiano que podem evoluir para quadros mais graves, como uma depressão, por exemplo. “Eles nos mostraram que podemos prevenir essa evolução se nos conhecermos e nos acolhermos.”

Meditação e ioga

A sequência de encontros online com especialistas ao longo de 2020 também abordou o mindfulness e ioga. Assim como nos encontros anteriores, saúde mental foi um tema muito abordado. Rosamaria explica que sentia a necessidade de trabalhá-lo com os docentes a partir das conversas do dia a dia. “Tivemos duas professoras que perderam parentes para a Covid-19. Então precisamos acolhê-las, mas chega um momento que é aquele ditado ‘santo de casa não faz milagre’. Então trazer alguém de fora, mesmo que seja falar a mesma coisa com outras palavras, ajudou muito nesse acolhimento, tanto das professoras, como comigo da gestão.” A diretora conta que Luiz Gebara, profissional especializado em mindfulness (atenção plena) convidado para participar, mostrou a importância de professores estarem conectados conectarem-se a si mesmos, e terem um olhar respeitoso para si. Esse processo de fortalecimento do profissional acaba refletido no trabalho com os estudantes.

Próximos passos

A vivência de acolhimento ao longo de 2020 permitiu que Rosamaria já levantasse algumas hipóteses sobre o que será necessário ao longo de 2021, no sentido de continuar o processo de acolher os docentes. Um movimento que a escola já realizou foi contabilizar todos os materiais enviados pela prefeitura – como máscaras para adultos e crianças, além de copos individuais –, e também realizar a compra de outros. A ideia é apresentar o levantamento aos docentes quando voltarem à escola, com o objetivo de deixá-los mais seguros quanto aos protocolos sanitários. Também está na lista de afazeres um mapeamento sobre as atividades realizadas no ano passado que podem ser desenvolvidas novamente em 2021. “Não é como se 2020 fosse um livro que acabou e fechamos. Há materiais riquíssimos que os professores elaboraram, então não precisarão fazer tudo do zero novamente.”

Ela também reforça que 2021 irá requerer maior flexibilidade por parte dos professores, que voltarão à escola em um modelo diferente do qual estão habituados: com turmas reduzidas, protocolos a obedecer, entre outros fatores.

Foto: jcomp/Freepik 

Escuta individual apoia professores na retomada da vida na escola

Estratégia de conversas individuais soma-se a conjunto de práticas indicadas no guia Orientações de Acolhimento para Professores, elaborado pelo Instituto Península

Tornar o aluno protagonista e colocá-lo no centro do processo de aprendizagem é uma estratégia cada vez mais debatida por escolas no Brasil e no mundo. Entretanto, a pandemia de Covid-19 direcionou luz ao outro lado da moeda da educação: os professores. Sejam elas ou eles recém-formados ou com décadas de experiência, docentes precisaram adaptar suas rotinas para o ambiente virtual, ensinando e conectando-se a seus alunos a distância.

Se esse processo pode ter sido mais tranquilo para alguns, foi um desafio e tanto para outros, que tinham pouquíssimo contato com computadores e recursos digitais para uso pedagógico. Por isso, a retomada gradual das aulas presenciais em 2021 vai demandar um longo e paciente percurso de readaptação, que deve levar em consideração as demandas dos docentes, suas facilidades e dificuldades.

Tendo isso em mente, ainda em 2020 o Instituto Península lançou o guia Orientações de Acolhimento para Professores, com o objetivo de esclarecer possíveis caminhos e metodologias a serem adotados por escolas, possibilitando que toda a equipe tenha suas considerações ouvidas. Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer, que participou da elaboração do guia, explica que a ideia do acolhimento acontece tanto no plano das ideias, ou seja, de compartilhar pensamentos e sentimentos dentro da possibilidade de confiar no outro, bem como no espaço físico, isto é, as pessoas se encontrarem e, nesse determinado espaço, se sentirem bem e acolhidas.

“Nós estamos vivendo um momento de luto nacional, muitas vidas foram perdidas. As pessoas podem ter passado por situações de necessidade, com perda de empregos e ajustes de vida. Além disso, quando estamos vivendo uma pandemia, há um medo do contágio, a necessidade de reclusão e muitos outros fatores, que acabam por deixar as pessoas mais vulneráveis para, eventualmente, uma depressão. Nesse meio todo, os professores precisaram aprender a dar aula à distância e mesmo com grandes esforços, nós sabemos que muitos alunos não foram alcançados”, expõe Ana Flávia.

Esse complexo conjunto de situações e fatores, explica a especialista, pode ser uma das razões pelas quais professores podem optar por não expor dificuldades ou desafios em momentos coletivos de conversa na retomada presencial das aulas ou atividades na escola.

 

A importância da escuta individual

Considerando essa possível reserva e retração que alguns docentes podem apresentar perante o grupo, o guia do Instituto Península apresenta a possibilidade das conversas individuais. Além do compromisso mútuo ao sigilo do que for conversado nessa circunstância, os espaços individuais de escuta podem servir para que a equipe gestora entenda mais profundamente determinadas situações pelas quais os professores passaram, o que possibilita a reflexão sobre como é possível atender as demandas dos profissionais.

