A importância dos materiais não estruturados nas brincadeiras das crianças

materiais não estruturados

Quando todos os brinquedos da casa parecem incapazes de atrair a atenção das crianças, ou quando o dinheiro está apertado para comprar alguma novidade, sempre surge a salvação: o material não estruturado.

Nunca ouviu falar disso? Pois com certeza você conhece muitos! São os gravetos, folhas, panos, cordas, caixas, tampinhas e uma infinidade de sucatas capazes de despertar a imaginação e o brilho nos olhos dos pequenos.

Vamos entender melhor esse conceito e a sua importância no desenvolvimento das crianças.

Por que esses materiais se chamam não estruturados?

Essa nomenclatura é utilizada pois sua forma não determina o brincar das crianças. Ou seja: é a capacidade de imaginação delas mesmas que atribui o sentido a um determinado objeto.

Por exemplo: uma caixa de papelão pode virar cabana, carro, armadura, castelo…. e na mesma brincadeira mudar inúmeras vezes de função. Essa flexibilidade é a grande qualidade destes materiais, pois deixam espaço para que a criatividade das crianças aflore.

Podemos dizer que a motivação do brincar vem de dentro para fora: o desejo da criança transforma/determina o significado do objeto.

Já os brinquedos estruturados tendem a dirigir o brincar das crianças. Por exemplo: com uma boneca em mãos, as ações das crianças como ninar, alimentar e vestir são determinadas pelo objeto, ou seja, a motivação do brincar vem de fora para dentro. Não quer dizer que essa atividade não tenha seu valor, mas sua contribuição para o aprendizado das crianças é diferente dos elementos não estruturados.

Qual a importância dos materiais não estruturados?

Com o avanço da tecnologia, nos acostumamos a oferecer às crianças e jovens materiais estruturados (carrinhos, bolas, etc), que muitas vezes são mais caros do que gostaríamos. Mas a verdade é que os materiais mais simples são insubstituíveis.

Além de serem muito mais acessíveis em termos financeiros, a qualidade do brincar desses objetos faz deles uma escolha pedagógica.

Mas por que estes objetos potencializam o brincar? Pelo convite aberto que eles fazem à brincadeira. Se entendemos o brincar como linguagem – forma como a criança se expressa e compreende o mundo à sua volta – quanto menos dirigida for sua expressão, e quanto mais forma ela puder dar as suas vontades, melhor. A possibilidade de exercitar a criatividade dá à criança autoria e protagonismo, o que é essencial na construção da identidade e no reconhecimento de si.

Os materiais não estruturados de geração em geração

Na escola, é frequente pesquisarmos com os alunos como era a vida no passado. E ao entrevistar avôs, avós, principalmente os parentes mais vinculados ao ambiente rural, descobrimos que eles brincavam com bonecas feitas de espigas de milhos, que batatas e pauzinhos viravam boizinhos, cavalinhos…

As histórias são ricas e afetivas e os elementos encontrados na natureza ganhavam vida nas mãos das crianças e jovens e se transformavam nos brinquedos mais adorados. A possibilidade de conectar os materiais não estruturados entre diferentes gerações é riquíssima.

É preciso tempo para explorar e descobrir

Pode ser que o interesse das crianças não surja imediatamente. Para que as crianças possam interagir com os materiais não estruturados, é preciso dar tempo e frequência.

Tempo para experimentar suas possibilidades, que por vezes surge de observar como outras crianças interagem com eles, e para criar familiaridade com os objetos. Quanto mais os conhecemos, mais conseguimos ampliar o nosso repertório de ações sobre eles.

E essa familiaridade não acontece no primeiro contato, mas na frequência com que nos relacionamos ou interagimos com algo.

Materiais não estruturados são adequados para uma faixa etária específica?

Muitas vezes associamos os materiais não estruturados às crianças menores, mas os maiores também têm muito a se beneficiar na interação com estes objetos.

Eles são capazes de construir estruturas mais complexas. O brincar das crianças se transforma à medida que crescem. E através da observação, podemos identificar quais materiais são motivadores para os alunos.

Garimpar sucatas pode ser uma boa diversão! E, com a ajuda de adultos, transformam o espaço de casa ou da escola em um verdadeiro parque de diversões.

Por isso, é muito importante validar esses objetos com as famílias, indicar seu uso, sugerir possibilidades e romper com a ideia de que os brinquedos comprados “valem mais” que um bom acervo de sucata.

Quer incentivar isso com os seus alunos?

Preparamos uma atividade na Vivescer que fala sobre o brincar livre, sem mediação, em espaços naturais. Ela faz parte de um curso certificado e gratuito de 32h, que aborda o Corpo e a Cultura no ambiente escolar.

Clique AQUI para conhecer esse material!

O desafio da recuperação da aprendizagem na retomada gradual das aulas presenciais

Em entrevista à Vivescer, Cleuza Repulho, consultora educacional e ex-presidente da Undime, discute a importância de refazer planejamentos, realizar atividades diagnósticas e identificar os melhores caminhos para recuperar conteúdos com crianças e jovens

desafio recuperar aprendizagem

Há mais de um ano, professores de todo o Brasil enfrentam os mesmos desafios no ensino remoto. Internet fraca ou inexistente para parte dos alunos, falta de celulares ou computadores, desinteresse e baixo aprendizado. Nesse cenário, impõe-se o desafio de pensar sobre a recuperação do conteúdo para quando as aulas presenciais forem retomadas.

Enquanto especialistas e estudiosos defendem que serão necessários esforços conscientes de diferentes instâncias para endereçar essa questão, professores encontram-se sobrecarregados diante da vasta quantidade de temas e conteúdos a serem revistos quando os alunos voltarem às escolas. Isso porque, considerando as desigualdades sociais que marcam o Brasil, não é possível afirmar que os estudantes aprenderam tudo o que deveriam durante 2020 e 2021, mesmo levando em conta os grandes esforços de professores país afora.

Para entender a importância de realizar planejamentos nesse momento delicado, a Vivescer conversou com Cleuza Repulho, consultora educacional e ex-presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação). Confira a seguir.

Vivescer: Considerando as desigualdades sociais brasileiras que prejudicaram o acesso à educação remota durante a pandemia, a recuperação do conteúdo é tema importante. Como começar esse debate?

Cleuza Repulho: Acredito que as redes devem realizar uma avaliação diagnóstica para saber qual é a situação [de aprendizagem] desses meninos e meninas e, principalmente, o que teremos que nos programar para fazer. As redes, tanto públicas como privadas, terão que se organizar em termos de trabalho e planejamento a partir dos PPPs, que são os Projetos Políticos Pedagógicos das escolas. Então o debate começa por uma avaliação diagnóstica, a certeza de que alguma coisa precisa ser feita e de que o prejuízo não é pequeno.

Vivescer: É razoável afirmar que não será possível promover uma recuperação dos conteúdos em apenas um ano ou em um curto espaço de tempo. O governo de São Paulo, por exemplo, estima que serão necessários de um a onze anos para recuperar o aprendizado em português e matemática na educação básica da rede pública do estado. Essas são áreas a serem priorizadas na recuperação?

