Os desafios da prática docente em escolas indígenas com turmas multisseriadas

Foto em contraluz de indígena no Xingu (MT)Grande parte da infância e adolescência de crianças e jovens acontece no ambiente escolar, assim como amizades, aprendizados e a aquisição de conhecimentos que serão levados pela vida toda. Não seria esse, então, o lugar ideal para expressar seus pensamentos, vivências e usar experiências pessoais como instrumento de novas aprendizagens?

Para criar ambientes abertos ao compartilhamento de vivências, é necessário, antes de tudo, ter em mente que, no caso da educação, o famoso ditado ‘O Brasil é um país continental’ é extremamente acurado: são centenas de milhares de realidades onde estão inseridas as redes pública e privada de educação. Independente disso, agregar os conhecimentos tanto dos estudantes, como de suas famílias e dos professores e demais atores da comunidade escolar, pode ser uma oportunidade de diversificar as práticas pedagógicas e promover um engajamento dos alunos com mais propósito, uma vez que envolve suas histórias de vida e também de seus colegas e conhecidos.

Essa é a vivência de Janaína Reis, professora de duas escolas localizadas em uma aldeia indígena no Mato Grosso. Muito antes da chegada da Covid-19, Janaína já enfrentava desafios diversos, uma vez que dá aulas para turmas multisseriadas da educação infantil, ensino fundamental e médio.

O desafio das turmas multisseriadas

No caso da Escola Municipal Indígena Emkia, sua turma tem alunos entre cinco e 13 anos, o que demanda que divida a aula de acordo com as necessidades de cada grupo. Segundo ela, além de a diferença de idade, a presença de crianças com algum grau de parentesco em uma mesma sala, bem como a demanda por atenção, trazem diferentes desafios para sua prática.

“Às vezes você para de dar atenção para uma criança para atender outra e, quando olha, o rosto de uma delas está cheio de cola. Ou quando eu proponho uma atividade que as crianças acham legal, mas quando um aluno de 12 anos vê que o outro de seis anos gosta da mesma coisa que ele, ele acaba não fazendo por estar nessa fase pré-adolescente de negar a infância”, exemplifica Janaína.

Outro desafio é o idioma. As crianças falam diferentes idiomas e muitas delas só passam a ter um contato mais frequente com a língua portuguesa por meio de suas aulas, o que demanda um processo de adaptação e aprendizado.

Muitas dessas questões também se fazem presentes em seu trabalho com a turma de ensino médio na Escola Estadual Indígena Leonardo Villas Boas, localizada no Parque Indígena do Xingu. Nessa etapa, Janaína reforça que o maior desafio é lidar com a diferença de idade dos alunos na mesma turma, bem como graus de parentesco. “Imagina você ter 15 anos e, ao seu lado, na mesma turma, estar seu pai, de 60 anos. Ou o sogro. São situações que acontecem, mas eu tento ver pelo lado bom para trazer o conhecimento das pessoas mais velhas.”

A valorização da cultura local

Janaína explica que começou a trabalhar na escola Leonardo Villas Boas a partir de um pedido feito pelos próprios professores indígenas. Eles ainda estavam em trabalho de formação e, para se sentirem mais seguros, demandaram a presença de um profissional com mais experiência em sala de aula para atender à turma de ensino médio. Entretanto, a ideia é que, no futuro, apenas professores indígenas assumam o posto.

Como alguém que não faz parte da cultura local, a docente comenta que sempre procura maneiras de possibilitar que os estudantes, principalmente os mais velhos, possam compartilhar saberes, conhecimentos e aprendizados durante as aulas e as atividades propostas.

“Acho que toda troca de ensino e aprendizagem deve valorizar conhecimentos prévios que os alunos já têm e também os conhecimentos da educação fora da escola. No meu contexto, isso é ainda mais evidenciado. Eu sempre tenho que pensar nessas questões até mesmo para não parecer que somente o conhecimento não indígena é reconhecido e valorizado”, explica.

Segundo Janaína, o movimento de pensar como integrar e valorizar os saberes e aplicá-los nas atividades também é uma forma de abarcar discussões desenvolvidas em algumas aldeias sobre a função das escolas na região. “Algo que discuto sempre com outros professores é a valorização do conhecimento local e quais ferramentas eu tenho para oferecer que façam sentido na vida dos estudantes.”

Na prática

Existe um verdadeiro leque de experiências, propostas e atividades que podem incentivar o desenvolvimento dos estudante e integrar conhecimentos e saberes culturais. No estudo sobre processos químicos e reações, por exemplo, durante as aulas de química, Janaína incentivou reflexões sobre o sal que os indígenas produzem na região e qual processo realizam para isso. “Em história, nós aprendemos sobre a invasão dos europeus no Brasil e eu perguntei a eles como foi a versão deles sobre o contato, incentivando que os mais novos perguntassem aos mais velhos.”

Durante a pandemia do novo coronavírus, o desenvolvimento de atividades está ainda mais desafiador por conta de falta de infraestrutura de internet e de equipamentos nas aldeias, bem como a ameaça do novo vírus aos indígenas. Segundo Janaína, o processo definido para a região foi a elaboração de apostilas com atividades. Mesmo assim, existem dificuldades logísticas como a impressão, transporte e entrega segura do material nas aldeias.

Ouvir e considerar a experiência dos estudantes no momento da volta às aulas presenciais é uma forma encontrada pela professora para iniciar um processo de acolhimento e respeitar o momento desafiador vivido por todos durante a pandemia.

“Contextualizar e trazer a vivência é muito importante porque isso impactou a vida de todas as pessoas. Todo mundo passou por um momento difícil, mas as dificuldades não foram as mesmas. É como se estivéssemos todos sob o mesmo céu, mas com horizontes muito diferentes. As vulnerabilidades são diversas. Então é importante conversarmos para não parecer uma coisa meio doida, de paramos e de repente voltamos. Não foram férias. Foi uma questão importante que pode ajudar até a repensar algumas práticas da escola”, pontua.

Foto: Thiago Gomes/Agência Pará

‘Eu estou aprendendo a melhorar enquanto professora com a Vivescer’

Além de ajudar a melhorar sua relação com outros colegas professores, a plataforma Vivescer também apoiou Rita Vasconcelos a reavaliar suas próprias práticas profissionais. Coordenadora de uma escola pública municipal no Piauí e docente de língua portuguesa em uma escola da rede estadual, Rita conheceu a plataforma em 2019 por intermédio do professor José Souza, um dos pioneiros entre os embaixadores da Vivescer.

Assim como muitos outros professores, ela conta que a jornada sobre emoções, sua favorita, é uma oportunidade de enxergar situações cotidianas da vida docente sob outra ótica. “Essa trilha me pegou. Acredito que estava precisando muito desse conteúdo e a cada percurso que fazia, ia pesquisar ainda mais coisas para entender melhor aquele universo de informações que estava se apresentando a minha frente e que coincidiu muito com a realidade que eu vivenciava. A jornada te acolhe e faz você mergulhar em si”, explica.

