Adaptar processos avaliativos durante aulas remotas ajuda a engajar estudantes

Mão empilha peças de madeira em uma ideia de crescimento

Professores e escolas estão se organizando de milhões de formas diferentes para minimizar os efeitos do distanciamento social: desde aulas remotas das 7h às 13h, até as atividades online, grupos de estudo no WhatsApp e Facebook, apostilas físicas de exercícios e mais um leque de opções. Diante de tantas possibilidades, é possível organizar um processo avaliativo com aulas neste formato? Se sim, como deve ser feito? Em que deve prestar atenção? Como apoiar os alunos e avaliar a aprendizagem mesmo sem a presença física?

Para José Moran, doutor em comunicação, professor de Novas Tecnologias na Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores da Escola do Futuro, usar o bom senso para pensar em um modelo avaliativo que converse com o momento atual é fundamental, não só para avaliar como os estudantes estão recebendo as propostas pedagógicas, mas também se essas são estratégias adequadas atualmente.

Segundo o especialista, uma ferramenta simples é o ato de registrar, que pode apoiar a construção de um portfólio, linha do tempo ou histórico de como as propostas pedagógicas foram desenvolvidas desde março, com a suspensão das aulas presenciais. “Precisamos ter flexibilidade, bom senso e humanidade no sentido de olhar afetivamente para todo esse processo e, ao mesmo tempo, encontrar alternativas de registro sobre o que está acontecendo.”

A percepção de escolas e professores sobre a mudança das circunstâncias é fundamental para que novas metodologias, seja de ensino ou avaliação, sejam elaboradas. Isso porque, segundo Moran, a tentativa de reprodução de modelos muito planejados e previsíveis, sobretudo para o modelo presencial de ensino, são como “caminhos para o desastre”, com grandes chances de desmotivar os estudantes que, por exemplo, não conseguirem acompanhar as aulas.

“Precisamos entender que não é como se o professor dissesse ‘ministrei tais aulas, vou cobrar isso na avaliação’ e pronto e acabou. Isso já é um contrassenso pedagógico no presencial, imagina agora. Estamos vivendo um período muito estranho e o professor precisa ter uma sensibilidade enorme para manter o aluno no grupo, para que ele se sinta confortável e acolhido”, explica.

Como adaptar a avaliação?
Segundo José Moran, as três formas clássicas de avaliar podem ser adaptadas para o momento. Na avaliação diagnóstica, por exemplo, é possível que, antes de começar as aulas, os docentes separem alguns minutos para conversar e perguntas como os alunos estão se sentindo ou se estão enfrentando algum tipo de dificuldades. Outra ideia é criar formulários com perguntas simples, com o objetivo de entender se a turma está entendendo as aulas, acompanhando, se o modelo faz sentido para todos. “Essa primeira dimensão é muito importante para que passemos um tempo calibrando as atividades, buscando entender os alunos e se nossas propostas fazem sentido.”

A avaliação formativa, por sua vez, “vai se formando aos poucos com o desenvolvimento das aulas e das atividades reflexivas”, explica o professor. É nessa etapa que devem ser introduzidos quizzes (questionários interativos), desafios e atividades para verificar se os alunos estão acessando os materiais disponibilizados e se estão se engajando. “O portfólio é uma ferramenta chave nesse processo de enxergar a linha do tempo e como os estudantes se expressam, além de questioná-los se entenderam o conteúdo e se mudariam alguma coisa.”

Por fim, a avaliação para aprendizagem existe para apoiar o professor a visualizar se as estratégias adotadas estão funcionando para levar os alunos ao ponto desejado. “Existem ferramentas específicas para criação de rubricas de avaliação ou, se aquele professor propôs um trabalho em grupo, pode sugerir que os estudantes avaliem uns aos outros”, exemplifica Moran.

O desafio do acesso na educação para todos
Segundo o especialista, um dos principais pontos de atenção é a questão do acesso à internet, um desafio principalmente em escolas públicas do Brasil. Para aqueles que precisam dividir o aparelho com irmãos ou com os pais, por exemplo, ou famílias que têm baixo acesso à web, Moran reforça a necessidade de as escolas, juntamente com seus times pedagógicos, pensarem em alternativas de distribuição e devolutiva de atividades.

Charge avaliação“Temos que ter muito cuidado ao fazer uma avaliação igual para todos. Isso não faz sentido”, afirma Moran. Para explicar seu pensamento, cita uma ilustração onde um professor, na frente de um pássaro, um macaco, um pinguim, um elefante, um peixe, uma foca e um cachorro, afirma: “Para uma seleção justa, todos farão o mesmo exame: escalar aquela árvore.”

A charge ilustra algo que ainda não é amplamente percebido e colocado em prática na educação: o fato de que o desempenho de estudantes não pode ser avaliado da mesma forma considerando que cada um dispõe de diferentes ferramentas para se desenvolver, além de serem pessoas únicas com características particulares.

Flexibilizar é a palavra
As mudança necessárias nas avaliações durante esse momento de aulas à distância podem ser resumidas na palavra flexibilização. Sugerir atividades mais práticas, propor conteúdos mais leves e desafios com períodos mais flexíveis pode ser uma oportunidade para avaliar outros quesitos, como colaboração, resiliência e gestão de tempo do estudante, exemplifica o especialista.

Para crianças mais novas, por exemplo, são aconselhadas atividades com o que Moran chama de entregas menores, ou seja, pequenos projetos como pesquisas breves ou fotografar objetos dentro de casa que podem ser desenvolvidos durante uma manhã. “São exercícios que fazem mais sentido do que projetos que exigem muito tempo, pois esses pressupõe maturidade e autonomia que muitos ainda não têm.”

O desenvolvimento de uma avaliação afetiva, onde alunos possam realmente relatar e construir histórias também constitui uma possibilidade. Nesse sentido, Moran destaca que uma ideia é que professores questionem os gostos e preferências dos estudantes. É possível, por exemplo, propor a produção de vídeos usando aplicativos semelhantes ao TikTok. “Os alunos sentirem que estão coproduzindo algo com a linguagem que eles usam é importante. Ou seja, trabalhar com a ideia dos estudantes usando as mídias do seu próprio cotidiano é algo que dá vida e engajamento às propostas. Ao invés de pedir algo mais tradicional, o professor pode pensar em usar estratégias de comunicação que os estudantes já dominam. Mas, para isso, é necessário falar e perguntar a eles.”

Para o professor, se antes da pandemia já se discutia a ideia de personalizar ensino e processos avaliativos, o processo torna-se muito mais necessário no contexto atual. “Talvez a principal mensagem seja não fazer algo rígido, único e fechado. O professor rígido está na contramão de um momento que precisa de muita compreensão, afeto, acolhimento e um repertório diversificado.”

Foto: jcomp/Freepik

‘Naquele momento, era como se a Vivescer fosse a minha família’

Professsora Maria Cristina Fachin, embaixadora Vivescer

Para Maria Cristina Fachin, educadora da rede municipal de Pinhal Grande (RS), conhecer a Vivescer foi descobrir uma plataforma pensada especial e exclusivamente para professores. Quem a apresentou a ferramenta a ela foi José Souza dos Santos, professor da rede municipal de Paripiranga (BA), figurinha carimbada quando o assunto é trazer novos integrantes à plataforma.

