Devolutiva do professor deve equilibrar desafio e motivação de estudantes

Parte importante do processo de aprendizagem dos estudantes, os feedbacks podem ser usados ao longo do ano de forma a incentivar o desenvolvimento de crianças e jovens.

Desde o nascimento, o ser humano aprende a cada segundo. Primeiro, a mamar. Depois, a comer, beber, andar, falar, escrever e por aí vai. Por isso, até o momento da morte, pode-se aprender a cada dia e, dessa forma, não existe alguém que detenha todos os conhecimentos.

Essa mesma lógica deve ser aplicada na escola. Mesmo diante daquele estudante que está muito à frente dos colegas, professores precisam estimulá-lo para que não se acomode e continue empenhado em suas descobertas educacionais. Por outro lado, alunos com dificuldades de aprendizagem também precisam ouvir palavras encorajadoras e não serem desmotivados por seus professores. Como encontrar esse equilíbrio?

No ambiente educacional, os docentes têm um papel central no processo de ensino-aprendizagem, o que envolve dar feedbacks aos alunos, ou seja, as devolutivas sobre o desempenho nas atividades propostas. Para entender o que está por trás dessas mensagens às crianças e jovens, bem como algumas técnicas para acertar o tom, a Vivescer conversou com Vanessa Zito, professora e especialista em psicopedagogia. Confira a seguir.

 

Vivescer: Qual é a importância do feedback personalizado e individualizado do professor no processo de aprendizagem dos estudantes?

Vanessa: Acredito que, em primeiro lugar, o feedback em relação às tarefas é respeitoso com o aluno. Essa devolutiva faz com que ele ou ela se sinta pertencente ao processo de aprendizagem. É diferente quando corrigimos uma tarefa e mandamos um recado automático, seja ‘parabéns’ para alguns ou ‘reveja’ para outros, de quando realmente paramos para olhar com mais sensibilidade, percebendo quais habilidades foram atingidas e quais ainda estão abaixo do esperado. Ao longo do ano, elenco algumas tarefas e atividades para realmente me dedicar ao feedback. Penso nas expectativas que tenho de aprendizagem, nas habilidades que os alunos precisam alcançar e, a partir disso, penso em devolutivas mais direcionadas, tanto escrita como de forma mais pessoal, com conversas para apontar caminhos para a criança desenvolver aquilo que ainda não foi possível.

 

Vivescer: Qual deve ser a postura dos docentes diante de estudantes que têm mais facilidade? Como é possível ser honesto com esse aluno e, ao mesmo tempo, garantir que ele não irá se acomodar no seu processo de aprendizagem?

Vanessa: Para estudantes que têm altas habilidades e que caminham com mais autonomia, o feedback se torna uma forma de ir além e desenvolver outras competências. Essa devolutiva pode, justamente, servir para que ele não se desmotive no seu processo de aprendizagem por estar em uma situação mais confortável. Eu trabalho com plataformas educacionais, então quando percebo que o aluno já está nessa posição mais avançada, passo desafios que não estavam no meu planejamento e observo como responde. Outra forma de estimular essas crianças é trazê-las como tutoras de colegas que precisam de mais apoio. Esse trabalho entre pares é uma forma de motivar os dois lados: tanto o aluno que já desenvolveu o que é esperado, como aquele que ainda não chegou nesse ponto.

 

Vivescer: Nos casos de estudantes que apresentam maior dificuldade, quais cuidados o professor precisa tomar para passar a mensagem de que é preciso melhorar, mas não desmotivá-lo completamente?

Vanessa: Quando vamos dar um feedback, precisamos olhar com sensibilidade para a atividade ou trabalho em questão, e elencar, sim, o que é necessário modificar, mas também ter um olhar cuidadoso para aquilo que o aluno conseguiu fazer e jogar o holofote em cima disso. Independente do retorno e da qualidade da tarefa, eu acredito que o professor precisa reforçar um ponto positivo com o objetivo de motivar. Além disso, escolher as palavras que vai direcionar à criança ou ao adolescente. Muito mais do que falar ou escrever, é necessário dar suporte, ensinar e mediar para que esse aluno consiga desenvolver a habilidade. Isso é muito importante para o processo de metacognição, ou seja, o estudante pensar no seu processo de ensino-aprendizagem, refletir sobre o que ele já sabe e sobre o que vai fazer para desenvolver aquilo que ainda não foi possível.

 

Vivescer: Esse trabalho entre pares pode ser um caminho para os casos em que a explicação do professor não consegue atingir alguns alunos?

Vanessa: A linguagem utilizada no trabalho entre os pares é muito mais próxima. Nesses casos, vejo o professor como um mediador desse processo, ou seja, pensar nos pares ou grupos, estabelecer um roteiro, elencar objetivos, ajustar o processo quando for necessário. Acho que é um conjunto: não é apenas a responsabilidade daquele aluno considerado excelente, e também não só do professor. É justamente o aluno como protagonista do processo de aprendizagem, o que vale tanto para aqueles que já atingiram o esperado como para os que ainda não.

 

Vivescer: Pode ser que, mesmo que sem intenção, professores acabem repetindo estereótipos no processo de ensino-aprendizagem que podem criar barreiras nos estudantes, como a frase ‘ciências não é para menina’ ou ‘você não é de exatas’. Como é possível contornar essas eventuais situações?

Vanessa: Isso é uma questão de mentalidade fixa e de mentalidade de crescimento. O feedback contínuo é importante nesse sentido. Ao elencar algumas atividades ao longo do ano para fornecer um feedback mais profundo, ajudamos que o próprio aluno possa perceber seus avanços e, com isso, mostrá-lo o quanto é capaz. Nesse processo, vamos ajudando-o a modificar essa mentalidade fixa de que não é bom em Língua Portuguesa, por exemplo, ou que não é bom em matemática. Por isso que também é importante pensar no suporte depois do feedback, ou seja, quais caminhos serão usados para que o estudante supere as dificuldades e quais mensagens serão usadas quando ele atingir seus objetivos. Tudo isso faz parte do processo de metacognição, durante o qual o aluno vai se conscientizando sobre seus avanços. Esse percurso demanda uma sensibilidade do educador, com um trabalho muito específico e cuidadoso.

 

Vivescer: Para terminar, qual seria o primeiro passo para quem deseja começar a entender mais a fundo o processo de dar retorno direcionados aos estudantes?

Vanessa: Eu acredito que o primeiro passo é se colocar no lugar do aluno. Há pouco tempo, concluí uma formação na qual me senti muito frustrada ao enviar tarefas e receber apenas uma nota. Quando eu e outros alunos fomos questionar, nos disseram que não era possível um retorno personalizado pela grande quantidade de estudantes no curso. Com isso, fui me desmotivando. Às vezes tinha uma nota muito boa, outras vezes nem tanto. Queria saber o que deveria modificar para a próxima entrega, não apenas para ter uma nota 10, mas para avançar no processo de aprendizagem. Antes disso eu não tinha esse olhar e essa experiência me ajudou muito como educadora. Passei a valorizar ainda mais esse retorno de atividades e tarefa de casa, com mais cuidado, respeito e atenção, porque sei o quanto pode fazer a diferença.

Foto: jcomp/Freepik

Mensagens positivas de professores ajudam a controlar ansiedade matemática

De acordo com dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o desempenho brasileiro em matemática é o pior entre os países latino-americanos analisados. Segundo a edição 2018, 68,1% dos estudantes com 15 anos de idade não possuem nível básico na disciplina, mesmo depois de tantos anos na escola. E para isso existem infinitas hipóteses.