“Esses momentos individuais de escuta são importantes para que as pessoas se sintam à vontade para conversar, expor sua situação, que possam se sentir acompanhadas. Tudo isso dá escape aos sentimentos, deixa fluir, e é aí que as pessoas conseguem se reerguer e construir caminhos. Quando tudo isso fica represado, há um peso muito grande nos ombros. Sabemos que não serão todos os professores, mas com certeza alguns vão precisar desse momento”, explica Ana Flávia.

 

O que esperar da conversa?

Para que a conversa seja produtiva para todos os envolvidos, é importante observar alguns pontos – muitos vem antes mesmo da realização do encontro. Para Ana Flávia, deve-se ressaltar que o movimento de disponibilizar horários para que os docentes possam conversar individualmente com a coordenação da escola não deve ser encarado como uma garantia de que todas as demandas serão atendidas, uma vez que a escola tem um escopo de ajustes que podem ser realizadas dentro da instituição, e outros que estão fora de seu alcance.

Nesses casos, ela cita uma dica que o guia de orientação traz: a conexão da escola com redes externas. “No exemplo de uma eventual depressão de um professor, como o sistema de saúde se integra com o educacional? É possível encaminhar essa pessoa para conversar com um profissional? Um psicólogo pode ir até a escola? Isso é algo que deve ser avaliado individualmente por cada instituição, pois cada município tem sua rede.”

Entretanto, apesar da possibilidade de ocorrência desses casos que demandam maior atenção e acompanhamento, Ana Flávia acredita que o movimento de externalizar preocupações já pode ser de grande ajuda para os docentes. “Escutar, compreender, mostrar até onde a escola pode ir, o que ela não pode fazer, o que é possível solicitar à Secretaria de Educação, tudo isso é curativo e terapêutico em si, pois essa conversa mostra que o professor não está sozinho, que sua situação é compreendida, que ele tem a quem procurar se precisar de apoio.”

 

Preparação

Os encontros individuais demandam a empatia de realmente tentar compreender a situação de colegas. Mas, além disso, há outras formas de se preparar tanto para as conversas como para a retomada gradual da vida na escola.

Uma delas é a aplicação prévia do questionário trazido pelo guia de orientações do Instituto Península. A partir das devolutivas, que são anônimas, é possível que a coordenação e direção da escola pensem em respostas às primeiras queixas e dúvidas que os professores colocaram, inclusive pensando em dinâmicas mais direcionadas de acordo com a situação do corpo docente.

Outra estratégia que pode ajudar no retorno é avaliar a infraestrutura da escola e estudar possíveis novos arranjos e melhorias que podem conferir maior segurança aos professores, estudantes e demais funcionários. “Se a escola tem uma área aberta, por exemplo, como uma quadra ou jardim, é possível pensar em um rodízio para que cada dia uma turma possa ter aula vivenciar esses espaços.”

Mapear as redes externas – como possíveis apoios do sistema de saúde – também pode ajudar (como no caso da situação descrita acima), considerando como a região onde a escola está inserida vivenciou e está enfrentando a pandemia.

 

Para além da pandemia

Ponto de atenção importante é reforçar o quanto momentos de troca, compartilhamento de vivências, desafios e situações pode beneficiar toda a comunidade escolar não apenas na situação de readaptação necessária após a pandemia, mas em todas as outras questões que uma escola enfrenta todos os anos.

“Se pensarmos a escola como um organismo vivo, o ato de os gestores abrirem um canal de escuta para além desse momento de início das aulas garante que questões possam ser encaminhadas mais rapidamente, antes que virem desafios maiores, como o adoecimento de um professor, ou em uma situação de eventual perda de controle, por exemplo.” Para Ana Flávia, toda e qualquer instituição se beneficia de canais de comunicação eficientes, que sejam cuidadosos com os funcionários que ali trabalham.

 

Foto: jcomp/Freepik 

Melhorar a relação com a tecnologia demanda novas metodologias

A adoção de novas metodologias de ensino aliadas à tecnologia vão continuar sendo importantes neste ano letivo. Com no máximo 30% de alunos nas escolas, rodízio nas turmas e ensino híbrido (presencial e remoto), professores terão que usar toda a experiência adquirida ao longo de 2020 para interagir e manter alunos aprendendo com atividades engajadoras.

No último ano, educadores foram pouco a pouco rompendo barreiras para a adoção de tecnologia em suas aulas. Isso foi detectado pela pesquisa “Pesquisa de sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península em quatro etapas. A sondagem ouviu as opiniões de educadores brasileiros, na medida em que o isolamento social ia se ampliando e a realidade do ensino remoto ficava cada vez mais clara por conta da pandemia da Covid-19.

Em março, na primeira etapa da pesquisa, foram ouvidos 2.400 educadores. Naquele momento, ensinar por meio da tecnologia era o período mais desafiador. Apenas um terço das escolas estava oferecendo estrutura adequada para o ensino de maneira remota.