Antes de trabalhar na gestão do ensino fundamental, Rita ministrava aulas para alunos do sexto ano e vivia um dilema quase cotidianamente: ao mesmo tempo em que diversos alunos tinham um desempenho exemplar em sua aula, outros não conseguiam acompanhar a turma, o que causava grande angústia.

Segundo a professora, foram as jornadas mente e emoções que lhe apresentaram novos conceitos, como no percurso estilos de aprendizagem. “Até então, eu entendia ritmo de aprendizagem como uma criança que tem mais facilidade de acompanhar e outra menos. Mas não é só isso. Estão envolvidas outras questões, como a forma com que o aluno aprende, quais atividades são mais acessíveis, como eu enquanto professora estou me sentindo e como levo o conteúdo para a sala de aula, com uma linguagem mais ou menos acessível e atividades que despertam ou não o interesse”, reforça.

Para a docente, os conteúdos e atividades das jornadas possibilitaram a compreensão de que o aprendizado acontece por diferentes perspectivas, e o professor tem a possibilidade de buscar múltiplas alternativas de fazer isso acontecer.

Empatia e diálogo lado a lado

A pandemia de Covid-19 fez com que aumentasse ainda mais a necessidade de diálogo entre gestores e professores, uma vez que o corpo docente precisa de apoio no contato e acompanhamento a distância dos estudantes. Nesse sentido, Rita explica que foram fundamentais os ensinamentos da Vivescer que falam sobre a importância de conversas, acolhimento e se colocar à disposição do outro.

“As jornadas me apoiaram muito na condução do diálogo com os professores na escola em que sou coordenadora, e dizer para eles ‘estamos aqui para apoiá-los’. Muitos querem, por exemplo, que os alunos respondam as tarefas sem atraso. Nesses casos, sentamos para conversar e explicar que o momento é diferenciado, que a situação que as crianças têm em casa não é a da escola, e que as aulas que estamos levando também não são as mesmas. A jornada emoções me ensinou muito sobre ter essa abertura para diálogo.”

Além disso, Rita também reforça que outros ensinamentos, como o sobre sistemas na jornada mente, também ajudam os educadores a desenvolver maior senso de empatia sobre como os colegas pensam e se posicionam. “Entender como eu reajo diante do colega e de suas proposições é fundamental, porque existem situações muito desafiadoras no cotidiano. Entender que as pessoas têm sistemas diferentes do seu e compreendê-los é fundamental para o diálogo.”

Nova professora em sala de aula

Não apenas sua prática enquanto coordenadora mudou a partir da realização das jornadas na plataforma, mas também sua forma de ensinar e de se portar enquanto professora. Rita conta que, há algum tempo, gostava de saber que os alunos não tinham domínio sobre todo o conteúdo e precisavam de sua presença para aprender. “Eu achava interessante ter o aluno perto de mim dizendo que não sabia alguma coisa. Eu me sentia importante, gostava de saber que o aluno dependia de mim. Apesar de sentir vergonha de ter pensado assim um dia, já aprendi a lidar com isso”, relata.

Atualmente, ela conta que constrói juntamente com os estudantes a melhor forma de visitar um conteúdo, de acordo com o que os próprios jovens expõem. Além disso, a professora explica que também mudou sua mentalidade no que diz respeito ao compartilhamento de aprendizados. Se antes guardava tudo o que aprendia para si, hoje entende e defende que os retornos sobre o que aprende são mais significativos à medida que divide com colegas.

“Quando os professores superam as minhas expectativas, fico contente e manifesto isso para eles. Aprendi a admirar os meus colegas, a olhar os detalhes e as miudezas em seu trabalho diário. Estou aprendendo a melhor enquanto professora com a Vivescer.”

Rita Ferreira Marcelino Vasconcelos mora em Castelo, município do Piauí. Licenciada em Letras Português/Espanhol, atualmente está cursando pedagogia, um sonho antigo. Pós-graduada gestão educacional em rede, hoje é coordenadora de uma escola pública municipal de ensino fundamental 2 e professora de língua portuguesa no ensino médio de uma escola da rede pública estadual do Piauí. “A sala de aula é o lugar onde eu quero morar a vida inteira, pois é onde me construo cotidianamente.”

Aproximação com famílias e troca de experiência entre professores são legados da pandemia 

Mão de criança desenhando família e casa em uma folha de papel

Praticamente todos os planos e objetivos traçados no final do ano passado para o ano de 2020 precisaram ser revistos e até mesmo redirecionados já que, mesmo com as notícias de um vírus desconhecido se espalhando pela China, poucas pessoas imaginavam que o mundo viveria uma pandemia global. Apesar de indesejada, a experiência, que fez com que grande parte da vida fosse transferida para o mundo online, rendeu aprendizados.

Para Marcelo Martins, diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Emília de Moura Marcondes, de Tremembé, em São Paulo, as aulas remotas mudaram permanentemente algumas práticas do ambiente escolar. A introdução de novos costumes e o desenvolvimento de habilidades mostrou a diretores e coordenadores, professores, alunos e famílias que há diversas formas de possibilitar a aprendizagem de crianças e jovens.

O uso de tecnologia é uma delas. Segundo o diretor, a escola viu nascer uma experiência de apoio entre professores. “Docentes que já tinham familiaridade com a tecnologia se aprofundaram ainda mais. Além disso, atuaram como tutores de colegas que apresentavam dificuldade ou até certa resistência”, explica.

A realização de videoconferências ao vivo foi um ponto positivo da tecnologia. Foram organizadas transmissões com psicólogos e outros especialistas para ir além do suporte pedagógico e oferecer apoio a outras questões que as famílias poderiam enfrentar. Além disso, Marcelo comenta que os professores também descobriram recursos como gravar aulas e áudios e montar apresentações em que a gravação acompanha a passagem de slides. “São várias ferramentas usadas em um momento de socorro, mas que com certeza enriqueceram as práticas.”

Rede de professores
A necessidade de passar a atuar de forma online também possibilitou novos desenhos na rede municipal como um todo. Marcelo explica que, se antes as reuniões por área e etapa de ensino aconteciam bimestral ou trimestralmente para reunir os professores da rede, os encontros passaram a ser semanais, com a construção de um novo calendário de atividades para o corpo docente, composto por atendimento direto aos estudantes, às famílias e os encontros entre pares.

Segundo o diretor, a unificação das atividades e dos trabalhos passados para todos os alunos da rede é uma maneira de garantir que não exista grande diferença entre o ensino de diferentes escolas, considerando que o município tem altos índices de rotatividade dos estudantes entre as instituições.

“Quem estuda aqui na Emília tem a mesma atividade que o colega que estuda no centro da cidade ou na zona rural, com a garantia que estarão no mesmo ritmo, tendo a mesma atividade e sequência didática. Além disso, os encontros acabam enriquecendo a troca de experiências e de retorno avaliativo das atividades que os professores preparam, pois agora eles estão semanalmente juntos produzindo conteúdo. O que um professor trabalhou de um jeito aqui na escola, pode beneficiar os alunos da outra escola na hora em que o professor compartilhar a experiência na reunião”, explica Marcelo.