Cleuza: A partir da avaliação diagnóstica será possível estabelecer um plano de ação. As crianças e jovens estarão em momentos muito diferentes e isso vai demandar situações e resoluções distintas para esses problemas. O relatório do UNICEF (Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância) aponta que os mais penalizados serão as crianças entre seis e dez anos, pois elas estão em um processo de alfabetização, que é uma etapa essencial para o desenvolvimento de outras questões. O tempo que tudo isso irá levar depende da demanda e, principalmente, de qual é a capacidade que a rede tem de responder, de fazer novos agrupamentos de alunos, com grupos menores e com a ajuda de estagiários. Imagino um trabalho alinhado com os institutos de formação, as universidades públicas e privadas para que tenhamos um verdadeiro exército de profissionais da educação para ajudar esses alunos. Acredito que vai levar um tempo, entre três e cinco anos nesse processo para que possamos nos organizar e as crianças seguirem em frente.

Vivescer: Como medir as expectativas, tanto das famílias quanto dos próprios professores, diante desse cenário?

Cleuza: Em alguns momentos eu sinto apatia por parte das pessoas, pois não sabem muito bem como lidar com isso. O Brasil é o país que está há mais tempo com escolas fechadas. Então nós acabamos nos acostumando com isso, o que é muito perigoso. Precisamos trabalhar com campanhas sistemáticas para valorizar a importância da escola e sua retomada. A prioridade seria, então, a vacinação dos profissionais da educação, um plano de trabalho e os investimentos na área de educação. Tanto as famílias como os estudantes precisam estar muito próximos de todo esse processo para se sentirem responsáveis nessa retomada.

Vivescer: É possível priorizar conteúdos a serem ensinados ou revisados de acordo com ano ou faixa etária? Se sim, como professores e equipes pedagógicas podem entender o que priorizar?

Cleuza: Em primeiro lugar, precisamos colocar toda a nossa capacidade para desenvolver programas e alternativas para resolver essas questões. Nós não podemos trabalhar só português e matemática. Eles são conteúdos essenciais no processo, mas não estão sozinhos nessa construção. Precisamos trabalhar todas as áreas do conhecimento. Por isso, devemos colocar as cabeças para pensar e, principalmente, envolver pessoas que são estudiosas na área para desenvolver ações. Vai ser bem difícil escolher o que é mais ou menos importante nesse momento, mas precisamos focar no que é pré-requisito para outras aprendizagens.

Vivescer: Você avalia que a reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular podem ser ferramentas aliadas nesse processo de priorizar conteúdos?

Cleuza: Temos que continuar lutando para a implementação da Base. Ela foi um marco muito importante na educação no Brasil, e vem de um processo dos parâmetros curriculares e diretrizes nacionais curriculares. Agora estamos no momento de implantação. E a reforma do Ensino Médio com os itinerários formativos, mesmo precisando de ajustes, é um avanço e temos que nos debruçar sobre isso. A partir da vacinação da população, é necessário buscar a normalidade nas escolas, e lutar por uma ampliação do horário em que as crianças estão na escola para a retomada dos processos de aprendizagem e a construção do conhecimento. Vai demandar tempo, investimento e comprometimento, mas é possível. Então, para isso, precisamos de políticas públicas organizadas, de um investimento que dê conta das necessidades e que considere também as novas tecnologias e a questão do acesso. Mais do que nunca, as desigualdades se acentuaram… e, agora, como fazemos para combatê-las e minimizar os seus efeitos diante de todo esse processo? O desafio não será pequeno e vamos viver um ano muito difícil em 2022, com um contexto político muito importante. Precisaremos trabalhar com estados e municípios, além do Governo Federal, para encontrar soluções possíveis nos diferentes cenários que temos no país.

Três museus que oferecem tour virtual para você e seus alunos

 

Muitas vezes, as primeiras visitas a um museu acontecem como passeios da escola, que aproximam as crianças e jovens de diferentes culturas e ampliam sua visão de mundo.

Se, por um lado, a pandemia nos distanciou das atividades presenciais em grupo, por outro, acelerou a oferta de conteúdos no formato digital. Muitos museus conseguiram se adaptar e abrir as portas para um tour virtual. Destacamos três experiências online para você experimentar. Se gostar, compartilhe com os seus alunos!

Pinacoteca (São Paulo, SP)

A Pinacoteca é o museu de artes visuais mais antigo da cidade de São Paulo, fundado em 1905. Têm como ênfase a produção brasileira do século XIX até a contemporaneidade e o diálogo com as culturas do mundo.

O tour virtual 3D da Pina – como carinhosamente é chamada – é de se “tirar o chapéu”! Podemos circular por seus corredores e salas, observar muitas de suas obras e ainda fazer uma visita guiada. Ao explorar o museu pelo computador ou celular, procure pelos ícones laranjas. Neles, há um áudio com diferentes propostas interessantes de interação com as obras.

tour virtual pinacoteca sao paulo

Louvre (Paris, França)

Um voo São Paulo x Paris sai por mais ou menos R$3.500,00. Mas que tal visitar digitalmente e de graça o Louvre, principal museu da França? Sem filas, nem aglomerações, você pode conhecer de pertinho a Monalisa, de Leonardo da Vinci. Muita gente fala que os olhos dela nos seguem, será que no computador também?

O Louvre organizou uma visita virtual em que é possível se aproximar da obra e ver detalhes, afastar-se para ter ideia de seu tamanho original e ainda conhecê-la mais profundamente através de textos breves e claros.

tour virtual louvre monalisa

Museu do Amanhã (Rio de Janeiro, RJ)

Inaugurado em 2015 na zona portuária do Rio de Janeiro, já se tornou um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. A proposta do Museu do Amanhã é abordar ciência, tecnologia e conhecimento de uma forma interativa.

Com uma bela fachada, o espaço com mais 15 mil m² se apresenta como “orientado pelos valores éticos da Sustentabilidade e da Convivência, essenciais para a nossa civilização”, e busca “promover a inovação, divulgar os avanços da ciência e publicar os sinais vitais do planeta.”

Falando em tecnologia e interação, o tour virtual do Museu do Amanhã é super intuitivo e fácil de navegar.

tour virtual museu do amanha

BNCC e museus: tudo a ver!

Você com certeza já ouviu falar muito das 10 competências gerais da Base Nacional Comum Curricular. A terceira fala sobre a importância de se ampliar o repertório cultural dos alunos. Em uma das atividades do curso Mente, da Vivescer, a especialista em educação Anna Penido aborda esse e outros tópicos. Vale a pena assistir (e completar as demais atividades para ganhar o certificado de 32h!). Clique AQUI para acessar.

A voz dos professores: importância e cuidados especiais

Fonoaudióloga explica que, além dos cuidados e exercícios específicos para voz dos professores, hábitos pessoais e até arquitetura da escola podem interferir na saúde das pregas vocais

Um dos principais instrumentos de trabalho do professor é a sua voz. Apesar da grande importância, muitas vezes ela acaba sendo desgastada ao competir com o volume de conversas dos estudantes em uma escola, sejam crianças ou adolescentes.