Ao conhecer o portal e sua proposta de desenvolvimento integral de professores em quatro eixos, Maria Cristina conta que ficou impressionada. “Quando o José, que já era meu amigo de outros projetos, me falou da Vivescer, logo pensei ‘que criatividade e inovação’, porque nunca tinha visto nada do tipo. Nós, enquanto professores, sentimos muita falta desse tipo de apoio, porque a vida docente é bastante difícil, são muitas situações complicadas e desafios que acabam interferindo não só no trabalho, mas na vida pessoal”, explica.

Depois de ter percorrido as jornadas Emoções e Mente, Maria Cristina define a Vivescer como um espaço próprio onde professores podem buscar o apoio do qual precisam e se encontrar enquanto pessoa. “É uma plataforma que vê o professor como pessoa, e não simplesmente como mais um profissional. Eu achei isso o máximo.”

A educadora fala por experiência própria: em 2019, esteve à frente de uma sala de aula de educação infantil, entretanto, não conseguiu se adaptar à vivência e ao trabalho com uma turma de crianças, o que acarretou depressão e síndrome do pânico, comumente associados ao termo inglês “burnout”, usado para classificar o esgotamento profissional.

“Fiz uma publicação dentro da plataforma e diversos colegas comentaram que eu deveria rever alguns pontos da jornada Emoções, que poderiam me ajudar. Nesse momento, essa rede de apoio me ajudou bastante. Eu tinha a impressão, e era verdade, que naquela hora a Vivescer era a minha família. Eu conversava bastante sobre isso com o professor José. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, foi bom sentir a segurança de que há alguém que nos entende, sabe pelo o que estamos passando, o que estamos sentindo e pode nos dar dicas e sugestões, como um apoio mesmo.”

Desenvolvimento pessoal e profissional 

Depois de seu lançamento, a Vivescer contou com uma atualização, que fez com que os professores precisassem passar novamente por jornadas vistas anteriormente. Engana-se quem pensa que isso foi um problema. Para Maria Cristina, foi uma oportunidade de reter informações que passaram despercebidas durante a primeira vez que fez a jornada. “É como se o percurso das emoções falasse ‘vamos arrumar primeiro a pessoa’. A jornada é uma ferramenta que ajuda a dar essa atenção ao professor enquanto ser emocional. Acho que se fizesse pela terceira e quarta vez, acabaria descobrindo ainda mais coisas novas”, afirma.

Para a professora, os percursos e jornadas proporcionam situações que incentivam os educadores a fazer uma autoanálise de suas práticas pedagógicas e também de seus comportamentos tanto como profissional, como ser humano. Além disso, o fato de o portal oferecer a possibilidade de troca de experiências com professores de todo o Brasil – como é o caso de José e Maria Cristina, ele da Bahia e ela do Rio Grande do Sul –, é um diferencial.

“Fazendo os percursos, encontramos um amparo nas dificuldades e nos desafios que enfrentamos. Esse convívio melhora nossa autoestima e nos motiva a mudar. Nós trocamos ideias e acabamos trazendo os ensinamentos para nossa realidade.”

Maria Cristina Fachin é pedagoga dos anos iniciais com especialização em gestão escolar, psicopedagogia clínica e institucional. É professora da rede pública de Pinhal Grande, no Rio Grande do Sul, desde 1997. Atualmente trabalha no Departamento de Cultura do município. 

Exercícios físicos simples ajudam professores a cuidar do corpo durante as aulas remotas

A simples combinação das palavras “exercícios” e “quarentena” no buscador da internet mostra resultados de aplicativos, técnicas, vídeos e reportagens sobre a importância de, mesmo durante o distanciamento social, as pessoas se manterem fisicamente ativas de alguma forma, seja arrastando sofás na sala e criando um pequeno espaço ou até mesmo a prática de alongamentos na própria mesa de trabalho.

Muitos especialistas já fizeram alerta sobre o risco que o período em casa apresenta para a saúde. No caso específico dos professores, a lógica de trabalho mudou completamente: se antes ficavam em pé praticamente durante o dia todo, agora precisam encarar longas jornadas diárias sentados à frente de um computador para preparar e ministrar aulas remotas. O impacto é sentido no aspecto emocional – já que os docentes precisam se adaptar a uma nova metodologia com a qual a maioria não tinha familiaridade –, e também no físico.

Verônica Fonseca, coordenadora do Impulsiona, programa do Instituto Península que utiliza o esporte como ferramenta no desenvolvimento integral, reforça que a prática de exercícios físicos, que ajuda os professores a lidar com a rotina desafiadora e sobrecarga de trabalho, é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

“A OMS, que lançou um guia sobre como se manter ativo durante a quarentena, recomenda, pelo menos, uma média de 20 minutos de atividade física de intensidade moderada por dia, que pode ajudar a reduzir a ansiedade e o estresse, além de melhorar a disposição física”, explica.

O grande volume de trabalho, somado a estresse, insegurança, pressão sobre os professores e somado às longas jornadas acabam por causar dores de cabeça, musculares e um esgotamento físico que noites de sono não são capazes de resolver completamente. Para Verônica, exercícios físicos simples como alongamentos e caminhadas leves já atuam na diminuição dessas dores, além do fato de que o relaxamento produzido pela prática de exercícios contribui para a qualidade do sono, muitas vezes prejudicada por sintomas como ansiedade e agitação.

Os benefícios, entretanto, vão além do fortalecimento dos músculos, melhora do condicionamento físico e aumento da capacidade cardiovascular e pulmonar, e contribuem também para o bem-estar psicológico e mental dos praticantes. “A atividade física regular ajuda o cérebro a manter suas principais habilidades mentais afiadas e reguladas. Desta forma,, percebe-se também uma maior regulação das emoções. Isso tudo ajuda a equilibrar o estresse e impede que sintomas físicos sejam experimentados”, reforça Verônica.

Mas como encaixar os exercícios em meio a rotinas cada vez mais sobrecarregadas e jornadas que parecem não chegar ao fim? Segundo a especialista, pausas ativas – intervalos periódicos ao longo do dia a fim de alongar e movimentar um pouco o corpo– têm se mostrado efetivas durante a quarentena.

Em um movimento de reunir propostas simples e, ao mesmo tempo, criativas de exercícios que podem ser feitos em casa, o Impulsiona incentivou que os professores do programa enviassem sugestões de atividades para que alunos, famílias e, claro, outros professores, pudessem fazer em casa. Diego Felipe Raymundo, professor de educação física de escolas das redes pública e particular de ensino de Guarulhos, em São Paulo, contribuiu com algumas ideias. Confira a seguir.

Exercícios sem sair da mesa de trabalho? 

É possível! Diego indica uma série de alongamentos que podem ser feitos sem levantar da cadeira. Dois minutos entre uma tarefa e outra, por exemplo, podem se transformar em uma sessão super rápida de alongamentos que, inclusive, podem prevenir a chamada LER, lesão de esforço repetitivo.