O desafio diante da disciplina é tão grande que existe até mesmo um termo para designar o medo da matemática: ansiedade matemática. “Esse cenário pode ter origem na forma equivocada que ensinamos a disciplina nas escolas, um método procedimental, voltado a fórmulas, e não voltado às conexões e à beleza da matemática”, explica Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, citando estudos que mostram o Brasil no terceiro lugar no ranking mundial de ansiedade matemática.

Segundo a especialista, uma das formas de contornar essa aversão à disciplina é mostrar, desde crianças até adultos, que a matemática é inerente ao ser humano e está em todos os lugares no dia a dia: na escolha em atravessar uma rua em linha reta, no lugar da cama onde se senta para deitar-se com apenas um movimento, a posição na qual coloca o despertador para facilitar desligá-lo pela manhã, todas são escolhas que, invariavelmente, envolvem a matemática.

 

A importância das mensagens
É devido a esse cenário que programas como o Mentalidades Matemáticas encontram solo fértil no Brasil. Cocriado pelo Instituto Sidarta e pelo Centro de Pesquisas Youcubed, da Universidade de Stanford e inspirado em estudos de especialistas da universidade americana, como da professora e pesquisadora Jo Boaler, o programa tem como objetivo mostrar que a matemática pode utilizar práticas abertas, criativas e visuais de aprendizagem colaborativa centradas em investigações.

Um dos pilares importantes do programa é o conjunto de mensagens que são passadas aos alunos, com o objetivo de permitir cada vez mais processos de exploração da disciplina, e não delimitá-la a procedimentos e padrões desconectados de sentido.

Pesquisadores envolvidos na metodologia defendem que toda criança é capaz de aprender a disciplina em profundidade e, por isso, uma das principais abordagens é considerar e valorizar todas as diferentes formas de pensar e solucionar problemas. A metodologia também reforça que a velocidade de resposta a um desafio, por exemplo, não tem relação direta ao nível de conhecimento da pessoa sobre a disciplina.

Considerado não apenas aceitável, mas parte do processo de aprendizagem, o erro é outro quesito muito abordado. “A aprendizagem é um processo, e não um momento final. Quando aprendemos a andar de bicicleta ou a dirigir, na maioria das vezes caímos ou deixamos o carro morrer. Por que em todas as outras áreas do conhecimento entendemos que errar faz parte do processo e na educação o erro é punido?”, reflete Ya Jen.

 

Trabalho em grupo

Trabalhos em grupo podem ser desafiadores, mas é impossível negar que várias cabeças pensando em um mesmo problema ampliam as possibilidades de solução. “Nós costumamos brincar que a melhor resposta para um desafio matemático começa com a palavra ‘depende’”, explica Ya Jen. Quantas pessoas cabem em uma mesa de festa de 1,60m por 1,20m? Isso depende se todos sentarão à mesa, qual é a medida de cada cadeira e muitos outros fatores que podem ser observados por várias pessoas que formam um grupo de estudos.

“Quando falamos em trabalho em grupo, não significa dividir tarefas, mas sim o debate sobre os exercícios matemáticos, que possibilita conjecturas e os processos de se convencer e convencer o outro. É nesse trabalho de discussão que aprofundamos nosso pensamento matemático. Quando trabalhamos com uma visão fechada ou binária de resposta – certo e errado – na educação, limitamos as possibilidades de desenvolvimento de raciocínio mais profundo.”

 

Aplicando a metodologia na rotina escolar

Todos os conceitos teóricos citados por Ya Jen ganham vida na rotina da Escola Estadual Henrique Dumont Villares, em São Paulo (SP). Nádia Moya Brocarrdo, coordenadora pedagógica da instituição, orgulha-se em comentar que a aplicação da nova abordagem surtiu efeitos que vão além da aprendizagem dos estudantes.

Para ela, o primeiro passo para mudar toda a cultura da escola é começar com a formação dos professores. “Muito se fala em letramento de alfabetização, mas pouco sobre letramento de matemática, sobre como ensinar essa disciplina. A cultura matemática dos nossos professores era ‘um mais um são dois e só’. Começamos a mostrar, a partir da neurociência, como acontece a aprendizagem, as conexões cerebrais e então começamos a abordar a importância do erro”, explica a coordenadora.

“Nós não colocamos mais o ‘x’ de errado no caderno, colocamos um risquinho para que a criança saiba que ainda não chegou no resultado. Essa mudança na forma de tratar o erro mudou até mesmo como os estudantes enxergam a avaliação. Se antes tinham medo da prova, hoje eles gostam e ficam felizes, porque não há mais o medo de arriscar.”

Pode parecer utópico para quem vê de fora, mas Nádia faz questão de reforçar que não foi um caminho fácil, sendo necessário alguns anos de formação e conscientização docente. Para a coordenadora, muito do medo que crianças têm da disciplina pode vir dos próprios professores que, inconscientemente, repetem padrões sobre os quais foram ensinados. Além disso, a participação de todos os docentes da escola nos processos de formação facilitou a construção dessa nova cultura que valoriza os desafios e dificuldades e não condena o erro durante a aprendizagem. “Começamos a mostrar que quando um professor acredita no potencial do aluno e faz boas perguntas, isso impacta a aprendizagem. Assim, demos voz aos alunos e o professor saiu daquela posição de maestro que ocupava na frente da sala.”

 

Foto: jcomp/Freepik 

7 dicas de perfis para qualificar seu tempo nas redes sociais

Ao invés de desconectar completamente, que tal qualificar o tempo nas redes sociais? Produtores de conteúdo incentivam novos hábitos, prática de exercício físico sem sair de casa, reorganização da rotina e reflexão sobre propósito. Confira

Não é mais segredo para ninguém que as redes sociais são pensadas de forma a fisgar os usuários e viciá-los na navegação pelos feeds infinitos. O filme “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix, traz depoimentos de profissionais envolvidos em grandes empresas de tecnologia afirmando que de fato existem estratégias pensadas especificamente para manter as pessoas conectadas, navegando pelos aplicativos.

Com a pandemia, muitas pessoas tentaram suprir o distanciamento social com uma conexão 24/7, ou seja, 24 horas por dia e sete dias por semana. Com quase um ano da chegada do novo coronavírus ao Brasil, já foi possível notar que esse modelo está longe do ideal. Mas, como muitas coisas, o segredo é o equilíbrio. Ao mesmo tempo em que as redes sociais podem despertar sentimentos de comparação, ansiedade e consumismo, também existem produtores de conteúdos que se especializam em determinados nichos e, com isso, qualificam o tempo que as pessoas passam nos aplicativos.

Por isso, a Vivescer fez uma seleção de alguns perfis que mostram um outro lado das redes sociais, ao incentivarem novos hábitos, darem dicas de organização da rotina, sugerirem exercícios físicos e de autoconhecimento e reflexões relacionadas ao propósito de vida, todas elas de alguma forma ligadas ao princípio de desenvolvimento integral do ser humano defendido pela plataforma. Confira a seguir.

 

– Corpo e mente

Pri Leite Yoga

Com 931 mil inscritos no YouTube, o canal de Priscilla traz a mensagem ‘Retire os sapatos, receba o meu abraço e pode entrar: você está em casa!’. São 344 vídeos que trazem exercícios de yoga tanto para pessoas iniciantes que nunca praticaram, como para aqueles mais avançados, que desejam aprimorar seus movimentos. Os vídeos incentivam o trabalho com flexibilidade, relaxamento, equilíbrio, fortalecimento e alongamento. A prática de yoga é conhecida por unir o trabalho entre corpo e mente: ao mesmo tempo que o corpo é exercitado, a mente relaxa. O canal conta também com conteúdos produzidos especialmente para a realização junto com crianças. Confira.

