A importância da conexão entre educação e artes

O período de aulas remotas levou professores a se questionarem diariamente sobre o que era essencial investigar com os alunos. Agora, durante as férias, isso vale também para o próprio educador, que pode encontrar na arte uma forma de mudar o olhar para o mundo e encontrar novas ideias que o mobilizem.

É sobre esse tema que conversamos com a educadora Stela Barbieiri. Artista, escritora, diretora do Binåh Espaço de Arte, Stela foi curadora do educativo da Fundação Bienal, em São Paulo(SP), diretora do educativo do Instituto Tomie Ohtake e prestou assessoria para diversas instituições de ensino e cultura. Sempre trabalhando com a relação entre educação e arte.

Nessa entrevista, ela falou sobre a potência artística dos territórios escolares e a importância da arte permear todo o currículo. Stela também ressaltou  que a pandemia ressignificou o trabalho artístico: “Em busca da sobrevivência do espírito,  muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Enquanto uns passaram a bordar, outros projetaram palavras de indignação com a política na parede dos prédios”, afirma.

 

Vivescer  – Em um perfil da senhora para o site Diálogos e Vivências Pedagógicas é definida assim sua relação com a escola: “ Já na hora de ir para a escola, ah, a escola, essa deixava a desejar. Stela gostava de estar com os amigos, mas o jeito que o ensino era feito não era algo bom”. Até hoje o grande desafio da escola é dialogar com as diferenças todas para que todas as crianças e jovens possam habitá-la”, explica Stela. Ela reforça uma palavra bem importante, que apareceu várias vezes durante a nossa conversa: “possibilidade”. Isto posto, a senhora pode explicar um pouco mais a sua relação com a escola e com o desempenho escolar?

Stela Barbieri –  A minha relação com a escola era por meio da relação com as pessoas,  gostava de conviver com meus colegas e professores, mas os processos pedagógicos não me engajavam. Eu pulava o muro da escola pra ir com meus amigos pra praça. Nas aulas, minha atenção estava voltada para as histórias da minha imaginação.

Meus pais eram rigorosos e me orientavam a me envolver mais com a escola, mas o modo como as questões eram apresentadas não me gerava curiosidade ou vontade. Fazia as lições porque era necessário fazê-las, mas raramente com desejo ou envolvimento.

Foi na biblioteca municipal de Araraquara onde mais aprendi sobre artes, literatura, convívio com diferentes universos e faixas etárias, e também as singularidades dos modos de ser e as diferentes expressões por meio das linguagens. Na biblioteca, fazíamos saraus de poesia, aulas de xilogravura, grupos de leitura e escrita. Também nos quintais das minhas três tias educadoras, aprendi sobre a educação com afeto e com escuta atenta. Meus pais percebiam estes movimentos e sempre me apoiaram.

 

Vivescer – Como a senhora avalia o impacto do isolamento social?

Stela Barbieri – A pandemia escancarou muitos problemas na vida do nosso planeta e a arte fala da vida o tempo todo. Muitos artistas foram inventando meios para expressar o que os mobilizava. Alguns fazendo aquarelas semanais, outros fotografando o cotidiano, outros experimentando tintas fritas em casa.

Ficaram gritantes para a grande maioria da população do planeta, as questões de saúde, políticas, as disparidades econômicas e sociais, os problemas com o meio ambiente, as questões raciais, de gênero, as questões familiares e comunitárias. Esta situação nos convocou a olhar para a vida e nos perguntar: o que é essencial aprender agora?

Como nos relacionamos neste momento? Como “acordar” a casa para viver o isolamento físico num ambiente de imersão total, onde tudo acontece no mesmo lugar (trabalho dos pais, estudo das crianças, necessidades essenciais de sobrevivência). Como acordar a escola para não repetir a infelicidade de uma educação sem sentido para os seus participantes, ainda mais agora com a distância física e as dificuldades sociais que se desdobram na falta de acesso à tecnologia?

 

Vivescer – E a partir disso, que novas possibilidades foram geradas para um contato com a arte?

Stela – A pandemia gerou outros tipos de encontros, a presença na ausência, inventada a cada dia.

Aprendemos que a escola não está restrita a um prédio, a escola se concretiza nas concepções e nos modos de fazer a educação acontecer em todos os lugares, mas ao mesmo tempo pudemos perceber como a escola com seu espaço físico, o convívio com professores e colegas fez falta na vida da maioria das crianças, como lugar de nutrição em todos os sentidos.

A expressão por meio das linguagens nos encontros remotos foi fundamental para manter a vitalidade.

As pessoas passaram a investigar modos de fazer a arte acontecer a distância – shows, narrativas de histórias, peças de teatro, leituras partilhadas, saraus de poesia, exposições. Penso que os modos de se relacionar a distância estão sendo reinventadas a cada dia. O estado da arte esteve muito presente nestes momentos de suspensão da vida ordinária e perda de pessoas queridas.

 

Vivescer – Como as novas formas de apresentação artísticas, notadamente aquelas desenvolvidas durante a pandemia, especificamente, o teatro, online, os shows em formato de live, podem impactar o ensino de arte?

Stela  – A arte tem sido um caminho de sanidade para muitas pessoas ao longo da pandemia, ouvir músicas, assistir shows, filmes, ler poemas, romances, ouvir histórias narradas, assistir peças de teatro nos trás deslocamentos e abre caminho para re-existir inventando outros modos para cuidar do planeta e de nossa própria alma.

As ferramentas tecnológicas estão sendo investigadas na construção das linguagens e creio que, neste sentido, temos um longo caminho pela frente.

 

Vivescer – Como educadores podem  criar uma cultura forte de visitas a exposições, peças de teatros e shows na rede pública?

Stela – A escola aberta à cidade, aberta à floresta, a escola aberta às instituições culturais e as manifestações artísticas se nutre do vivo, gerando mais vida.

Esta prática da escola em diálogo com o mundo,  produz um movimento de aproximação entre a riqueza dos pensamentos e expressões das crianças,  encontrando com a riqueza dos pensamentos e linguagens de outros habitantes da cidade.

 

Vicescer – Como a escola pode dialogar com a comunidade artística onde houver deficiência de espaços culturais?

Stela – Penso que os artistas locais podem estar mais presentes na escola, dando oficinas para toda a comunidade escolar, crianças, professores e famílias. A escola também pode se deslocar visitando os ateliês dos artistas.

 

Vicescer – E dentro da escola, o que pode ser feito para utilizar os diferentes espaços para um trabalhar da arte como componente curricular e como uma forma de desenvolvimento do estudante?

Stela – Os espaços escolares comunicam valores e revelam sistemas de estruturação e de funcionamento de cada lugar, são expressões do cotidiano. Para que os espaços tenham significação no dia a dia, é preciso problematizá-los e transformá-los constantemente em formação e troca entre educadores, por meio da escuta atenta aos estudantes e aos colegas, além da criação de contextos de aprendizagens ricos (levando em conta tempo, espaço e materialidade) com perguntas de qualidade como sustentação, gerando caminhos de investigação engajadores .