Na segunda etapa, realizada em maio, o número de professores que se sentiam pouco preparados para o ensino remoto era de mais de 50% seja nas redes estadual, municipal ou privadas. A maior porcentagem dos professores que declararam estar pouco preparados estava na rede privada (59%)

Já na terceira etapa, realizada entre julho e agosto, 46% dos educadores apontaram como principal dificuldade a falta de conhecimento das ferramentas de tecnologia. Em uma experiência diferente daquela de sala de aula, era difícil não apenas selecionar os melhores aplicativos, como também inseri-los em uma dinâmica de aula e depois avaliar o conhecimento dos alunos. Nessa fase, 23% dos educadores ouvidos pela pesquisa tinham mais de 50 anos de idade.

A coordenadora pedagógica escolar integrante da equipe de design de experiências pedagógicas da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa, Gislaine Munhoz, acredita que a faixa etária dos professores não foi o principal problema: “Observei que a idade não tinha muita relação com a facilidade ou dificuldade de migração dos professores para ambiente remoto. Os professores independentemente da idade enfrentam diferentes tipos de desafios, como o acesso à internet de qualidade”, afirma.

Também na terceira fase, ficou demonstrado que 63% dos educadores acreditam que o papel da tecnologia é o de “apoiar uso de diferentes metodologias de aprendizado”. Mas, segundo Gislaine não é isso que está acontecendo. “O que temos agora, é a reprodução do que acontece no ensino presencial”, lamenta.

Para uma relação harmônica e complementar entre a educação e a tecnologia, a necessidade de adaptação gerada pela pandemia pode trazer muitos aprendizados. É isso que defende Ana Paula Gaspar, assessora de tecnologia educacional que criou uma ferramenta que ajuda educadores no planejamento de aulas remotas.

“A PERA (planejamento de experiências remotas de aprendizagem) é uma ferramenta que apoia o professor no planejamento de atividades de forma sistêmica, olhando para os componentes que compõem a experiência de aprendizagem remota: as pessoas, a intencionalidade, a prática pedagógica e os recursos digitais. Esses quatro componentes são interdependentes”, explica Ana Paula.

Gislaine acredita que as novas tecnologias podem apresentar novas experiências para professores e estudantes. Como exemplo, ela cita as matérias de arte e educação física: “Essas duas áreas podem aproveitar todo o potencial do ensino remoto, pois permitem a expressão no corpo através da arte, da música e da dança, penso que são áreas que com a proposição de desafios, pequenos vídeos, estilo TikTok, podem ressignificar inclusive como esses conteúdos podem ser trabalhados, quando houver a volta para o presencial”.

Foto: jcomp/Freepik

5 aprendizados de 2020 essenciais para 2021

Os aprendizados conquistados ao longo de 2020, um ano como nenhum outro para educadores e alunos, vão contribuir para uma melhor experiência de aprendizagem ao longo do próximo. Abaixo, a Vivecer traz algumas desses pontos que devem continuar sendo importantes em 2021, seja quando alunos estiverem presencialmente em sala de aula, ou realizando atividades remotas.

 

Cuidado com o socioemocional

Em um ano em que muitos educadores tiveram dificuldade de entender como o aluno está aprendendo, olhar para além do desempenho acadêmico foi recompensador. Por que não liga a câmera? Será só timidez ou tem algo acontecendo com a aluna? Por que não entrega exercícios? Será que é falta de um computador e adotar atividades impressas seria o melhor caminho? Após um ano em que muitas famílias viveram o luto e enormes dificuldades financeiras em razão da pandemia, a preocupação em entender o contexto continuará sendo cada vez mais importante para identificar as barreiras e potencializar o aprendizado.

 

A valorização docente

A demanda por uma rápida reinvenção do professor para dar conta do ensino remoto foi acompanhada de um reconhecimento por parte da sociedade. Mesmo o familiar ou responsável que não tinha condições de estar ao lado do estudante durante o período das aulas, entendeu o quão complexo é o trabalho do profissional de educação para manter grupos de mais de 30 alunos motivados a aprender. Para além da questão financeira, como a Vivescer sempre ressalta, valorizar significa também olhar para o indivíduo, para o cuidado físico, emocional e mental, de forma a prepará-lo da melhor forma para os desafios do dia a dia da profissão. Em 2021, esse processo só será possível se a gestão estiver disposta a incluir o professor nas decisões para acolher o aluno.

 

A tecnologia como aliada

Mais um mito que 2020 derrubou está relacionado à adoção da tecnologia. Diante de tantos esforços de educadores, ficou claro que a tecnologia não está aí para substituir, mas para ficar ao lado do professor e potencializar a aprendizagem. Para 2021, fica a mensagem que o ensino híbrido não será uma abordagem para responder apenas à emergência da pandemia, mas que ajuda a repensar tempos, espaços e equipes escolares para uma aprendizagem mais significativa.

 

Comunicação constante com as famílias

Manter o aluno e a família engajados no processo educacional demanda conversas que não se resumem à entrega de uma lista de atividades, mas incluem uma objetiva explicação sobre os objetivos de aprendizagem. Especialmente durante as aulas remotas, é importante adaptar a linguagem para explicar às famílias que a rotina de estudos em casa não tem como repetir os mesmos tempos da escola, seja em período regular ou ainda mais no integral. No caso das crianças pequenas, isso também significa dizer que a brincadeira faz sentido cognitivo e não só de prazer social.

