Exercícios físicos simples ajudam professores a cuidar do corpo durante as aulas remotas

A simples combinação das palavras “exercícios” e “quarentena” no buscador da internet mostra resultados de aplicativos, técnicas, vídeos e reportagens sobre a importância de, mesmo durante o distanciamento social, as pessoas se manterem fisicamente ativas de alguma forma, seja arrastando sofás na sala e criando um pequeno espaço ou até mesmo a prática de alongamentos na própria mesa de trabalho.

Muitos especialistas já fizeram alerta sobre o risco que o período em casa apresenta para a saúde. No caso específico dos professores, a lógica de trabalho mudou completamente: se antes ficavam em pé praticamente durante o dia todo, agora precisam encarar longas jornadas diárias sentados à frente de um computador para preparar e ministrar aulas remotas. O impacto é sentido no aspecto emocional – já que os docentes precisam se adaptar a uma nova metodologia com a qual a maioria não tinha familiaridade –, e também no físico.

Verônica Fonseca, coordenadora do Impulsiona, programa do Instituto Península que utiliza o esporte como ferramenta no desenvolvimento integral, reforça que a prática de exercícios físicos, que ajuda os professores a lidar com a rotina desafiadora e sobrecarga de trabalho, é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

“A OMS, que lançou um guia sobre como se manter ativo durante a quarentena, recomenda, pelo menos, uma média de 20 minutos de atividade física de intensidade moderada por dia, que pode ajudar a reduzir a ansiedade e o estresse, além de melhorar a disposição física”, explica.

O grande volume de trabalho, somado a estresse, insegurança, pressão sobre os professores e somado às longas jornadas acabam por causar dores de cabeça, musculares e um esgotamento físico que noites de sono não são capazes de resolver completamente. Para Verônica, exercícios físicos simples como alongamentos e caminhadas leves já atuam na diminuição dessas dores, além do fato de que o relaxamento produzido pela prática de exercícios contribui para a qualidade do sono, muitas vezes prejudicada por sintomas como ansiedade e agitação.

Os benefícios, entretanto, vão além do fortalecimento dos músculos, melhora do condicionamento físico e aumento da capacidade cardiovascular e pulmonar, e contribuem também para o bem-estar psicológico e mental dos praticantes. “A atividade física regular ajuda o cérebro a manter suas principais habilidades mentais afiadas e reguladas. Desta forma,, percebe-se também uma maior regulação das emoções. Isso tudo ajuda a equilibrar o estresse e impede que sintomas físicos sejam experimentados”, reforça Verônica.

Mas como encaixar os exercícios em meio a rotinas cada vez mais sobrecarregadas e jornadas que parecem não chegar ao fim? Segundo a especialista, pausas ativas – intervalos periódicos ao longo do dia a fim de alongar e movimentar um pouco o corpo– têm se mostrado efetivas durante a quarentena.

Em um movimento de reunir propostas simples e, ao mesmo tempo, criativas de exercícios que podem ser feitos em casa, o Impulsiona incentivou que os professores do programa enviassem sugestões de atividades para que alunos, famílias e, claro, outros professores, pudessem fazer em casa. Diego Felipe Raymundo, professor de educação física de escolas das redes pública e particular de ensino de Guarulhos, em São Paulo, contribuiu com algumas ideias. Confira a seguir.

Exercícios sem sair da mesa de trabalho? 

É possível! Diego indica uma série de alongamentos que podem ser feitos sem levantar da cadeira. Dois minutos entre uma tarefa e outra, por exemplo, podem se transformar em uma sessão super rápida de alongamentos que, inclusive, podem prevenir a chamada LER, lesão de esforço repetitivo.

“Além de um gasto calórico, mesmo que pequeno, os alongamentos são muito importantes sobretudo para quem passa o dia inteiro digitando, por exemplo.

  • Para alongar coluna, basta entrelaçar os dedos e levar as suas duas mãos como se estivesse empurrando o teto, sem tirar o glúteo da cadeira, e também, ainda com os dedos entrelaçados, colocar as mãos atrás da cabeça e puxá-la um pouco para baixo;
  • Colocar uma das mãos na orelha, e empurrar a cabeça para a outra orelha ir em direção ao ombro, alternando os lados;
  • Estender o braço e fazer a flexão e extensão do punho;
  • Levantar o braço até o cotovelo ficar ao lado do rosto e, com a outra mão, empurrar o cotovelo para trás para alongar o tríceps.