“Além de um gasto calórico, mesmo que pequeno, os alongamentos são muito importantes sobretudo para quem passa o dia inteiro digitando, por exemplo.

  • Para alongar coluna, basta entrelaçar os dedos e levar as suas duas mãos como se estivesse empurrando o teto, sem tirar o glúteo da cadeira, e também, ainda com os dedos entrelaçados, colocar as mãos atrás da cabeça e puxá-la um pouco para baixo;
  • Colocar uma das mãos na orelha, e empurrar a cabeça para a outra orelha ir em direção ao ombro, alternando os lados;
  • Estender o braço e fazer a flexão e extensão do punho;
  • Levantar o braço até o cotovelo ficar ao lado do rosto e, com a outra mão, empurrar o cotovelo para trás para alongar o tríceps.

Tenho mais tempo para me exercitar. O que fazer? 

Segundo Diego, um assunto sobre o qual tem comentado bastante com seus alunos e colegas é como fazer ginástica dentro de casa mesmo sem qualquer material. Para quem tem mais tempo e quer investir em uma rotina de exercícios, existem sequências que podem ser feitas em qualquer janela de dez minutos ou mais, a depender da disposição de cada um.

“É possível fazer 45 segundos de polichinelo, depois descansar 15. Em seguida, repete os tempos mas fazendo polisapato, um movimento parecido, em que a pessoa leva a perna e o braço contrário à frente e vai alternando. Depois, uma série de agachamentos, tomando cuidado com os joelhos; o exercício do afundo, onde uma perna vai à frente e agacha, para trabalhar quadríceps e glúteo; subir e descer na ponta do pé para exercitar a panturrilha; uma corrida no lugar; abdominais e ‘walking burpee’, onde a pessoa apoia os braços no chão, coloca os dois pés para trás e depois para frente. Com esses exercícios, trabalhamos praticamente o corpo todo.”

E se eu nunca tiver praticado exercícios?

Para aqueles que nunca praticaram um exercício, mas já perceberam que as longas jornadas diante do computador estão produzindo efeitos indesejados no corpo, como dores e tensões musculares, vale prestar atenção no próprio ritmo. Segundo Diego, ao praticar um exercício, é importante observar a frequência cardíaca e seu nível de esforço e cansaço.

“Se sua frequência cardíaca está muito alta, isso significa que determinada atividade está um pouco demais para seu corpo. Já a escala de esforço determina o quanto estou cansado. É possível diminuir o tempo da atividade ou trocar o exercício. Por exemplo: se nunca me exercitei, estou fazendo um polichinelo e vi que minha frequência cardíaca foi lá em cima, pare um pouquinho, diminua o ritmo ou troque o exercício por algo menos intenso.”

Como inovar nos exercícios dentro de casa? 

Para o professor, a dica para se incentivar a praticar algum exercício é entender que essa é a realidade possível atualmente, porque mesmo com academias sendo reabertas ainda pode existir receio por parte dos frequentadores. Em casa, uma combinação de atitude e criatividade também é bem-vinda.

“O sofá acaba nos chamando, então algo que tem me ajudado muito, particularmente, é a música. Uma dica é a pessoa desligar a televisão ou usá-la para fazer atividade física. Como? Coloque vídeos da internet de exercícios ou uma música. Se gosta de fazer exercícios ao ar livre, coloque uma paisagem ou um vídeo que dê essa sensação.”

É possível vencer a preguiça?

Um dos segredos para vencer a preguiça de se movimentar é incluir os exercícios na rotina. “Essa história de ‘ah, quando der eu faço’, nós acabamos não fazendo nada. Por isso eu sempre falo: exercício é rotina”, explica Diego. Para o profissional, a vida, sobretudo o momento atual, onde o gasto calórico das pessoas é menor e o consumo de alimentos é, geralmente, maior, demanda exercícios por uma questão de saúde, muito além da estética.

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4 livros para inspirar a prática docente durante a pandemia

Livro aberto com silhuetas de crianças brincando sobre as páginas

 

A pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península, durante o período de suspensão das aulas em razão da COVID-19, demonstra que os professores estão mais propensos a usar seu tempo com estudos em detrimento do lazer. Na primeira etapa do levantamento, 60% dos respondentes afirmaram que estavam se dedicando a atividades relacionadas a cursos, preparação de aulas e estudos, enquanto na segunda etapa, 50% afirmaram dedicação a estudos de capacitação profissional e 62% às atividades da escola.

Muitos especialistas afirmam que as mudanças sistêmicas em diversos âmbitos da vida, incluindo a educação, pode ser uma oportunidade para repensar seu funcionamento e implementar alterações significativas nas metodologias para ensinar e aprender. Ao mesmo tempo em que professores precisam de um referencial teórico sobre essas novas metodologias, demandam dicas práticas que podem ser aplicadas no momento presente, com o ensino sendo mediado, na maior parte do tempo, pela tecnologia. Por isso, a Vivescer reuniu dicas de livros que podem inspirar a prática docente agora e render frutos de transformação na retomada das aulas presenciais. Confira a seguir.

Educação em quatro dimensões: as competências que os alunos devem ter para atingir o sucesso – Charles Fadel, Maya Bialik, Bernie Trilling (E-book gratuito)

Escrito por Charles Fadel, especialista em inovações para educação, fundador do Center for Curriculum Redesign e professor visitante de Harvard, o livro (disponível para download) parte do princípio que estudantes do século 21 precisam desenvolver quatro competências para atingir o sucesso: conhecimento (o que sabemos e compreendemos), habilidades (como usamos o que sabemos), caráter (como nos comportamos e engajamos no mundo) e meta-aprendizado (como refletimos e adaptamos). Segundo diversos especialistas, sistemas educacionais estão falhando em preparar os alunos para se adequarem ao mundo presente e futuro, o que acontece por diversos motivos.

Entre exemplos de casos internacionais e análises sobre o conceitos que circundam a educação, o autor cita a importância de reavaliar currículos pedagógicos pois, ao mesmo tempo em que o conhecimento é essencial, deve-se analisar o que é relevante em cada área para que o currículo reflita as prioridades da aprendizagem e não sobrecarregue estudantes já sobrecarregados. Para Fadel, a matriz das quatro competências pode facilitar o processo de organizar a ampla gama de objetivos educacionais e criar uma forma de organização mais clara, priorizada e útil.

Ensino Híbrido. Personalização e tecnologia na educação – Lilian Bacich, Adolfo Tanzi Neto e Fernando de Mello Trevisani

Mesmo que a tecnologia faça parte das vidas pessoais de bilhões de pessoas, jovens adultos, por exemplo, cresceram ouvindo seus professores dizerem que a sala de aula não é lugar de celular. A pandemia do novo coronavírus deixou claro que a educação pode, sim, se beneficiar do uso de equipamentos eletrônicos e da internet, desde que com uma intencionalidade pedagógica. No livro Ensino Híbrido, os autores reforçam, entretanto, que o conceito vai além de mesclar tecnologia e a educação formal, e compreende a adoção de diferentes configurações de espaço, formas de aprender, metodologias, currículo mais flexível e outros.