Para Madel Valle, fonoaudióloga especialista em voz, além de ser uma ferramenta para os educadores, a voz também é a responsável por parte do que os alunos conseguirão captar e compreender, de acordo com a forma com que o docente modula sua voz.

“O professor pode ter um conteúdo maravilhoso e ser especialista no assunto, mas se não tiver uma voz com uma entonação que atinja seus alunos, pode ser que ele não consiga transmitir a mensagem. Um professor com uma voz monótona faz com que a gente perca o foco atencional. A mesma coisa com aqueles que falam muito baixo, ou com a voz rouca”, explica.

Ensino remoto e voz

Mesmo que quase a totalidade dos anos letivos de 2020 e parte de 2021 tenha sido preenchido com aulas remotas ou envio de materiais à casa dos alunos, não é possível afirmar que a voz do professor teve descanso nesse período, mesmo sem as aulas presenciais.

Madel explica que o ensino online também tem uma série de particularidades que podem exigir muito da voz do professor, como a postura com que se senta à frente do computador e o uso de fones de ouvido. “Se a pessoa estiver com a cabeça abaixada, inclinando o pescoço, pode comprimir as pregas vocais. Além disso, o uso dos fones também pode fazer com que falemos cada vez mais alto sem perceber.”

Desafios impostos no presencial

Engana-se quem pensa que o desafio imposto à voz do professor está relacionado apenas ao uso excessivo. Madel enumera diversos outros fatores que também interferem diretamente na saúde do professor. A própria arquitetura das escolas é um deles, pois muitas salas de aula não têm uma acústica boa, o que contribui para abafar o som. Além disso, alguns ambientes são naturalmente ruidosos, o que pode atrapalhar ainda mais a projeção da voz.

O pó do giz utilizado nas lousas e produtos de limpeza muito fortes também são fatores a serem pensados. A pandemia de Covid-19 impõe mais alguns percalços a serem contornados, como o uso de máscaras e equipamentos como escudos faciais, que abafam ainda mais o som e exigem que o professor se esforce mais para falar mais alto e ser ouvido.

Técnicas e práticas

Existem algumas estratégias que ajudam a evitar a sobrecarga da voz. Algumas não estão relacionadas diretamente à forma como o professor fala, como, por exemplo, o local onde ele se posiciona na sala de aula e sua postura. O mais indicado, segundo Madel, é manter uma postura ereta, com o pescoço relaxado para não comprimir as pregas vocais e tensionar a região, além de se manter em uma posição central da sala.

Os hábitos pessoais também têm interferência direta na saúde da voz. Manter-se hidratado com um consumo adequado de água diariamente é fundamental. O ideal é que a água esteja na temperatura ambiente, pois, quando está gelada, ela tem efeito anestésico. Ou seja: temos a falsa impressão de que resolvemos o problema, e acabamos sentindo o dano aumentado depois.

Também é importante evitar fumar e ingerir excessivamente álcool e café. Isso porque, em grandes quantidades, o café pode ser prejudicial a pessoas que usam a voz profissionalmente. Segundo a especialista, o indicado é não ultrapassar duas xícaras pequenas por dia e evitar que a hora do cafezinho seja antes da aula.

Quando o assunto é a forma de falar e usar a voz, Madel enumera alguns pontos a serem observados, como uma boa articulação das palavras e aquecimento vocal, que inclui exercícios de alongamento do pescoço e vocais, como a vibração dos lábios e língua, pronúncia de fonemas e uso de acessórios para potencializar o uso da voz.

Madel reforça, entretanto, que é importante que os exercícios para voz sejam sugeridos por um profissional da fonoaudiologia, para que as práticas sejam pensadas de acordo com a necessidade de cada um. Por isso, a especialista defende que a presença de um profissional da voz deveria ser recorrente em cada escola, a fim de ministrar oficinas com orientações específicas e corretas para os educadores. “É muito importante o professor conhecer a fisiologia da voz, porque é quando conhece que vai conseguir se cuidar melhor.”

O repouso da voz entre aulas também é uma estratégia indicada. Em casos extremos de gripe, resfriado ou quando o professor perde a voz por esforço, o caminho é único: repouso e procurar um especialista, como um otorrinolaringologista, que poderá fornecer acompanhamento médico.

Como evitar gritos e cuidar das cordas vocais

A Vivescer traz mais estratégias para os professores cuidarem da voz em sua jornada certificada Corpo. São atividades com estratégias para evitar ter que gritar na sala de aula, além de um vídeo com mais sugestões práticas de cuidados com as cordas vocais. Clique aqui para acessar, com direito a certificado de 32h.

 

10 lições do filme Professor Polvo para o ambiente escolar

Este fascinante documentário, ganhador do Oscar da categoria de 2021 e disponível na Netflix, conta a história do cinegrafista sul-africano Craig Foster. Em um momento de vulnerabilidade, quando sua profissão deixa de fazer sentido, Craig se lança às águas geladas da costa africana dia após dia com sua câmera em mãos. Nessa jornada, a plenos pulmões, encontra um grande professor – um polvo. Na medida que o tempo passa, uma conexão inesperada se estreita entre os dois e aos poucos se transforma em uma relação afetiva. Mas o filme é muito mais do que o contato do homem com a natureza, e suas lições podem ser aplicadas no ambiente escolar para melhorar as relações que ali se estabelecem. Quer ver? Confira 10 lições do filme Professor Polvo.

1)      Rótulos e Preconceitos

Quando poderíamos supor que um polvo tem algo a nos ensinar? Quando compreendemos que não há rótulos nem preconceitos. Com os alunos não poderia ser diferente. Sempre há o bagunceiro, o descomprometido, o responsável, o engraçado, o sabido e assim por diante. Esses adjetivos podem ser uma carga muito pesada a ser carregada, ainda mais para os alunos, que estão em plena formação. Romper com esses ciclos repetitivos não é nada fácil, mas é fundamental. Os alunos, estão se constituindo como sujeitos individuais e sociais, dar a chance de poder mudar o que não contribui para o desenvolvimento e bem estar de qualquer ser, deve ser prioridade da escola.

2)      Interesse genuíno em conhecer o outro.

Durante seus mergulhos, Craig registra com sua câmera e olhar atento cenas incríveis de sua excêntrica amiga (trata-se de um polvo fêmea) e passa a pesquisar sobre os polvos quando está fora da água. Descobre que muitas das suas percepções e registros são mais amplos e profundos que os artigos científicos que encontra a respeito. E não é assim com o professor? Que observa atentamente cada um de seus alunos e descobre seus interesses, suas potências e necessidades… Muitas vezes superando especialistas em educação que ficam distantes da sala de aula. Esse interesse genuíno e aberto, pode ser a chave para romper com os rótulos e preconceitos.

3)      Somos parte da Natureza

Onde há vida, há conexão. A Natureza não está a nosso serviço, somos parte dela. E entender-se dessa forma não é algo que se dê naturalmente, é na relação com o entorno e com pessoas que compartilham dessa visão de mundo que podemos nos ver assim. A sustentabilidade da vida no planeta está atrelada a essa visão. Quando trazemos projetos interessantes sobre o meio ambiente e ele é pauta sistemática do trabalho realizado, investimos nessa conexão.