Norton Mello

Treinos online sem a necessidade de materiais de ginástica. Essa é a proposta do personal trainer e orientador físico Norton Mello, que, desde o começo da quarentena, realiza transmissões ao vivo para seus 595 mil seguidores no Instagram. A ideia é mostrar que qualquer pessoa pode praticar exercícios sem a necessidade de estar na academia. Os treinos, com duração média de 40 minutos, podem ser realizados por qualquer pessoa, independente de seu condicionamento físico. O preparador defende que as transmissões foram a forma encontrada para manter a atividade mesmo em meio à quarentena, fundamental, sobretudo, para quem passa o dia todo sentado em frente ao computador. Saiba mais.

Monja Coen

Engana-se quem pensa que o perfil de Monja Coen no Instagram é dedicado a falar exclusivamente sobre budismo. Com 2,4 milhões de seguidores, Monja Coen fala sobre assuntos diversos que se aplicam a todas as pessoas do mundo, como a importância de fazer o bem, como lidar com a dor, dicas de leituras, a busca por caminhos alternativos à violência, entre outros conteúdos. Além da série Monja Coen Responde, essa no YouTube, seu canal no Instagram é abastecido com vídeos sobre budismo, ansiedade e estresse, mensagens e preces, que alcançam milhares de reproduções. Assista.

 

– Autoconhecimento e hábitos

Eurekka.me

Originalmente uma clínica de psicologia fundada em 2017 por três jovens psicólogos de Porto Alegre (RS), a Eurekka conseguiu, com sua presença online, levar conteúdos sobre saúde emocional para todo o Brasil, além dos atendimentos presenciais. As produções envolvem vídeos no YouTube, a publicação de livros, terapia online e presencial, um aplicativo de fácil acesso aos conteúdos e uma ferramenta de inteligência artificial para fornecer apoio emocional. Diariamente os 553 mil seguidores no Instagram recebem dicas sobre relacionamentos profissionais e pessoais, comportamentos, como praticar autoconhecimento, enfrentamento da ansiedade, transtornos de alimentação e muitos outros temas, todos abordados de forma simples e acessível. Conheça.

Bookster

Qualquer um dos 293 mil seguidores de Pedro Pacífico no Instagram já sabe que “leitura é hábito”. O advogado usa sua página na rede social para incentivar o hábito da leitura. Além de publicar resenhas das obras que lê, ele mostra novas leituras e incentiva o engajamento dos seguidores com desafios do tipo clubes de leitura. Considerado uma das 30 pessoas mais influentes com menos de 30 anos pela Forbes, Pedro comanda um perfil literário que visa descomplicar a leitura, desencorajar comparações do tipo ‘quantos livros você lê?’, discutir produções brasileiras e internacionais e mostrar que o conhecimento das páginas pode não somente ser um passatempo, mas também mudar vidas. Acesse.

Hábitos que mudam

Trabalhando com planejamento estratégico há mais de sete anos, Laris Rodrigues decidiu criar a Hábitos que Mudam, página no Instagram dedicada ao compartilhamento de dicas e sugestões que, ao serem implementadas na rotina, podem ajudar na organização, produtividade, criação de novos hábitos e aprimoramento de práticas não tão boas. Com mais de 135 mil seguidores, os posts apostam em cores e desenhos para chamar a atenção do público para práticas de foco, como lidar com situações no home office, dicas de séries e filmes sobre organização, a importância da criação do hábito do descanso, como se planejar para mais realizações, como tirar projetos do papel, entre outros conteúdos. Saiba mais.

 

– Propósito

Marisa Bussacos

Com um olhar integral para o ser humano, Marisa Bussacos atua em processos de coaching, biografia humana e propósito. A partir dos princípios da antroposofia, Marisa incentiva, em mais de mil publicações, reflexões sobre vida, propósito, valores e conexão interna. Com posts no Instagram, em seu site e em outras redes sociais, aborda temas diversos como integração entre as chamadas hard e soft skills, dicas para como encerrar bem um ciclo, autoconhecimento, a compreensão de jornadas, a separação entre a pessoa e sua vida profissional e outros assuntos. Conheça.

 

Foto: jcomp/Freepik 

Aprendizados ao longo de 2020 ajudam escola a acolher professores neste ano letivo

Práticas de acolhimento e escuta de professores ao longo de 2020 pode continuar em 2021. Conheça exemplos

EMEI Orígenes Lessa, de São Paulo, criou o hábito de realizar encontros virtuais para incentivar autoconhecimento, meditação e autocuidado dos professores.

Muito tem se falado sobre a importância de garantir espaços e momentos na ressível, mais seguros para retomar a vida na escola?

Essas são algumas perguntas que começaram a ser estudadas ainda em 2020 pela Escola Municipal de Educação Infantil Orígenes Lessa, em São Paulo (SP). Rosamaria Cristina Silvestre, diretora da instituição, explica que as atividades foram pensadas para incentivar o autoconhecimento em um movimento de promover um cuidado com as profissionais. Para Rosamaria, somente quando um profissional é assistido que ele poderá assistir os outros.

“Durante o ano passado, nossas professoras precisaram lidar com as emoções das crianças, que ainda não sabem verbalizá-las, e também com as emoções das famílias, já que muitos responsáveis perderam o emprego e tinham entes queridos infectados com a Covid-19. Se as professoras não estivessem minimamente fortalecidas ou com uma abertura para acolher as crianças e os pais, o trabalho com as crianças não poderia ser feito. Sempre soubemos da importância da relação família-escola, mas 2020 deixou isso ainda mais evidenciado”, explica a diretora.

Parceria com curso de pedagogia

Em parceria com a UniSant’Anna, cada aluno do curso de pedagogia ficou responsável pela tutoria de duas professoras. A ideia era aproveitar o conhecimento em tecnologia dos jovens estudantes de ensino superior, para apoiar professores da escola a produzir e editar vídeos e outros conhecimentos para possibilitar as aulas a distância. “Ao mesmo tempo, havia uma troca na outra via também, porque as professoras contavam aos alunos como é a realidade do trabalho com crianças na educação infantil”, afirma Rosamaria. Ao final do processo, as professoras receberam um comprovante da universidade, atestando sua participação.

Luto e perda: como lidar?

Assim como muitas outras escolas, a Orígenes Lessa também vivenciou situações de luto: uma funcionária da escola faleceu em 2020 e professoras perderam parentes para a Covid-19. Por isso, a escola convidou a professora Maria Khadiga Saleh, supervisora escolar aposentada da rede municipal de São Paulo, para participar de uma conversa online com o corpo docente. “Depois que a professora se aposentou, ela atuou no serviço funerário de São Paulo. Em razão disso e de sua vasta experiência nas escolas, convidamos para uma conversa sobre perda, sobre luto e sobre morte.”

A importância do autoconhecimento, autocuidado e de conhecer os professores

Em outra parceria, dessa vez com o Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, a escola contou com a participação de psicólogos em quatro encontros, que ajudaram em conversas sobre a vivência da pandemia, como professores podem se acolher e se conhecer cada vez mais. Rosamaria conta que ao longo do ano passado precisou estar atenta a diversas situações entre o corpo docente. “Certa vez marquei reunião com uma professora e ela não entrou online na hora combinada. Fui verificar o que estava acontecendo e ela explicou que, como tinha insônia e não dormia à noite, trocava o dia pela noite e acabou perdendo a hora.”  Segundo a diretora, os psicólogos conseguiram mostrar que são pequenas ações do cotidiano que podem evoluir para quadros mais graves, como uma depressão, por exemplo. “Eles nos mostraram que podemos prevenir essa evolução se nos conhecermos e nos acolhermos.”