Tenho mais tempo para me exercitar. O que fazer? 

Segundo Diego, um assunto sobre o qual tem comentado bastante com seus alunos e colegas é como fazer ginástica dentro de casa mesmo sem qualquer material. Para quem tem mais tempo e quer investir em uma rotina de exercícios, existem sequências que podem ser feitas em qualquer janela de dez minutos ou mais, a depender da disposição de cada um.

“É possível fazer 45 segundos de polichinelo, depois descansar 15. Em seguida, repete os tempos mas fazendo polisapato, um movimento parecido, em que a pessoa leva a perna e o braço contrário à frente e vai alternando. Depois, uma série de agachamentos, tomando cuidado com os joelhos; o exercício do afundo, onde uma perna vai à frente e agacha, para trabalhar quadríceps e glúteo; subir e descer na ponta do pé para exercitar a panturrilha; uma corrida no lugar; abdominais e ‘walking burpee’, onde a pessoa apoia os braços no chão, coloca os dois pés para trás e depois para frente. Com esses exercícios, trabalhamos praticamente o corpo todo.”

E se eu nunca tiver praticado exercícios?

Para aqueles que nunca praticaram um exercício, mas já perceberam que as longas jornadas diante do computador estão produzindo efeitos indesejados no corpo, como dores e tensões musculares, vale prestar atenção no próprio ritmo. Segundo Diego, ao praticar um exercício, é importante observar a frequência cardíaca e seu nível de esforço e cansaço.

“Se sua frequência cardíaca está muito alta, isso significa que determinada atividade está um pouco demais para seu corpo. Já a escala de esforço determina o quanto estou cansado. É possível diminuir o tempo da atividade ou trocar o exercício. Por exemplo: se nunca me exercitei, estou fazendo um polichinelo e vi que minha frequência cardíaca foi lá em cima, pare um pouquinho, diminua o ritmo ou troque o exercício por algo menos intenso.”

Como inovar nos exercícios dentro de casa? 

Para o professor, a dica para se incentivar a praticar algum exercício é entender que essa é a realidade possível atualmente, porque mesmo com academias sendo reabertas ainda pode existir receio por parte dos frequentadores. Em casa, uma combinação de atitude e criatividade também é bem-vinda.

“O sofá acaba nos chamando, então algo que tem me ajudado muito, particularmente, é a música. Uma dica é a pessoa desligar a televisão ou usá-la para fazer atividade física. Como? Coloque vídeos da internet de exercícios ou uma música. Se gosta de fazer exercícios ao ar livre, coloque uma paisagem ou um vídeo que dê essa sensação.”

É possível vencer a preguiça?

Um dos segredos para vencer a preguiça de se movimentar é incluir os exercícios na rotina. “Essa história de ‘ah, quando der eu faço’, nós acabamos não fazendo nada. Por isso eu sempre falo: exercício é rotina”, explica Diego. Para o profissional, a vida, sobretudo o momento atual, onde o gasto calórico das pessoas é menor e o consumo de alimentos é, geralmente, maior, demanda exercícios por uma questão de saúde, muito além da estética.

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Tecnologia pode ajudar a enfrentar solidão docente durante quarentena, aponta especialista 

Figuras de papel se cumprimentam

Muito antes da chegada do coronavírus no Brasil, já se falava em solidão docente. O sentimento que, segundo a pesquisa Observatório do Professor, realizada pelo Instituto Península, atinge parte dos mais de dois milhões professores que compõem a educação básica brasileira, se dá por diferentes motivos: desde a falta de preparo adequado durante a formação inicial, até a necessidade de enfrentar desafios complexos como violência, evasão escolar e alunos de diferentes realidades socioeconômicas, até a falta de apoio por parte da coordenação pedagógica e dos colegas de profissão.

Se mesmo com o convívio diário com alunos e reuniões na sala dos professores o sentimento de solidão era relatado com frequência, como fica o cenário durante o isolamento social? Além de terem perdido o contato físico, muitos professores estão sobrecarregados pela responsabilidade de ser a ponte entre a escola e os estudantes. A necessidade de aprender a lidar com plataformas tecnológicas para dar aulas a distância também é um fator que soma-se à lista de desafios do momento.