A arte pode estar presente em todos os momentos da escola e em todos os espaços, não ficando reduzida unicamente ao ateliê, mas podendo expandir a ocupação conforme as intencionalidades do trabalho a ser realizado.

 

Vivescer  – Que recomendações você  poderia dar para o professor expandir seu olhar ou conhecimento em arte ainda que a distância durante as férias?

Stela – Penso que nas férias nos faz bem andar, nadar, ver as estrelas. Observar a natureza, os acontecimentos a nossa volta, o céu, mar, as plantas, dar tempo ao tempo…. ler bons livros, conversar, assistir belos filmes!

Estudar a obra de artistas e as questões pelas quais foram mobilizados. Estar em contato consigo, ouvir música e nos nutrirmos do que é bom e faz bem em todas as instâncias da existência.

 

Foto: jcomp/Freepik

A importância de trabalho com o corpo para professores e alunos

A rotina desgastante vivida ao longo das aulas remotas ligou o alerta para muitos professores sobre o autocuidado. Na Vivescer, a jornada do corpo é destinada justamente a esse tema e, em breve, os educadores cadastrados vão poder acessar novo percurso, também de olho em enriquecer o trabalho sobre desenvolvimento integral.

O programa contou com a parceria do educador André Trindade, que desde 1997 desenvolve um trabalho de conscientização corporal em escolas públicas e particulares, que deu origem ao livro “Mapas do corpo: Educação postural de crianças e adolescentes” (Summus Editorial, 291 páginas).

A obra traz um conjunto de referências capazes de determinar distâncias, direções e ligações entre as partes do corpo, a fim de facilitar o movimento coordenado. Além disso, apresenta atividades para estimular a boa postura, a flexibilidade, a autoconfiança e o prazer da brincadeira.

O saldo da iniciativa é tão positivo que atualmente os alunos que passaram pela experiência pedem que ela seja repetida. “É comum que os estudantes peçam pausas e alguns minutos de silêncio”, conta Trindade. Na entrevista que você lê abaixo, Trindade comenta a importância de conhecer o próprio corpo, como o tema está presente nas escolas e o impacto da pandemia no desenvolvimento de professores e estudantes.

 

Vivescer – Como o corpo pode ser um grande aliado no processo de autoconhecimento?

André Trindade – Habitamos nosso corpo desde o ventre de nossas mães. Nos primeiros três anos de vida, as conquistas motoras, como rolar, engatinhar, sentar, andar estão fortemente associadas à noção de si mesmo. O corpo também permeia as relações afetivas com o mamar, o colo, a troca de afetos e carinhos. E a criança aprende com as nossas atitudes. Ao longo da primeira infância, as conquistas corporais permanecem de grande interesse para a criança: correr, saltar, equilibrar-se, andar de bicicleta, além da conquista da autonomia como alimentar-se sozinho, vestir-se, aprender a escrever.

Em nossa cultura, a partir do ensino fundamental, isso vai perdendo importância. Depois, quando conquistamos um certo nível de controle sobre a motricidade, passamos a ter interesse por outras áreas, isso é humano, mas, o que acontece é que na nossa cultura o corpo vai sendo deixado de lado diferentemente de outras culturas. A gente continua com o trabalho corporal, mas ele é menos valorizado.

 

Vivescer – O que você  passa nas formações? Como convencer professores sobre a importância da educação corporal?

Trindade – Os professores não são formados sobre a importância da organização postural, da coordenação motora e do impacto que isso tem no aprendizado dentro da sala de aula.

Por exemplo, se o educador tivesse instrumentos para ensinar os alunos a se sentarem em posturas saudáveis, com certeza a capacidade de atenção do grupo seria muito maior.

Hoje sabemos pelos estudos da neurociência que a postura física influencia enormemente a capacidade de foco e atenção.

Da mesma forma, se o professor conhecesse melhor a própria postura durante as aulas, evitaria uma série de problemas ortopédicos futuros. A voz faz parte do “corpo” e é exageradamente utilizada pelo professor em sua comunicação. Isso traz problemas para este instrumento tão precioso. Porém, há inúmeros outros recursos corporais que podem aliviar o excesso de uso da voz e tornar a comunicação mais efetiva.

Os professores podem inicialmente se sentir envergonhados de aprender sobre o corpo e trazer essas informações para suas rotinas. Mas, quando experimentam e veem o resultado, aderem às propostas.

 

Vivescer – O que fazer quando se está limitado ao espaço de casa?

Trindade – A pandemia prendeu os nossos corpos nos espaços privados e rompeu, de certa forma, essa relação de corpo a corpo. Mas a gente percebeu o quanto dependemos do nosso corpo. O lado do ganho, é alcançar outras tecnologias, é um ganho para o professor, porque ele teve que se renovar. O professor tem um trabalho com nobreza, comparável ao do médico. É gente que está na linha de frente, as escolas não estavam preparadas , diferente de outras profissões. É preciso manter os alunos, conectados, vinculados e interessados. Inclusive por causa da evasão escolar brutal. Manter a conexão hoje, é tão ou mais importante do que transmitir os conteúdos. O aspecto pessoal do professor e o vínculo que ele consegue estabelecer com o aluno, ao meu ver, tem mais valor do que sua capacidade técnica como profissional.

 

Vivescer – Como qualquer professor, não só o de educação física, pode levar esses conceitos a seus alunos?

Trindade – O trabalho corporal tem relação direta com o autoconhecimento e a liberdade de escolhas. Na escola, isso é um aprendizado muito importante. As crianças estão muito mais ligadas à linguagem corporal do que nós, adultos, e aprendem por meio da expressão corporal dos seus professores, muito mais com gestos do que com palavras. Se o professor está nervoso e agitado, não adianta falar pra criança “ficar calma”. É preciso que ele próprio se acalme e isso faz com que os alunos encontrem coerência no pedido.

 

Vivescer –  O Brasil tem uma cultura sedentária. Dito isso, como o professor consegue levar a questão do exercício e da mobilidade corporal para sala de aula?

Trindade – Discordo que o Brasil seja um país sedentário. Penso que a cultura ocidental é sedentária. O Brasil tem uma corporalidade festiva, carnavalesca, somos inclusive, na minha visão, mais sensoriais do que os europeus ou os norte-americanos. O corpo representa a minha porção atuante, viva. Na escola, já ocorre uma formação da consciência corporal, tanto nas aulas de educação física, quanto na utilização do espaço.

Agora, dentro da sala de aula, eu dizia que é muito pouco o que se aprende sobre o corpo. Colocar uma criança sentada por cinco horas e esperar que ela fique sentada não dá certo. Não há quem mantenha o interesse.

É preciso ter humildade para aprender. Em seguida, todos podem ensinar. Meus livros são bastante didáticos e logo mais teremos uma Jornada na plataforma do Vivescer com todo esse conteúdo.

 

Vivescer – No caso dos alunos, como essa abordagem pode ajudá-los a se sentir melhor em casa? A questão emocional tem sido muito falada.

Trindade – O ensino remoto, que foi necessário por causa da pandemia, afetou ainda mais o processo de comunicação corporal entre os estudantes e os professores. Percebemos como a relação presencial é rica na comunicação dos conteúdos.