Meditação e ioga

A sequência de encontros online com especialistas ao longo de 2020 também abordou o mindfulness e ioga. Assim como nos encontros anteriores, saúde mental foi um tema muito abordado. Rosamaria explica que sentia a necessidade de trabalhá-lo com os docentes a partir das conversas do dia a dia. “Tivemos duas professoras que perderam parentes para a Covid-19. Então precisamos acolhê-las, mas chega um momento que é aquele ditado ‘santo de casa não faz milagre’. Então trazer alguém de fora, mesmo que seja falar a mesma coisa com outras palavras, ajudou muito nesse acolhimento, tanto das professoras, como comigo da gestão.” A diretora conta que Luiz Gebara, profissional especializado em mindfulness (atenção plena) convidado para participar, mostrou a importância de professores estarem conectados conectarem-se a si mesmos, e terem um olhar respeitoso para si. Esse processo de fortalecimento do profissional acaba refletido no trabalho com os estudantes.

Próximos passos

A vivência de acolhimento ao longo de 2020 permitiu que Rosamaria já levantasse algumas hipóteses sobre o que será necessário ao longo de 2021, no sentido de continuar o processo de acolher os docentes. Um movimento que a escola já realizou foi contabilizar todos os materiais enviados pela prefeitura – como máscaras para adultos e crianças, além de copos individuais –, e também realizar a compra de outros. A ideia é apresentar o levantamento aos docentes quando voltarem à escola, com o objetivo de deixá-los mais seguros quanto aos protocolos sanitários. Também está na lista de afazeres um mapeamento sobre as atividades realizadas no ano passado que podem ser desenvolvidas novamente em 2021. “Não é como se 2020 fosse um livro que acabou e fechamos. Há materiais riquíssimos que os professores elaboraram, então não precisarão fazer tudo do zero novamente.”

Ela também reforça que 2021 irá requerer maior flexibilidade por parte dos professores, que voltarão à escola em um modelo diferente do qual estão habituados: com turmas reduzidas, protocolos a obedecer, entre outros fatores.

Foto: jcomp/Freepik 

Escuta individual apoia professores na retomada da vida na escola

Estratégia de conversas individuais soma-se a conjunto de práticas indicadas no guia Orientações de Acolhimento para Professores, elaborado pelo Instituto Península

Tornar o aluno protagonista e colocá-lo no centro do processo de aprendizagem é uma estratégia cada vez mais debatida por escolas no Brasil e no mundo. Entretanto, a pandemia de Covid-19 direcionou luz ao outro lado da moeda da educação: os professores. Sejam elas ou eles recém-formados ou com décadas de experiência, docentes precisaram adaptar suas rotinas para o ambiente virtual, ensinando e conectando-se a seus alunos a distância.

Se esse processo pode ter sido mais tranquilo para alguns, foi um desafio e tanto para outros, que tinham pouquíssimo contato com computadores e recursos digitais para uso pedagógico. Por isso, a retomada gradual das aulas presenciais em 2021 vai demandar um longo e paciente percurso de readaptação, que deve levar em consideração as demandas dos docentes, suas facilidades e dificuldades.

Tendo isso em mente, ainda em 2020 o Instituto Península lançou o guia Orientações de Acolhimento para Professores, com o objetivo de esclarecer possíveis caminhos e metodologias a serem adotados por escolas, possibilitando que toda a equipe tenha suas considerações ouvidas. Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer, que participou da elaboração do guia, explica que a ideia do acolhimento acontece tanto no plano das ideias, ou seja, de compartilhar pensamentos e sentimentos dentro da possibilidade de confiar no outro, bem como no espaço físico, isto é, as pessoas se encontrarem e, nesse determinado espaço, se sentirem bem e acolhidas.

“Nós estamos vivendo um momento de luto nacional, muitas vidas foram perdidas. As pessoas podem ter passado por situações de necessidade, com perda de empregos e ajustes de vida. Além disso, quando estamos vivendo uma pandemia, há um medo do contágio, a necessidade de reclusão e muitos outros fatores, que acabam por deixar as pessoas mais vulneráveis para, eventualmente, uma depressão. Nesse meio todo, os professores precisaram aprender a dar aula à distância e mesmo com grandes esforços, nós sabemos que muitos alunos não foram alcançados”, expõe Ana Flávia.

Esse complexo conjunto de situações e fatores, explica a especialista, pode ser uma das razões pelas quais professores podem optar por não expor dificuldades ou desafios em momentos coletivos de conversa na retomada presencial das aulas ou atividades na escola.

 

A importância da escuta individual

Considerando essa possível reserva e retração que alguns docentes podem apresentar perante o grupo, o guia do Instituto Península apresenta a possibilidade das conversas individuais. Além do compromisso mútuo ao sigilo do que for conversado nessa circunstância, os espaços individuais de escuta podem servir para que a equipe gestora entenda mais profundamente determinadas situações pelas quais os professores passaram, o que possibilita a reflexão sobre como é possível atender as demandas dos profissionais.

“Esses momentos individuais de escuta são importantes para que as pessoas se sintam à vontade para conversar, expor sua situação, que possam se sentir acompanhadas. Tudo isso dá escape aos sentimentos, deixa fluir, e é aí que as pessoas conseguem se reerguer e construir caminhos. Quando tudo isso fica represado, há um peso muito grande nos ombros. Sabemos que não serão todos os professores, mas com certeza alguns vão precisar desse momento”, explica Ana Flávia.

 

O que esperar da conversa?

Para que a conversa seja produtiva para todos os envolvidos, é importante observar alguns pontos – muitos vem antes mesmo da realização do encontro. Para Ana Flávia, deve-se ressaltar que o movimento de disponibilizar horários para que os docentes possam conversar individualmente com a coordenação da escola não deve ser encarado como uma garantia de que todas as demandas serão atendidas, uma vez que a escola tem um escopo de ajustes que podem ser realizadas dentro da instituição, e outros que estão fora de seu alcance.

Nesses casos, ela cita uma dica que o guia de orientação traz: a conexão da escola com redes externas. “No exemplo de uma eventual depressão de um professor, como o sistema de saúde se integra com o educacional? É possível encaminhar essa pessoa para conversar com um profissional? Um psicólogo pode ir até a escola? Isso é algo que deve ser avaliado individualmente por cada instituição, pois cada município tem sua rede.”

Entretanto, apesar da possibilidade de ocorrência desses casos que demandam maior atenção e acompanhamento, Ana Flávia acredita que o movimento de externalizar preocupações já pode ser de grande ajuda para os docentes. “Escutar, compreender, mostrar até onde a escola pode ir, o que ela não pode fazer, o que é possível solicitar à Secretaria de Educação, tudo isso é curativo e terapêutico em si, pois essa conversa mostra que o professor não está sozinho, que sua situação é compreendida, que ele tem a quem procurar se precisar de apoio.”

 

Preparação

Os encontros individuais demandam a empatia de realmente tentar compreender a situação de colegas. Mas, além disso, há outras formas de se preparar tanto para as conversas como para a retomada gradual da vida na escola.

Uma delas é a aplicação prévia do questionário trazido pelo guia de orientações do Instituto Península. A partir das devolutivas, que são anônimas, é possível que a coordenação e direção da escola pensem em respostas às primeiras queixas e dúvidas que os professores colocaram, inclusive pensando em dinâmicas mais direcionadas de acordo com a situação do corpo docente.

Outra estratégia que pode ajudar no retorno é avaliar a infraestrutura da escola e estudar possíveis novos arranjos e melhorias que podem conferir maior segurança aos professores, estudantes e demais funcionários. “Se a escola tem uma área aberta, por exemplo, como uma quadra ou jardim, é possível pensar em um rodízio para que cada dia uma turma possa ter aula vivenciar esses espaços.”