O que pode ser feito para amenizar esse sentimento? A tecnologia, de certa maneira um tanto impessoal, pode ser usada para aproximar os profissionais da educação e criar um senso de pertencimento e comunidade durante o isolamento social? Confira a entrevista com Lilian Bacich, cofundadora e diretora da Tríade Educacional.

Vivescer: O que você tem percebido em termos de sentimentos dos professores em seus contatos durante transmissões online ou com os ex-alunos dos cursos do Instituto Singularidades?
Lilian: Os professores com quem tive contato falam sobre estar longe dos alunos e como isso gera uma angústia por não saberem se os estudantes estão aprendendo ou não. Muitos falam que não conseguem saber se aqueles alunos que acompanham as aulas realmente estão por perto. Em um momento em que está todo mundo em casa, é nessas lives, cursos e ambientes online que os docentes se encontram.  

Vivescer: Em tempos de distanciamento social, como a tecnologia pode ajudar a combater ou amenizar a solidão docente e criar o sentimento de comunidade?
Lilian: Tenho notado que os cursos e lives, principalmente as que disponibilizam fóruns para as pessoas conversarem, estão virando as grandes salas dos professores, os grandes pontos de encontro. Percebo que nas lives que eu faço, os professores fazem perguntas para mim ao mesmo tempo que estão conversando entre si. Em uma transmissão que recebeu inscrição de 1.500 pessoas com perguntas, a principal angústia relatada foi como chegar perto dos alunos. Durante a lives, os professores foram trocando essas informações, e esse processo tem sido muito rico, porque vão aprendendo uns com os outros.

Vivescer: Você viu exemplos de processos que eram realizados presencialmente e precisaram ser adaptados para o online?
Lilian: Na prefeitura municipal de Ponta Grossa (PR), realizei um trabalho com professores baseado na metodologia Lesson Study, um processo no qual os professores se reúnem para planejar, observar e refletir em conjunto sobre a elaboração de planos de aula e seus impactos na aprendizagem dos alunos. Nessa metodologia, os professores devem planejar as aulas juntos, presencialmente. A rede separou algumas escolas para participar da experiência. Então o grupo todo planejava a aula do quinto ano, o professor aplicava a aula, todos assistiam e depois discutiam como poderiam melhorar. Esse é um ponto que ameniza muito a solidão de planejamento e a falta de apoio no presencial. Atualmente, cada um da sua casa, eles estão fazendo a mesma coisa, mas o planejamento é para o conteúdo que será disponibilizado pela televisão. Quando a iniciativa era presencial, os professores pediam apoio de um especialista para validar o planejamento e o mesmo está acontecendo agora: eles estão buscam outras pessoas para analisar o que pensaram para colocar em prática na televisão. Então além de se juntarem para trabalhar juntos, estão acionando outras pessoas para fazer parte dessas redes. Por isso, considero que esses arranjos têm um potencial muito grande de formação para os professores.

Vivescer: Como essas redes podem ajudar na questão da solidão docente?
Lilian: Todas as redes de professores são úteis e acredito que elas podem ajudar se oferecerem conteúdo e agregarem os docentes no sentido de propor discussões direcionadas, porque isso acaba ajudando a focar em um tema. O que percebemos na maioria dos grupos e redes que formam a partir de uma live é um foco, ou seja, um movimento de pessoas trocando ideias em relação àquele tema. Em uma rede social, como um grupo do Facebook onde pessoas pedem dicas e sugestões, é tudo muito difuso, cada pessoa pergunta uma coisa e não há uma linha de construção. Se a rede tiver um foco e um fio condutor, ela conseguirá agregar mais pessoas, não ficar tão difusa e realmente ser muito mais útil para quem acessa.

Vivescer: A atenção com o bem-estar dos estudantes durante esse momento é um tema amplamente abordado em muitos textos e reportagens. Algumas dicas envolvem atenção individual, checar rapidamente no início de cada aula se está tudo bem, jogos para descontrair, atividades em grupo e reforçar os interesses de cada um. Como podemos pensar em movimentos e atividades semelhantes para os professores?
Lilian: Eu vejo que entre os professores há uma necessidade muito grande de compartilhar o que estão fazendo. Se formos fazer uma analogia, é o momento de roda de conversa na Educação Infantil, quando a professora pergunta o que as crianças fizeram no final de semana. No curso de pós-graduação e em outros grupos que tenho contato mais próximo, o momento inicial sempre é de colocar para fora o que estão sentindo, porque estamos vivendo uma situação diferente. Então acredito que abrir as conversas com um espaço para falar sobre quais são as dores e como as pessoas se desafiaram a vencê-las é um processo interessante. Há um sentimento de solidão muito grande e as pessoas querem compartilhar com alguém. Esse é um excelente momento para isso. Ao mesmo tempo, também há a necessidade de professores conhecerem recursos digitais, por exemplo. Então a apresentação de uma nuvem de palavras ou de um novo recurso pode incentivar e fazer com que o professor se sinta encorajado a levar essas ferramentas para seus alunos.