O confinamento prendeu os nossos corpos em espaços privados, rompendo a relação de comunicação corpo a corpo, tornando o trabalho do professor e do aluno muito mais difícil. Por outro lado, houve um ganho para o professor por acessar novas tecnologias.

 

Vivescer – Algumas empresas já desenvolvem programas em que os funcionários param por 5 minutos para fazer exercícios, é possível implementar processos como esses nas escolas? Se sim, como fazer?

Trindade – Proponho que os professores façam pausas, cinco, dez minutos, uma dança livre, exercícios de relaxamento, de respiração… Desenvolvo esse trabalho desde 1997, em escolas particulares e da rede pública e escrevi um livro chamado “Mapas do Corpo”, que trata da educação postural de crianças e adolescentes, nas escolas e nas famílias.

 

Vivescer – Como pensar as suas formações quando há pessoas com deficiência, sejam professores ou estudantes?

Trindade – Para a inclusão ocorrer, é preciso haver condições de ocorrência. Muitas vezes não existem essas condições. Para mim a palavra chave para poder incluir é o respeito à diversidade. Não podemos uniformizar o corpo ou a busca de um corpo ideal. Cada um deve respeitar seus limites e, ao mesmo tempo, tentar superá-los. Hoje vemos cadeirantes praticando esportes e dança. É preciso adaptar as propostas para os diferentes “corpos”.

 

Crédito: Freepik

5 aprendizados de 2020 essenciais para 2021

Os aprendizados conquistados ao longo de 2020, um ano como nenhum outro para educadores e alunos, vão contribuir para uma melhor experiência de aprendizagem ao longo do próximo. Abaixo, a Vivecer traz algumas desses pontos que devem continuar sendo importantes em 2021, seja quando alunos estiverem presencialmente em sala de aula, ou realizando atividades remotas.

 

Cuidado com o socioemocional

Em um ano em que muitos educadores tiveram dificuldade de entender como o aluno está aprendendo, olhar para além do desempenho acadêmico foi recompensador. Por que não liga a câmera? Será só timidez ou tem algo acontecendo com a aluna? Por que não entrega exercícios? Será que é falta de um computador e adotar atividades impressas seria o melhor caminho? Após um ano em que muitas famílias viveram o luto e enormes dificuldades financeiras em razão da pandemia, a preocupação em entender o contexto continuará sendo cada vez mais importante para identificar as barreiras e potencializar o aprendizado.

 

A valorização docente

A demanda por uma rápida reinvenção do professor para dar conta do ensino remoto foi acompanhada de um reconhecimento por parte da sociedade. Mesmo o familiar ou responsável que não tinha condições de estar ao lado do estudante durante o período das aulas, entendeu o quão complexo é o trabalho do profissional de educação para manter grupos de mais de 30 alunos motivados a aprender. Para além da questão financeira, como a Vivescer sempre ressalta, valorizar significa também olhar para o indivíduo, para o cuidado físico, emocional e mental, de forma a prepará-lo da melhor forma para os desafios do dia a dia da profissão. Em 2021, esse processo só será possível se a gestão estiver disposta a incluir o professor nas decisões para acolher o aluno.

 

A tecnologia como aliada

Mais um mito que 2020 derrubou está relacionado à adoção da tecnologia. Diante de tantos esforços de educadores, ficou claro que a tecnologia não está aí para substituir, mas para ficar ao lado do professor e potencializar a aprendizagem. Para 2021, fica a mensagem que o ensino híbrido não será uma abordagem para responder apenas à emergência da pandemia, mas que ajuda a repensar tempos, espaços e equipes escolares para uma aprendizagem mais significativa.

 

Comunicação constante com as famílias

Manter o aluno e a família engajados no processo educacional demanda conversas que não se resumem à entrega de uma lista de atividades, mas incluem uma objetiva explicação sobre os objetivos de aprendizagem. Especialmente durante as aulas remotas, é importante adaptar a linguagem para explicar às famílias que a rotina de estudos em casa não tem como repetir os mesmos tempos da escola, seja em período regular ou ainda mais no integral. No caso das crianças pequenas, isso também significa dizer que a brincadeira faz sentido cognitivo e não só de prazer social.

 

Flexibilização das avaliações

Provas sempre foram alvo de questionamentos sobre sua efetividade. Durante as aulas remotas, isso ficou ainda mais evidente. Sem o contato diário, ficou difícil tirar dúvidas e enxergar aquela mão erguida lá no fundo da classe que sinalizava uma dificuldade maior em algo que o professor já dava como entendido. Saber o que se passa em casa exige uma parceria com pais que, no caso das crianças menores, podem fazer um registro pedagógico das atividades, seja das brincadeiras ou do que a criança realizou no livro didático. O aluno que já está em etapas mais avançadas pode construir portfólios, uma ferramenta que reúne toda a produção com fotos, vídeos, trechos de aulas e diferentes tipos de recursos que ajudam o professor a entender onde é possível melhorar.

 

Foto: jcomp/Freepik

 

 

A importância de desconectar e recarregar energias para 2021

Mais do que rever práticas e realizar planejamentos para o próximo ano letivo, professores e demais profissionais da educação devem investir em momentos de descanso e relaxamento. Práticas de autocuidado podem ajudar a desconectar.

Corrigir provas e atividades, fechar notas, realizar o planejamento do próximo ano, pensar em boas mensagens para encerrar o ano letivo atual, trocar conteúdos e conhecimentos com colegas de profissão, sem deixar de lado a vida pessoal. A essa extensa lista de tarefas, soma-se a vivência durante uma pandemia mundial, que ajuda a explicar por que professores estão tão esgotados neste final de ano.

Todos sabem que 2020 não foi fácil. Desafios de diferentes tamanhos e naturezas interferiram na vida dos estudantes – desde crianças da educação infantil até adultos do doutorado –, dos professores, coordenadores, diretores e todos os profissionais da educação que, sem aviso prévio, precisaram migrar para o mundo online e lidar com uma realidade nunca antes vivenciada.

 

Vivescer: Que recomendação daria para o primeiro dia de trabalho em 2021?

Ao longo desses meses, a Vivescer ouviu diversos profissionais, conheceu práticas e atividades diversas, pôde testemunhar o amadurecimento dos docentes e seu empenho em lutar contra as adversidades e continuar estimulando o aprendizado de seus alunos da forma que foi possível. Por isso, com o Natal batendo na porta, é hora de descansar.

Por mais que saibamos que 2021 trará novos desafios na educação, que passam por uma (re)adaptação à vida na escola e ao ensino híbrido, além do planejamento de recuperação e reforço do aprendizado e muitas outras questões, agora é momento de recarregar as energias. Para entender a importância de realmente desconectar e relaxar, a Vivescer conversou com Marcia Epstein, psicóloga, multiplicadora de práticas meditativas, praticante da meditação budista e instrutora de “mindfulness” (atenção plena). Confira a seguir.

 

Vivescer: Por que é importante realmente tirar um momento de descanso total, sem realizar planejamentos para o ano que vem ou qualquer outra atividade nesse sentido?