Mapear as redes externas – como possíveis apoios do sistema de saúde – também pode ajudar (como no caso da situação descrita acima), considerando como a região onde a escola está inserida vivenciou e está enfrentando a pandemia.

 

Para além da pandemia

Ponto de atenção importante é reforçar o quanto momentos de troca, compartilhamento de vivências, desafios e situações pode beneficiar toda a comunidade escolar não apenas na situação de readaptação necessária após a pandemia, mas em todas as outras questões que uma escola enfrenta todos os anos.

“Se pensarmos a escola como um organismo vivo, o ato de os gestores abrirem um canal de escuta para além desse momento de início das aulas garante que questões possam ser encaminhadas mais rapidamente, antes que virem desafios maiores, como o adoecimento de um professor, ou em uma situação de eventual perda de controle, por exemplo.” Para Ana Flávia, toda e qualquer instituição se beneficia de canais de comunicação eficientes, que sejam cuidadosos com os funcionários que ali trabalham.

 

Foto: jcomp/Freepik 

Melhorar a relação com a tecnologia demanda novas metodologias

A adoção de novas metodologias de ensino aliadas à tecnologia vão continuar sendo importantes neste ano letivo. Com no máximo 30% de alunos nas escolas, rodízio nas turmas e ensino híbrido (presencial e remoto), professores terão que usar toda a experiência adquirida ao longo de 2020 para interagir e manter alunos aprendendo com atividades engajadoras.

No último ano, educadores foram pouco a pouco rompendo barreiras para a adoção de tecnologia em suas aulas. Isso foi detectado pela pesquisa “Pesquisa de sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península em quatro etapas. A sondagem ouviu as opiniões de educadores brasileiros, na medida em que o isolamento social ia se ampliando e a realidade do ensino remoto ficava cada vez mais clara por conta da pandemia da Covid-19.

Em março, na primeira etapa da pesquisa, foram ouvidos 2.400 educadores. Naquele momento, ensinar por meio da tecnologia era o período mais desafiador. Apenas um terço das escolas estava oferecendo estrutura adequada para o ensino de maneira remota.

Na segunda etapa, realizada em maio, o número de professores que se sentiam pouco preparados para o ensino remoto era de mais de 50% seja nas redes estadual, municipal ou privadas. A maior porcentagem dos professores que declararam estar pouco preparados estava na rede privada (59%)

Já na terceira etapa, realizada entre julho e agosto, 46% dos educadores apontaram como principal dificuldade a falta de conhecimento das ferramentas de tecnologia. Em uma experiência diferente daquela de sala de aula, era difícil não apenas selecionar os melhores aplicativos, como também inseri-los em uma dinâmica de aula e depois avaliar o conhecimento dos alunos. Nessa fase, 23% dos educadores ouvidos pela pesquisa tinham mais de 50 anos de idade.

A coordenadora pedagógica escolar integrante da equipe de design de experiências pedagógicas da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa, Gislaine Munhoz, acredita que a faixa etária dos professores não foi o principal problema: “Observei que a idade não tinha muita relação com a facilidade ou dificuldade de migração dos professores para ambiente remoto. Os professores independentemente da idade enfrentam diferentes tipos de desafios, como o acesso à internet de qualidade”, afirma.

Também na terceira fase, ficou demonstrado que 63% dos educadores acreditam que o papel da tecnologia é o de “apoiar uso de diferentes metodologias de aprendizado”. Mas, segundo Gislaine não é isso que está acontecendo. “O que temos agora, é a reprodução do que acontece no ensino presencial”, lamenta.

Para uma relação harmônica e complementar entre a educação e a tecnologia, a necessidade de adaptação gerada pela pandemia pode trazer muitos aprendizados. É isso que defende Ana Paula Gaspar, assessora de tecnologia educacional que criou uma ferramenta que ajuda educadores no planejamento de aulas remotas.

“A PERA (planejamento de experiências remotas de aprendizagem) é uma ferramenta que apoia o professor no planejamento de atividades de forma sistêmica, olhando para os componentes que compõem a experiência de aprendizagem remota: as pessoas, a intencionalidade, a prática pedagógica e os recursos digitais. Esses quatro componentes são interdependentes”, explica Ana Paula.

Gislaine acredita que as novas tecnologias podem apresentar novas experiências para professores e estudantes. Como exemplo, ela cita as matérias de arte e educação física: “Essas duas áreas podem aproveitar todo o potencial do ensino remoto, pois permitem a expressão no corpo através da arte, da música e da dança, penso que são áreas que com a proposição de desafios, pequenos vídeos, estilo TikTok, podem ressignificar inclusive como esses conteúdos podem ser trabalhados, quando houver a volta para o presencial”.

Foto: jcomp/Freepik

A importância da conexão entre educação e artes

O período de aulas remotas levou professores a se questionarem diariamente sobre o que era essencial investigar com os alunos. Agora, durante as férias, isso vale também para o próprio educador, que pode encontrar na arte uma forma de mudar o olhar para o mundo e encontrar novas ideias que o mobilizem.

É sobre esse tema que conversamos com a educadora Stela Barbieiri. Artista, escritora, diretora do Binåh Espaço de Arte, Stela foi curadora do educativo da Fundação Bienal, em São Paulo(SP), diretora do educativo do Instituto Tomie Ohtake e prestou assessoria para diversas instituições de ensino e cultura. Sempre trabalhando com a relação entre educação e arte.

Nessa entrevista, ela falou sobre a potência artística dos territórios escolares e a importância da arte permear todo o currículo. Stela também ressaltou  que a pandemia ressignificou o trabalho artístico: “Em busca da sobrevivência do espírito,  muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Enquanto uns passaram a bordar, outros projetaram palavras de indignação com a política na parede dos prédios”, afirma.

 

Vivescer  – Em um perfil da senhora para o site Diálogos e Vivências Pedagógicas é definida assim sua relação com a escola: “ Já na hora de ir para a escola, ah, a escola, essa deixava a desejar. Stela gostava de estar com os amigos, mas o jeito que o ensino era feito não era algo bom”. Até hoje o grande desafio da escola é dialogar com as diferenças todas para que todas as crianças e jovens possam habitá-la”, explica Stela. Ela reforça uma palavra bem importante, que apareceu várias vezes durante a nossa conversa: “possibilidade”. Isto posto, a senhora pode explicar um pouco mais a sua relação com a escola e com o desempenho escolar?

Stela Barbieri –  A minha relação com a escola era por meio da relação com as pessoas,  gostava de conviver com meus colegas e professores, mas os processos pedagógicos não me engajavam. Eu pulava o muro da escola pra ir com meus amigos pra praça. Nas aulas, minha atenção estava voltada para as histórias da minha imaginação.

Meus pais eram rigorosos e me orientavam a me envolver mais com a escola, mas o modo como as questões eram apresentadas não me gerava curiosidade ou vontade. Fazia as lições porque era necessário fazê-las, mas raramente com desejo ou envolvimento.

Foi na biblioteca municipal de Araraquara onde mais aprendi sobre artes, literatura, convívio com diferentes universos e faixas etárias, e também as singularidades dos modos de ser e as diferentes expressões por meio das linguagens. Na biblioteca, fazíamos saraus de poesia, aulas de xilogravura, grupos de leitura e escrita. Também nos quintais das minhas três tias educadoras, aprendi sobre a educação com afeto e com escuta atenta. Meus pais percebiam estes movimentos e sempre me apoiaram.

 

Vivescer – Como a senhora avalia o impacto do isolamento social?