 

Flexibilização das avaliações

Provas sempre foram alvo de questionamentos sobre sua efetividade. Durante as aulas remotas, isso ficou ainda mais evidente. Sem o contato diário, ficou difícil tirar dúvidas e enxergar aquela mão erguida lá no fundo da classe que sinalizava uma dificuldade maior em algo que o professor já dava como entendido. Saber o que se passa em casa exige uma parceria com pais que, no caso das crianças menores, podem fazer um registro pedagógico das atividades, seja das brincadeiras ou do que a criança realizou no livro didático. O aluno que já está em etapas mais avançadas pode construir portfólios, uma ferramenta que reúne toda a produção com fotos, vídeos, trechos de aulas e diferentes tipos de recursos que ajudam o professor a entender onde é possível melhorar.

 

Foto: jcomp/Freepik

A importância de desconectar e recarregar energias para 2021

Mais do que rever práticas e realizar planejamentos para o próximo ano letivo, professores e demais profissionais da educação devem investir em momentos de descanso e relaxamento. Práticas de autocuidado podem ajudar a desconectar.

Corrigir provas e atividades, fechar notas, realizar o planejamento do próximo ano, pensar em boas mensagens para encerrar o ano letivo atual, trocar conteúdos e conhecimentos com colegas de profissão, sem deixar de lado a vida pessoal. A essa extensa lista de tarefas, soma-se a vivência durante uma pandemia mundial, que ajuda a explicar por que professores estão tão esgotados neste final de ano.

Todos sabem que 2020 não foi fácil. Desafios de diferentes tamanhos e naturezas interferiram na vida dos estudantes – desde crianças da educação infantil até adultos do doutorado –, dos professores, coordenadores, diretores e todos os profissionais da educação que, sem aviso prévio, precisaram migrar para o mundo online e lidar com uma realidade nunca antes vivenciada.

 

Vivescer: Que recomendação daria para o primeiro dia de trabalho em 2021?

Ao longo desses meses, a Vivescer ouviu diversos profissionais, conheceu práticas e atividades diversas, pôde testemunhar o amadurecimento dos docentes e seu empenho em lutar contra as adversidades e continuar estimulando o aprendizado de seus alunos da forma que foi possível. Por isso, com o Natal batendo na porta, é hora de descansar.

Por mais que saibamos que 2021 trará novos desafios na educação, que passam por uma (re)adaptação à vida na escola e ao ensino híbrido, além do planejamento de recuperação e reforço do aprendizado e muitas outras questões, agora é momento de recarregar as energias. Para entender a importância de realmente desconectar e relaxar, a Vivescer conversou com Marcia Epstein, psicóloga, multiplicadora de práticas meditativas, praticante da meditação budista e instrutora de “mindfulness” (atenção plena). Confira a seguir.

 

Vivescer: Por que é importante realmente tirar um momento de descanso total, sem realizar planejamentos para o ano que vem ou qualquer outra atividade nesse sentido?

Marcia: Entre outros fatores, a pandemia de Covid-19 tem gerado estresse, frustração e ansiedade. Sentimos medo de pegar a doença, sensação de solidão e isolamento por conta do distanciamento social e tristeza pela realidade dos outros. Além de tudo isso, os professores tiveram que se adaptar rapidamente ao ensino online, que requer mudanças na metodologia das aulas. O estresse intenso e duradouro pode abalar os mecanismos que protegem o organismo e quando tende a se tornar crônico, pode gerar quadros de ansiedade e depressão, conforme testemunham inúmeros psicólogos que

tiveram um aumento dessas queixas em seus consultórios. É importante dar ao corpo e à mente um momento de descanso total e tempo de se refazer, relaxar e se revigorar.

 

Vivescer: O ano de 2020 exigiu muito dos professores e demais profissionais da educação. O que essas pessoas podem ter em mente para finalizar o ano e aproveitar o descanso antes do retorno em janeiro?

Marcia: É importante entender que não é o estresse em si, mas a maneira como nós o percebemos e lidamos com ele que vai definir se a situação levará ou não a uma condição crônica de estresse. Para que isso não aconteça, é importante tirar um tempo para si e resgatar a saúde física e mental com uma dieta saudável; a prática de exercícios, respiração, relaxamento e meditação; respirar ar puro sem aglomeração; ler e dedicar momentos de atenção amorosa à família e amigos.

 

Vivescer: Fala-se muito da mentalidade de crescimento. Mas como adotar essa postura com resiliência?

Marcia: A mentalidade de crescimento, segundo pesquisadores, permite uma pessoa a viver uma vida menos estressante e mais bem sucedida. Fala-se em “mentalidade fixa”, ou seja, acreditar que nossas habilidades básicas, inteligência e talentos são apenas traços fixos em uma certa quantidade que nunca muda, e em “mentalidade do crescimento”, que é a ideia de que podemos aumentar a capacidade de nosso cérebro para aprender e resolver problemas. Ao contrário do que se pensava há algumas décadas, hoje sabemos sobre a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de mudar a si mesmo ao longo de nossas vidas, podendo crescer, se adaptar a novas situações e se fortalecer diante dos desafios. Então a maneira de olhar para momentos difíceis faz toda a diferença quando vamos responder a eles e no grau estresse que exigem. Adotar essa postura de mentalidade de crescimento tem menos a ver com resiliência e mais com a mudança de perspectiva e de olhar para os desafios.