4)      Vulnerabilidade

Se tem algo presente no filme Professor Polvo é a vulnerabilidade. Está em Craig Foster, que perdeu o sentido naquilo que faz, está no polvo, que chega a perder um tentáculo em uma luta pela própria vida. Lidar com a própria vulnerabilidade e com a dos outros é um movimento importante para que, em um processo cuidadoso, ela possa ser acolhida.

5)      Relação com a família

A relação com a família coroa o fim desta bela história. A incrível experiência do pai, Craig Foster, acaba por envolver seu filho, que passa a acompanhá-lo nos mergulhos gelados pelo recife. Na escola também é assim, o apoio familiar faz toda a diferença na educação dos alunos. Por vezes essa relação família-escola traz tensões, não é de hoje. Podemos dizer inclusive que é histórica. Mas quando acontece de forma a somar forças, é uma aliança insuperável.

6)      Relações equitativas

Para estabelecer uma relação verdadeira, é preciso abertura. Craig não usa tanque de ar, apenas seus próprios pulmões, não usa roupa de neoprene, leva apenas sua pele e se adapta ao ambiente. É com esta inteireza que se abre para o encontro com o outro. Essa abertura para o diferente é fundamental na escola, não apenas na relação professor-aluno, mas em todas as relações que se estabelecem na instituição. Se entre os adultos houver aceitação ao diferente, provavelmente este seja o “tom” que permeia a escola e reverbera entre adultos, jovens e crianças.

7)      Ser você mesmo

Quando o ambiente escolar é aberto às diferenças, possibilita que as pessoas sejam como são, pois se sentem em um lugar seguro. A diversidade traz grande riqueza à escola, pois cada um contribui com um olhar ou perspectiva que alimenta e amplia a do outro. Imagine ter um problema a ser resolvido e muitas soluções para enfrentá-lo. Isso é o que acontece quando convivemos onde cada um pode ser quem se é.

8)      Estabelecer relações de confiança

As relações de confiança fazem parte de tudo que dissemos até agora, mas estão aqui para nos lembrar que não acontecem do dia para a noite, são uma construção gradual e única. Assim como Craig e o polvo foram estreitando seus vínculos dia a dia a medida que se conheciam, nas relações que estabelecemos com os alunos é o mesmo. Quando um sentimento de pertencimento se revela com nosso grupo de alunos, é sinal de que os vínculos são muito fortes. E podemos afirmar que as relações são únicas, pois se temos 25 alunos em sala, temos 25 relações particulares – incomparáveis e irreplicáveis.

9)      Saber contar bem uma história

A narrativa que damos aos acontecimentos pode fazer toda a diferença na força que aquela mensagem passa. Craig e os produtores do filme foram capazes de transformar uma linda história individual em uma lição para o mundo. Na escola, temos momentos inspiradores o tempo todo. É preciso olhar para eles com atenção e contar bem essa história.

10)  Desapego e boas lembranças

Craig não poderia interagir com o polvo para sempre, certo? Mas absorveu aprendizados, entregou-se àquilo enquanto durou e permaneceu com as boas lembranças. Na escola, os professores são um pouco assim. Projetam o melhor futuro possível para seus alunos, e se despedem com a esperança de que a contribuição ao longo dos anos tenha sido valiosa para eles.

11) O professor como mediador

Vamos adicionar um número extra para falarmos do papel do professor (o da escola, não do polvo) no aprendizado dos alunos. Parte das lições do filme estão relacionadas à importância da mediação no contato entre estudantes e conteúdo. Para ajudar os educadores a desenvolver ainda mais essa habilidade, temos uma atividade específica na jornada Emoções, que, vale lembrar, é certificada e gratuita. Clique AQUI para acessar.

 

Como celebrar a Festa Junina nas aulas online

Evento tem grande importância cultural e emocional nas escolas e pode ser celebrado no ensino remoto

festa junina escolaA Festa Junina é um dos eventos mais importantes no ambiente escolar. Professores, alunos e familiares se envolvem em uma celebração cheia de cultura, danças, brincadeiras, comes e bebes. Mas com a pandemia, muitas escolas brasileiras começam mais um mês de junho com as portas fechadas. Para manter a tradição viva, preparamos essa matéria com dicas para celebrar a Festa Junina nas aulas online.

O clima da Festa Junina na escola

Nas escolas, a Festa Junina muitas vezes coroa o final do primeiro semestre e toda a comunidade escolar “lava a alma”, reconhecendo as aprendizagens do período e colocando um “pé” nas férias. Esse costuma ser o clima em que se prepara a escola, que por muitas mãos – de alunos e professores – vai trazendo as cores e símbolos dessa data tão marcante. Os dias da festa trazem a marca própria de cada instituição escolar e também de seu contexto e região. De norte a sul, cada pedacinho do Brasil começa a se preparar: trajes típicos, comidas, bandeirinhas, chapéus, bigodes e trancinhas.

Origem da Festa Junina

Apesar de ser uma festa tão presente no nosso calendário, poucas pessoas conhecem a origem da Festa Junina. Pode ser interessante compartilhar essa história com os alunos.

Na Antiguidade, no Hemisfério Norte, várias celebrações aconteciam durante o solstício de verão – o dia mais longo do ano e que marca a passagem do inverno para o verão. Lá, ele acontece nos dias 21 ou 22 de junho. Estas festividades prestavam homenagens a diversos deuses, com o objetivo de “garantir” boas plantações, colheitas e a fertilidade.

Na passagem da Idade Antiga para a Idade Média, com a cristianização dos povos romanos e germânicos, a Igreja substitui o culto aos deuses pagãos e passou a celebrar os santos.

No Brasil, antes da chegada dos portugueses, os índios já faziam rituais em junho também ligados à colheita, com cantos, danças e comidas. Com a colonização, essas festividades se fundem, originando as Festas Juninas que se mantém até hoje.

É por isso que as festas celebram santos católicos, mas ao mesmo tempo oferecem uma variedade de pratos feitos com alimentos típicos dos nativos.

Os símbolos da Festa Junina

Todos nós conhecemos os elementos abaixo, mas será que sabemos o que eles representam? Converse com a sua turma a respeito!

A fogueira:

Presente nas festividades desde os tempos mais antigos – tanto nas celebrações pagãs quanto indígenas -, representa a luz, a vida e a transformação, e é acessa para agradecer a fertilização da terra e as colheitas. Com a cristianização, ganhou outra explicação: Santa Isabel (mãe de São João Batista) disse à Virgem Maria (mãe de Jesus) que quando São João nascesse acenderia uma fogueira para avisá-la. Maria viu as chamas de longe e foi visitar a criança recém-nascida.

Cada santo junino tem um tipo diferente de fogueira, sendo a de Santo Antônio quadrada, a de São João redonda e a de São Pedro triangular.