A publicação analisa os dois caminhos seguidos pela educação em seu processo de aprimoramento, evolução e adequação aos novos tempos e demandas. De um lado, estão as alterações progressivas, onde o modelo de disciplinas é mantido, mas o aluno é mais estimulado a se envolver. Do outro, um caminho considerado mais inovador, sem disciplinas e mudanças no currículo, espaços físicos e metodologias utilizadas, priorizando o aprendizado no ritmo de cada criança. Esse modelo dá ênfase à realização de um projeto de vida, por exemplo, além do desenvolvimento de valores e competências amplas de conhecimento e socioemocionais, assim como o equilíbrio entre o aprendizado individual e em grupo.

Preparando os Professores para um Mundo em Transformação. O que devem aprender e estar aptos a fazer – Linda Darling-Hammond, John Bransford

Para os autores, a prática profissional do ensino envolve três áreas gerais de conhecimento, habilidades e disposições que são importantes para qualquer professor adquirir: o conhecimento dos alunos e seu desenvolvimento nos contextos sociais, o conhecimento do conteúdo das disciplinas, habilidades a serem ensinadas e dos objetivos curriculares, e o conhecimento do ensino do conteúdo, dos alunos em sua diversidade, da avaliação e do gerenciamento da sala de aula.

O livro traz referência de diversas fontes e pesquisas para sublinhar a importância dos professores, sua responsabilidade a partir do momento em que escolhem o ensino como profissão e o efeito que exercem sobre o desempenho de seus estudantes. Os autores também pontuam que é possível aprender conhecimentos e habilidades para aprimorar a prática docente e, ao longo de cinco capítulos, abordam aspectos da sala de aula, como currículo, avaliação, gestão da sala de aula e outros. Aspectos como a necessidade de colaboração entre docentes também são analisados ao longo do texto.

Formando Mais que um professor. A essência do ensinar e como impactar a aprendizagem de todos os alunos – Elizabeth Green

Depois de escrever textos jornalísticos sobre educação durante alguns anos, Elizabeth passou a discordar sobre grande parte das metodologias e formas de funcionamento da educação sobre as quais escrevia. O livro “Building a better teacher”, que em português chama-se “Formando mais que um professor”, traz alguns conceitos que a jornalista desenvolveu, como o mito do professor que nasce com essa habilidade “natural”. Para ela, é errado categorizar professores como bons ou ruins, uma vez que ensinar é uma habilidade que requer conhecimento especializado.

Essa “lacuna de entendimento” estaria afetando as políticas educacionais, segundo a autora. O livro foi construído com base em histórias que têm o potencial de desconstruir essa compreensão, como uma dupla de professores que tomou uma abordagem não convencional de ensino para influenciar seus colegas de profissão: eles gravaram suas aulas durante um ano, mantiveram registros próprios e de seus alunos e também possibilitaram que pesquisadores entrevistassem os alunos. Segundo Elizabeth, isso fez com que outros professores pudessem entender como os dois docentes pensam no momento de lecionar e como os estudantes absorvem o conteúdo.

Confira a lista completa de obras indicadas pelo Instituto Península.

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Autoconhecimento e superação: como a jornada sobre emoções ajuda o crescimento pessoal e profissional

Para Carlos Henrique Patrício, diretor de uma escola da rede municipal de ensino de Magé, no Rio de Janeiro, a Vivescer apareceu em sua vida no momento em que mais precisava: quando chegou na escola onde atua, em 2017, passou por processos de luto em sua vida pessoal. “Sabe aquele momento que você precisa encontrar algo novo e diferente, que te faça sentir realizado e, ao mesmo tempo, te dê diversas oportunidades, oriente caminhos e te conduza a novos lugares? Com a Vivescer foi assim.”

Como precisava entender o que sentia, Carlos começou seu percurso na plataforma pela jornada sobre emoções. “Em 2017, meu emocional estava muito abalado. Foi no finalzinho de 2018, a partir da minha interação com a plataforma, que comecei a me fortalecer. A jornada, que estou refazendo atualmente, conseguiu mostrar que precisamos falar sobre nossos sentimentos e o que estamos sentindo. Não somos só divididos entre estar triste ou feliz. Temos muitas outras emoções e a jornada possibilita que a gente se conheça mais e melhor, além de permitir que olhemos para os outros, desenvolvendo empatia.”

É claro que o processo demanda certo tempo e empenho do profissional, sem contar em sua disposição de evoluir. Mas, para Carlos, as mudanças fizeram-se presentes tanto em sua vida pessoal, como na prática profissional. “No dia a dia corrido, eu tinha mania de apenas ouvir. Se continuasse assim, talvez não captasse exatamente o que alunos, professores e a equipe escolar queiram me passar. A partir desse momento, passei a olhar mais para essas questões.”

Colocando os aprendizados em prática

Um dos pontos altos da Vivescer, segundo Carlos, é convidar os educadores e demais profissionais da educação a colocar em prática o que aprendem na plataforma. Em 2019, o diretor criou o projeto Reconstruindo Contextos e Experiências. A proposta, ligada à jornada emoções, usa o filme de animação “Divertidamente” para introduzir os trabalhos da reunião pedagógica de professores da escola.

“Nesse momento, incentivei que cada um analisasse como estava se sentindo exatamente naquela hora e nomeasse a emoção. A partir disso, construí uma dinâmica ligada ao filme.” Segundo o profissional, essa experiência aguçou a vontade de fazer ainda mais atividades.

A prática deu origem à “Linha das Emoções”. Carlos passou uma fita isolante no chão do pátio da escola e fez com que os professores ficassem a uma certa distância. Então, propôs uma volta no tempo: “Eu utilizei experiências emocionais que cada um já tenha vivenciado, e eles iam se aproximando ou não da linha conforme suas realidades”, explica. “Fiz perguntas desde a infância até a prática profissional, como a passagem pelo magistério e a experiência de lecionar. Foi muito bacana porque, de início, os professores estavam com medo e, aos poucos, começaram a interagir demais. A dinâmica durou um bom tempo e deu para todo mundo deixar claro o que sentiu.”

Mesmo depois das duas experiências, o trabalho com as emoções não parou. O corpo docente empenhou-se em momentos de estudo e questões voltadas à parte emocional dos professores, introduzindo também conceitos como competências socioemocionais e a importância de enxergar o aluno de forma integral. “Nós encontramos muitas dificuldades, mas se focarmos só nelas, não obteremos bons resultados. Temos que entender que o aluno é um todo, que tem vontades e possibilidades, só que, muitas vezes, o professor deixa o processo muito ‘engessado’. A jornada também ajudou nesse sentido.”

Envolvimento da equipe da escola e comunidade

Os ensinamentos obtidos na plataforma também motivaram a realização de atividades que envolveram mais do que os professores: alunos, toda a equipe da escola e até mesmo as famílias e comunidade do entorno passaram a fazer parte da chamada Árvore dos Elogios.