Stela Barbieri – A pandemia escancarou muitos problemas na vida do nosso planeta e a arte fala da vida o tempo todo. Muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Alguns fazendo aquarelas semanais, outros fotografando o cotidiano, outros experimentando tintas fritas em casa.

Ficaram gritantes para a grande maioria da população do planeta, as questões de saúde, políticas, as disparidades econômicas e sociais, os problemas com o meio ambiente, as questões raciais, de gênero, as questões familiares e comunitárias. Esta situação nos convocou a olhar para a vida e nos perguntar: o que é essencial aprender agora?

Como nos relacionamos neste momento? Como “acordar” a casa para viver o isolamento físico num ambiente de imersão total, onde tudo acontece no mesmo lugar (trabalho dos pais, estudo das crianças, necessidades essenciais de sobrevivência). Como acordar a escola para não repetir a infelicidade de uma educação sem sentido para os seus participantes, ainda mais agora com a distância física e as dificuldades sociais que se desdobram na falta de acesso à tecnologia?

 

Vivescer – E a partir disso, que novas possibilidades foram geradas para um contato com a arte?

Stela – A pandemia gerou outros tipos de encontros, a presença na ausência, inventada a cada dia.

Aprendemos que a escola não está restrita a um prédio, a escola se concretiza nas concepções e nos modos de fazer a educação acontecer em todos os lugares, mas ao mesmo tempo pudemos perceber como a escola com seu espaço físico, o convívio com professores e colegas fez falta na vida da maioria das crianças, como lugar de nutrição em todos os sentidos.

A expressão por meio das linguagens nos encontros remotos foi fundamental para manter a vitalidade.

As pessoas passaram a investigar modos de fazer a arte acontecer a distância – shows, narrativas de histórias, peças de teatro, leituras partilhadas, saraus de poesia, exposições. Penso que os modos de se relacionar a distância estão sendo reinventadas a cada dia. O estado da arte esteve muito presente nestes momentos de suspensão da vida ordinária e perda de pessoas queridas.

 

Vivescer – Como as novas formas de apresentação artísticas, notadamente aquelas desenvolvidas durante a pandemia, especificamente, o teatro, online, os shows em formato de live, podem impactar o ensino de arte?

Stela  – A arte tem sido um caminho de sanidade para muitas pessoas ao longo da pandemia, ouvir músicas, assistir shows, filmes, ler poemas, romances, ouvir histórias narradas, assistir peças de teatro nos trás deslocamentos e abre caminho para re-existir inventando outros modos para cuidar do planeta e de nossa própria alma.

As ferramentas tecnológicas estão sendo investigadas na construção das linguagens e creio que, neste sentido, temos um longo caminho pela frente.

 

Vivescer – Como educadores podem  criar uma cultura forte de visitas a exposições, peças de teatros e shows na rede pública?

Stela – A escola aberta à cidade, aberta à floresta, a escola aberta às instituições culturais e as manifestações artísticas se nutre do vivo, gerando mais vida.

Esta prática da escola em diálogo com o mundo,  produz um movimento de aproximação entre a riqueza dos pensamentos e expressões das crianças,  encontrando com a riqueza dos pensamentos e linguagens de outros habitantes da cidade.

 

Vicescer – Como a escola pode dialogar com a comunidade artística onde houver deficiência de espaços culturais?

Stela – Penso que os artistas locais podem estar mais presentes na escola, dando oficinas para toda a comunidade escolar, crianças, professores e famílias. A escola também pode se deslocar visitando os ateliês dos artistas.

 

Vicescer – E dentro da escola, o que pode ser feito para utilizar os diferentes espaços para um trabalhar da arte como componente curricular e como uma forma de desenvolvimento do estudante?

Stela – Os espaços escolares comunicam valores e revelam sistemas de estruturação e de funcionamento de cada lugar, são expressões do cotidiano. Para que os espaços tenham significação no dia a dia, é preciso problematizá-los e transformá-los constantemente em formação e troca entre educadores, por meio da escuta atenta aos estudantes e aos colegas, além da criação de contextos de aprendizagens ricos (levando em conta tempo, espaço e materialidade) com perguntas de qualidade como sustentação, gerando caminhos de investigação engajadores .

A arte pode estar presente em todos os momentos da escola e em todos os espaços, não ficando reduzida unicamente ao ateliê, mas podendo expandir a ocupação conforme as intencionalidades do trabalho a ser realizado.

 

Vivescer  – Que recomendações você  poderia dar para o professor expandir seu olhar ou conhecimento em arte ainda que a distância durante as férias?

Stela – Penso que nas férias nos faz bem andar, nadar, ver as estrelas. Observar a natureza, os acontecimentos a nossa volta, o céu, mar, as plantas, dar tempo ao tempo…. ler bons livros, conversar, assistir belos filmes!

Estudar a obra de artistas e as questões pelas quais foram mobilizados. Estar em contato consigo, ouvir música e nos nutrirmos do que é bom e faz bem em todas as instâncias da existência.

 

Foto: jcomp/Freepik

A importância de trabalho com o corpo para professores e alunos

A rotina desgastante vivida ao longo das aulas remotas ligou o alerta para muitos professores sobre o autocuidado. Na Vivescer, a jornada do corpo é destinada justamente a esse tema e, em breve, os educadores cadastrados vão poder acessar novo percurso, também de olho em enriquecer o trabalho sobre desenvolvimento integral.

O programa contou com a parceria do educador André Trindade, que desde 1997 desenvolve um trabalho de conscientização corporal em escolas públicas e particulares, que deu origem ao livro “Mapas do corpo: Educação postural de crianças e adolescentes” (Summus Editorial, 291 páginas).

A obra traz um conjunto de referências capazes de determinar distâncias, direções e ligações entre as partes do corpo, a fim de facilitar o movimento coordenado. Além disso, apresenta atividades para estimular a boa postura, a flexibilidade, a autoconfiança e o prazer da brincadeira.

O saldo da iniciativa é tão positivo que atualmente os alunos que passaram pela experiência pedem que ela seja repetida. “É comum que os estudantes peçam pausas e alguns minutos de silêncio”, conta Trindade. Na entrevista que você lê abaixo, Trindade comenta a importância de conhecer o próprio corpo, como o tema está presente nas escolas e o impacto da pandemia no desenvolvimento de professores e estudantes.

 

Vivescer – Como o corpo pode ser um grande aliado no processo de autoconhecimento?

André Trindade – Habitamos nosso corpo desde o ventre de nossas mães. Nos primeiros três anos de vida, as conquistas motoras, como rolar, engatinhar, sentar, andar estão fortemente associadas à noção de si mesmo. O corpo também permeia as relações afetivas com o mamar, o colo, a troca de afetos e carinhos. E a criança aprende com as nossas atitudes. Ao longo da primeira infância, as conquistas corporais permanecem de grande interesse para a criança: correr, saltar, equilibrar-se, andar de bicicleta, além da conquista da autonomia como alimentar-se sozinho, vestir-se, aprender a escrever.

Em nossa cultura, a partir do ensino fundamental, isso vai perdendo importância. Depois, quando conquistamos um certo nível de controle sobre a motricidade, passamos a ter interesse por outras áreas, isso é humano, mas, o que acontece é que na nossa cultura o corpo vai sendo deixado de lado diferentemente de outras culturas. A gente continua com o trabalho corporal, mas ele é menos valorizado.

 

Vivescer – O que você  passa nas formações? Como convencer professores sobre a importância da educação corporal?

Trindade – Os professores não são formados sobre a importância da organização postural, da coordenação motora e do impacto que isso tem no aprendizado dentro da sala de aula.

Por exemplo, se o educador tivesse instrumentos para ensinar os alunos a se sentarem em posturas saudáveis, com certeza a capacidade de atenção do grupo seria muito maior.