 

Vivescer: Quais são algumas estratégias, dicas e práticas para realmente desconectar e aproveitar esse período para descansar?

Marcia: Eu, pessoalmente, trabalho com meditação e “mindfulness”. O cultivo da atenção plena ao momento presente pode levar à descoberta de amplos espaços de bem-estar, calma, clareza e discernimento dentro de nós mesmos, uma vez que, no geral, a nossa mente não está no momento presente. Nosso corpo está aqui, mas a mente está em outros lugares, dispersa, divagando de uma preocupação para outra, perdida em fantasias e problemas pessoais, constantemente buscando soluções. A prática meditativa promove a união de corpo e mente, o que traz enormes benefícios para a saúde física e mental.

Marcia: Os problemas de 2020 tendem a permanecer e até a se agravar em 2021. Por isso, é importante cultivar a resiliência, ter consciência de que tudo muda, que nenhuma situação dura para sempre e que, para prevenir o estresse crônico, devemos cultivar o autocuidado e nos tratar com muita gentileza e generosidade. Fazer pausas durante o dia de trabalho para praticar a respiração consciente pode ajudar muito.

 

—–

6 passos para começar a praticar a atenção plena à respiração

1) A partir de agora, comece a se conectar com a sua respiração, observando como o ar entra e sai de seu corpo. Você pode observar como seu abdome e o tórax se movem à medida que você respira. Caso queira, se for útil para você, você pode colocar uma mão no abdome, e outra, no tórax, para senti-los subir e descer;

2) Quais sensações você nota conforme inspira e expira? Você consegue perceber alguma pausa entre uma respiração e outra?

3) Não tente controlar ou mudar nada, apenas deixe que a sua respiração ocorra natural e livremente;

4) Permaneça assim por alguns instantes;

5) Quando estiver pronto, na próxima expiração, leve sai atenção para o corpo todo. Veja se consegue experimentar, eventualmente, uma sensação de plenitude e mantenha a consciência em tudo o que está sentindo conforme o ar entra e sai de seu corpo;

6) Permaneça assim por mais alguns instantes.

(Recomendação de Marcia Epstein a partir do livro “Mindfulness para Profissionais da Educação”, Editora Senac)

 

Crédito: Freepik

Resiliência, bem-estar e felicidade: os efeitos da descoberta do propósito

Carol Shinoda, especialista em propósito, explica como cercar-se de pessoas encorajadoras apoia desenvolvimento do propósito, e explica estratégia para essa descoberta

Juntamente com emoção, corpo e mente, propósito é o tema de uma das quatro jornadas de aprendizagem que representam o desenvolvimento integral de professores proposto pela Vivescer. Mas, afinal, porque refletir intencionalmente sobre seu propósito é importante? Isso faz diferença na prática profissional?

Ana Carolina Shinoda, coordenadora acadêmica e professora de pós-graduação com doutorado em propósito de vida, comenta que não é possível afirmar se as pessoas já nascem com um propósito ou se o descobrem ao longo da vida: essa é uma questão relacionada à crença de cada um. Entretanto, estudos apontam que ter uma razão para viver está diretamente relacionado à maior sensação de bem-estar, um dos espectros que compõem a felicidade.

“Pessoas que têm maior clareza sobre seu propósito declaram sentirem-se mais felizes, com maior sensação de gratidão, de empatia. Tudo isso tem relação com a longevidade, bem-estar físico e emocional, e menos propensão a depressão e ansiedade”, explica.

 

O propósito é tão importante assim?

Mais do que descobrir a razão da vida, o propósito tem efeitos diversos em uma pessoa. Carol Shinoda cita o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, personalidade da área de propósito que, tendo passado por campos de concentração durante o Holocausto, observa que pessoas que tinham uma razão para viver suportavam melhor as condições nesses locais. “Frankl traz uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche, que diz: ‘Quem tem porque viver, suporta quase qualquer como’. Ou seja, se você tem uma razão, você aguenta melhor as situações difíceis.”

Essa reflexão pode ser particularmente útil na área de educação, onde sabidamente os desafios são enormes e diários. “Se não há essa força interna do sentido, de ‘porque estou fazendo isso?’, é quase como se não existisse uma força para levantar quando caímos, e isso acontece muitas vezes, pois há muitas pedras no caminho da vida”, defende a especialista.

Para Ana Carolina, essa reflexão sobre o propósito pode ajudar, inclusive, a lidar com questões envolvendo pandemia, coronavírus, quarentena, e o ano que está por vir. “O propósito traz clareza de nossas prioridades. Em um ano que tivemos e que ainda teremos muitas dificuldades e obstáculos, temos que saber onde investir nossa energia, clareza e foco, e o propósito ajuda a fazer escolhas mais direcionadas e que façam sentido, evitando o desgaste com assuntos que não importam tanto assim.”