 

Vivescer: Há outras dicas de iniciativas que podem ser realizadas para ajudar a combater esse sentimento?

Lilian: Temos visto os professores criando muita coisa. Para o dia das mães, vi um vídeo colaborativo em que cada professor pega e joga uma bolinha para o outro, cada um da sua casa. Esse tipo de iniciativa é legal porque é algo que eles têm vontade de fazer e tem o propósito de mandar para os alunos. Então talvez investir em coisas que não estão relacionadas diretamente com o desafio que eles estão precisando lidar agora seja um caminho. Isso ajuda as pessoas a se divertirem, a criar um vínculo e a deixar tudo um pouco mais leve nesse período. Em alguns grupos que estou, os professores também estão sugerindo, por exemplo, cozinhar todo mundo ao mesmo tempo. Então ligam a câmera e cada um cozinha uma coisa.  São estratégias diferentes que aproveitam o digital e tiram um pouco o peso desse momento.

 

 

 

 

 

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Vivescer ajuda professora a trabalhar com formação docente durante pandemia

Em um contexto de pandemia, como dar continuidade ao aprendizado, mesmo que a distância? E quando se trata de formação de professores, como manter um percurso educativo e relacionar a formação ao momento atual? Para responder essas e outras perguntas, a Vivescer conversou com Suzane Napolitano, coordenadora pedagógica e professora do magistério no Centro Educacional Ferreira Carvalho (RJ), na capital fluminense.

Seu relacionamento com a Vivescer começou em 2019, durante uma cerimônia de premiação de projetos na qual teve uma atividade reconhecida. Na ocasião, Suzane conheceu José dos Santos, professor de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental 2 da Escola Municipal Maria Dias Trindade, localizada em Paripiranga, na Bahia e embaixador da Vivescer (conheça a trajetória de José aqui).

“O José, que já era embaixador da Vivescer, me contou sobre a plataforma e me mostrou no celular como funcionava. A partir de setembro de 2019, comecei a usar a ferramenta porque há uma troca de experiências muito valorosa”, explica Suzane. Desde então, a coordenadora usa a plataforma para publicar práticas de sala de aula e seguir os percurso formativos.

Professora Suzane NapolitanoOs percursos

Entre as jornadas disponíveis no site, Suzane já passou por duas – Mente e Emoções – e está cursando a terceira – Corpo. A que mais chamou sua atenção foi a jornada que trata sobre a Mente, uma vez que incentiva a reflexão sobre desafios e problemáticas do dia a dia, experiências cognitivas, estratégias de aprendizagem, e a importância de ter uma multiplicidade de perspectivas da vivência em sala de aula e do contexto escolar.

Atualmente, no meio da jornada sobre Corpo, Suzane relata sobre o desafio pessoal que é desacelerar e focar na sua própria calma e bem-estar. “Essa jornada fala muito sobre pararmos e olhar como o nosso corpo fala e responde. Tem sido um grande desafio, pois sou muito ativa e tenho dificuldade de ficar parada e mentalizar tudo. Confesso que comecei a prestar atenção em coisas que antes eu não percebia.”

Como conectar com o momento atual? 

Apesar do desafio que é operar em ensino remoto, Suzane reforça que adaptar os conteúdos da plataforma para a realidade atual é uma tarefa possível, uma vez que enxerga a Vivescer como uma ferramenta feita por e para professores. “Tudo na ferramenta faz muito sentido. Há uma relação de troca entre os professores, principalmente entre os embaixadores, com muita conversa e cada um falando o que dá certo em suas escolas. Assim, conseguimos enxergar novas possibilidades e ter ideias de práticas para a sala de aula, além de abordagens inovadoras com os alunos sobre diversos assuntos que não só conteúdo.”