A aproximação entre o corpo docente aconteceu na rede municipal mas também na própria escola. Marcelo comenta que professores passaram a sugerir trabalhos interdisciplinares para os estudantes, usando transmissões para combinar projetos em conjunto. “O que antes seria feito na quadra ou em um evento na escola, passou a ser feito de forma online e também no YouTube. O legal foi a reação positiva das famílias nos comentários, além de o envolvimento e participação dos estudantes ter crescido.”

Incentivo à participação: como engajar alunos e famílias
Ficar conectado a computadores e smartphones praticamente 24 horas por dia foi a forma que muitas pessoas encontraram de manter vínculos sociais e de trabalho durante o período de distanciamento social. Em alguns casos, esse processo de conexão constante serviu para estreitar laços e aproximar relações, como a que existe entre famílias e escola.

“Na época presencial, professores não tinham contato tão frequente com as famílias. Com a pandemia, foi necessário que todo mundo se conectasse via WhatsApp ou redes sociais e, com isso, vimos que famílias passaram a acessar mais facilmente os professores e vice-versa”, afirma Marcelo.

Além de laços mais estreitos, o diretor comenta que também houve uma mudança na qualidade da relação. “Muitas vezes, escola e família se conectavam para resolver problemas de aprendizagem, indisciplina ou de outras naturezas. Hoje temos situações que famílias e estudantes sugerem conteúdos e materiais no grupo de WhatsApp. Acho que essa nova conexão veio para trazer muitas coisas positivas, saindo daquela coisa ‘vou chamar seus pais na escola porque você não fez a lição’. A escola virtual abriu campo para muita coisa boa, que gera produtividade dentro das aulas.”

Apesar dos pontos positivos, alguns desafios apareceram pelo caminho. Marcelo conta que, no início, alguns professores ficaram com receio de passar o número do celular para centenas de estudantes. Essa barreira foi rompida, entretanto, à medida que mais docentes entravam em grupos de WhatsApp e começavam a relatar que os contatos se restringem a questões pedagógicas.

Assim como diversas outras redes espalhadas pelo Brasil, a rede de Tremembé também teve dificuldades com a participação dos estudantes no momento de transição do presencial para o online e com a tecnologia, considerando que muitas famílias não têm celulares para que os filhos acessassem as aulas. Marcelo comenta que uma campanha foi realizada no âmbito da rede para arrecadação de aparelhos celulares, chips e tablets, que foram distribuídos às famílias que precisavam, além de um processo de busca ativa de estudantes e entrega de material impresso.

Foto: Freepik

Alunos confiam no professor como fonte de informação segura: saiba como se preparar

Independente do contexto cultural e socioeconômico, durante grande parte da infância e da adolescência, a escola é um ponto de referência para crianças e jovens. E muitos professores são inspiração para seus alunos. Com a chegada do novo coronavírus ao Brasil e a adoção de medidas como a suspensão das aulas presenciais para conter o contágio, estudantes viram-se perdidos em um mar de incertezas, dúvidas e questionamentos muitos deles sem respostas, e sem a referência do espaço escolar.

Apesar de também terem sentido esse impacto emocional, muitos professores tomaram para si a tarefa de contribuir com a disseminação de informações verdadeiras. Segundo a primeira edição da pesquisa Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil, realizada pelo Instituto Península, 66% dos professores respondentes afirmaram acreditar que, no momento inicial da pandemia, seu papel era de disseminar informações seguras para seus grupos mais próximos.

Para Mariana Ochs, Google Innovator e coordenadora do programa Educamídia, o início da pandemia foi acompanhado de uma aceleração da circulação de informações muitas vezes desencontradas, o que ocasionou que instituições reconhecidas internacionalmente, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), usasse termos como “infodemia”, uma pandemia de informações, para designar o momento vivido mundialmente e pedisse apoio de redes sociais para combater a propagação de desinformação, mentiras e rumores sobre a nova doença (leia mais).

Nesse cenário, para os estudantes, o “rosto” de todo o processo de mudanças pelos quais o mundo começou a passar era o professor, explica Mariana. “Acredito que recaiu sobre o docente toda a angústia e ansiedade que os alunos estavam sentindo sobre esse contexto novo. Eles precisavam se informar sobre o quê e por que tudo isso estava acontecendo. Não é possível simplesmente fechar a escola e passar a dar aulas online como se nada estivesse acontecendo. É necessário abrir espaço para o socioemocional, para discutir com os alunos porque as coisas estão dessa forma.”

A figura do curador de conteúdo
Todo o contexto atual envolve inúmeras discussões a serem realizadas em diferentes frentes, como a importância da compreensão de que não apenas os professores, mas todos os cidadãos contemporâneos devem exercer o papel de curar o conteúdo a ser consumido, sobretudo em um cenário de crescimento acelerado da quantidade de informações produzidas e consumidas, e a mistura entre os papéis de produtores e consumidores de conteúdos.

Dessa forma, Mariana explica que um dos papéis do docente, que é exercido no ambiente presencial da escola e se mantém durante o isolamento social, é a mediação do entendimento que alunos estão começando a construir sobre o entorno e sobre sua realidade.

Segundo a pesquisa TIC Educação, já antes da pandemia, 55% dos estudantes do 5º ano do ensino fundamental receberam instruções dos professores sobre como usar a internet de um jeito seguro. Ao mesmo tempo, 70% dos alunos do 2º ano do ensino médio afirmaram ter recebido orientações dos docentes sobre quais sites utilizar para fazer trabalhos escolares, ao passo que 66% e 63%, respectivamente, receberam ajuda para usar a internet para fazer trabalhos ou lições e foram estimulados a comparar informações de diferentes sites.

Para Mariana, há algum tempo vive-se uma transformação acelerada sobre o que significa ser letrado e que, a alfabetização, por exemplo, não pode desconsiderar o contexto informacional que o mundo vive. “Consumimos conteúdos de procedências diferentes à medida que temos acesso autônomo a fontes de informações variadas, que não são mais mediadas por alguém que faria essa curadoria por nós”, explica.

Assim, com essa vivência recorrente no mundo digital acelerada pela pandemia, onde alunos fazem mais trabalhos envolvendo consumo e produção de mídias, um dos caminhos é investir na educação midiática, que envolve a habilidade de compreender o ambiente informacional, aprender a fazer curadoria e entender sobre confiabilidade, e o papel de uma pessoa enquanto produtor de conteúdo.

“Essa é uma habilidade básica, um letramento, e que precisa existir dentro do currículo escolar não como algo novo, mas uma nova maneira de aprender o que já precisamos. Isso vale não só para a escola, mas para a vida”, afirma Mariana.

Como praticar educação midiática agora
Apesar de professores e alunos não estarem fisicamente em um mesmo ambiente, é possível fazer algumas mudanças para iniciar ou dar continuidade a um processo de educação midiática, usando os inúmeros insumos que o contexto mundial proporciona diariamente para a discussão sobre produção e consumo de informações.