Tudo começou quando Carlos pensou em uma forma de professores trocarem elogios entre si. “Às vezes, pensamos que o importante é ter ou ganhar algo concreto para sermos bons. Mas não é assim. Precisamos entender que ser é muito mais importante do que ter.” Segundo ele, quando professores começaram a receber bilhetes reforçando que eles são importantes e que fazem a diferença na escola, teve início um processo de esperança da equipe.

A experiência foi tão positiva que ganhou novos “frutos”. Rapidamente, cada sala de aula passou a contar uma árvore dos elogios para que os alunos também participassem do gesto. Em seguida, os funcionários também entraram na roda, e bilhetinhos para a “tia da cozinha” e para a “tia da limpeza” também passaram a aparecer nas cartolinas. “Aquilo mudou completamente a harmonia do espaço escolar.”

Logo, o movimento também contagiou os pais, mães e famílias dos estudantes, que usaram suas contas pessoais do Facebook e também a página da escola para multiplicar os elogios. “O que estava somente na árvore dentro da escola ganhou novo formato e passou para o Facebook. Era como se tivéssemos feito uma transposição da ideia do elogio para a página dos pais dos alunos e da própria escola. Esse é um grupo que tem muita vontade de fazer e de inovar.”

Próximos passos

Depois da jornada emoções – que está percorrendo pela segunda vez – e da jornada mente, Carlos diz que está ansioso para realizar a jornada sobre propósito, que tem sido elogiada por outros professores. Para ele, ter sido convidado para integrar o time de embaixadores da Vivescer foi motivo de grande alegria. “Quando recebi o convite, não vou mentir: meu coração quase explodiu. A gente se torna grande, não no sentido de ‘poder’, mas na capacidade de estar disponível para ajudar outras pessoas e professores ao participar de uma rede que tem um significado tão grande.”

Escuta ativa abre caminho para professores e gestores se aproximarem dos alunos

Menino com megafone na mão

Uma das maneiras para promover a integração com estudantes neste período de aulas remotas e entender melhor as dificuldades acadêmicas e emocionais que eles enfrentam é realizar processos de escuta. Ao dar a chance para o aluno descrever como está se sentindo ou progredindo, o professor pode ter uma ideia melhor sobre seu desenvolvimento e traçar soluções.

Escutar os estudantes significa criar oportunidade para que possam compartilhar opiniões sobre diferentes assuntos, desde os mais corriqueiros, como brincadeiras durante o tempo livre em casa e as atividades pedidas pelo professor, até os mais complexos, como mudanças no currículo e na organização dos horários.

Para engajar os alunos, essas consultas precisam ser realizadas com o suporte de dinâmicas e linguagens compreensíveis e estimulantes para eles. Também precisam ser inclusivas, para que capturem múltiplas vozes, mesmo as mais silenciosas e dissonantes. Afinal, mesmo para quem consegue realizar aulas síncronas neste momento, nem sempre é possível ver uma mão levantando ou identificar quem timidamente tenta pedir a voz em meio ao mosaico de carinhas na tela.

Marisa Villi, cofundadora e diretora executiva da Rede Conhecimento Social, que já coordenou diversas pesquisas com crianças e jovens, diz que esse processo de escuta ativa pode ser iniciado desde cedo, com crianças de fundamental 1, que podem fotografar sua rotina em casa durante o período de aulas remotas. “É basicamente perguntar como a criança gosta de brincar em casa. É uma pergunta simples e que pode ser muito reveladora”, explica Marisa. “As coisas que ela gosta de brincar quando está dentro de casa servem para nos dizer um conjunto de coisas: ela está sozinha ou acompanhada por adultos, mexendo em um brinquedo pré-fabricado ou com alguma brincadeira mais complexa?”.

A interpretação dessas imagens, feitas em discussões em grupo ou de forma mais individualizada, pode dar ao professor uma visão mais clara sobre a experiência da criança em casa e também facilitar a comunicação com as famílias. “Uma criança que está se sentindo muito sozinha, vai tirar fotos de brinquedos que retratem esses momentos em que ela se fecha, seja por conta do mundo ao seu redor ou porque ela está procurando isso”, disse Marisa.

Com os mais velhos, a partir do fundamental 2, já é possível pensar na adoção de questionários, incluindo perguntas mais diretas sobre como os estudantes estão ou não conseguindo estudar neste momento, os conteúdos que eles consideram mais relevantes e como eles têm acessado.

“O processo de escuta sempre apoia o diálogo entre os diferentes. Por mais simples que seja, um questionário pensado pelo gestor escolar para escuta dos alunos, da equipe pedagógica e das famílias permite fazer uma leitura das expectativas. Cabe ao gestor, mais tarde, pensar no que pode realizar”, diz Marisa, que ressalta que desde a elaboração das perguntas até a análise dos resultados precisa dar chance ao diálogo.

Assim como funcionava nas aulas presenciais, no contexto de aulas remotas é importante considerar que a opinião dos alunos mais “comportados, extrovertidos e eloquentes” não deve se sobrepor à dos mais “rebeldes, tímidos ou que apresentam dificuldade de se expressar”. Todas as perspectivas precisam ser contempladas. Só assim o professor conseguirá ter um quadro geral das necessidades da turma e do impacto das atividades que tem desenvolvido.

Para que o processo seja efetivo, aqueles que escutam devem ainda ter a sabedoria de não se colocar na defensiva, nem se sentir pressionados a acatar tudo o que é sugerido. No entanto, devem realizar devolutivas consistentes, que deem transparência às percepções e propostas coletadas e indiquem como elas serão tratadas. Um processo de escuta dos estudantes e da equipe escolar pode ter efeito reverso quando não gera consequências concretas.

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Do presencial para o online: como combater a indisciplina em aulas virtuais

Indisciplina

O fechamento das escolas e suspensão das aulas, com migração da educação principalmente para o ambiente virtual, fez com que toda a equipe escolar e as famílias precisassem se adaptar a uma nova modalidade, até então pouco utilizada de forma recorrente: a educação mediada por tecnologia.

É intuitivo dizer que, com a novidade, surgiram também novos desafios, inéditos para todos. Um deles é a indisciplina virtual. Conversas paralelas, trocas de bilhetes durante a aula e risadas e brincadeiras fora de hora, comportamentos que todos os professores já enfrentaram em algum momento de suas carreiras, deram origem a câmeras desligadas, conversas fora de hora nos bate-papos das transmissões de aula ou no WhatsApp, bullying virtual e até situações mais graves de desrespeito em tempos de ensino remoto.

Em um momento de pandemia, incertezas sobre o futuro e ânimos a flor da pele, como é possível, mesmo à distância, estabelecer combinados que ajudem a criar um ambiente propício para o ensino e a aprendizagem?

Para Adriana Ramos, pesquisadora, especialista em classes consideradas difíceis e coordenadora do curso de pós-graduação em Relações Interpessoais na Escola pelo Instituto Vera Cruz, é preciso, em primeiro lugar, diferenciar situações de indisciplina, caracterizadas pela quebra de combinados presentes no contrato pedagógico, e casos de desrespeito que vão além ao envolver agressão verbal e atitudes como exposição de imagens e vídeos impróprios.