Os balões:

Tinham um papel de comunicação, anunciando a todos o início da festa. Seu significado espiritual também remete a comunicação com o divino, pois o balão vai da terra ao céu. Também era uma forma de agradecer aos santos pelos pedidos (namoros ou casamentos) atendidos. Como causavam acidentes e muitos incêndios, acabaram sendo proibidos, mas ainda é um elemento presente nas festas mantendo sua forma (não mais acesa) ou como lanterna para iluminar.

As bandeirinhas:

Simbolizam a espiritualidade e a proteção. Nelas, eram impressas imagens dos santos e foram ganhando cores e as formas que conhecemos. Presente também no budismo, com quem os portugueses tiveram contato no período das grandes navegações, que imprimem orações em tecidos coloridos para que os vento as leve e disperse.

A quadrilha:

Tem origem na corte francesa, nas danças de salão do século 17. Chegou ao Brasil no século 19, trazida pelos nobres portugueses, e foi sendo adaptada até fazer sucesso nas Festas Juninas. O baile representa a alegria e a vontade de viver.

Comidas típicas:

Simbolizam a fartura e a abundância, muito bem representadas pelo milho –de uma espiga, muitos grãos são semeados. A comida típica das festas é quase toda à base de grãos e raízes que nossos índios cultivavam, como milho, amendoim, batata-doce e mandioca. A colonização portuguesa adicionou novos ingredientes e hoje o cardápio inclui bolo de fubá, pé-de-moleque, pipoca, além das bebidas como quentão e vinho quente.

5 dicas para celebrar a Festa Junina remotamente

Além de explicar a história e símbolos da Festa Junina para os seus alunos, é possível criar um ambiente de celebração nas aulas online. Preparamos algumas sugestões para isso.

Fotos:

Através de fotos de anos anteriores, da própria família ou mesmo de obras de artistas que retratam o tema, acessamos a memória cultural, familiar e afetiva.

Essa memória nos conecta e resgata o sentido das Festas Juninas, e pode ser ampliado por novas informações e imagens trazendo seus elementos tradicionais – fogueira, bandeirinhas, brincadeiras, comidas, danças e música – e o significado de sua celebração – a colheita.

Repertório cultural:

Uma festa que acontece de norte à sul do país abrange a grande diversidade cultural brasileira. Que tal convidar os alunos a pesquisarem e desbravarem essa nossa riqueza? O que será elas têm em comum? O que as diferencia? Quais as marcas próprias da sua região? São algumas perguntas que podem nortear esse trabalho.

Comes e bebes:

Além de explicar o papel central que os comes e bebes tem na festa, é possível resgatar receitas típicas e ter a oportunidade de fazer algum prato com o grupo de alunos, por mais simples que seja, como uma boa pipoca ou milho verde.

Dança e música:

Não dá para dançar quadrilha? Os grupos de WhatsApp podem ser uma ótima ferramenta para compartilhar uma playlist com repertório musical diverso, que inclua as características regionais, a tradição e a história da Festa Junina. Que tal escolher a música preferida dos alunos e combinar uma apresentação entre todos?

Decoração:

Decorar os espaços é uma ótima maneira de transformar o ambiente e criar um clima temático e aconchegante. O convite é criar com o que se tem a mão! Barbante, fita, papel, jornal, revista, embalagens…. ganham vida pelas mãos das crianças e adolescentes. Quanto maiores são os alunos, mais complexos são os elementos que podem criar, de bandeirinhas a luminárias, tudo é possível utilizando poucos recursos. Há uma infinidade de tutoriais que podemos utilizar para apoiar a confecção dos elementos que se desejar. Mesmo quem não tem grandes habilidades manuais pode fazer parte. Os professores de Artes têm um prato cheio aqui!

Quer mais?

Então conheça as atividades de Corpo & Cultura da Vivescer. Elas fazem parte de uma jornada para professores, certificada em 32h, online e gratuita.

Afinal, Festa Junina sem corpo e cultura não existe, certo? Clique AQUI para fazer o cadastro e acessar o conteúdo.

Como conversar sobre luto com as crianças na escola

Em tempos de Covid, tema considerado tabu ganha importância e precisa ser abordado com cuidado pelos professores

luto na escola

Com o avanço do Covid, os debates sobre a morte, que já desafiavam a atuação de professores, tornam-se ainda mais frequentes. Apesar do luto estar presente em inúmeros momentos da vida, como na perda de familiares ou bichos de estimação, esse tema ainda é tabu em muitas escolas. É essencial que os professores saibam abordá-lo com as crianças de forma cuidadosa e reconfortante.

Para Valéria Tinoco, psicóloga e psicoterapeuta, ainda existe uma ideia de que a escola não deve tratar de assuntos considerados delicados, deixando essa missão para cada família individualmente. O receio de não abordar o tema de maneira adequada, não respeitar a diversidade de crenças ou acreditar que as crianças são pequenas demais para falar sobre morte contribui, segundo a psicóloga, para um clima de insegurança.

“Desde pequena, a criança está em contato com a morte. Morre o peixinho, morrem os avós, morre o personagem do filme… Atualmente, há mortes na televisão o tempo todo. Isso desperta muitos sentimentos, entre eles a própria curiosidade. Dá para falar, sim, sobre o tema, principalmente se a criança pergunta. Mas o que geralmente acontece é que, à medida que os adultos vão mostrando uma dificuldade, elas vão deixando de perguntar e acaba virando um tabu”, explica.

Construção de significado e compreensão

Falar sobre o assunto com crianças não implica uma compreensão instantânea e automática de todas as nuances que envolvem a perda de alguém querido. “Talvez exista um desafio para que elas conceituem que a morte é algo universal e irreversível, mas não é por isso que não daremos as informações. Cada criança, ao seu tempo, vai entender. Como qualquer outro tema, não há uma compreensão total no início, ela será construída”, explica Valéria.

Nesse sentido, a psicóloga defende que não é aconselhável tentar esconder o tema das crianças ou até mesmo contornar uma eventual morte de um colega, professor, funcionário da escola ou parente, uma vez que, hoje em dia, redes sociais e ferramentas como WhatsApp contribuem para a rápida disseminação de notícias, mesmo entre os mais novos.

“O maior prejuízo em não falar sobre a morte é deixar as crianças terem dúvidas e passarem por essa experiência sozinhas, ou seja, não ter o apoio de um adulto para guiá-la na compreensão de algo que faz parte da vida.”

“Falar que o gatinho ‘quis viajar para outro lugar’ é não dar a chance e não acreditar que a criança tem condições de enfrentar a situação, e isso vai cobrar um preço lá na frente.”

Como trabalhar o luto na escola

A seriedade do tema não significa, necessariamente, que é tarefa difícil falar sobre a morte, perdas e luto. Valéria defende que os professores já utilizam e estão acostumados com inúmeras estratégias que podem ser usadas nesse debate. A missão, portanto, é procurar elementos que conversem com o assunto.

“Acredito que o mais importante é o próprio professor se sentir confortável para falar sobre o tema. É necessário ter em mente que vão surgir perguntas difíceis, como, por exemplo ‘o que acontece quando alguém morre?’. E então, ele não precisa passar as suas crenças. Ele pode sim, falar, no que acredita, mas também reforçar que existem pessoas que pensam diferente e apresentar as outras visões. E depois, claro, abrir para que todos compartilhem e troquem ideias.”