Confira abaixo algumas dicas de como isso pode ser feito:

– usar textos disparadores – aqueles que iniciam a conversa sobre determinado tema ou conteúdo – de diferentes formatos, mídias, veículos noticiosos, instituições científicas ou culturais, redes sociais e outras fontes;
– propor aos alunos um olhar reflexivo sobre esses textos, com perguntas que ajudam a entender o que estão lendo: qual é a fonte, quem publicou, com qual intenção, qual é o contexto, quais técnicas e linguagens foram utilizadas;
– ir além do jornalismo e buscar mensagens diversas em artigos de opinião, memes, vídeos, quadrinhos, camisetas com mensagens, embalagens e outros;
– envolver os estudantes na avaliação da adequação, confiabilidade e origem dos textos.

Foto: Pexels/August de Richelieu

Entender o contexto do aluno ajuda a aproximar família da escola


Além dos estudantes, professores, coordenadores, diretores e demais funcionários da escola, as famílias também compõem a comunidade escolar e desempenham um papel importante na trajetória educacional de crianças e jovens. Entretanto, é consenso entre estudiosos e especialistas da área que a relação entre essas duas grandes instâncias – famílias e escolas – não é fácil. Pelo contrário.

Segundo Diana Mandelert, professora-adjunta de sociologia da educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), existem textos datados de 1930 que já relatavam as dificuldades desse diálogo. Para ela, apesar de muitas pessoas traçarem uma linha entre os papéis de cada ator nesse processo, as atribuições sobre o que é dever da escola e o que é dever da família são pouco claras.

Mudanças nas famílias
Diana defende que houve uma mudança no lugar que as crianças ocupam na sociedade, uma vez que passaram a ter mais autonomia e vontades externalizadas, o que acarreta alterações em inúmeros ambientes. Para a especialista, o contexto atual da pandemia traz dificuldades no que diz respeito à criação dos filhos. Famílias têm dificuldades em definir horários de dormir, controlar o tempo que passam nos videogames e diversos outros pontos, além da existência de um compromisso com a felicidade das crianças, o que acarreta um movimento de ‘não frustrá-las’ ao dizer não, por exemplo. E assim, essa responsabilidade é delegada à escola.

“Em muitos casos a família não consegue se impor ao filho e quer que a escola ocupe esse lugar de autoridade”, explica Diana. Esse cenário conversa diretamente com o fato de que inúmeros profissionais da educação afirmam que pais, mães e responsáveis delegam cada vez mais a educação de seus filhos à escola.

Entretanto, Diana reforça que também é preciso observar o outro lado e, para ela, as instituições de ensino não se dão conta de que também demandam iniciativa por parte das famílias. “A escola espera que a família produza um aluno informado, atencioso e obediente, o que não é fácil nos tempos atuais tendo em vista o lugar que essas crianças ocupam. Quando o aluno começa a não aprender, a primeira coisa que a escola faz é chamar a família. Mas ela é a profissional de ensino, e não as famílias. É uma relação ambivalente.”

Existe distanciamento?
Ao mesmo tempo em que muitos estudiosos falam em um distanciamento da famílias com relação à escola, com participações cada vez menores e pontuais na vida escolar de seus filhos, Diana vai por outro caminho ao levar em consideração as mudanças no funcionamento social das famílias. Se antigamente as mulheres de classe média não trabalhavam fora de casa e eram responsabilizadas pelo cuidado e acompanhamento da vida escolar dos filhos, o cenário começou a mudar ao passo que cada vez mais mães ingressam no mercado de trabalho.

A especialista também reforça que há um movimento de mudança na forma com que as famílias participam da vida escolar de seus filhos. Os grupos no WhatsApp constituem um caminho encontrado pelas famílias atarefadas no dia a dia de acompanhar tarefas e compromissos na escola, sendo também um espaço para dividir informações com responsáveis por outras crianças.

“A virada da mulher trabalhadora prejudicou a formação de um grupo de mães, realidade que também mudou com a chegada dos grupos de WhatsApp. Elas passaram a ter um grupo de encontro, uma ágora. Se um responsável coloca uma reclamação sobre um professor, o outro pode falar que seu filho não reclamou, e então a pessoa entende se é um problema individual ou coletivo. Mas, em geral, as escolas temem esses grupos. É uma questão muito mais complexa do que parece”, explica Diana.

O meio termo
De tão utilizado quando o tema é criação e educação, o conhecido provérbio africano “É preciso de uma vila inteira para criar uma criança” (em tradução livre do inglês It Takes a Village to Raise a Child) é adequado para esse contexto. Muito mais do que permanecer em uma queda de braço e discussões sem vencedores ou perdedores, o caminho ideal é dosar expectativas dos dois lados e sempre ter em mente que a parceria escola e família é fundamental para uma educação de qualidade para crianças e jovens.

No entanto, a especialista afirma que é preciso considerar as inúmeras diferentes realidades das famílias. “É importante notar que a escola é a profissional, e não as famílias. Logo, essa parceria tem que partir da escola, juntamente com um movimento de modular expectativas.”

Como a quarentena alterou a percepção sobre a educação
A mudança das aulas presenciais e introdução da sala de aula em casa com a quarentena foi um processo que alterou funcionamentos e percepções acerca da educação.

Se antes o que “acontecia na sala de aula ficava na sala de aula”, agora os professores passaram a ter suas práticas mais expostas, considerando que inúmeros responsáveis estão em trabalhando remotamente em casa.

Além disso, crianças e jovens também passaram por um período de adaptação às aulas online, o que demandou apoio especial por parte das famílias. “Com o fechamento das escolas, muitos pais passaram a dar um valor enorme para a escola porque estão percebendo que ser professor não é fácil. Outros julgam que as escolas fizeram um mau trabalho nessa transposição do presencial para o online. É uma ciência que está sendo feita de forma muito próxima. É necessário mais distanciamento para analisarmos o que, de fato, acontece.”

Foto: Pexels/Pixabay

‘Eu e a Vivescer nos desenvolvemos juntas’

Rosiane Ribeiro Justino, professora da rede municipal de Joinville (SC), é uma das docentes que praticamente ajudou a criar a Vivescer. Seu contato com a plataforma teve início quando foi convidada a participar de uma roda de conversa, em São Paulo (SP), com professores de todas as partes do Brasil, que foram questionados sobre seus anseios, demandas e necessidades.

“Depois de um três ou quatro meses deste evento, fui informada que estava sendo planejada uma plataforma. Recebi o convite para avaliar o protótipo da Vivescer, e dei sugestões do que poderia melhorar, quais campos poderiam entrar ou sair. Participei tanto do primeiro lançamento, como do segundo, depois de o site ter passado por uma revisão. Para mim é um orgulho falar da Vivescer pois fomos nos constituindo junto”, explica Rosiane.

Segundo a professora, um dos temas discutidos durante a roda de conversa com outros docentes foi a solidão, que acomete os profissionais por mais que estejam sempre juntos e rodeados de colegas e alunos. “No meio dessa conversa, já começamos a perceber que o professor tem essa necessidade de compartilhar suas angústias e conquistas. E por mais que a gente esteja sempre junto, falta interação.”