“É claro que a indisciplina é um desrespeito com o professor e com o grupo, uma vez que atrapalha atingir o objetivo da aula. Mas essas são as chamadas incivilidades, quase como microviolências. Entretanto, existem inúmeros e milhares de relatos de situações de desrespeito profundo”, explica Adriana.

Segundo a coordenadora, o ambiente virtual confere uma falsa ideia de proteção, uma vez que é possível logar nas salas de aula virtuais com nomes falsos, ou até mesmo passar as informações de login para uma pessoa de fora do círculo da turma.

O desafio da novidade

Para Adriana, não se tratam de novas indisciplinas, mas sim de um novo ambiente. A partir de sua experiência no contato com docentes e coordenadores pedagógicos, ela afirma que as ocorrências eram muito mais numerosas no início do processo, quando estudantes e professores ainda estavam explorando o ambiente online. A diminuição dos casos, entretanto, não significa que não acontecem mais, mas sim que conversas paralelas, por exemplo, são realizadas em conversas privadas.

Além disso, existem questões delicadas relacionadas às aulas online, como o fato de que o professor entrou na casa dos estudantes, onde as famílias têm fácil acesso às aulas e, em alguns casos, ocorrem conflitos, por exemplo, entre pais e docentes no horário das transmissões.

Também é importante considerar que a quase totalidade das instituições de ensino não estavam preparadas para essa nova realidade, fazendo com que muitas decisões tomadas precisassem ser revistas ao longo do caminho. “Escolas conteudistas, que tinham um ensino muito diretivo, por exemplo, migraram para o virtual e decidiram conferir aos alunos uma autonomia que eles não tinham. Isso gera várias situações de indisciplina porque há a criação de um ambiente de insegurança. Também não foi positivo o caso de algumas escolas que optaram por fazer a transposição exata do ambiente real para o virtual. Aulas expositivas, com lousa e pouca interação, geram um sentimento de frustração muito grande no professor, porque ele sente que fica falando sozinho”, explica Adriana.

A importância do diálogo

Para a especialista, é o tipo de situação que irá determinar a forma com que a escola deve tratar o caso. Separar situações de indisciplina de casos mais graves de desrespeito é o primeiro passo. De qualquer maneira, ela aconselha que as instituições mantenham o que já deviam fazer no ambiente presencial: investir em uma relação dialógica.

Para casos mais leves, nos quais nenhuma violência foi cometida, Adriana sugere o uso da leveza e bom humor, ferramentas que podem ajudar a redirecionar a atenção da turma. Intervir em brigas e ofensas entre os próprios estudantes nos chats das transmissões online, por exemplo, também é importante. Por isso, são positivas as experiências de docentes que trabalham em duplas: enquanto um monitora as interações por texto, outro fala com a turma.

Já para situações graves de desrespeito, a especialista reforça a importância de os docentes se indignarem e imporem limites, mas nunca faltando com o respeito, o que pode agravar o caso. “É muito mais um movimento de o professor conseguir aproveitar esse momento para falar da situação. Muitas vezes a escola quer saber quem fez para punir e acabar com o caso, mas isso não é educativo. É muito melhor conversar com a turma, onde o professor pode expressar como se sentiu, ouvir os alunos e pensarem juntos em formas de, enquanto um grupo, conseguirem organizar uma aula online. Reconhecer que isso é difícil também é importante e que, apesar de ninguém querer estar nessa situação, deverão fazer da melhor forma enquanto ela permanecer.”

Segundo ela, não são raros os casos de estudantes que enviam e-mails para a escola fora do horário de aula, afirmando saber quem foi que cometeu algum tipo de deslize nas aulas online. “Os alunos ficam querendo achar culpados, o que reflete a postura da escola, mas ninguém defende o professor ou outro colega na frente do grupo todo. O que desqualifica as ações de indisciplina e faz com que elas parem de acontecer é quando o coletivo é mais forte. A conversa com o grupo é importante não só para que não se legitime esse tipo de ação, mas para que alguém fale ‘não acredito que fizeram isso com a professora’”.

Nos casos em que a situação se repete, uma das opções é envolver, também, a família ou os responsáveis pelo estudante e, em uma reunião, fazer o chamado “acordo educativo”, onde se estabelece o que é ou não permitido e qual é a postura esperada do aluno. “No acordo educativo, ficam claros quais são os princípios e valores da escola e o que não será mais permitido. Se as situações voltarem a acontecer, a escola estará, inclusive, autorizada a usar outras sanções. Normalmente, as instituições de ensino acabam advertindo, suspendendo ou até excluindo o aluno, o que só adia ou transfere o problema. Mas o trabalho com a autorregulação leva tempo, é algo a ser construído.”

 

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Encontrar tempo para autocuidado é fundamental em meio à rotina de aulas remotas

Desenho de uma mulher cumprindo muitas tarefas

Faça o exercício de perguntar a um professor ou professora quantas funções ele acumulou desde que as aulas presenciais foram suspensas em razão da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). Muito provavelmente as novas tarefas não caberão nos dedos de uma mão.

Se antes da pandemia docentes já tinham suas vidas sobrecarregadas, a quarentena e a lógica das aulas remotas impuseram uma nova realidade: além de precisarem se adaptar a plataformas digitais – com as quais a maioria não tinha familiaridade –, os docentes tiveram que aprender a fazer roteiros, gravar e editar vídeos, lidar com demandas 24 horas por dia, tirar dúvidas por WhatsApp e Facebook, dar suporte às famílias e, somado a tudo isso, equilibrar tarefas domésticas e cuidados com os filhos. Nessa equação que parece não caber dentro de um dia, onde fica o cuidado consigo mesmo?

A primeira e a segunda etapa da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península, mostraram que os respondentes estão dedicando mais tempo a organizar a vida pessoal e familiar, incluindo questões do lar (71% no primeiro levantamento e 66% no segundo), e trabalhar nas atividades da(s) escola(s) (62%). Entretanto, se antes eram 30% os que afirmavam investir em momentos de autoconhecimento e autocuidado, como preces e meditação, o índice passou para 25%.

Falta tempo?

Silvia Breim, educadora, naturóloga, coordenadora de conteúdo da plataforma Vivescer e facilitadora da abordagem integral, afirma que existe uma soma de fatores que podem explicar a falta de dedicação a ações de autoconhecimento e autocuidado.

De um lado, professores ainda estão se adaptando ao universo online, muitas vezes tendo que buscar ativamente por novas ferramentas, tutoriais e treinamentos que o ajudem a preparar as novas aulas em ambientes virtuais. É um momento de exigência que soma-se à pressão imposta pela burocracia e à vontade de realmente ser bem-sucedido nessa nova função de educador à distância, ainda que temporariamente.

Do outro lado, a educadora defende que é necessário desconstruir a ideia de que ações de autocuidado demandam muito tempo. “Todos nós temos a sensação de que precisamos de muitas horas ou de que dez minutos não são suficiente para praticar o autocuidado.”

Por que investir nisso? 

À toda essa realidade de novos formatos de aula e interação com os estudantes, entram na equação demandas da casa e o cuidados com os filhos que, por sua vez, também estão aprendendo pelo ensino remoto e muitas vezes precisam de assistência. Então, em meio a tantas tarefas, por que deve-se separar um tempo para investir única e exclusivamente em você?