Hoje sabemos pelos estudos da neurociência que a postura física influencia enormemente a capacidade de foco e atenção.

Da mesma forma, se o professor conhecesse melhor a própria postura durante as aulas, evitaria uma série de problemas ortopédicos futuros. A voz faz parte do “corpo” e é exageradamente utilizada pelo professor em sua comunicação. Isso traz problemas para este instrumento tão precioso. Porém, há inúmeros outros recursos corporais que podem aliviar o excesso de uso da voz e tornar a comunicação mais efetiva.

Os professores podem inicialmente se sentir envergonhados de aprender sobre o corpo e trazer essas informações para suas rotinas. Mas, quando experimentam e veem o resultado, aderem às propostas.

 

Vivescer – O que fazer quando se está limitado ao espaço de casa?

Trindade – A pandemia prendeu os nossos corpos nos espaços privados e rompeu, de certa forma, essa relação de corpo a corpo. Mas a gente percebeu o quanto dependemos do nosso corpo. O lado do ganho, é alcançar outras tecnologias, é um ganho para o professor, porque ele teve que se renovar. O professor tem um trabalho com nobreza, comparável ao do médico. É gente que está na linha de frente, as escolas não estavam preparadas , diferente de outras profissões. É preciso manter os alunos, conectados, vinculados e interessados. Inclusive por causa da evasão escolar brutal. Manter a conexão hoje, é tão ou mais importante do que transmitir os conteúdos. O aspecto pessoal do professor e o vínculo que ele consegue estabelecer com o aluno, ao meu ver, tem mais valor do que sua capacidade técnica como profissional.

 

Vivescer – Como qualquer professor, não só o de educação física, pode levar esses conceitos a seus alunos?

Trindade – O trabalho corporal tem relação direta com o autoconhecimento e a liberdade de escolhas. Na escola, isso é um aprendizado muito importante. As crianças estão muito mais ligadas à linguagem corporal do que nós, adultos, e aprendem por meio da expressão corporal dos seus professores, muito mais com gestos do que com palavras. Se o professor está nervoso e agitado, não adianta falar pra criança “ficar calma”. É preciso que ele próprio se acalme e isso faz com que os alunos encontrem coerência no pedido.

 

Vivescer –  O Brasil tem uma cultura sedentária. Dito isso, como o professor consegue levar a questão do exercício e da mobilidade corporal para sala de aula?

Trindade – Discordo que o Brasil seja um país sedentário. Penso que a cultura ocidental é sedentária. O Brasil tem uma corporalidade festiva, carnavalesca, somos inclusive, na minha visão, mais sensoriais do que os europeus ou os norte-americanos. O corpo representa a minha porção atuante, viva. Na escola, já ocorre uma formação da consciência corporal, tanto nas aulas de educação física, quanto na utilização do espaço.

Agora, dentro da sala de aula, eu dizia que é muito pouco o que se aprende sobre o corpo. Colocar uma criança sentada por cinco horas e esperar que ela fique sentada não dá certo. Não há quem mantenha o interesse.

É preciso ter humildade para aprender. Em seguida, todos podem ensinar. Meus livros são bastante didáticos e logo mais teremos uma Jornada na plataforma do Vivescer com todo esse conteúdo.

 

Vivescer – No caso dos alunos, como essa abordagem pode ajudá-los a se sentir melhor em casa? A questão emocional tem sido muito falada.

Trindade – O ensino remoto, que foi necessário por causa da pandemia, afetou ainda mais o processo de comunicação corporal entre os estudantes e os professores. Percebemos como a relação presencial é rica na comunicação dos conteúdos.

O confinamento prendeu os nossos corpos em espaços privados, rompendo a relação de comunicação corpo a corpo, tornando o trabalho do professor e do aluno muito mais difícil. Por outro lado, houve um ganho para o professor por acessar novas tecnologias.

 

Vivescer – Algumas empresas já desenvolvem programas em que os funcionários param por 5 minutos para fazer exercícios, é possível implementar processos como esses nas escolas? Se sim, como fazer?

Trindade – Proponho que os professores façam pausas, cinco, dez minutos, uma dança livre, exercícios de relaxamento, de respiração… Desenvolvo esse trabalho desde 1997, em escolas particulares e da rede pública e escrevi um livro chamado “Mapas do Corpo”, que trata da educação postural de crianças e adolescentes, nas escolas e nas famílias.

 

Vivescer – Como pensar as suas formações quando há pessoas com deficiência, sejam professores ou estudantes?

Trindade – Para a inclusão ocorrer, é preciso haver condições de ocorrência. Muitas vezes não existem essas condições. Para mim a palavra chave para poder incluir é o respeito à diversidade. Não podemos uniformizar o corpo ou a busca de um corpo ideal. Cada um deve respeitar seus limites e, ao mesmo tempo, tentar superá-los. Hoje vemos cadeirantes praticando esportes e dança. É preciso adaptar as propostas para os diferentes “corpos”.

 

Crédito: Freepik

5 aprendizados de 2020 essenciais para 2021

Os aprendizados conquistados ao longo de 2020, um ano como nenhum outro para educadores e alunos, vão contribuir para uma melhor experiência de aprendizagem ao longo do próximo. Abaixo, a Vivecer traz algumas desses pontos que devem continuar sendo importantes em 2021, seja quando alunos estiverem presencialmente em sala de aula, ou realizando atividades remotas.

 

Cuidado com o socioemocional

Em um ano em que muitos educadores tiveram dificuldade de entender como o aluno está aprendendo, olhar para além do desempenho acadêmico foi recompensador. Por que não liga a câmera? Será só timidez ou tem algo acontecendo com a aluna? Por que não entrega exercícios? Será que é falta de um computador e adotar atividades impressas seria o melhor caminho? Após um ano em que muitas famílias viveram o luto e enormes dificuldades financeiras em razão da pandemia, a preocupação em entender o contexto continuará sendo cada vez mais importante para identificar as barreiras e potencializar o aprendizado.

 

A valorização docente

A demanda por uma rápida reinvenção do professor para dar conta do ensino remoto foi acompanhada de um reconhecimento por parte da sociedade. Mesmo o familiar ou responsável que não tinha condições de estar ao lado do estudante durante o período das aulas, entendeu o quão complexo é o trabalho do profissional de educação para manter grupos de mais de 30 alunos motivados a aprender. Para além da questão financeira, como a Vivescer sempre ressalta, valorizar significa também olhar para o indivíduo, para o cuidado físico, emocional e mental, de forma a prepará-lo da melhor forma para os desafios do dia a dia da profissão. Em 2021, esse processo só será possível se a gestão estiver disposta a incluir o professor nas decisões para acolher o aluno.

 

A tecnologia como aliada

Mais um mito que 2020 derrubou está relacionado à adoção da tecnologia. Diante de tantos esforços de educadores, ficou claro que a tecnologia não está aí para substituir, mas para ficar ao lado do professor e potencializar a aprendizagem. Para 2021, fica a mensagem que o ensino híbrido não será uma abordagem para responder apenas à emergência da pandemia, mas que ajuda a repensar tempos, espaços e equipes escolares para uma aprendizagem mais significativa.

 

Comunicação constante com as famílias

Manter o aluno e a família engajados no processo educacional demanda conversas que não se resumem à entrega de uma lista de atividades, mas incluem uma objetiva explicação sobre os objetivos de aprendizagem. Especialmente durante as aulas remotas, é importante adaptar a linguagem para explicar às famílias que a rotina de estudos em casa não tem como repetir os mesmos tempos da escola, seja em período regular ou ainda mais no integral. No caso das crianças pequenas, isso também significa dizer que a brincadeira faz sentido cognitivo e não só de prazer social.