Vida pessoal e profissional: o papel das jornadas 

Acompanhar o desenvolvimento da plataforma desde sua concepção tem suas vantagens: Rosiane já teve a oportunidade de passar por todas as jornadas e percursos formativos propostos pela Vivescer. Apesar de gostar de todas, as que tratam emoções e propósito são as mais queridas. “Eu não sou a pessoa mais jovem, mas até então nunca tinha parado para enxergar meus sentimentos e emoções e o quanto isso influencia e está presente no meu trabalho e na minha vida. Foi por intermédio da Vivescer que comecei a prestar atenção nisso, como se fosse um despertar.”

Para a educadora, uma das frases mais usadas para descrever a plataforma e que faz sentido frente à sua proposta é “cuidar de você para cuidar do outro”. Na sua experiência com a jornada propósito, por exemplo, foi possível compreender melhor, esclarecer e direcionar alguns de seus objetivos de vida. “Eu vejo que a plataforma realmente tem essa intenção de nos conhecer. Depois que interagimos nesse espaço e com as jornadas, você não é mais o mesmo ser humano, pois há algo de novo”, afirma.

Além de percorrer as jornadas e interagir na plataforma, Rosiane também usa os conteúdos da Vivescer como inspiração para discussões em grupos de estudos com colegas de profissão, por exemplo.

Desenvolvimento do olhar integral

A experiência na Vivescer alterou algumas práticas com as quais Rosiane já estava acostumada. Uma delas é a realização de assembleias com os alunos. Se antes ela puxava para si a tarefa de tomar decisões, agora são os estudantes que discutem desafios do ambiente escolar e buscam soluções em conjunto.

Além disso, o check-in, ou seja, verificar como os educandos estão se sentindo seja no começo das aulas ou em avaliações, foi uma prática estendida ao corpo docente. “Eu adotei esse olhar de querer saber como a outra pessoa está. Na semana passada, uma colega me perguntou algo no WhatsApp e, antes de responder, falei ‘bom dia, como você está?’, ao que ela respondeu ‘Desculpa, chegou te pedindo coisas e nem falo bom dia!’. Esse movimento de olhar o outro de forma diferente, de sentir e tentar pensar o que há por trás do sentimento é algo que emergiu a partir dos conhecimentos adquiridos na plataforma. Eu me tornei um pouco mais humana.”

Atualmente trabalhando como integradora de tecnologia no espaço maker da escola, Rosiane afirma que consegue incentivar mudanças de mentalidade entre o corpo docente, sobretudo na hora do planejamento, reforçando a importância de colocar os alunos como protagonistas de sua própria aprendizagem.

Evolução

A suspensão das aulas presenciais em razão da pandemia de Covid-19 ocasionou um aumento expressivo no número de cadastros na Vivescer, explica a professora, por esse ser um espaço que verdadeiramente acolhe os docentes.

“Ser um professor formado, com suas próprias metodologias e dentro de sua área específica de conhecimento é muito bom. Mas se esse docente tem o lado humano bem desenvolvido, acredito que ele será excepcional e imbatível. Nós percebemos o quanto isso faz diferença para o profissional. Eu já fui muito conteudista, tive fases da vida em que queria cumprir currículo. Hoje a minha preocupação é garantir que o ser humano seja feliz, que se entenda, compreenda o outro e alcance seus objetivos e metas, por mais simples que sejam.”

Rosiane Ribeiro Justino é formada em pedagogia. Foi vencedora do prêmio Educador Nota 10 e autora de um dos casos publicado no livro Desafios Reais do Cotidiano Escolar Brasileiro. Atualmente atua como professora integradora de tecnologia na rede pública municipal de Joinville, Santa Catarina.

Momento de incerteza exige exercício da autoescuta

Mulher alonga o corpo enquanto olha para o horizonte

Os tempos são desafiadores. A pandemia adicionou ingredientes extras em rotinas que, antes da chegada do novo coronavírus, já eram muito atribuladas: aos cuidados com a casa, atenção aos filhos, demandas no trabalho, equilibrar as contas, manter-se saudável e dedicar-se aos relacionamentos, somou-se medo, insegurança, incerteza, ansiedade, insônia e preocupações extras, que podem custar a saúde mental de inúmeras pessoas.

Entretanto, existem algumas estratégias que podem ajudar a aliviar o peso de viver uma crise global sem proporções. Assistir a um filme, ouvir uma música favorita, assar um bolo e até mesmo arrastar o sofá da sala para praticar exercícios físicos são opções muito válidas. E quando olhamos para dentro? Uma das possibilidades é a autoescuta.

O exercício pode ser praticado em todos os momentos do dia a dia e contribui para que as todos consigam compreender melhor seus comportamentos e sentimentos diante de determinadas situações. Para entender como esse processo pode ajudar também os professores, a reportagem conversou com Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer. Confira a seguir.

Vivescer: Diante de um contexto de desafios que se manifestam em diferentes instâncias de nossas vidas – profissional, pessoal, familiar –, existem ferramentas ou métodos a serem utilizados que ajudem a lidar com a complexidade do momento?
Ana Flávia: Todos os dias, o professor enfrenta muitos desafios. Dar aula é uma tarefa complexa que envolve várias tomadas de decisão e a observação de diversas questões: como os alunos estão, como interagem, qual é a possibilidade de compreenderem uma consigna. Então o professor está, o tempo todo, muito atento ao que está acontecendo na aula, seja a aula feita presencialmente, seja uma aula nesses modelos de educação remota. Estamos vivendo tempos altamente complexos e difíceis, seja na vida pessoal e profissional, que causam insegurança, medo, tristeza e incerteza. Um dos melhores caminhos a seguir para que possamos fazer frente a essa complexidade, tendo clareza das decisões que precisamos tomar, é o da autoescuta.

Vivescer: Muitos especialistas comentam que elaboramos melhor nossas ideias quando pronunciamos em voz alta. Isso é autoescuta?
Ana Flávia: Acho que, em um primeiro nível, autoescuta é se escutar mesmo. Em qualquer linha de terapia na qual nós falamos bastante, é possível que a gente saia com o problema mais claro depois de tudo o que falamos. Nós, professores, temos isso muito claro: quando ministramos uma aula, passamos a saber mais sobre o assunto do que sabíamos antes. Então quanto mais explicamos um tema para os alunos, maior a nossa clareza. Às vezes, retomar na parte da tarde uma aula que demos de manhã possibilita um aprofundamento muito maior, porque já paramos para refletir sobre aquilo. Isso é autoescuta. Quando escutamos o nosso próprio pensamento articulado, conseguimos saber mais sobre aquele tema.

Vivescer: Como a autoescuta melhora nossa relação com nossos próprios sentimentos?
Ana Flávia: A autoescuta não é apenas uma ferramenta de metacognição. Ela possibilita integrarmos as diferentes esferas da nossa experiência como seres humanos, porque além dos nossos pensamentos diante de uma situação que estamos vivendo e que sabemos que é muito complexa, alguns sentimentos e emoções despertam. Então ter um tempo para observar que sentimentos e emoções se articulam em certas situações que eu vivo, sejam profissionais ou pessoais, é uma pista para pensar o que me incomoda, como estou reagindo diante daquilo e quais seriam outros caminhos. A autoescuta também é a escuta do corpo. Então, se enfrentar um certo tipo de situação está me dando dor de cabeça ou dor de estômago, se fico tensa e com um desconforto postural nos ombros, isso tudo está dizendo a maneira com a qual estou me relacionando com os problemas.