Em um exemplo recente, Suzane afirma que fez um paralelo com uma atividade da jornada Mente que fala sobre escolas que rompem barreiras. Nesse momento, as instituições de ensino estão enfrentando inúmeros desafios diários, desde o principal que é a questão sanitária e da luta contra o novo coronavírus (COVID-19), até questões específicas de cada escola, como uso da tecnologia e reinvenção dos professores.

“A plataforma me dá o suporte, pois tiro conteúdos e consigo trazer para a realidade da pandemia. Fica muito fácil de adaptar as temáticas da plataforma porque tudo dentro da Vivescer é feito realmente a partir de experiências e de relatos de professores. Tudo é pertinente e tem a ver com o dia a dia de sala de aula”, afirma Suzane.

*Suzane dos Santos Napolitano é formada em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente sou Coordenadora Pedagógica e Professora do Magistério no Centro Educacional Ferreira Carvalho (RJ). Foi premiada pelo Porvir como um dos Destaques do Desafio Diário de Inovações em 2019.

Educadores dão dicas para vencer indisciplina e aumentar engajamento de estudantes durante quarentena

Criança colorindo com lápis de cera

A suspensão de aulas e o fechamento das escolas durante a pandemia do coronavírus (COVID-19) levou alunos, professores e famílias a estabelecerem uma nova forma de convivência. Acompanhar um roteiro de estudos no próprio livro didático ou no computador implica combinados que até pouco tempo atrás não eram habituais para nenhum dos lados envolvidos no processo educativo.

Como se não bastassem os relatos sobre maior carga de trabalho por parte dos professores, estudantes, por sua vez, nem sempre conseguem manter o mesmo comprometimento que tinham na escola. Se a proximidade das aulas presenciais é eventualmente quebrada por conta de indisciplina, como fazer acordos em tempos de aulas via videoconferência, lembretes por WhatsApp e prazos virtuais? Como garantir que os estudantes de fato separem um tempo para se dedicar às tarefas durante o período de isolamento social?

A professora e psicopedagoga Vanessa Zito conta que a escola onde trabalha organizou uma dinâmica própria, com sistema de aulas com transmissões ao vivo diariamente. Antes disso, entretanto, a professora elaborou uma apresentação de PowerPoint com alguns combinados para que as aulas fluíssem e todos estivessem na mesma página. O arquivo foi compartilhado previamente com os estudantes e as famílias e, posteriormente, a turma fez uma reunião online para discutir as propostas.

Apesar de a primeira aula via videoconferência ter sido tumultuada, ela conta que, aos poucos, os estudantes foram entendendo o funcionamento e respeitando os acordos como, por exemplo, deixar os microfones silenciados. “Algumas vezes preciso dar uma pausa e chamar o nome de algum aluno de forma mais pontual. Mas também procuro reconhecer quando eles estão cooperando, agradeço se o encontro foi produtivo, reforço atitudes e comento o que precisamos melhorar para a próxima aula”, afirma.

A importância da atenção individual

Quando o assunto é engajamento dos estudantes, a educadora compartilha que, no caso daqueles que não estavam participando das atividades online, o primeiro passo foi mandar e-mails para os próprios alunos, investindo na parte mais afetiva ao afirmar que as professoras estavam com saudades. Em outros casos, a orientação pedagógica da escola também buscou pelas famílias, ao que Vanessa afirma ser fundamental a parceria entre escolas e responsáveis.

Lápis apontadosUma ação fundamental que tem ajudado a aumentar a participação e, consequentemente, o comprometimento com os estudos em casa é a atenção individual. “No final das lives (transmissões), digo que gostaria de conversar com fulano e fulano, e tento entender, nesse momento mais individual, porque não estão entregando as tarefas. No caso de duas crianças, elas não estavam entendendo o movimento de digitar e enviar o arquivo. Elas conhecem o Instagram e o Tik Tok, mas ainda há certa dificuldade, em alguns casos, com ferramentas do Google, por exemplo. Então eu gravei um tutorial e realizei uma videoconferência só com elas, e o trabalho começou a funcionar. É preciso, mesmo nesse momento, ter um olhar mais individual para as necessidades de cada um.”

Como questões externas interferem no aprendizado a distância

Fábio Mendes, doutor em filosofia com cinco livros publicados sobre o desenvolvimento da autonomia, reforça que questões externas interferem no comportamento dos estudantes, como a conectividade. Segundo o especialista, para que a aula seja de qualidade, o ideal é que a escola ofereça um suporte de tecnologia da informação (TI). “Como um estudante que quer prestar atenção consegue fazê-lo em uma aula que fica caindo toda hora? Esse é um problema novo, que não existia na sala de aula.”