Marcia: Entre outros fatores, a pandemia de Covid-19 tem gerado estresse, frustração e ansiedade. Sentimos medo de pegar a doença, sensação de solidão e isolamento por conta do distanciamento social e tristeza pela realidade dos outros. Além de tudo isso, os professores tiveram que se adaptar rapidamente ao ensino online, que requer mudanças na metodologia das aulas. O estresse intenso e duradouro pode abalar os mecanismos que protegem o organismo e quando tende a se tornar crônico, pode gerar quadros de ansiedade e depressão, conforme testemunham inúmeros psicólogos que

tiveram um aumento dessas queixas em seus consultórios. É importante dar ao corpo e à mente um momento de descanso total e tempo de se refazer, relaxar e se revigorar.

 

Vivescer: O ano de 2020 exigiu muito dos professores e demais profissionais da educação. O que essas pessoas podem ter em mente para finalizar o ano e aproveitar o descanso antes do retorno em janeiro?

Marcia: É importante entender que não é o estresse em si, mas a maneira como nós o percebemos e lidamos com ele que vai definir se a situação levará ou não a uma condição crônica de estresse. Para que isso não aconteça, é importante tirar um tempo para si e resgatar a saúde física e mental com uma dieta saudável; a prática de exercícios, respiração, relaxamento e meditação; respirar ar puro sem aglomeração; ler e dedicar momentos de atenção amorosa à família e amigos.

 

Vivescer: Fala-se muito da mentalidade de crescimento. Mas como adotar essa postura com resiliência?

Marcia: A mentalidade de crescimento, segundo pesquisadores, permite uma pessoa a viver uma vida menos estressante e mais bem sucedida. Fala-se em “mentalidade fixa”, ou seja, acreditar que nossas habilidades básicas, inteligência e talentos são apenas traços fixos em uma certa quantidade que nunca muda, e em “mentalidade do crescimento”, que é a ideia de que podemos aumentar a capacidade de nosso cérebro para aprender e resolver problemas. Ao contrário do que se pensava há algumas décadas, hoje sabemos sobre a neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de mudar a si mesmo ao longo de nossas vidas, podendo crescer, se adaptar a novas situações e se fortalecer diante dos desafios. Então a maneira de olhar para momentos difíceis faz toda a diferença quando vamos responder a eles e no grau estresse que exigem. Adotar essa postura de mentalidade de crescimento tem menos a ver com resiliência e mais com a mudança de perspectiva e de olhar para os desafios.

 

Vivescer: Quais são algumas estratégias, dicas e práticas para realmente desconectar e aproveitar esse período para descansar?

Marcia: Eu, pessoalmente, trabalho com meditação e “mindfulness”. O cultivo da atenção plena ao momento presente pode levar à descoberta de amplos espaços de bem-estar, calma, clareza e discernimento dentro de nós mesmos, uma vez que, no geral, a nossa mente não está no momento presente. Nosso corpo está aqui, mas a mente está em outros lugares, dispersa, divagando de uma preocupação para outra, perdida em fantasias e problemas pessoais, constantemente buscando soluções. A prática meditativa promove a união de corpo e mente, o que traz enormes benefícios para a saúde física e mental.

Marcia: Os problemas de 2020 tendem a permanecer e até a se agravar em 2021. Por isso, é importante cultivar a resiliência, ter consciência de que tudo muda, que nenhuma situação dura para sempre e que, para prevenir o estresse crônico, devemos cultivar o autocuidado e nos tratar com muita gentileza e generosidade. Fazer pausas durante o dia de trabalho para praticar a respiração consciente pode ajudar muito.

 

—–

6 passos para começar a praticar a atenção plena à respiração

1) A partir de agora, comece a se conectar com a sua respiração, observando como o ar entra e sai de seu corpo. Você pode observar como seu abdome e o tórax se movem à medida que você respira. Caso queira, se for útil para você, você pode colocar uma mão no abdome, e outra, no tórax, para senti-los subir e descer;

2) Quais sensações você nota conforme inspira e expira? Você consegue perceber alguma pausa entre uma respiração e outra?

3) Não tente controlar ou mudar nada, apenas deixe que a sua respiração ocorra natural e livremente;

4) Permaneça assim por alguns instantes;

5) Quando estiver pronto, na próxima expiração, leve sai atenção para o corpo todo. Veja se consegue experimentar, eventualmente, uma sensação de plenitude e mantenha a consciência em tudo o que está sentindo conforme o ar entra e sai de seu corpo;

6) Permaneça assim por mais alguns instantes.

(Recomendação de Marcia Epstein a partir do livro “Mindfulness para Profissionais da Educação”, Editora Senac)

 

Crédito: Freepik

 

 

Resiliência, bem-estar e felicidade: os efeitos da descoberta do propósito

Carol Shinoda, especialista em propósito, explica como cercar-se de pessoas encorajadoras apoia desenvolvimento do propósito, e explica estratégia para essa descoberta

Juntamente com emoção, corpo e mente, propósito é o tema de uma das quatro jornadas de aprendizagem que representam o desenvolvimento integral de professores proposto pela Vivescer. Mas, afinal, porque refletir intencionalmente sobre seu propósito é importante? Isso faz diferença na prática profissional?

Ana Carolina Shinoda, coordenadora acadêmica e professora de pós-graduação com doutorado em propósito de vida, comenta que não é possível afirmar se as pessoas já nascem com um propósito ou se o descobrem ao longo da vida: essa é uma questão relacionada à crença de cada um. Entretanto, estudos apontam que ter uma razão para viver está diretamente relacionado à maior sensação de bem-estar, um dos espectros que compõem a felicidade.

“Pessoas que têm maior clareza sobre seu propósito declaram sentirem-se mais felizes, com maior sensação de gratidão, de empatia. Tudo isso tem relação com a longevidade, bem-estar físico e emocional, e menos propensão a depressão e ansiedade”, explica.

 

O propósito é tão importante assim?

Mais do que descobrir a razão da vida, o propósito tem efeitos diversos em uma pessoa. Carol Shinoda cita o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, personalidade da área de propósito que, tendo passado por campos de concentração durante o Holocausto, observa que pessoas que tinham uma razão para viver suportavam melhor as condições nesses locais. “Frankl traz uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche, que diz: ‘Quem tem porque viver, suporta quase qualquer como’. Ou seja, se você tem uma razão, você aguenta melhor as situações difíceis.”

Essa reflexão pode ser particularmente útil na área de educação, onde sabidamente os desafios são enormes e diários. “Se não há essa força interna do sentido, de ‘porque estou fazendo isso?’, é quase como se não existisse uma força para levantar quando caímos, e isso acontece muitas vezes, pois há muitas pedras no caminho da vida”, defende a especialista.

Para Ana Carolina, essa reflexão sobre o propósito pode ajudar, inclusive, a lidar com questões envolvendo pandemia, coronavírus, quarentena, e o ano que está por vir. “O propósito traz clareza de nossas prioridades. Em um ano que tivemos e que ainda teremos muitas dificuldades e obstáculos, temos que saber onde investir nossa energia, clareza e foco, e o propósito ajuda a fazer escolhas mais direcionadas e que façam sentido, evitando o desgaste com assuntos que não importam tanto assim.”