Valéria conta que, em todas as oportunidades que realizou nas escolas uma roda de leitura do livro ‘O dia que o passarinho não cantou’, de sua coautoria, o debate com crianças e jovens foi extenso, justamente por conta da vontade de todos falarem sobre o assunto.

“Na minha experiência, quando é dada a oportunidade para a criança se expressar, ela não hesita, porque é um tema natural.”

Quando se trata da morte de alguém da comunidade escolar, por exemplo, a psicóloga comenta que um movimento importante é a realização de um diagnóstico para entender quem ou quais turmas eram mais próximas da pessoa e quem são os mais e os menos afetados por essa morte. Assim, é possível traçar um plano de apoio de acordo com cada grupo. Além disso, o reconhecimento público do fato, com, inclusive, a realização de algum tipo de ritual como homenagem pode mostrar que o tema está sendo falado, discutido e respeitado. É na coletividade que as pessoas apoiam e são apoiadas.

Confira abaixo alguns exemplos de estratégias e maneiras de debater não apenas a morte e o luto, mas ampliar o tema para o resgate de memórias quando alguém se vai, a finitude da vida, os diferentes rituais religiosos e crenças de passagem, entre outros.

  • Para professores: incluir o tema ‘educação para morte, perdas e luto’ de forma consciente no planejamento escolar;
  • Aproveitar filmes que falem sobre o tema e, ao final, discutir e perguntar o que a criança entendeu ou não e sem tem alguma dúvida;
  • Possibilitar a ampliação para assuntos relacionados, como o medo da morte e de adoecimento, retratados no filme Up – Altas Aventuras;
  • Abordar diferentes rituais e culturas, como por exemplo a celebração Día de Los Muertos, no México (o filme Viva, a Vida é uma Festa, da Disney, trata sobre o assunto);
  • Discutir a morte de uma personalidade pública;
  • Debater matérias de jornais;
  • Aproveitar a curiosidade das crianças e incentivar que façam perguntas se quiserem;
  • Dar espaço para que todos tenham a chance de falar sobre;
  • Trabalhar livros sobre o tema de acordo com a faixa etária;
  • Usar vídeos, como a versão animada do livro O Dia que o Passarinho não cantou

E as emoções dos professores?

Sabemos que os professores acolhem os alunos, mas quem acolhe os professores? A jornada Emoções, da Vivescer, ajuda a compreender a relação entre emoções, sentimentos e aprendizagem dos educadores, além de sugerir atividades de aprendizagem emocionalmente envolventes na sala de aula. Vale lembrar que o curso gera um certificado de 32h. Saiba mais AQUI.

Como trabalhar a empatia de forma prática na escola

 

Durante o último ano de pandemia, um dos sentimentos mais valorizados tem sido a empatia. Mas afinal, o que é empatia? E como promovê-la de forma prática nas escolas?

empatia escola

Para Laiali Chaar, docente, mestre e doutora em neurociência, mais do que se colocar no lugar do outro, empatia significa a capacidade humana de realmente sentir o que o outro sente. Portanto, trata-se de uma mistura de sentimento e habilidade, e a notícia boa é que se pode praticar a empatia desde cedo.

Laiali comenta que, apesar de estar relacionada com a genética, também é possível que uma pessoa se torne mais empática ao longo da vida. “É claro que desde cedo percebemos que umas crianças são mais empáticas que outras. Mas estudos mostram que, apesar desse traço genético, não nascemos com a empatia ‘completa’. Pesquisas com ressonância magnética e exames que analisam as ondas cerebrais apontam que, dependendo dos estímulos, conseguimos transformar nosso cérebro”, explica.

A especialista reforça, ainda, que as experiências vivenciadas ao longo da vida podem interferir na personalidade de cada um. Pessoas que sofreram traumas como, por exemplo, abandono, negligência e falta de cuidados ainda na infância, podem ter a tendência de ser menos empáticas.

Tudo isso está relacionado ao termo neuroplasticidade, que significa a capacidade de o cérebro humano aprender e se transformar de acordo com novas vivências e conhecimento. “Somos capazes de aprender muita coisa durante a vida. A empatia é uma delas. Então, as crianças nascem com uma empatia inata, mas podem desenvolvê-la ainda mais.”

Tema antigo

Laiali comenta que, desde os primórdios, os seres humanos precisam uns dos outros para se proteger dos perigos de predadores, para buscar alimento e para garantir a evolução da espécie. Segundo a neurocientista, a pandemia deixou ainda mais claro que, no caso de uma doença de disseminação global como a Covid-19, é importante que as pessoas entendam seu papel e permaneçam em casa sempre que possível para evitar a transmissão do vírus, em um gesto de empatia com o outro.

Além disso, a empatia impacta relações pessoais e profissionais. “Muitos pesquisadores mostram que o sucesso profissional não depende apenas de habilidades técnicas, mas também do nosso relacionamento com colegas e com chefe”, exemplifica Laiali.

Na área da saúde, por exemplo, a empatia se faz fundamental para que o médico entenda as queixas do paciente e também no estabelecimento de uma relação de confiança, para que o paciente sinta-se seguro e compreendido pelo profissional e, com isso, dê continuidade a seu tratamento.

Empatia na escola

Considerando que crianças e jovens passam grande parte do dia na escola, o ambiente educacional tem papel fundamental no desenvolvimento da personalidade das pessoas. Para Laiali, esse contexto convida professores a pensarem sobre como promover e estimular a empatia entre os alunos, seja na relação com os colegas ou a partir do contato com os próprios educadores.

“Os psicólogos estudam bastante como comportamentos que temos enquanto adultos têm origem em situações vivenciadas na infância. Então eu acho interessante que professores também trabalhem o tema”, explica.

Um fator importante para o desenvolvimento da empatia é o aprimoramento da capacidade de auto-observação e de autocompaixão. Isso está diretamente relacionado a abraçar a própria vulnerabilidade, tornando a pessoa mais sensível à vulnerabilidade alheia e, portanto, mais empática.

A atividade “a vulnerabilidade como caminho”, da plataforma Vivescer, é um convite a este movimento.

Existem outras estratégias que também podem ajudar nessa missão. Laiali comenta que diversos professores já colocam muitas delas em prática sem saber que estão contribuindo para o desenvolvimento da empatia. Confira exemplos:

Aulas de música

“A música transmite sentimentos, o que está relacionado com a letra da música e com as notas musicais. Muitas vezes, já sabemos que uma música é triste antes de começar a letra devido à melodia. Um cantor tem o papel de interpretar, seja uma canção mais feliz ou mais triste. Ouvir música, tocar um instrumento ou interpretar uma letra é uma forma de treinar a empatia, justamente porque conseguimos reconhecer o sentimento transmitido.”