Outra questão é a própria falta de formação docente e o modelo tradicional das aulas, que colocam os alunos em estado de passividade, o que facilita a distração e possíveis situações de indisciplina. Além disso, para Fábio, todo o contexto de educação a distância e isolamento social é uma oportunidade para que as famílias participem mais da educação dos filhos. “Dentro da sala de aula, há um ambiente controlado e, segundo diriam alguns, quase um sistema prisional. Em casa, o aluno pode levantar e ir tomar Nescau. Quem vai fazer a gestão física do aluno são os pais.”

Nesse tipo de situação, o protagonismo dos responsáveis esbarra na questão da autonomia do estudante. Para Fábio, crianças e adolescentes precisam ser estimulados a desenvolver a capacidade de seguir determinadas regras para um objetivo. Além disso, o educador pontua a importância de escolas e professores repensarem o modelo de educação proposto durante a quarentena. “Acredito que é preciso moderar a quantidade de conteúdos expositivos em uma live e transformá-los em atividades que sejam menos massacrantes. A prioridade na escola é promover aprendizado e não vencer uma lista de conteúdos. Esse pode ser um momento de as escolas enxugarem o currículo e promover aprendizados mais significativos e profundos”, afirma.

Envolver os alunos na organização de uma rotina diária que, ao mesmo tempo, dá importância ao lazer e aos estudos, pode ser um caminho para promover participação e comprometimento, além de considerar todas as especificidades do momento na hora de designar tarefas. “Nós estamos falando de qualidade de vida dentro de uma quarentena. A prioridade é preservar a saúde mental, e não dar conta dos conteúdos da escola. Senão, os alunos acordam pensando ‘meu dia vai ser horrível’. As escolas devem se preocupar que essas pessoas durmam bem, acordem bem, façam atividades e terminem o dia com força para enfrentar a quarentena.”

Foto: Free Photo e Jigsawstocker/Pixabay

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Ensino à distância: ferramentas que podem ajudar a educação em tempos de coronavírus

Desde 11 de março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou estado de pandemia por conta da disseminação acelerada do novo coronavírus, o Brasil e o mundo assistiram a inúmeras medidas para frear o número de infectados, como o fechamento de escolas e universidades. A suspensão das aulas em mais de 102 países obrigou mais de 850 milhões de estudantes, entre crianças e adolescentes, a ficarem em casa, segundo um comunicado da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Em diversas regiões do país, muitos professores e alunos enfrentam dificuldades dos mais variados tipos para acessar computadores e conexão à internet de qualidade para aulas ao vivo. Manter as aulas ainda que a distância é um cenário novo e que demanda esforços dos mais diferentes níveis, inclusive da administração pública. Entre inúmeros desafios, o momento apresenta a possibilidade de, no âmbito da educação, testar diferentes abordagens pedagógicas e avaliar o que funciona melhor para cada comunidade escolar.

Na lista, a Vivescer reuniu dicas de aplicativos, ferramentas e plataformas para mostrar como recursos digitais (alguns que já fazem parte do dia a dia do professor, em seu uso pessoal) podem facilitar a comunicação entre alunos, famílias e professores. Confira a seguir:

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1. Redes sociais

Redes sociais não são somente diversão. O WhatsApp, Facebook e até mesmo o Instagram podem servir a propósitos pedagógicos. No aplicativo de conversas, é possível ter grupos separados com os alunos e com as famílias. Já no Facebook, há a possibilidade de montar grupos fechados, que permitem tópicos de discussão. Já no Instagram, uma ideia é o professor criar um perfil exclusivo para seus alunos ou para as famílias – separado de seu perfil pessoal – e fazer transmissões online. Assim, fica mais fácil a interação com os estudantes ou realização de comunicados e dicas aos responsáveis. O Zoom, aplicativo gratuito de reuniões, também é uma opção para videoconferências com o corpo docente, alunos e famílias.

mohamed Hassan/Pixabay

2. Google

O Google for Education oferece inúmeras ferramentas que facilitam o processo de aprendizagem à distância, principalmente por permitir o login de professores e estudantes a partir de qualquer dispositivo com acesso à internet, além de salvar todas as alterações na nuvem. Com um leque de aplicativos e ferramentas gratuitas, o Google permite que estudantes trabalhem juntos de forma virtual e facilita o acompanhamento e devolutivas do professor, que pode usar outras ferramentas, como o Hangouts, para fazer videochamadas com o grupo inteiro. A criação de listas de e-mails, planilhas, formulários e documentos, armazenamento de arquivos e integração com outros aplicativos são algumas possibilidades da plataforma.