 

Dá para descobrir o propósito?

Ministrar aulas para bichos de pelúcia, bonecas e até animais de estimação são relatos comuns entre professores que afirmam que, desde criança, já sabiam que queriam trabalhar com educação. Há quem diga, também, que a área foi crescendo à sua percepção aos poucos, e muitos buscaram carreira na educação como segunda graduação.

Aqueles que ainda não sabem ao certo qual é seu propósito podem fazer uma série de vivências para ajudar nessa descoberta. Para sua tese de doutorado, Carol conta que criou um método de desenvolvimento do propósito baseado em quatro pilares, vivências para incentivar que pessoas se aproximem dessa identificação de sua razão de vida ou que aprimorem uma ideia já concebida.

O primeiro passo dessa jornada é o autoconhecimento. “William Damon, professor de educação da Universidade de Stanford [EUA], afirma que o propósito é ‘uma intenção estável e generalizada de encontrar algo significativo para si e que gere consequências no mundo além de si’. Dessa afirmação, podemos entender que a pessoa precisa se conhecer, porque é esse autoconhecimento que vai possibilitar a identificação de algo importante para si”, explica a especialista.

Também relacionado à frase de Damon está o segundo passo da jornada, a empatia. Se é preciso gerar consequências para o mundo, o propósito não pode ser egocêntrico, ou seja, focado no bem-estar e satisfação unicamente de uma pessoa.

Logo em seguida vem a etapa da experimentação. Querer, de alguma forma, fazer a diferença no mundo por meio de seu propósito requer tentativas concretas, caso contrário o propósito ficaria no âmbito da idealização. A última etapa dessa caminhada é o planejamento, ou seja, o ato de pensar e refletir como concretizar sua intenção e torná-la uma ação para o mundo.

 

Experiência de vida e mudança de propósito

Essa e outras metodologias para descoberta ou desenvolvimento do propósito não significam, entretanto, que essa é uma descoberta única na vida. Para Carol, o propósito evolui ao longo da vida e das experiências vividas. “Com a sua caminhada, você pode adquirir mais força, competência e habilidades e, com isso, talvez você queira expandir o seu propósito, ou modificá-lo para outro público, dar uma dimensão maior. E tudo bem. O propósito não é algo que descobrimos uma vez, escrevemos em pedra e nunca mais muda.”

Além disso, a especialista também reforça que não se trata de um ponto de chegada, mas sim uma reflexão, busca e refinamento constante, processos que podem e serão influenciados por diferentes momentos da vida das pessoas. É possível, por exemplo, que alguém precise se distanciar, mesmo que momentaneamente, de seu propósito por não conseguir um emprego na área que gostaria, mas uma ocupação que ajude a pagar as contas.

“Essa reflexão constante é muito necessária para você ter um propósito autêntico, assim como você se respeitar enquanto ser humano nesse processo. Nós passamos por diversos estágios e estamos em um contexto onde não vivemos sozinhos e independentes das pessoas e condições que nos cercam. Então é um alinhamento constante.”

 

A caminhada conjunta do propósito

Apesar do propósito ser algo individual, é possível, ao longo da vida, encontrar apoiadores  nesta caminhada pessoal ou ainda quem compartilhe dos mesmos objetivos. Para Carol, essa busca por parceiros que energizam o processo é positiva e deve ser encorajada.

“Isso nos dá força porque entendemos que não estamos sozinhos na batalha; é algo que alimenta a alma. Fora que, quando desenvolvemos projetos em conjunto com outras pessoas, podemos unir habilidades, competências e visões de mundo, construindo propostas muito mais ricas por meio da diversidade do que faríamos sozinhos”, completa.

A tese completa de Carol Shinoda sobre propósito está disponível neste link. Pelo instagram @carolshinoda.proposito, é possível entrar em contato com a especialista e esclarecer dúvidas.

 

 

Crédito: Freepik

Educadora reforça importância de focar em aprendizados de 2020 para fechar o ano de maneira otimista

Para Ana Flávia Castanho, apesar de desafiadora, educação à distância proporcionou aprendizado para vários grupos. O final do ano é momento de descansar, pensar em avanços realizados e recarregar energias para 2021

Há quem diga que um piscar de olhos foi suficiente para o ano todo passar. Outros, afirmam que os meses estacionaram. De qualquer forma, dezembro está aqui, mês que marca encerramentos de ciclos e reflexões sobre o que ficou para trás. É possível não deixar que os desafios, dificuldades e a tristeza ocasionada pela pandemia de Covid-19 marquem as mensagens, reuniões – online ou presenciais – e planejamentos para 2021?

Segundo Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer, é preciso se manter otimista, sobretudo na área da educação, uma vez que educar significa confiar em um futuro possível melhor do que se vive atualmente. Não se trata, entretanto, de uma esperança ingênua, mas sim de um otimismo comprometido, ou seja, observar o que passou, o que foi bom e planejar melhorias para o futuro.