 

Dá para descobrir o propósito?

Ministrar aulas para bichos de pelúcia, bonecas e até animais de estimação são relatos comuns entre professores que afirmam que, desde criança, já sabiam que queriam trabalhar com educação. Há quem diga, também, que a área foi crescendo à sua percepção aos poucos, e muitos buscaram carreira na educação como segunda graduação.

Aqueles que ainda não sabem ao certo qual é seu propósito podem fazer uma série de vivências para ajudar nessa descoberta. Para sua tese de doutorado, Carol conta que criou um método de desenvolvimento do propósito baseado em quatro pilares, vivências para incentivar que pessoas se aproximem dessa identificação de sua razão de vida ou que aprimorem uma ideia já concebida.

O primeiro passo dessa jornada é o autoconhecimento. “William Damon, professor de educação da Universidade de Stanford [EUA], afirma que o propósito é ‘uma intenção estável e generalizada de encontrar algo significativo para si e que gere consequências no mundo além de si’. Dessa afirmação, podemos entender que a pessoa precisa se conhecer, porque é esse autoconhecimento que vai possibilitar a identificação de algo importante para si”, explica a especialista.

Também relacionado à frase de Damon está o segundo passo da jornada, a empatia. Se é preciso gerar consequências para o mundo, o propósito não pode ser egocêntrico, ou seja, focado no bem-estar e satisfação unicamente de uma pessoa.

Logo em seguida vem a etapa da experimentação. Querer, de alguma forma, fazer a diferença no mundo por meio de seu propósito requer tentativas concretas, caso contrário o propósito ficaria no âmbito da idealização. A última etapa dessa caminhada é o planejamento, ou seja, o ato de pensar e refletir como concretizar sua intenção e torná-la uma ação para o mundo.

 

Experiência de vida e mudança de propósito

Essa e outras metodologias para descoberta ou desenvolvimento do propósito não significam, entretanto, que essa é uma descoberta única na vida. Para Carol, o propósito evolui ao longo da vida e das experiências vividas. “Com a sua caminhada, você pode adquirir mais força, competência e habilidades e, com isso, talvez você queira expandir o seu propósito, ou modificá-lo para outro público, dar uma dimensão maior. E tudo bem. O propósito não é algo que descobrimos uma vez, escrevemos em pedra e nunca mais muda.”

Além disso, a especialista também reforça que não se trata de um ponto de chegada, mas sim uma reflexão, busca e refinamento constante, processos que podem e serão influenciados por diferentes momentos da vida das pessoas. É possível, por exemplo, que alguém precise se distanciar, mesmo que momentaneamente, de seu propósito por não conseguir um emprego na área que gostaria, mas uma ocupação que ajude a pagar as contas.

“Essa reflexão constante é muito necessária para você ter um propósito autêntico, assim como você se respeitar enquanto ser humano nesse processo. Nós passamos por diversos estágios e estamos em um contexto onde não vivemos sozinhos e independentes das pessoas e condições que nos cercam. Então é um alinhamento constante.”

 

A caminhada conjunta do propósito

Apesar do propósito ser algo individual, é possível, ao longo da vida, encontrar apoiadores  nesta caminhada pessoal ou ainda quem compartilhe dos mesmos objetivos. Para Carol, essa busca por parceiros que energizam o processo é positiva e deve ser encorajada.

“Isso nos dá força porque entendemos que não estamos sozinhos na batalha; é algo que alimenta a alma. Fora que, quando desenvolvemos projetos em conjunto com outras pessoas, podemos unir habilidades, competências e visões de mundo, construindo propostas muito mais ricas por meio da diversidade do que faríamos sozinhos”, completa.

A tese completa de Carol Shinoda sobre propósito está disponível neste link. Pelo instagram @carolshinoda.proposito, é possível entrar em contato com a especialista e esclarecer dúvidas.

 

 

Crédito: Freepik

Educadora reforça importância de focar em aprendizados de 2020 para fechar o ano de maneira otimista

Para Ana Flávia Castanho, apesar de desafiadora, educação à distância proporcionou aprendizado para vários grupos. O final do ano é momento de descansar, pensar em avanços realizados e recarregar energias para 2021

Há quem diga que um piscar de olhos foi suficiente para o ano todo passar. Outros, afirmam que os meses estacionaram. De qualquer forma, dezembro está aqui, mês que marca encerramentos de ciclos e reflexões sobre o que ficou para trás. É possível não deixar que os desafios, dificuldades e a tristeza ocasionada pela pandemia de Covid-19 marquem as mensagens, reuniões – online ou presenciais – e planejamentos para 2021?

Segundo Ana Flávia Castanho, professora, autora de materiais didáticos e assessora pedagógica da Vivescer, é preciso se manter otimista, sobretudo na área da educação, uma vez que educar significa confiar em um futuro possível melhor do que se vive atualmente. Não se trata, entretanto, de uma esperança ingênua, mas sim de um otimismo comprometido, ou seja, observar o que passou, o que foi bom e planejar melhorias para o futuro.

“Como educadora, vejo que esse ano nos permitiu direcionar o olhar para o que é profundamente humano da educação e em cada um de nós, reforçando laços, o compartilhar de ideias, o apoio mútuo e a construção coletiva”, explica. Para Ana, o desenvolvimento e trabalho com o lado pessoal foi um dos pontos altos desse momento desafiador, e ter esse foco como mensagem de final de ano pode ajudar a transmitir novas esperanças para 2021.

Professores, escolas e secretarias buscando soluções para fazer atividades chegarem aos estudantes, o reforço do elo entre as pessoas, a redescoberta do propósito da figura do professor, a reflexão sobre o valor do conhecimento, a valorização de diferentes repertórios e soluções culturais e do trabalho cooperativo, a argumentação por soluções, o aumento do autocuidado e o desenvolvimento da empatia são apenas alguns dos aprendizados que Ana Flávia aponta que o período de aulas remotas trouxe.

Ela cita um trecho do livro “A Vida não é Útil”, do líder indígena Ailton Krenak, para reforçar que a sociedade está sendo provocada a se renovar e repensar o rumo de diversas áreas, inclusive da educação. “Vamos ter que produzir outros corpos, outros afetos, sonhar outros sonhos para sermos acolhidos por esse mundo e nele podermos habitar. Se encaramos as coisas dessas forma, isso que estamos vivendo hoje não será apenas uma crise, mas uma esperança fantástica, promissora”, diz o trecho.

 

Educação enquanto processo

Com escolas fechadas subitamente, com pouco tempo para se organizar para uma realidade imprevista e nunca antes vivenciada, muitas pessoas adotaram a expressão “ano letivo perdido” para se referir a 2020. Ana Flávia diz não concordar e sugere uma forma de encarar o cenário.

“Precisamos entender a educação como um grande percurso, não como anos isolados. Se pensarmos como um grande processo de desenvolvimento humano, afetivo, cognitivo, de consciência corporal, 2020 foi um ano de aprendizados, não perdido. O que precisamos é encontrar maneiras para estar mais próximos em 2021, porque talvez continuemos com um sistema híbrido, um pouco presencial e um pouco à distância.”