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3. ClassApp

Idealizado a partir de experiências pessoais de dois pais, o ClassApp é um aplicativo brasileiro criado em 2014 para facilitar o engajamento de famílias na rotina escolar. Com opções para o ensino básico e superior, a ferramenta possibilita troca de mensagens privadas e em grupos, envio de fotos, comunicação por e-mail para famílias não cadastradas no app, personalização de relatórios e outras funcionalidades, que compõem diferentes planos de acordo com o que a escola deseja. No período de suspensão das aulas em razão da pandemia, o ClassApp está com o uso liberado gratuitamente, uma oportunidade para instituições de ensino testarem a tecnologia.

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4. ClassDojo

Lançado em 2011, o ClassDojo atraiu, em pouco mais de dois meses, cerca de 35 mil professores nos Estados Unidos. A plataforma está em português, é gratuita e visa envolver toda a comunidade escolar ao oferecer funcionalidades a educadores (possibilitando compartilhamento de conteúdos e atividades com os estudantes), às famílias (que podem acompanhar as atividades dos filhos), e também a diretores de escolas, que conseguem emitir comunicados gerais, por exemplo. Algumas páginas e conteúdos estão disponíveis em português.

Foto principal: Colin Behrens/Pixabay

A meditação como aliada em tempos de coronavírus

Mão em posição de meditação com dedos unidos
Pontos positivos da meditação vão além de sensação de bem-estar e relaxamento.

Se você acredita que a meditação é um exercício difícil, destinado apenas a pessoas que desejam trabalhar concentração e relaxamento, está na hora de rever seus conceitos. Isso porque a atividade pode ser realizada por diferentes faixas etárias e com propósitos diversos, ainda mais agora durante a crise do coronavírus COVID-19.

Para se ter uma ideia do potencial da prática, um estudo desenvolvido nos Estados Unidos comprovou que a meditação “mindfulness” – comumente traduzida como “atenção plena” – alterou a estrutura cerebral dos participantes em áreas relacionadas à aprendizagem, memória e regulação de emoções.

A disseminação da técnica fez com que profissionais de diferentes setores, incluindo de educação, passassem a dedicar momentos do dia para ficar em silêncio. Mas, afinal, o que está por trás do senso comum de que meditação ajuda a manter o foco e atenção?

Para analisar quais são os efeitos e benefícios da prática para alunos e professores, a Vivescer conversou com Daniela Degani, empreendedora da MindKids, empresa que dedica-se a ensinar meditação a estudantes e professores, e Paulo Moura, coordenador da Associação Mente Viva, destinada a incentivar o desenvolvimento e atenção de crianças e adolescentes a partir da meditação.

Meditação para professores 

– Melhora na autoestima
Frente a casos de esgotamento físico e mental, Paulo vê na meditação um meio para resgatar a autoestima do professor. “A meditação vai ajudar o professor a se enxergar como alguém que pode e deve contribuir positivamente para a sociedade. Na minha visão, a sala de aula é uma oportunidade belíssima para que uma pessoa se desenvolva, brilhe e, com isso, ajude centenas a aprenderem, serem mais saudáveis e terem respeito ao próximo”.

– Redução no número de afastamentos
Mesmo que seja um efeito secundário, Daniela comenta que pesquisas já comprovaram que, professores e ambientes escolares que praticam a atividade conseguem reduzir o número de afastamentos por exaustão, a chamada síndrome de “burnout” (termo que pode ser traduzido como exaustão emocional). “Apesar de a saúde mental do professor ser uma questão multifatorial que envolve remuneração, ambiente escolar e jornadas de trabalho adequadas, a adoção de uma prática cotidiana de mindfulness possibilita maior equilíbrio em sala de aula.”

– Aumento na qualidade da presença
A prática também cria um ambiente mais propício ao aprendizado, onde o professor está no momento presente, com disponibilidade para se conectar aos alunos. “Pode ser que eu acorde de manhã e receba notícias boas e ruins. Se estou preocupado, pode ser que chegue para dar aula com a atenção completamente fragmentada. Se medito, fico mais inteiro”, lembra Daniela sobre o relato de um professor.