“Como educadora, vejo que esse ano nos permitiu direcionar o olhar para o que é profundamente humano da educação e em cada um de nós, reforçando laços, o compartilhar de ideias, o apoio mútuo e a construção coletiva”, explica. Para Ana, o desenvolvimento e trabalho com o lado pessoal foi um dos pontos altos desse momento desafiador, e ter esse foco como mensagem de final de ano pode ajudar a transmitir novas esperanças para 2021.

Professores, escolas e secretarias buscando soluções para fazer atividades chegarem aos estudantes, o reforço do elo entre as pessoas, a redescoberta do propósito da figura do professor, a reflexão sobre o valor do conhecimento, a valorização de diferentes repertórios e soluções culturais e do trabalho cooperativo, a argumentação por soluções, o aumento do autocuidado e o desenvolvimento da empatia são apenas alguns dos aprendizados que Ana Flávia aponta que o período de aulas remotas trouxe.

Ela cita um trecho do livro “A Vida não é Útil”, do líder indígena Ailton Krenak, para reforçar que a sociedade está sendo provocada a se renovar e repensar o rumo de diversas áreas, inclusive da educação. “Vamos ter que produzir outros corpos, outros afetos, sonhar outros sonhos para sermos acolhidos por esse mundo e nele podermos habitar. Se encaramos as coisas dessas forma, isso que estamos vivendo hoje não será apenas uma crise, mas uma esperança fantástica, promissora”, diz o trecho.

 

Educação enquanto processo

Com escolas fechadas subitamente, com pouco tempo para se organizar para uma realidade imprevista e nunca antes vivenciada, muitas pessoas adotaram a expressão “ano letivo perdido” para se referir a 2020. Ana Flávia diz não concordar e sugere uma forma de encarar o cenário.

“Precisamos entender a educação como um grande percurso, não como anos isolados. Se pensarmos como um grande processo de desenvolvimento humano, afetivo, cognitivo, de consciência corporal, 2020 foi um ano de aprendizados, não perdido. O que precisamos é encontrar maneiras para estar mais próximos em 2021, porque talvez continuemos com um sistema híbrido, um pouco presencial e um pouco à distância.”

Dito isso, a educadora reflete sobre a importância e a potência de investir em avaliações diagnósticas, para entender os verdadeiros avanços e as lacunas a serem recuperadas e preenchidas. “Devemos observar quais conhecimentos fundamentais não foram construídos. Em cada disciplina, existem conhecimentos centrais que ajudar a conseguir outros, e se conseguirmos ajudar as crianças a aprender o que é fundamental de cada conteúdo, vamos fortalecer o percurso de aprendizado.”

 

Descansar para continuar
Ao longo da pandemia, desde conversas de WhatsApp, até mesmo lives e reuniões pedagógicas discutiram a questão da recuperação de conteúdo. Muitos especialistas chamaram a atenção, entretanto, para o fato de que o momento não deve ser usado para pensar em seguir um currículo que determina o que estudantes devem aprender, considerando as condições adversas que a educação enfrentou durante o ano.

O mesmo se aplica ao momento de férias em dezembro e janeiro de 2021. Para Ana Flávia, agora é momento de descansar e recarregar energias para os próximos períodos, que deverão considerar o que avançou durante esses meses e endereçar aquilo que não foi trabalhado conforme o planejado. “2020 foi um ano que exigiu muita criação e resolução de problemas de todo mundo. Acredito que, diante desse momento de fechamento, tanto professores como alunos precisam de descanso, de renovação, de um tempo para se preparar para um novo ano”, explica.

A mensagem também vale para famílias. A troca da sala de aula por aulas a distância em casa fez com que muitas famílias passassem a se aproximar da educação dos filhos, o que também trouxe novos aprendizados, experiências e desafios. Para Ana, é natural que adultos que ajudam crianças e jovens em suas tarefas priorizem a resposta. Entretanto, o percurso até os resultados é igualmente ou até mais importante.

“É necessário ter tranquilidade emocional para ajudar os filhos e incentivar que cultivem as perguntas. Vivemos em uma sociedade do imediato, mas é ao sustentar uma pergunta que o aprendizado acontece, pois vamos encontrando meios de responder. Esse ano ajudou nessa parceria tão importante entre família e escola. Então, nesse sentido, é papel das famílias incentivar e mostrar que as crianças são capazes, que obstáculos podem ser superados e que tudo bem dormir com uma dúvida, pois, no dia seguinte, é possível ter boas ideias para resolvê-la. Todos estão precisando de uma pausa para se preparar para o próximo ano; as famílias também.”

 

Uma proposta para encerrar o ano 

Focar no lado negativo e em todas as dificuldades que a pandemia trouxe para a educação é uma receita a ser deixada de lado. Para a educadora, o segredo está em enxergar as possibilidades que se abriram e nutrir-se com força a partir delas, para pensar o que pode ser feito de forma diferente no próximo ano.

Uma ideia de reflexão a ser feita com crianças e jovens é propor que escrevam as cinco coisas que aprenderam melhor em 2020 e as cinco coisas que mais sentiram falta e gostariam que fossem diferentes no novo ano letivo. Em seguida, os professores podem contabilizar as ideias e achados dos estudantes e construir mensagens coletivas e personalizadas.