Vivescer: É possível realizar um trabalho que alie escuta e empatia para a diminuição da ansiedade neste momento desafiador em que vivemos?
Ana Flávia: Algumas perguntas que podemos fazer: por que estou tão tenso? O que me irrita e incomoda? O que dessa situação me afeta? Por que esses sentimentos? Por que estou tão triste depois de um dia em que fiz tantas coisas? Por que o meu coração disparou quando estava tendo essa conversa sobre como encaminhar a vida nesses tempos? E, a partir dessas reflexões, começar a se preparar para viver essa situação. Com esse olhar de carinho e acolhida para consigo mesmo, podemos começar a perceber e mapear o que mais nos afeta mais, entristece e irrita, onde encontro segurança e paz e o que me possibilita descanso. Ter essas coisas muito claras permite que tomemos decisões com mais cuidado, nos preservando mais e pensando em melhores caminhos. Estamos vivendo épocas muito difíceis, e todos nós estamos fazendo o máximo possível.

Vivescer: Todas as pessoas podem fazer uso dessa ferramenta, uma vez que é gratuita?
Ana Flavia: A autoescuta é importante para qualquer pessoa que queira se conhecer, se cuidar, pensar caminhos mais harmônicos com seu propósito de vida, e que respondam aos seus ideais. Mas, no caso atual, ela é uma ferramenta para os professores conseguirem modular emoções e equacionar caminhos, porque estamos vivendo épocas novas, e por isso geram uma pressão muito maior em cada um de nós. Construir essas estratégias de autoescuta é ter um tempo de pausa e de retirada desse turbilhão de atividades diárias e também um tempo de reflexão para pensar como me posiciono e me protejo, e como encaro esse desafio profissional. É uma ferramenta importante, sobretudo nos tempos em que estamos vivendo, e que vai trazer bem a cada um de nós.

Vivescer: Qual o papel da escuta e autoescuta na estruturação de processos de acolhimento aos educadores nesse contexto de pandemia?
Ana Flávia: Como seres de relações que somos, nos interconectamos por nossos afetos, ideias, ações e compromissos em cada grupo do qual fazemos parte. Construímos e colaboramos em redes de apoio. Aprendemos a acolher e, em diferentes situações da nossa vida, precisamos ser acolhidos. Nesse ano que estamos vivendo, acolher e receber acolhida tornam-se dinâmicas cada vez mais presentes e necessárias nas nossas relações. Para acolher e ser acolhido é imprescindível exercitar a escuta sensível do outro e comprometer-se a, juntos, buscar caminhos para desenvolver ideias, sentimentos e necessidades que afloraram neste diálogo. Por isso, a escuta aberta do outro e a autoescuta dos nossos pensamentos, emoções, sensações e sentimentos, são ferramentas vitais para encontrar estes novos caminhos.

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Adaptar processos avaliativos durante aulas remotas ajuda a engajar estudantes

Mão empilha peças de madeira em uma ideia de crescimento

Professores e escolas estão se organizando de milhões de formas diferentes para minimizar os efeitos do distanciamento social: desde aulas remotas das 7h às 13h, até as atividades online, grupos de estudo no WhatsApp e Facebook, apostilas físicas de exercícios e mais um leque de opções. Diante de tantas possibilidades, é possível organizar um processo avaliativo com aulas neste formato? Se sim, como deve ser feito? Em que deve prestar atenção? Como apoiar os alunos e avaliar a aprendizagem mesmo sem a presença física?

Para José Moran, doutor em comunicação, professor de Novas Tecnologias na Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores da Escola do Futuro, usar o bom senso para pensar em um modelo avaliativo que converse com o momento atual é fundamental, não só para avaliar como os estudantes estão recebendo as propostas pedagógicas, mas também se essas são estratégias adequadas atualmente.

Segundo o especialista, uma ferramenta simples é o ato de registrar, que pode apoiar a construção de um portfólio, linha do tempo ou histórico de como as propostas pedagógicas foram desenvolvidas desde março, com a suspensão das aulas presenciais. “Precisamos ter flexibilidade, bom senso e humanidade no sentido de olhar afetivamente para todo esse processo e, ao mesmo tempo, encontrar alternativas de registro sobre o que está acontecendo.”

A percepção de escolas e professores sobre a mudança das circunstâncias é fundamental para que novas metodologias, seja de ensino ou avaliação, sejam elaboradas. Isso porque, segundo Moran, a tentativa de reprodução de modelos muito planejados e previsíveis, sobretudo para o modelo presencial de ensino, são como “caminhos para o desastre”, com grandes chances de desmotivar os estudantes que, por exemplo, não conseguirem acompanhar as aulas.

“Precisamos entender que não é como se o professor dissesse ‘ministrei tais aulas, vou cobrar isso na avaliação’ e pronto e acabou. Isso já é um contrassenso pedagógico no presencial, imagina agora. Estamos vivendo um período muito estranho e o professor precisa ter uma sensibilidade enorme para manter o aluno no grupo, para que ele se sinta confortável e acolhido”, explica.

Como adaptar a avaliação?
Segundo José Moran, as três formas clássicas de avaliar podem ser adaptadas para o momento. Na avaliação diagnóstica, por exemplo, é possível que, antes de começar as aulas, os docentes separem alguns minutos para conversar e perguntas como os alunos estão se sentindo ou se estão enfrentando algum tipo de dificuldades. Outra ideia é criar formulários com perguntas simples, com o objetivo de entender se a turma está entendendo as aulas, acompanhando, se o modelo faz sentido para todos. “Essa primeira dimensão é muito importante para que passemos um tempo calibrando as atividades, buscando entender os alunos e se nossas propostas fazem sentido.”

A avaliação formativa, por sua vez, “vai se formando aos poucos com o desenvolvimento das aulas e das atividades reflexivas”, explica o professor. É nessa etapa que devem ser introduzidos quizzes (questionários interativos), desafios e atividades para verificar se os alunos estão acessando os materiais disponibilizados e se estão se engajando. “O portfólio é uma ferramenta chave nesse processo de enxergar a linha do tempo e como os estudantes se expressam, além de questioná-los se entenderam o conteúdo e se mudariam alguma coisa.”

Por fim, a avaliação para aprendizagem existe para apoiar o professor a visualizar se as estratégias adotadas estão funcionando para levar os alunos ao ponto desejado. “Existem ferramentas específicas para criação de rubricas de avaliação ou, se aquele professor propôs um trabalho em grupo, pode sugerir que os estudantes avaliem uns aos outros”, exemplifica Moran.