Para Silvia, essa ação é fundamental para que cada pessoa tenha mais recursos a sua disposição em momentos desafiadores, como o que está posto atualmente. Investir em autocuidado e autoconhecimento proporciona a sensação de que há algo a ser feito frente às adversidades que, muitas vezes, não podem ser controladas. “Conhecer diferentes recursos pode te ajudar a alcançar um estado de mais equilíbrio, plenitude, menos angústia e ansiedade. São ferramentas que podem ser usadas todas as vezes que você se perceber nessas situações.”

Além disso, um ser humano é composto de várias esferas: suas emoções, corpo físico, sua cidadania, trabalho, família, amigos e muitas outras, além de fazer parte de dimensões que são alteradas de acordo com as ações da população. Silvia explica que alterações em qualquer esfera ou dimensão produzem impactos sistêmicos nas outras. É intuitivo pensar que uma pessoa mais equilibrada, calma e estável provavelmente terá relações mais saudáveis do que uma pessoa irritadiça.

“O autoconhecimento e autocuidado são desafiadores, até porque não fomos ensinados sobre isso. A nossa educação é muito mais voltada para perceber o que se passa fora do que aquilo que se passa dentro. Mas há uma relação intrínseca entre o fora e o dentro.”

O que pode ser feito?

Para alcançar o equilíbrio entre tarefas pessoais e profissionais ou, ao menos, encaixar momentos de autocuidado na agenda, Silvia dá duas dicas.

– Entender qual é a sua rede de apoio

Silvia afirma que é necessário expandir a rede de apoio e compreender que essa vai além da avó que, no momento, está impossibilitada de ficar com os netos. Também compõem essa rede vizinhos e amigos para os quais é possível telefonar nem que seja para dividir as angústias.

“Podem ser coisas muito simples. Você pode combinar com um vizinho que, em um dia, ele vai cozinhar mais comida e deixar na sua porta, e no dia seguinte você faz o mesmo por ele. Cozinhar demanda tempo e esse tipo de iniciativa libera um tempo da agenda que você pode usar para você ou simplesmente para não fazer nada, já que a sobrecarga é tanta: temos que lidar com a casa, com a cozinha, com filho, trabalho, relacionamento. São muitas esferas ao mesmo tempo.”

– Separar intervalos de dez minutos durante o dia

Muitas pessoas passam mais de uma hora por dia empenhadas em rolar a linha do tempo nos inúmeros aplicativos de redes sociais, tempo que poderia ser melhor empregado em momentos de autoconhecimento e cuidado. Silvia indica e compartilha que ela mesma faz sua “lista do dez minutos”, ou seja, enumera ações que podem ser feitas nesse intervalo entre uma tarefa e outra, como tomar um banho, tomar uma xícara de chá ou sentar em frente à janela para dar um descanso de olhar telas o dia todo.

“Essas pausas são importantes para alternar entre estar fazendo alguma coisa e se cuidando. Se você conseguir encaixar mais de uma pausa por dia, ótimo. Mas eu indico começar com uma. Se inserirmos muita coisa, a tendência é que a gente não consiga fazer. Então deve-se começar com o que cabe na rotina, sem querer abraçar o mundo. Começar devagar faz com que possamos ganhar essa ‘musculatura’ e, quando ela está trabalhada, fica mais fácil de propor outras coisas.”

Como desenvolvimento integral ajudou engenheiro encontrar seu propósito na educação

Felipe Herszenhaut“Quanto mais certeza temos do nosso propósito, mais completos estaremos em nossa prática, que poderemos fazer de forma muito melhor.” Por mais inspiradora que essa reflexão seja, ela não veio fácil para Felipe Herszenhaut, professor-embaixador da Vivescer.

Tutor pedagógico de uma turma de 30 educadores da rede estadual de São Luís, capital do Maranhão, a trajetória de Felipe na educação conta com algumas particularidades. Formado em engenharia de produção, trabalhou durante cinco anos na área de operações de uma organização de saúde. Com a chegada de uma nova pessoa na área de recursos humanos da empresa, que trouxe consigo uma abordagem de desenvolvimento integral para a organização, Felipe começou a ver as coisas mudarem.

“Essa história de falar de propósito dentro do ambiente de trabalho e do desenvolvimento humano não só para o objetivo do que tem que ser entregue em uma tarefa, por exemplo, foi o que começou a trazer o meu olhar para a educação como algo que eu gostava e tinha muito a ver com o que me movia”, explica o educador.

Em um avanço rápido, Felipe mudou o rumo de sua carreira e já deu aula de física em uma escola estadual do Espírito Santo, antes de mudar para o nordeste. Quando conheceu a Vivescer, ainda em sua primeira versão, e se deparou com uma proposta de desenvolvimento integral, ficou empolgado. “Apesar de essa proposta existir na educação, geralmente quem fala de desenvolvimento integral são escolas privadas de elite. Então é muito legal a Vivescer falar sobre isso e disponibilizar o conteúdo para o desenvolvimento de professores da escola pública de todo o Brasil.”

Navegação na plataforma

Como um dos primeiros usuários da Vivescer, Felipe conheceu a plataforma quando somente a jornada sobre emoções estava disponível. Para ele, descobrir e ter acesso aos conteúdos lhe causou uma sensação de completude, como se tivesse adquirido novas ferramentas de trabalho.

“Eu copiei em um pedaço de papel e deixo acessível uma tabelinha apresentada na trilha que fala das emoções básicas e vários sentimentos. Toda vez que estou sentindo alguma coisa diferente, eu paro, dou uma lida e tento entender. Essa técnica tem me ajudado a dar mais atenção aos sentimentos e emoções, e não apenas deixá-los passar”, reforça o educador.

Além disso, ele pontua que terminar os conteúdos de forma mais rápida não está entre seus objetivos e, por isso, leva seu tempo para fazer reflexões sobre cada ensinamento. Para Felipe, a navegação no site tem sido, em meio a tantas incertezas, “um momento de reflexão agradável, com mensagens positivas, que busca olhar para um futuro possível.”

Na prática

Seu trabalho como tutor consiste em assistir a aula dos professores, fazer observações em notas e, posteriormente, conversar para implementar melhorias durante a “coinvestigação”. Esse processo foi interrompido em função do distanciamento social imposto para conter o avanço do novo coronavírus e, por isso, o trabalho online com os educadores tem envolvido discussão sobre planejamento e avaliação de atividades e engajamento dos alunos, com a busca de alternativas e soluções a partir das queixas dos educadores.

A jornada incentivou que Felipe passasse a trabalhar mais com os educadores para que eles conseguissem identificar as emoções em suas falas, o que tem sido útil em um momento de frustrações e incertezas sobre ensino a distância e a maneira com que os alunos estão recebendo as atividades, por exemplo.

“As pessoas procuram referências mas, enquanto professores, não nos sentimos confortáveis em compartilhar, com medo de que tenha algo errado. Precisamos nos apoiar nesse processo e compartilhar para que nos ajudem a melhorar. É um processo de nos aceitar vulneráveis e se abrir.”