“No meu lugar de professora, diria o quanto eles aprenderam, como eles são capazes, como conseguiram, juntos, construir um novo jeito de estar na escola e como tenho plena confiança em cada um deles. Também é possível dizer sobre coisas que cada um aprendeu, para mandar mensagens sobre o quanto eles se superaram e como coisas bonitas aconteceram. Além disso, faria o exercício de relacionar tudo o que eles sentem falta e pensar no que é possível fazer para endereçar as questões no próximo ano”, completa.

 

Foto: jcomp/Freepik

Mais do que conteúdo, educação diz respeito a convívio, amizade e companheirismo

Embaixadora da Vivescer, Luciane Ribeiro reforça que autoconhecimento promovido pelas jornadas pode melhorar trabalho do professor em sala de aula com os alunos e convívio dentro e fora da escola

Luciane Fernandes Ribeiro é mais uma professora que integra o time de embaixadores da Vivescer. Professora de língua portuguesa do ensino fundamental 2 da rede pública municipal de Marabá, no Pará, teve o primeiro contato com a ferramenta por intermédio de um colega de profissão, e depois foi convidada a estimular que outros professores também a conhecessem.

“Prontamente aceitei o título de embaixadora da Vivescer, pois a plataforma se relaciona muito com o que entendo por educação pública de qualidade. É um diálogo muito interessante com a minha prática de sala de aula.”

Para ela, o ponto alto da ferramenta é o olhar sensível que dirige aos professores, entendendo a importância de falar a ‘mesma língua’ de quem está diariamente em sala de aula em contato com crianças e jovens. “O que achei mais interessante na Vivescer é que ela vê a figura do professor e se preocupa com ele. Sempre quando falo sobre a plataforma trago esse ponto de nos enxergar enquanto seres humanos, seres emocionais. Tudo com muita empatia, que é o que precisamos”, explica.

Olhar para dentro

Assim como muitos outros professores, Luciane aponta que a Vivescer incentiva, a todo momento, que o docente volte seu olhar para dentro de si e preocupe-se também com o próprio bem-estar. Para ela, esse foi um divisor de águas em sua vida como professora.

“Eu comecei a explorar a plataforma pela jornada da mente, porque era um momento em que estava precisando muito. Estava cansada física e mentalmente. A jornada me fez olhar para mim e perceber que precisava me cuidar para cuidar do outro, porque a princípio,  pensava: ‘preciso estar na sala de aula trabalhando’. Agora não. Além de estar na sala, preciso estar bem”, reforça.

Os exercícios sugeridos ao longo do percurso, bem como outras propostas de trabalho com a respiração, ajudaram a controlar a ansiedade. Além disso, a professora ressalta que a jornada emoções foi um percurso repleto de descobertas, como maior percepção sobre a forma que as emoções se manifestem através de sintomas no corpo físico.

“O autoconhecimento é muito importante, pois estar bem ou chateado vai afetar o seu lado profissional. É interessante perceber isso, pois quando você está impaciente ou com algum problema na vida particular, pode levar isso para a sala de aula. Assim, é importante saber que o problema daquele dia está com você e não com os alunos. Conhecer as emoções é importante para lidar bem com elas”, destaca.

 

Dentro e fora da sala de aula

Para Luciane, o fato de a Vivescer encarar o professor a partir de uma ótica que se preocupa com a saúde física e mental ajuda o docente a entender melhor seus alunos e melhorar esse relacionamento. “Nós já sabíamos que é necessário trabalhar competências socioemocionais com os estudantes. Mas a plataforma apresenta um norte sobre como fazer isso de forma prática, indo além do discurso.”

Outro ensinamento da plataforma aos docentes é perceber que educação vai além do conteúdo do momento, conferindo importância à vivência, amizade, companheirismo e outros fatores. “A partir da Vivescer, nós passamos a entender novas formas de trabalhar e como isso é gratificante e traz resultados satisfatórios.”

Os ensinamentos também conversam diretamente com alguns pilares da educação. Apesar de concordar que o aluno deve ser o centro das reflexões, ela reforça que os docentes também devem receber atenção e cuidados direcionados, uma vez que representam uma parte importante do processo educacional. “Quando a Vivescer traz esse olhar para o professor, ela está dizendo que a valorização não passa apenas pela remuneração, mas sim a preocupação com o bem-estar do docente, necessário para que ele possa trabalhar bem.”

Essas percepções têm um efeito disseminador, uma vez que um professor que passa pelas jornadas vai puxando outros e influenciando positivamente toda uma comunidade. Com a ideia de multiplicar saberes, um professor cadastrado na plataforma pode mudar suas atitudes e passar isso adiante, o que acaba por refletir em seu comportamento com colegas e influenciá-los a mudar também.

 

 

Luciane Fernandes Ribeiro atua há 20 anos com educação. Formada em letras pela  Universidade Federal do Pará, atualmente leciona na rede municipal de Marabá, no Pará. Em 2012, foi reconhecida pelo Prêmio Educador Nota 10.