O desafio do acesso na educação para todos
Segundo o especialista, um dos principais pontos de atenção é a questão do acesso à internet, um desafio principalmente em escolas públicas do Brasil. Para aqueles que precisam dividir o aparelho com irmãos ou com os pais, por exemplo, ou famílias que têm baixo acesso à web, Moran reforça a necessidade de as escolas, juntamente com seus times pedagógicos, pensarem em alternativas de distribuição e devolutiva de atividades.

Charge avaliação“Temos que ter muito cuidado ao fazer uma avaliação igual para todos. Isso não faz sentido”, afirma Moran. Para explicar seu pensamento, cita uma ilustração onde um professor, na frente de um pássaro, um macaco, um pinguim, um elefante, um peixe, uma foca e um cachorro, afirma: “Para uma seleção justa, todos farão o mesmo exame: escalar aquela árvore.”

A charge ilustra algo que ainda não é amplamente percebido e colocado em prática na educação: o fato de que o desempenho de estudantes não pode ser avaliado da mesma forma considerando que cada um dispõe de diferentes ferramentas para se desenvolver, além de serem pessoas únicas com características particulares.

Flexibilizar é a palavra
As mudança necessárias nas avaliações durante esse momento de aulas à distância podem ser resumidas na palavra flexibilização. Sugerir atividades mais práticas, propor conteúdos mais leves e desafios com períodos mais flexíveis pode ser uma oportunidade para avaliar outros quesitos, como colaboração, resiliência e gestão de tempo do estudante, exemplifica o especialista.

Para crianças mais novas, por exemplo, são aconselhadas atividades com o que Moran chama de entregas menores, ou seja, pequenos projetos como pesquisas breves ou fotografar objetos dentro de casa que podem ser desenvolvidos durante uma manhã. “São exercícios que fazem mais sentido do que projetos que exigem muito tempo, pois esses pressupõe maturidade e autonomia que muitos ainda não têm.”

O desenvolvimento de uma avaliação afetiva, onde alunos possam realmente relatar e construir histórias também constitui uma possibilidade. Nesse sentido, Moran destaca que uma ideia é que professores questionem os gostos e preferências dos estudantes. É possível, por exemplo, propor a produção de vídeos usando aplicativos semelhantes ao TikTok. “Os alunos sentirem que estão coproduzindo algo com a linguagem que eles usam é importante. Ou seja, trabalhar com a ideia dos estudantes usando as mídias do seu próprio cotidiano é algo que dá vida e engajamento às propostas. Ao invés de pedir algo mais tradicional, o professor pode pensar em usar estratégias de comunicação que os estudantes já dominam. Mas, para isso, é necessário falar e perguntar a eles.”

Para o professor, se antes da pandemia já se discutia a ideia de personalizar ensino e processos avaliativos, o processo torna-se muito mais necessário no contexto atual. “Talvez a principal mensagem seja não fazer algo rígido, único e fechado. O professor rígido está na contramão de um momento que precisa de muita compreensão, afeto, acolhimento e um repertório diversificado.”

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‘Naquele momento, era como se a Vivescer fosse a minha família’

Professsora Maria Cristina Fachin, embaixadora Vivescer

Para Maria Cristina Fachin, educadora da rede municipal de Pinhal Grande (RS), conhecer a Vivescer foi descobrir uma plataforma pensada especial e exclusivamente para professores. Quem a apresentou a ferramenta a ela foi José Souza dos Santos, professor da rede municipal de Paripiranga (BA), figurinha carimbada quando o assunto é trazer novos integrantes à plataforma.

Ao conhecer o portal e sua proposta de desenvolvimento integral de professores em quatro eixos, Maria Cristina conta que ficou impressionada. “Quando o José, que já era meu amigo de outros projetos, me falou da Vivescer, logo pensei ‘que criatividade e inovação’, porque nunca tinha visto nada do tipo. Nós, enquanto professores, sentimos muita falta desse tipo de apoio, porque a vida docente é bastante difícil, são muitas situações complicadas e desafios que acabam interferindo não só no trabalho, mas na vida pessoal”, explica.

Depois de ter percorrido as jornadas Emoções e Mente, Maria Cristina define a Vivescer como um espaço próprio onde professores podem buscar o apoio do qual precisam e se encontrar enquanto pessoa. “É uma plataforma que vê o professor como pessoa, e não simplesmente como mais um profissional. Eu achei isso o máximo.”

A educadora fala por experiência própria: em 2019, esteve à frente de uma sala de aula de educação infantil, entretanto, não conseguiu se adaptar à vivência e ao trabalho com uma turma de crianças, o que acarretou depressão e síndrome do pânico, comumente associados ao termo inglês “burnout”, usado para classificar o esgotamento profissional.

“Fiz uma publicação dentro da plataforma e diversos colegas comentaram que eu deveria rever alguns pontos da jornada Emoções, que poderiam me ajudar. Nesse momento, essa rede de apoio me ajudou bastante. Eu tinha a impressão, e era verdade, que naquela hora a Vivescer era a minha família. Eu conversava bastante sobre isso com o professor José. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, foi bom sentir a segurança de que há alguém que nos entende, sabe pelo o que estamos passando, o que estamos sentindo e pode nos dar dicas e sugestões, como um apoio mesmo.”

Desenvolvimento pessoal e profissional 

Depois de seu lançamento, a Vivescer contou com uma atualização, que fez com que os professores precisassem passar novamente por jornadas vistas anteriormente. Engana-se quem pensa que isso foi um problema. Para Maria Cristina, foi uma oportunidade de reter informações que passaram despercebidas durante a primeira vez que fez a jornada. “É como se o percurso das emoções falasse ‘vamos arrumar primeiro a pessoa’. A jornada é uma ferramenta que ajuda a dar essa atenção ao professor enquanto ser emocional. Acho que se fizesse pela terceira e quarta vez, acabaria descobrindo ainda mais coisas novas”, afirma.

Para a professora, os percursos e jornadas proporcionam situações que incentivam os educadores a fazer uma autoanálise de suas práticas pedagógicas e também de seus comportamentos tanto como profissional, como ser humano. Além disso, o fato de o portal oferecer a possibilidade de troca de experiências com professores de todo o Brasil – como é o caso de José e Maria Cristina, ele da Bahia e ela do Rio Grande do Sul –, é um diferencial.

“Fazendo os percursos, encontramos um amparo nas dificuldades e nos desafios que enfrentamos. Esse convívio melhora nossa autoestima e nos motiva a mudar. Nós trocamos ideias e acabamos trazendo os ensinamentos para nossa realidade.”

Maria Cristina Fachin é pedagoga dos anos iniciais com especialização em gestão escolar, psicopedagogia clínica e institucional. É professora da rede pública de Pinhal Grande, no Rio Grande do Sul, desde 1997. Atualmente trabalha no Departamento de Cultura do município. 

Exercícios físicos simples ajudam professores a cuidar do corpo durante as aulas remotas

A simples combinação das palavras “exercícios” e “quarentena” no buscador da internet mostra resultados de aplicativos, técnicas, vídeos e reportagens sobre a importância de, mesmo durante o distanciamento social, as pessoas se manterem fisicamente ativas de alguma forma, seja arrastando sofás na sala e criando um pequeno espaço ou até mesmo a prática de alongamentos na própria mesa de trabalho.