Tecnologia pode ajudar a enfrentar solidão docente durante quarentena, aponta especialista 

Figuras de papel se cumprimentam

Muito antes da chegada do coronavírus no Brasil, já se falava em solidão docente. O sentimento que, segundo a pesquisa Observatório do Professor, realizada pelo Instituto Península, atinge parte dos mais de dois milhões professores que compõem a educação básica brasileira, se dá por diferentes motivos: desde a falta de preparo adequado durante a formação inicial, até a necessidade de enfrentar desafios complexos como violência, evasão escolar e alunos de diferentes realidades socioeconômicas, até a falta de apoio por parte da coordenação pedagógica e dos colegas de profissão.

Se mesmo com o convívio diário com alunos e reuniões na sala dos professores o sentimento de solidão era relatado com frequência, como fica o cenário durante o isolamento social? Além de terem perdido o contato físico, muitos professores estão sobrecarregados pela responsabilidade de ser a ponte entre a escola e os estudantes. A necessidade de aprender a lidar com plataformas tecnológicas para dar aulas a distância também é um fator que soma-se à lista de desafios do momento.

O que pode ser feito para amenizar esse sentimento? A tecnologia, de certa maneira um tanto impessoal, pode ser usada para aproximar os profissionais da educação e criar um senso de pertencimento e comunidade durante o isolamento social? Confira a entrevista com Lilian Bacich, cofundadora e diretora da Tríade Educacional.

Vivescer: O que você tem percebido em termos de sentimentos dos professores em seus contatos durante transmissões online ou com os ex-alunos dos cursos do Instituto Singularidades?
Lilian: Os professores com quem tive contato falam sobre estar longe dos alunos e como isso gera uma angústia por não saberem se os estudantes estão aprendendo ou não. Muitos falam que não conseguem saber se aqueles alunos que acompanham as aulas realmente estão por perto. Em um momento em que está todo mundo em casa, é nessas lives, cursos e ambientes online que os docentes se encontram.  

Vivescer: Em tempos de distanciamento social, como a tecnologia pode ajudar a combater ou amenizar a solidão docente e criar o sentimento de comunidade?
Lilian: Tenho notado que os cursos e lives, principalmente as que disponibilizam fóruns para as pessoas conversarem, estão virando as grandes salas dos professores, os grandes pontos de encontro. Percebo que nas lives que eu faço, os professores fazem perguntas para mim ao mesmo tempo que estão conversando entre si. Em uma transmissão que recebeu inscrição de 1.500 pessoas com perguntas, a principal angústia relatada foi como chegar perto dos alunos. Durante a lives, os professores foram trocando essas informações, e esse processo tem sido muito rico, porque vão aprendendo uns com os outros.

Vivescer: Você viu exemplos de processos que eram realizados presencialmente e precisaram ser adaptados para o online?
Lilian: Na prefeitura municipal de Ponta Grossa (PR), realizei um trabalho com professores baseado na metodologia Lesson Study, um processo no qual os professores se reúnem para planejar, observar e refletir em conjunto sobre a elaboração de planos de aula e seus impactos na aprendizagem dos alunos. Nessa metodologia, os professores devem planejar as aulas juntos, presencialmente. A rede separou algumas escolas para participar da experiência. Então o grupo todo planejava a aula do quinto ano, o professor aplicava a aula, todos assistiam e depois discutiam como poderiam melhorar. Esse é um ponto que ameniza muito a solidão de planejamento e a falta de apoio no presencial. Atualmente, cada um da sua casa, eles estão fazendo a mesma coisa, mas o planejamento é para o conteúdo que será disponibilizado pela televisão. Quando a iniciativa era presencial, os professores pediam apoio de um especialista para validar o planejamento e o mesmo está acontecendo agora: eles estão buscam outras pessoas para analisar o que pensaram para colocar em prática na televisão. Então além de se juntarem para trabalhar juntos, estão acionando outras pessoas para fazer parte dessas redes. Por isso, considero que esses arranjos têm um potencial muito grande de formação para os professores.

Vivescer: Como essas redes podem ajudar na questão da solidão docente?
Lilian: Todas as redes de professores são úteis e acredito que elas podem ajudar se oferecerem conteúdo e agregarem os docentes no sentido de propor discussões direcionadas, porque isso acaba ajudando a focar em um tema. O que percebemos na maioria dos grupos e redes que formam a partir de uma live é um foco, ou seja, um movimento de pessoas trocando ideias em relação àquele tema. Em uma rede social, como um grupo do Facebook onde pessoas pedem dicas e sugestões, é tudo muito difuso, cada pessoa pergunta uma coisa e não há uma linha de construção. Se a rede tiver um foco e um fio condutor, ela conseguirá agregar mais pessoas, não ficar tão difusa e realmente ser muito mais útil para quem acessa.

Vivescer: A atenção com o bem-estar dos estudantes durante esse momento é um tema amplamente abordado em muitos textos e reportagens. Algumas dicas envolvem atenção individual, checar rapidamente no início de cada aula se está tudo bem, jogos para descontrair, atividades em grupo e reforçar os interesses de cada um. Como podemos pensar em movimentos e atividades semelhantes para os professores?
Lilian: Eu vejo que entre os professores há uma necessidade muito grande de compartilhar o que estão fazendo. Se formos fazer uma analogia, é o momento de roda de conversa na Educação Infantil, quando a professora pergunta o que as crianças fizeram no final de semana. No curso de pós-graduação e em outros grupos que tenho contato mais próximo, o momento inicial sempre é de colocar para fora o que estão sentindo, porque estamos vivendo uma situação diferente. Então acredito que abrir as conversas com um espaço para falar sobre quais são as dores e como as pessoas se desafiaram a vencê-las é um processo interessante. Há um sentimento de solidão muito grande e as pessoas querem compartilhar com alguém. Esse é um excelente momento para isso. Ao mesmo tempo, também há a necessidade de professores conhecerem recursos digitais, por exemplo. Então a apresentação de uma nuvem de palavras ou de um novo recurso pode incentivar e fazer com que o professor se sinta encorajado a levar essas ferramentas para seus alunos.

 

Vivescer: Há outras dicas de iniciativas que podem ser realizadas para ajudar a combater esse sentimento?

Lilian: Temos visto os professores criando muita coisa. Para o dia das mães, vi um vídeo colaborativo em que cada professor pega e joga uma bolinha para o outro, cada um da sua casa. Esse tipo de iniciativa é legal porque é algo que eles têm vontade de fazer e tem o propósito de mandar para os alunos. Então talvez investir em coisas que não estão relacionadas diretamente com o desafio que eles estão precisando lidar agora seja um caminho. Isso ajuda as pessoas a se divertirem, a criar um vínculo e a deixar tudo um pouco mais leve nesse período. Em alguns grupos que estou, os professores também estão sugerindo, por exemplo, cozinhar todo mundo ao mesmo tempo. Então ligam a câmera e cada um cozinha uma coisa.  São estratégias diferentes que aproveitam o digital e tiram um pouco o peso desse momento.

 

 

 

 

 

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