Leitura de histórias

“Um estudo da revista “Science” mostrou que a partir da leitura é possível estimular a empatia nas pessoas por conta da identificação com os personagens. E para crianças menores, essa leitura pode ser de histórias com animais, porque elas se identificam e têm muita empatia com os bichos. Com isso, a criança se coloca no lugar dos personagens, o que pode ajudá-la a entender as relações humanas.”

Meditação e vivência ao ar livre

“É possível promover a meditação com crianças a partir de três anos. Esse momento de silenciar e refletir equilibra nossas emoções. Além disso, ter contato com a natureza também tem potencial de promover esse mesmo resultado. Ainda não se sabe exatamente o motivo, mas uma hipótese é que o contato visual e com os sons naturais fazem com que trabalhemos mais as emoções e, com isso, sejamos menos reativos e nos coloquemos no lugar do outro.”

– Trabalhos em grupo

“Trabalhar em grupo é, com certeza, algo que estimula a empatia, porque precisamos lidar com conflitos e procurar entender o outro. Uma boa atividade em conjunto é a dança em dupla. Dançando com outra pessoa precisamos buscar compreender, sem a nossa dupla falar, se ela está incomodada com algum passo, se devemos acelerar ou diminuir o ritmo, tudo isso para que a dança flua. É o trabalho com a capacidade de perceber o outro.”

 

 

Como lidar com as câmeras fechadas dos alunos

 

Nem tudo é sinal de desinteresse. Entenda os motivos que levam os alunos a não ligarem suas câmeras.

câmera alunos

Há mais de um ano, a história se repete: professores superam as dificuldades técnicas do mundo digital, preparam suas aulas online, sentam-se na frente de seus computadores, e… tela preta do outro lado. O desafio de fazer com que os alunos liguem as suas câmeras aflige educadores de escolas públicas ou particulares de todo o país.

Para a professora de sociologia Renata Salomone, essa questão precisa ser abordada em toda a sua complexidade. Um ponto importante na decisão dos alunos de não abrirem a câmera durante as aulas é o desconforto de mostrarem o ambiente em que moram. Muitos alunos têm vergonha das suas casas ou das relações que ali se estabelecem. É muito comum, por exemplo, que o aluno tenha que dividir o espaço com irmãos ou outros familiares.

Há de se levar em conta também aspectos do cotidiano, como as questões de aparência. “As aulas online acabam sendo um espelho ao quadrado, ou seja, ao mesmo tempo em que você se vê, vê as outras pessoas te vendo. Para adolescentes mais tímidos, aumenta esse desconforto com a imagem, o que requer uma atenção”, explica a educadora.

A qualidade de conexão da internet também tem impacto na questão. “No ensino híbrido ou remoto, eu aconselho escolas e professores a pesquisarem para entender a conectividade dos estudantes antes de propor a abertura das câmeras. É necessário entender o contexto.”

A relação entre câmeras abertas e o interesse dos alunos

Em uma pesquisa realizada com seus alunos, Renata questionou o motivo de não abrirem as câmeras durante a aula. O primeiro fator apontado pelos jovens foi o cansaço, seguido de não gostar de se ver no vídeo. Por isso, para a educadora, a questão de não mostrar o rosto não está, necessariamente, ligada ao interesse dos estudantes nas aulas.

É importante repensar o que a imagem do aluno significa para os professores. O ideal é que o educador seja capaz de pensar nos objetivos da aula e nas metas de aprendizagem e, a partir daí, reflita quando as câmeras abertas são realmente necessárias.

“Muitas vezes, queremos que os alunos abram as câmeras simplesmente por uma questão de controle disciplinar, e não pelo processo de aprendizagem. Uma sugestão é criar momentos intencionais, em que se explique aos jovens os motivos concretos porque é importante que mostrem o rosto naquela hora”, explica ela.

O olhar sensível do professor

É indiscutível que as câmeras fechadas trazem uma complexidade ao trabalho do professor. O mundo ideal, segundo Renata, seria que todos realmente mostrassem o rosto. Esse cenário, além de mais confortável para o docente – que não sentiria que está falando sozinho –, possibilitaria um olhar mais sensível aos alunos como acontece no ensino presencial, permitindo adaptações nas metodologias utilizadas na aula.

Entretanto, diante da complexidade, Renata reforça a importância da criação de estratégias que não sejam violentas e acabem por agravar a situação. Algumas escolas, por exemplo, estão retirando da aula estudantes que não abrem as câmeras, ou condicionando pontos na nota aos que ligam a câmera.

“Esse tipo de experiência não está comprometida de fato com a aprendizagem, porque, em muitos casos, o aluno não assimilou. Ele está abrindo a câmera porque sabe que vai ganhar pontos ou será punido se não o fizer. Na pesquisa que realizei, também perguntei o que levaria os alunos a abrirem as câmeras. A maioria respondeu respeito e empatia pelo professor e a questão da conexão com o docente.”

O que funciona na prática

Já que esse é um desafio que se repete em diferentes escolas, regiões e cidades, os professores têm criado estratégias para convencer seus alunos.

Renata sugere atividades que indicam se os alunos estão engajados sem precisar ligar as câmeras. Um exemplo é o uso de formulários durante a aula. A ideia é que o professor crie uma ou mais perguntas simples na ferramenta Google Formulários (ou qualquer outra similar), e que os estudantes interajam com o conteúdo durante a aula. Isso permite que o docente veja, pela listagem de nomes, quem está participando ou não.

Promover uma alternância dos ritmos da aula – com questionários, partes expositivas, uso de testes e jogos – é uma alternativa. Também é possível realizar atividades em grupos menores, onde os estudantes podem se sentir mais confortáveis em abrir as câmeras e debater com os colegas. Nessas dinâmicas, cada grupo pode ficar responsável por estudar brevemente um tema e, depois, o professor mescla os grupos e cada integrante deverá contar sobre o que seu grupo inicial estudou.

A proposta das atividades em conjunto também funciona na hora das avaliações. Renata sugere dividir a turma em grupos e fazer duas perguntas objetivas. Em seguida, cada grupo deverá explicar por que escolheu determinada resposta. Ao final, depois do debate, eles respondem as questões novamente. “Esse processo é impressionante porque, às vezes, a porcentagem chega a 100% de acertos depois da dinâmica, sem os alunos terem passado por mim, somente com o debate entre eles”, completa.

A estratégia de perguntar aos estudantes o que eles já sabem, o que querem saber e, depois, o que aprenderam sobre determinado assunto, também reforça o protagonismo como forma de promover o engajamento. “Quando centramos o processo de ensino no estudante, conseguimos criar estratégias mais significativas para eles”. As metodologias ativas ajudam bastante nesse processo.

Um ambiente de segurança

Além de explicar para os alunos em quais momentos é importante ligar a câmera, é fundamental lembrarmos que essa decisão também está relacionada à conexão entre professores e alunos. A criação de um ambiente de segurança psicológica em que todos sintam-se aceitos e possam ser vistos e ouvidos, sem desconfortos ou problemas de convivência, é crucial para que os alunos abram a câmera.

Quer saber mais sobre caminhos possíveis para construir este ambiente de conexão e abertura com os alunos? Temos um percurso formativo inteirinho só sobre isso! Clique aqui para conferir.