Muitos especialistas já fizeram alerta sobre o risco que o período em casa apresenta para a saúde. No caso específico dos professores, a lógica de trabalho mudou completamente: se antes ficavam em pé praticamente durante o dia todo, agora precisam encarar longas jornadas diárias sentados à frente de um computador para preparar e ministrar aulas remotas. O impacto é sentido no aspecto emocional – já que os docentes precisam se adaptar a uma nova metodologia com a qual a maioria não tinha familiaridade –, e também no físico.

Verônica Fonseca, coordenadora do Impulsiona, programa do Instituto Península que utiliza o esporte como ferramenta no desenvolvimento integral, reforça que a prática de exercícios físicos, que ajuda os professores a lidar com a rotina desafiadora e sobrecarga de trabalho, é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

“A OMS, que lançou um guia sobre como se manter ativo durante a quarentena, recomenda, pelo menos, uma média de 20 minutos de atividade física de intensidade moderada por dia, que pode ajudar a reduzir a ansiedade e o estresse, além de melhorar a disposição física”, explica.

O grande volume de trabalho, somado a estresse, insegurança, pressão sobre os professores e somado às longas jornadas acabam por causar dores de cabeça, musculares e um esgotamento físico que noites de sono não são capazes de resolver completamente. Para Verônica, exercícios físicos simples como alongamentos e caminhadas leves já atuam na diminuição dessas dores, além do fato de que o relaxamento produzido pela prática de exercícios contribui para a qualidade do sono, muitas vezes prejudicada por sintomas como ansiedade e agitação.

Os benefícios, entretanto, vão além do fortalecimento dos músculos, melhora do condicionamento físico e aumento da capacidade cardiovascular e pulmonar, e contribuem também para o bem-estar psicológico e mental dos praticantes. “A atividade física regular ajuda o cérebro a manter suas principais habilidades mentais afiadas e reguladas. Desta forma,, percebe-se também uma maior regulação das emoções. Isso tudo ajuda a equilibrar o estresse e impede que sintomas físicos sejam experimentados”, reforça Verônica.

Mas como encaixar os exercícios em meio a rotinas cada vez mais sobrecarregadas e jornadas que parecem não chegar ao fim? Segundo a especialista, pausas ativas – intervalos periódicos ao longo do dia a fim de alongar e movimentar um pouco o corpo– têm se mostrado efetivas durante a quarentena.

Em um movimento de reunir propostas simples e, ao mesmo tempo, criativas de exercícios que podem ser feitos em casa, o Impulsiona incentivou que os professores do programa enviassem sugestões de atividades para que alunos, famílias e, claro, outros professores, pudessem fazer em casa. Diego Felipe Raymundo, professor de educação física de escolas das redes pública e particular de ensino de Guarulhos, em São Paulo, contribuiu com algumas ideias. Confira a seguir.

Exercícios sem sair da mesa de trabalho? 

É possível! Diego indica uma série de alongamentos que podem ser feitos sem levantar da cadeira. Dois minutos entre uma tarefa e outra, por exemplo, podem se transformar em uma sessão super rápida de alongamentos que, inclusive, podem prevenir a chamada LER, lesão de esforço repetitivo.

“Além de um gasto calórico, mesmo que pequeno, os alongamentos são muito importantes sobretudo para quem passa o dia inteiro digitando, por exemplo.

  • Para alongar coluna, basta entrelaçar os dedos e levar as suas duas mãos como se estivesse empurrando o teto, sem tirar o glúteo da cadeira, e também, ainda com os dedos entrelaçados, colocar as mãos atrás da cabeça e puxá-la um pouco para baixo;
  • Colocar uma das mãos na orelha, e empurrar a cabeça para a outra orelha ir em direção ao ombro, alternando os lados;
  • Estender o braço e fazer a flexão e extensão do punho;
  • Levantar o braço até o cotovelo ficar ao lado do rosto e, com a outra mão, empurrar o cotovelo para trás para alongar o tríceps.

Tenho mais tempo para me exercitar. O que fazer? 

Segundo Diego, um assunto sobre o qual tem comentado bastante com seus alunos e colegas é como fazer ginástica dentro de casa mesmo sem qualquer material. Para quem tem mais tempo e quer investir em uma rotina de exercícios, existem sequências que podem ser feitas em qualquer janela de dez minutos ou mais, a depender da disposição de cada um.

“É possível fazer 45 segundos de polichinelo, depois descansar 15. Em seguida, repete os tempos mas fazendo polisapato, um movimento parecido, em que a pessoa leva a perna e o braço contrário à frente e vai alternando. Depois, uma série de agachamentos, tomando cuidado com os joelhos; o exercício do afundo, onde uma perna vai à frente e agacha, para trabalhar quadríceps e glúteo; subir e descer na ponta do pé para exercitar a panturrilha; uma corrida no lugar; abdominais e ‘walking burpee’, onde a pessoa apoia os braços no chão, coloca os dois pés para trás e depois para frente. Com esses exercícios, trabalhamos praticamente o corpo todo.”

E se eu nunca tiver praticado exercícios?

Para aqueles que nunca praticaram um exercício, mas já perceberam que as longas jornadas diante do computador estão produzindo efeitos indesejados no corpo, como dores e tensões musculares, vale prestar atenção no próprio ritmo. Segundo Diego, ao praticar um exercício, é importante observar a frequência cardíaca e seu nível de esforço e cansaço.

“Se sua frequência cardíaca está muito alta, isso significa que determinada atividade está um pouco demais para seu corpo. Já a escala de esforço determina o quanto estou cansado. É possível diminuir o tempo da atividade ou trocar o exercício. Por exemplo: se nunca me exercitei, estou fazendo um polichinelo e vi que minha frequência cardíaca foi lá em cima, pare um pouquinho, diminua o ritmo ou troque o exercício por algo menos intenso.”

Como inovar nos exercícios dentro de casa? 

Para o professor, a dica para se incentivar a praticar algum exercício é entender que essa é a realidade possível atualmente, porque mesmo com academias sendo reabertas ainda pode existir receio por parte dos frequentadores. Em casa, uma combinação de atitude e criatividade também é bem-vinda.

“O sofá acaba nos chamando, então algo que tem me ajudado muito, particularmente, é a música. Uma dica é a pessoa desligar a televisão ou usá-la para fazer atividade física. Como? Coloque vídeos da internet de exercícios ou uma música. Se gosta de fazer exercícios ao ar livre, coloque uma paisagem ou um vídeo que dê essa sensação.”

É possível vencer a preguiça?

Um dos segredos para vencer a preguiça de se movimentar é incluir os exercícios na rotina. “Essa história de ‘ah, quando der eu faço’, nós acabamos não fazendo nada. Por isso eu sempre falo: exercício é rotina”, explica Diego. Para o profissional, a vida, sobretudo o momento atual, onde o gasto calórico das pessoas é menor e o consumo de alimentos é, geralmente, maior, demanda exercícios por uma questão de saúde, muito além da estética.

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