Dito isso, a educadora reflete sobre a importância e a potência de investir em avaliações diagnósticas, para entender os verdadeiros avanços e as lacunas a serem recuperadas e preenchidas. “Devemos observar quais conhecimentos fundamentais não foram construídos. Em cada disciplina, existem conhecimentos centrais que ajudar a conseguir outros, e se conseguirmos ajudar as crianças a aprender o que é fundamental de cada conteúdo, vamos fortalecer o percurso de aprendizado.”

 

Descansar para continuar
Ao longo da pandemia, desde conversas de WhatsApp, até mesmo lives e reuniões pedagógicas discutiram a questão da recuperação de conteúdo. Muitos especialistas chamaram a atenção, entretanto, para o fato de que o momento não deve ser usado para pensar em seguir um currículo que determina o que estudantes devem aprender, considerando as condições adversas que a educação enfrentou durante o ano.

O mesmo se aplica ao momento de férias em dezembro e janeiro de 2021. Para Ana Flávia, agora é momento de descansar e recarregar energias para os próximos períodos, que deverão considerar o que avançou durante esses meses e endereçar aquilo que não foi trabalhado conforme o planejado. “2020 foi um ano que exigiu muita criação e resolução de problemas de todo mundo. Acredito que, diante desse momento de fechamento, tanto professores como alunos precisam de descanso, de renovação, de um tempo para se preparar para um novo ano”, explica.

A mensagem também vale para famílias. A troca da sala de aula por aulas a distância em casa fez com que muitas famílias passassem a se aproximar da educação dos filhos, o que também trouxe novos aprendizados, experiências e desafios. Para Ana, é natural que adultos que ajudam crianças e jovens em suas tarefas priorizem a resposta. Entretanto, o percurso até os resultados é igualmente ou até mais importante.

“É necessário ter tranquilidade emocional para ajudar os filhos e incentivar que cultivem as perguntas. Vivemos em uma sociedade do imediato, mas é ao sustentar uma pergunta que o aprendizado acontece, pois vamos encontrando meios de responder. Esse ano ajudou nessa parceria tão importante entre família e escola. Então, nesse sentido, é papel das famílias incentivar e mostrar que as crianças são capazes, que obstáculos podem ser superados e que tudo bem dormir com uma dúvida, pois, no dia seguinte, é possível ter boas ideias para resolvê-la. Todos estão precisando de uma pausa para se preparar para o próximo ano; as famílias também.”

 

Uma proposta para encerrar o ano 

Focar no lado negativo e em todas as dificuldades que a pandemia trouxe para a educação é uma receita a ser deixada de lado. Para a educadora, o segredo está em enxergar as possibilidades que se abriram e nutrir-se com força a partir delas, para pensar o que pode ser feito de forma diferente no próximo ano.

Uma ideia de reflexão a ser feita com crianças e jovens é propor que escrevam as cinco coisas que aprenderam melhor em 2020 e as cinco coisas que mais sentiram falta e gostariam que fossem diferentes no novo ano letivo. Em seguida, os professores podem contabilizar as ideias e achados dos estudantes e construir mensagens coletivas e personalizadas.

“No meu lugar de professora, diria o quanto eles aprenderam, como eles são capazes, como conseguiram, juntos, construir um novo jeito de estar na escola e como tenho plena confiança em cada um deles. Também é possível dizer sobre coisas que cada um aprendeu, para mandar mensagens sobre o quanto eles se superaram e como coisas bonitas aconteceram. Além disso, faria o exercício de relacionar tudo o que eles sentem falta e pensar no que é possível fazer para endereçar as questões no próximo ano”, completa.

 

Foto: jcomp/Freepik

Mais do que conteúdo, educação diz respeito a convívio, amizade e companheirismo

Embaixadora da Vivescer, Luciane Ribeiro reforça que autoconhecimento promovido pelas jornadas pode melhorar trabalho do professor em sala de aula com os alunos e convívio dentro e fora da escola

Luciane Fernandes Ribeiro é mais uma professora que integra o time de embaixadores da Vivescer. Professora de língua portuguesa do ensino fundamental 2 da rede pública municipal de Marabá, no Pará, teve o primeiro contato com a ferramenta por intermédio de um colega de profissão, e depois foi convidada a estimular que outros professores também a conhecessem.

“Prontamente aceitei o título de embaixadora da Vivescer, pois a plataforma se relaciona muito com o que entendo por educação pública de qualidade. É um diálogo muito interessante com a minha prática de sala de aula.”

Para ela, o ponto alto da ferramenta é o olhar sensível que dirige aos professores, entendendo a importância de falar a ‘mesma língua’ de quem está diariamente em sala de aula em contato com crianças e jovens. “O que achei mais interessante na Vivescer é que ela vê a figura do professor e se preocupa com ele. Sempre quando falo sobre a plataforma trago esse ponto de nos enxergar enquanto seres humanos, seres emocionais. Tudo com muita empatia, que é o que precisamos”, explica.

Olhar para dentro

Assim como muitos outros professores, Luciane aponta que a Vivescer incentiva, a todo momento, que o docente volte seu olhar para dentro de si e preocupe-se também com o próprio bem-estar. Para ela, esse foi um divisor de águas em sua vida como professora.

“Eu comecei a explorar a plataforma pela jornada da mente, porque era um momento em que estava precisando muito. Estava cansada física e mentalmente. A jornada me fez olhar para mim e perceber que precisava me cuidar para cuidar do outro, porque a princípio,  pensava: ‘preciso estar na sala de aula trabalhando’. Agora não. Além de estar na sala, preciso estar bem”, reforça.

Os exercícios sugeridos ao longo do percurso, bem como outras propostas de trabalho com a respiração, ajudaram a controlar a ansiedade. Além disso, a professora ressalta que a jornada emoções foi um percurso repleto de descobertas, como maior percepção sobre a forma que as emoções se manifestem através de sintomas no corpo físico.

“O autoconhecimento é muito importante, pois estar bem ou chateado vai afetar o seu lado profissional. É interessante perceber isso, pois quando você está impaciente ou com algum problema na vida particular, pode levar isso para a sala de aula. Assim, é importante saber que o problema daquele dia está com você e não com os alunos. Conhecer as emoções é importante para lidar bem com elas”, destaca.

 

Dentro e fora da sala de aula

Para Luciane, o fato de a Vivescer encarar o professor a partir de uma ótica que se preocupa com a saúde física e mental ajuda o docente a entender melhor seus alunos e melhorar esse relacionamento. “Nós já sabíamos que é necessário trabalhar competências socioemocionais com os estudantes. Mas a plataforma apresenta um norte sobre como fazer isso de forma prática, indo além do discurso.”

Outro ensinamento da plataforma aos docentes é perceber que educação vai além do conteúdo do momento, conferindo importância à vivência, amizade, companheirismo e outros fatores. “A partir da Vivescer, nós passamos a entender novas formas de trabalhar e como isso é gratificante e traz resultados satisfatórios.”