– Meditação: ferramenta acessível
Mudar todo o sistema educacional dentro do qual os professores estão inseridos é uma tarefa de longo prazo. Nesse cenário, a meditação aparece como uma prática sem custo e que pode ser iniciada imediatamente. “Existem formações de professores que focam na transmissão de muito conteúdo teórico. Mas vale ressaltar que existe o lado humano. Pode ser que nunca tenham sido ensinados a lidar com suas emoções quando um aluno desafia em sala de aula”, explica Daniela.

Meditação para alunos 

– Mais atenção, menos impulsividade
O que vai além de atestar que meditação faz com que a pessoa tenha mais foco e atenção? Para Daniela, trata-se de promover o acesso a um espaço individual de tranquilidade interna e sabedoria, que acarreta, por exemplo, maior foco e atenção nas aulas e discernimento na resolução de conflitos – seja na escola ou na vida pessoal. “Quando pergunto aos alunos se alguém os ensinou a prestar atenção na aula, a resposta é não.” Nesse momento, explico que além de ajudar a direcionar a atenção, a técnica facilita pensar na melhor forma de responder e evitar arrependimentos logo depois”.

– Aumento da autoestima
Para Daniela, um dos benefícios da meditação é o aumento da autoestima dos alunos. O fato de os exercícios promoverem maior atenção pode ajudar a avaliar o que é positivo e quando a situação foge de controle. “Temos padrões mentais autodepreciativos que não trazem nada de construtivo. Com prática e tempo, os alunos descobrem como soltá-los e entendem quando dar continuidade a um pensamento ou não.”

– Criatividade e receptividade
Terapeuta holístico e autor de livros sobre desenvolvimento espiritual, Paulo defende que um dos principais benefícios da meditação é a tranquilidade do corpo e da alma, que ele desenvolve com exercícios de criatividade. “Não vamos dar o peixe pronto, mas orientar que fechem os olhos, se imaginem no fundo do mar, sentados no meio do oceano. Esse trabalho de imaginação criativa ajuda as crianças a ficarem motivadas a descobrir e aprender conteúdos como os de matemática, que passam a enxergar de forma lúdica.”

– Respeito ao planeta e ecossistema natural
Paulo explica que uma das formas de propor a meditação é explicar aos estudantes a relação entre seres humanos e o meio ambiente. “O mundo natural nos traz o remédio físico de plantas, mas também nos dá o suporte emocional de saber usar a força do leão, por exemplo, para ter coragem e autoestima. Assim, passo a admirar os animais e o meio ambiente como próximos a mim, e não algo que vou derrubar e estragar.”

Saiba mais sobre como a meditação apoia o trabalho do professor na VivescerTV

Foto: yanalya / Freepik

Novas jornadas na plataforma Vivescer!

Está no ar a jornada MENTE!

Você sabia que a Vivescer é composta por 4 jornadas de aprendizagem? Aqui você pode desenvolver corpo, emoções, mente e propósito!

Cada uma das jornadas é composta por 4 percursos de aprendizagem. A boa notícia é que, além de poder completar a jornada Emoções, agora você também pode navegar pelo percurso Mente!

Na jornada Emoções, o primeiro percurso trata das experiências emocionais que vivemos em nosso dia-a-dia. A discussão sobre como essas experiências impactam a forma como aprendemos, que é única, está presente no percurso estilos de aprendizagem. O terceiro percurso, chamado conexão e abertura, discute a possibilidade de criarmos ambientes de afeto, vínculo e segurança emocional em nossas escolas. E o último percurso – sistemas – discute com os diferentes sistemas dos quais fazemos parte exercem forte influência sobre nós e sobre o nosso fazer profissional.

Na nova jornada Mente, investigaremos nossas crenças sobre Educação no percurso  experiências cognitivas. No segundo percurso, visitaremos diferentes estratégias de aprendizagem que ajudam alunos a aprender mais e melhor. Discutimos a importância de incorporamos perspectivas múltiplas na relação com as questões que enfrentamos dia a dia e, por fim, entenderemos como as políticas públicas impactam o nosso dia a dia.

Em breve as jornadas de Corpo e Propósito também estarão no ar! Para acessar as duas jornadas disponíveis é só se cadastrar!