 

Flexibilização das avaliações

Provas sempre foram alvo de questionamentos sobre sua efetividade. Durante as aulas remotas, isso ficou ainda mais evidente. Sem o contato diário, ficou difícil tirar dúvidas e enxergar aquela mão erguida lá no fundo da classe que sinalizava uma dificuldade maior em algo que o professor já dava como entendido. Saber o que se passa em casa exige uma parceria com pais que, no caso das crianças menores, podem fazer um registro pedagógico das atividades, seja das brincadeiras ou do que a criança realizou no livro didático. O aluno que já está em etapas mais avançadas pode construir portfólios, uma ferramenta que reúne toda a produção com fotos, vídeos, trechos de aulas e diferentes tipos de recursos que ajudam o professor a entender onde é possível melhorar.

 

Foto: jcomp/Freepik

A importância de desconectar e recarregar energias para 2021

Mais do que rever práticas e realizar planejamentos para o próximo ano letivo, professores e demais profissionais da educação devem investir em momentos de descanso e relaxamento. Práticas de autocuidado podem ajudar a desconectar.

Corrigir provas e atividades, fechar notas, realizar o planejamento do próximo ano, pensar em boas mensagens para encerrar o ano letivo atual, trocar conteúdos e conhecimentos com colegas de profissão, sem deixar de lado a vida pessoal. A essa extensa lista de tarefas, soma-se a vivência durante uma pandemia mundial, que ajuda a explicar por que professores estão tão esgotados neste final de ano.

Todos sabem que 2020 não foi fácil. Desafios de diferentes tamanhos e naturezas interferiram na vida dos estudantes – desde crianças da educação infantil até adultos do doutorado –, dos professores, coordenadores, diretores e todos os profissionais da educação que, sem aviso prévio, precisaram migrar para o mundo online e lidar com uma realidade nunca antes vivenciada.

 

Vivescer: Que recomendação daria para o primeiro dia de trabalho em 2021?

Ao longo desses meses, a Vivescer ouviu diversos profissionais, conheceu práticas e atividades diversas, pôde testemunhar o amadurecimento dos docentes e seu empenho em lutar contra as adversidades e continuar estimulando o aprendizado de seus alunos da forma que foi possível. Por isso, com o Natal batendo na porta, é hora de descansar.

Por mais que saibamos que 2021 trará novos desafios na educação, que passam por uma (re)adaptação à vida na escola e ao ensino híbrido, além do planejamento de recuperação e reforço do aprendizado e muitas outras questões, agora é momento de recarregar as energias. Para entender a importância de realmente desconectar e relaxar, a Vivescer conversou com Marcia Epstein, psicóloga, multiplicadora de práticas meditativas, praticante da meditação budista e instrutora de “mindfulness” (atenção plena). Confira a seguir.

 

Vivescer: Por que é importante realmente tirar um momento de descanso total, sem realizar planejamentos para o ano que vem ou qualquer outra atividade nesse sentido?

Marcia: Entre outros fatores, a pandemia de Covid-19 tem gerado estresse, frustração e ansiedade. Sentimos medo de pegar a doença, sensação de solidão e isolamento por conta do distanciamento social e tristeza pela realidade dos outros. Além de tudo isso, os professores tiveram que se adaptar rapidamente ao ensino online, que requer mudanças na metodologia das aulas. O estresse intenso e duradouro pode abalar os mecanismos que protegem o organismo e quando tende a se tornar crônico, pode gerar quadros de ansiedade e depressão, conforme testemunham inúmeros psicólogos que

tiveram um aumento dessas queixas em seus consultórios. É importante dar ao corpo e à mente um momento de descanso total e tempo de se refazer, relaxar e se revigorar.

 

Vivescer: O ano de 2020 exigiu muito dos professores e demais profissionais da educação. O que essas pessoas podem ter em mente para finalizar o ano e aproveitar o descanso antes do retorno em janeiro?

Marcia: É importante entender que não é o estresse em si, mas a maneira como nós o percebemos e lidamos com ele que vai definir se a situação levará ou não a uma condição crônica de estresse. Para que isso não aconteça, é importante tirar um tempo para si e resgatar a saúde física e mental com uma dieta saudável; a prática de exercícios, respiração, relaxamento e meditação; respirar ar puro sem aglomeração; ler e dedicar momentos de atenção amorosa à família e amigos.

 

Vivescer: Fala-se muito da mentalidade de crescimento. Mas como adotar essa postura com resiliência?

Marcia: A mentalidade de crescimento, segundo pesquisadores, permite uma pessoa a viver uma vida menos estressante e mais bem sucedida. Fala-se em “mentalidade fixa”, ou seja, acreditar que nossas habilidades básicas, inteligência e talentos são apenas traços fixos em uma certa quantidade que nunca muda, e em “mentalidade do crescimento”, que é a ideia de que podemos aumentar a capacidade de nosso cérebro para aprender e resolver problemas. Ao contrário do que se pensava há algumas décadas, hoje sabemos sobre a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de mudar a si mesmo ao longo de nossas vidas, podendo crescer, se adaptar a novas situações e se fortalecer diante dos desafios. Então a maneira de olhar para momentos difíceis faz toda a diferença quando vamos responder a eles e no grau estresse que exigem. Adotar essa postura de mentalidade de crescimento tem menos a ver com resiliência e mais com a mudança de perspectiva e de olhar para os desafios.

 

Vivescer: Quais são algumas estratégias, dicas e práticas para realmente desconectar e aproveitar esse período para descansar?

Marcia: Eu, pessoalmente, trabalho com meditação e “mindfulness”. O cultivo da atenção plena ao momento presente pode levar à descoberta de amplos espaços de bem-estar, calma, clareza e discernimento dentro de nós mesmos, uma vez que, no geral, a nossa mente não está no momento presente. Nosso corpo está aqui, mas a mente está em outros lugares, dispersa, divagando de uma preocupação para outra, perdida em fantasias e problemas pessoais, constantemente buscando soluções. A prática meditativa promove a união de corpo e mente, o que traz enormes benefícios para a saúde física e mental.

Marcia: Os problemas de 2020 tendem a permanecer e até a se agravar em 2021. Por isso, é importante cultivar a resiliência, ter consciência de que tudo muda, que nenhuma situação dura para sempre e que, para prevenir o estresse crônico, devemos cultivar o autocuidado e nos tratar com muita gentileza e generosidade. Fazer pausas durante o dia de trabalho para praticar a respiração consciente pode ajudar muito.

 

—–

6 passos para começar a praticar a atenção plena à respiração

1) A partir de agora, comece a se conectar com a sua respiração, observando como o ar entra e sai de seu corpo. Você pode observar como seu abdome e o tórax se movem à medida que você respira. Caso queira, se for útil para você, você pode colocar uma mão no abdome, e outra, no tórax, para senti-los subir e descer;

2) Quais sensações você nota conforme inspira e expira? Você consegue perceber alguma pausa entre uma respiração e outra?

3) Não tente controlar ou mudar nada, apenas deixe que a sua respiração ocorra natural e livremente;

4) Permaneça assim por alguns instantes;

5) Quando estiver pronto, na próxima expiração, leve sai atenção para o corpo todo. Veja se consegue experimentar, eventualmente, uma sensação de plenitude e mantenha a consciência em tudo o que está sentindo conforme o ar entra e sai de seu corpo;

6) Permaneça assim por mais alguns instantes.

(Recomendação de Marcia Epstein a partir do livro “Mindfulness para Profissionais da Educação”, Editora Senac)

 

Crédito: Freepik