Comunicação Não-Violenta: o que é e como aplicar nas suas aulas

Especialistas dão dicas de práticas a serem incorporadas na rotina para promover transformação nas relações, empatia e respeito.

A comunicação é elemento central das relações humanas, independente do grau de conexão entre as pessoas. Muito se fala que diálogos são poderosos no sentido de resolver desafios e promover avanços. Para que isso realmente aconteça, é necessário que as pessoas escutem e também sejam escutadas, um processo que envolve atenção, respeito e empatia.

Esses são, inclusive, alguns dos princípios básicos da comunicação não-violenta (CNV). Criado por Marshall Rosenberg, um psicólogo norte-americano, o conceito pode ser aplicado em todos os ambientes com o objetivo de trabalhar e aprimorar a forma de expressão e, consequentemente, as relações entre as pessoas.

O conceito da Comunicação Não-Violenta

Yuri Haasz, instrutor brasileiro certificado pelo Centro Internacional de CNV, explica que existem várias definições para a comunicação não-violenta. Uma delas diz respeito a uma mudança dos chamados sistemas de dominação para os sistemas de parceria, isto é, uma transformação do modelo cultural e mental de como as pessoas pensam, processam e vivem as relações em sociedade.

“Uma relação de dominação consiste em uma pessoa que manda e outra obedece, já as relações de parceria são pautadas em colaboração, cooperação e consideração pelas necessidades de todos. A CNV ajuda a nutrir relações mais sustentáveis, satisfatórias e felizes, pois trocamos as relações baseadas em medo, punição e castigo por relações embasadas na contribuição mútua, confiança e segurança”, completa Sandra Caselato, psicóloga e especialista em CNV.

Dessa forma, existe uma conexão direta entre CNV e cultura de paz, no sentido de promover, em grupos e ambientes, a ideia de que violência não é uma forma aceitável de lidar com conflitos. “Existe toda uma ressignificação de conflitos e da forma como trabalhamos com eles. Os conflitos são importantes, pois estão sinalizando que algo precisa de cuidado. No DNA da transformação das relações de dominação para cooperação, parceria e inclusão, existe um olhar empático para si e para os outros”, defende Yuri.

CNV não é só comunicação

Apesar do nome, a CNV não se restringe à comunicação. Para Yuri, mudanças de pensamento podem afetar a forma com que as pessoas se comunicam e vice-versa: a transformação de elementos de comunicação também reverbera na forma como pensamos. “Quando a nossa compreensão de uma situação, de nós mesmos ou do outro muda, há uma repercussão disso na comunicação.”

Por isso, mais do que enxergar a comunicação não-violenta como um processo estruturado de quatro passos ligados exclusivamente a comunicação, como é comum encontrarmos quando pesquisamos sobre CNV, os especialistas defendem a perspectiva de que ela é um modelo composto por 25 distinções conceituais, que ultrapassam apenas a forma como as pessoas se relacionam em seus debates. “A CNV é uma forma de estar no mundo, de viver e de ter uma perspectiva sobre as relações”, afirma Sandra.

Comunicação Não-Violenta na escola: é possível?

Se falar na transformação de relações verticais para horizontais, baseadas em colaboração e parceria, parece algo complexo a ser trabalhado com crianças e jovens, os especialistas garantem que é exatamente o contrário. Apesar de ter mais prática no trabalho com adultos, a dupla revela que nas oportunidades em que trabalharam com crianças, se surpreenderam.

“Eu fiquei com a impressão que é mais fácil trabalhar com as crianças. Elas são mais flexíveis, abertas e adaptáveis, e aprendem rápido os princípios de empatia e os benefícios de agir dessa forma”, explica Yuri.

Sandra, por sua vez, relembra o que o criador do conceito diz sobre a CNV, que é uma forma de relembrar algo que já se sabe e se pratica desde criança, mas que, com o passar do tempo, desaprende-se. “Socialmente, nós vamos desaprendendo essa compaixão e conexão natural que temos desde criança. Essa tendência a querer ajudar, se conectar com o outro e estar mais conectado consigo mesmo, com seu corpo e sentimentos, é algo inato. Uma educação que ajude a fortalecer isso que já temos dentro de nós pode ser maravilhosa.”

A psicóloga defende que é necessário refletir sobre a importância da escola na sociedade, que é grande, e como a instituição pode reforçar relações de imposição e dominação, ou pode promover relações transformadoras que incentivem o potencial de cada pessoa.

“A escola pode levar as pessoas a se encaixarem em uma vida de obediência sem sentido ou pode ajudá-las a desenvolver seu pleno potencial e fazer coisas que fazem sentido não apenas para si mesmas, mas como uma contribuição para a sociedade como um todo, com mais satisfação. Relembrando a frase de Paulo Freire: ‘quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor’”.

Yuri completa ao defender que repensar esses papéis que cada um assume dentro de uma organização, seja no trabalho ou na escola, por exemplo, pode ajudar na criação de conexões mais verdadeiras e em novas relações de confiança e de segurança psicológica, o que não abre espaço ao medo de errar e de se expressar.

Como fazer?

O trabalho com a comunicação não-violenta em sala de aula pode ser incorporado na rotina do dia a dia para aqueles que desejam uma iniciação no tema. Uma das indicações de Yuri e Sandra é a realização do check-in. Prática já adotada em universidades e até mesmo em empresas, consiste em uma rodada – que pode ser breve ou mais aprofundada – para que cada um fale como está se sentindo naquele dia. A dinâmica pode começar com o próprio professor, que, ao trazer algum nível de vulnerabilidade em sua fala, pode encorajar os estudantes a fazer o mesmo. “Conforme isso se transforma em uma prática, no início das aulas ou atividades diárias, as relações entre as pessoas podem mudar, pois cria-se a possibilidade de que se vejam mais como pessoas, resgatando essa humanidade. É um retorno à conexão consigo mesmo e com a possibilidade de ouvir o outro mais profundamente”, reforça Sandra.

“Isso não é uma prática diretamente de CNV, mas ativa vários princípios fundamentais da comunicação não-violenta, como estar presente, escutar o outro e se conectar internamente, porque quando vou falar como estou, preciso olhar para dentro, coisa que raramente somos convidados a fazer”, completa Yuri.

Outro ponto importante é que os professores procurem estabelecer um ambiente de conexão e abertura com os estudantes. Esse fortalecimento da relação humana tem influência direta sobre o processo de aprendizagem, que é um processo complexo, alimentado por elementos afetivos, cognitivos, em que os estudantes, na interação com os professores e com seus colegas, constroem sentido sobre o mundo.

Para os especialistas, não se trata de afirmar que as pessoas estão fazendo algo errado, mas sim que estão agindo da forma como foram ensinadas durante a vida toda, e é isso que precisa ser mudado. “Precisamos mudar a cultura: transformar um jogo de competição, em cooperação, apoio mútuo”, explica Sandra.

Uma das belezas da CNV é propor uma solução ética e respeitosa para impasses, conflitos e enfrentamentos.

Quer conhecer mais estratégias? Clique AQUI.