Os ensinamentos também conversam diretamente com alguns pilares da educação. Apesar de concordar que o aluno deve ser o centro das reflexões, ela reforça que os docentes também devem receber atenção e cuidados direcionados, uma vez que representam uma parte importante do processo educacional. “Quando a Vivescer traz esse olhar para o professor, ela está dizendo que a valorização não passa apenas pela remuneração, mas sim a preocupação com o bem-estar do docente, necessário para que ele possa trabalhar bem.”

Essas percepções têm um efeito disseminador, uma vez que um professor que passa pelas jornadas vai puxando outros e influenciando positivamente toda uma comunidade. Com a ideia de multiplicar saberes, um professor cadastrado na plataforma pode mudar suas atitudes e passar isso adiante, o que acaba por refletir em seu comportamento com colegas e influenciá-los a mudar também.

 

 

Luciane Fernandes Ribeiro atua há 20 anos com educação. Formada em letras pela  Universidade Federal do Pará, atualmente leciona na rede municipal de Marabá, no Pará. Em 2012, foi reconhecida pelo Prêmio Educador Nota 10.

 

Falar a mesma língua é fundamental para incluir pessoas com deficiência, diz finalista do Global Teacher Prize

Doani Emanuela Bertan usa a educação e seu trabalho para construir conhecimento junto com seus alunos e, assim, oferecer possibilidades de escolha e transformação de suas vidas 
 
“Conhecimento não ocupa espaço e ninguém consegue tirá-lo de você”. Essa é uma das frases que mais marcaram a vida de Doani Emanuela Bertan, professora de língua portuguesa e de Libras (Língua Brasileira de Sinais). Por seu trabalho desenvolvido junto a turmas do terceiro ano do ensino fundamental em uma escola municipal de Campinas (SP), Doani foi reconhecida como uma das 10 finalistas do Global Teacher Prize 2020, premiação global que reconhece profissionais da educação do mundo todo.

Entretanto, qual caminho a educadora percorreu até ser selecionada entre 12 mil inscritos de 140 países? Tudo começa com a autora da frase que abre essa matéria: sua mãe. “Além de sempre ter gostado de ser professora das minhas bonecas, minha mãe sempre deixou muito forte na cabeça dos filhos que a educação transforma, e que, se quiséssemos sair da condição em que estávamos, seria por meio do estudo. Quando eu era criança, minha mãe era minha heroína, então levei essa fala muito a sério”, explica Doani, que também é embaixadora da Vivescer.

Esse incentivo veio desde muito cedo, quando, ainda menina, caminhava durante uma hora com a mãe para buscar livros na biblioteca municipal, cenário que só mudou quando sua escola construiu a biblioteca própria. “Na oitava série, quando me formei, tinha lido a biblioteca toda, menos a parte de romances, que não gostava muito. Acho que é por isso que sou tão criativa. Sempre tive essa ideia de que, se a educação pode promover transformações, eu queria oferecer isso a outras pessoas.”

Chaveirinhos e Xuxa: como Doani conheceu Libras  
A relação da professora com a língua brasileira de sinais começou por dois acasos quando ainda era criança: com o encarte de chaveirinhos vendidos nos semáforos por pessoas surdas, que vinha com desenhos do alfabeto de Libras, e com o lançamento da música do alfabeto da cantora Xuxa, também em Libras.

“Uma coisa que ficou muito marcada na minha mente é que, em várias situações, eu conversava com a minha mãe e irmã e ia treinando os sinaizinhos com as mãos. Nessa mesma época, a Xuxa lançou a música do abecedário todo em Libras.” Para Doani, esse interesse, que veio de forma natural, se deve pela valorização da comunicação. Ela reforça que acredita que a comunicação, ao romper barreiras, estabelece vínculos e relações, e é a partir das relações que é possível se transformar e transformar o meio no qual está inserido.

“Comunicação sempre foi algo me encantou, desde criança. Além disso, sempre fiz trabalhos manuais. Aprendi tricô com seis anos. Então acho que associou o interesse por comunicação, destreza e habilidade manual e ter uma mãe que sempre me incentivou. Os livros me trouxeram a criatividade e eu podia colocar em prática, não tinha ninguém para me podar. Pelo contrário. Se eu falasse ‘mãe, posso destruir esse tapete para fazer uma peruca da Emília?’. Ela me respondia que sim e que ficaria muito bom”, relembra Doani.

Curso e canal no YouTube  
Depois desse ponto de partida, Doani conta que, mais velha, em 2002, fez um curso de Libras, e conheceu uma amiga que a apresentou ao mundo da língua brasileira de sinais. Depois de anos de estudo, em 2017, teve a ideia de lançar um canal no YouTube para possibilitar que crianças surdas tivessem acesso ao que era trabalhado de forma presencial em sala de aula.

“Há escassez de material bilíngue para o público surdo. A criança surda recebe o mesmo livro didático da criança ouvinte. Mas, muitas vezes, acontece de ainda estar aprendendo Libras. Como professora de escola pública, entendo a questão das verbas para compra de material, então tentamos usar da melhor forma possível. Mas a perspectiva de que igualdade inclui não é real. Na verdade, igualdade também exclui porque não somos todos iguais”, explica a professora.

Nesse sentido, depois de receber diariamente ligações de seus estudantes para que ela auxiliasse com a tarefa de casa, Doani teve a ideia de criar um canal no YouTube partindo da equidade e pensando em atender às especificidades desse público, algo que, na época, não existia. Depois de muitas conversas, idas e vindas, reformulações, estudos e opiniões de diversos colaboradores, Doani lançou o Sala 8, em novembro de 2017. Hoje, com mais de 70 vídeos, o canal contabiliza mais de 7 mil inscritos.

Inclusão, convívio e interação 
Para Doani, não basta falar em convívio de estudantes com e sem deficiência em uma mesma sala de aula. De acordo com a professora, a real inclusão acontece pelas interações. “É importante que haja esse contato, mas que não se restrinja a compartilhar espaços. Isso não significa de maneira nenhuma estar incluído. Se as pessoas não falam a mesma língua, a barreira comunicativa estará ali.”

A inscrição no prêmio Global Teacher Prize veio justamente da vontade de conferir visibilidade à educação bilíngue, à educação de surdos, à Libras e à escola pública. “Eu carrego a bandeira da inclusão, mas não a inclusão igualitária. Não acredito na igualdade, acredito na diversidade e no respeito a ela. Ninguém nunca perguntou se uma pessoa surda, por exemplo, quer estar em uma escola especializada ou em uma escola inclusiva, porque nos julgamos melhores para decidir. Eu não concordo com isso.”

O que motiva Doani a continuar com seu trabalho é a possibilidade de construir conhecimento junto a seus alunos e, com isso, oferecer a eles a possibilidade de escolha e de transformação de suas vidas. “Inclusão virou um jargão. É uma prática bonita, sim, quando bem feita, mas também pode ser muito cruel e totalmente excludente. Acredito que inclusão é quando você oferece conhecimento e meios para aquele aluno se desenvolver e fazer suas escolhas”, completa.

Confira aqui o perfil da educadora no site do Global Teacher Prize.

Pesquisas mostram as percepções de professores e alunos sobre o ano letivo de 2020

Com 2020 chegando ao fim, já é possível entender com mais clareza o que significou esse ano letivo atípico para a comunidade escolar em meio à pandemia do coronavírus (Covid-19).

Com professores sobrecarregados e alunos com problemas de acesso à internet e computadores, a experiência de aulas remotas mexeu muito com o emocional e demandou que todos aprendessem rápido a lidar com plataformas digitais que não eram usadas de forma constante em anos anteriores.

Só que o período de fechamento das escolas foi maior que o esperado e muitos alunos têm demonstrado a desmotivação com os estudos. Uma série de pesquisas recentes, com a participação de estudantes, educadores e gestores, resumem o que é ensinar e aprender longe da escola.

 

Professores preocupados
Voltar à sala de aula é motivo de preocupação para a maior parte dos educadores. A pesquisa “Sentimentos e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil”, do Instituto Península, realizada entre julho e agosto mostrou que, numa escala de 0 a 5, em que zero é nada confortável e cinco muito confortável, a média do nível de conforto de professores das redes privada, estadual e municipal em relação a volta às aulas é de 1,07.

Entre as maiores preocupações dos docentes, estão: o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação do coronavírus (86%), lidar com o receio da contaminação do coronavírus (83%) e recuperar a aprendizagem perdida dos estudantes com a retomada das aulas presenciais (67%).

Quando perguntados sobre os apoios mais necessários na volta às aulas, orientações para lidar com os protocolos de retorno e questões de saúde (73%), assim como apoio para dar suporte emocional para os alunos (68%) e, finalmente, receber atendimento emocional para si (56%) são os mais citados.

 

Fatores que dificultam o acesso
Enquanto as aulas remotas continuam, o estudo Painel TIC COVID-19, divulgado em novembro pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), reitera a dificuldade de conexão por parte dos alunos, que nas classes mais pobres adotam o celular para acompanhar as aulas, o que já limita a possibilidade de produzir conteúdos ou de acompanhar aulas mais diversificadas. No entanto, chama a atenção para outros fatores que interferem na rotina do estudante, como a crise financeira.

Com a renda familiar comprometida, entrevistados citam a necessidade de buscar emprego (56%); de cuidar da casa, dos irmãos, filhos ou de outros parentes (48%). Longe do convívio social que escolas e universidades proporcionam, 45% também disseram que não acompanham aulas por falta de motivação.

 

Estudantes desmotivados
Ainda sobre a desconexão com os estudos, a pesquisa  “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus”, promovida pelo CONJUVE (Conselho Nacional da Juventude), alerta que essa falta de engajamento pode trazer prejuízos para além da vida escolar. Em junho, quase 30% dos jovens pensavam em deixar a escola e, entre os que planejavam fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), 49% já pensavam em desistir.

Divulgada também em novembro, uma quarta onda da pesquisa Datafolha, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures também alerta que 54% estão desmotivados, mesmo em uma situação em que 92% dispõem de materiais didáticos (uma alta expressiva em relação a maio, quando 74% acessavam recursos pedagógicos)

O mesmo estudo apontou que diante de todas as dificuldades enfrentadas pelos alunos,  51% das famílias consideram que estão participando mais da educação dos estudantes, no período da pandemia. Além disso, uma outra boa notícia, 71% dos responsáveis pelos estudantes reconhecem e estão valorizando mais o trabalho desenvolvido pelos professores.

 

 

Foto: jcomp/Freepik

A importância da sensibilidade e o autoconhecimento como fonte de inspiração para professores

A importância da sensibilidade e o autoconhecimento como fonte de inspiração para professores“Com o socioemocional Quase sempre revirado, O valente educador Tem ficado atribulado. Tem feito de tudo um pouco, Tem vivido no sufoco, E muitas vezes, calado.” Esse é um trecho de um cordel escrito por José Gilson Lopes Franco, um dos professores embaixadores da Vivescer.

Especialista no ensino da Língua Portuguesa, Gilson comenta que conhecer a plataforma foi como um divisor de águas em sua vida, mudando a forma como se relaciona tanto no ambiente de trabalho como com sua família. “A Vivescer chama atenção para a importância dos professores e do trabalho com a emoção, além da necessidade de estarmos bem consigo mesmo para estar bem com o outro. O professor que está bem interiormente é capaz de coisas incríveis.”

Assim como muitos outros educadores que navegam pelas jornadas e trajetos propostos na plataforma, Gilson tomou conhecimento da ferramenta por indicação de outros dois colegas embaixadores que, como ele, integram um coletivo de professores do Brasil no Facebook. “A professora Rita Vasconcelos, com quem eu tinha contato, me indicou a plataforma e contou que a jornada emoções foi a que mais tinha gostado.”

Essa é uma frase comum entre diversos professores embaixadores da Vivescer. Eles afirmam que, até conhecer a proposta da ferramenta de realmente olhar para dentro de si e analisar seus sentimentos, muito passava despercebido. Gilson também começou seus trabalhos pela jornada emoções e, para ele, que é poeta e cordelista, o caminho para o autoconhecimento foi ainda mais especial.

“Nós vamos vivendo meio no automático, cumprindo nossas obrigações e afazeres, sem tempo para observar como é importante estar bem consigo mesmo. Há muito tempo que não encontrava razões para escrever. Mas passar por essa jornada me fez olhar para dentro de mim e, a partir de um olhar de sensibilidade, voltar a escrever. Só nesse ano, produzi de 30 a 40 cordéis”, explica o educador.

Para ele, além dos ensinamentos, a Vivescer oferece um espaço para que professores de todo o Brasil possam estabelecer uma ligação de qualidade entre si, em conexões sensíveis, acolhedoras e que priorizam o olhar sobre esses profissionais a partir de seu lado mais sensível.

O professor além da sala de aula
Para Gilson, um dos pontos altos da plataforma é que, ao trabalhar o professor em diferentes dimensões, os ensinamentos reverberam para além do profissional, como em sua prática na sala de aula com os estudantes, com os colegas de profissão e também fora do âmbito da escola.

“Antes da Vivescer, eu já fazia uso de algumas estratégias voltadas ao socioemocional, mas era sem muito estudo e formação. A plataforma trouxe isso, e os ensinamentos não são pontuais. As jornadas mexem com o íntimo da gente, e há um contato permanente entre os professores cadastrados. Essa conexão empodera muita gente”, explica.

Essa autopercepção levou o educador a tomar mais do seu tempo para reparar ao redor e fazer ajustes que, mesmo pontuais, surtem grandes e importantes efeitos. Observando que os alunos esperavam muito tempo para encontrar um lugar no refeitório na hora do almoço, Gilson passou a fazer esse horário em sala de aula, o que, segundo o professor, gerou emoção e valor entre os estudantes.

“Eu quero ser reconhecido e lembrado como alguém que foi capaz de amar os seus alunos, alguém que foi capaz de propor almoços, que foi capaz de abrir mão do seu planejamento para jogar uma partida de voleibol na quadra, de futebol. Uma pessoa capaz de abrir mão do seu intervalo para ficar com eles. Nós não temos noção do quanto isso empodera as crianças”, comenta o educador.

Trecho do cordel “Os desafios do professor em tempos de pandemia e a importância do autocuidado”.

Tem uma íntima ligação
Do que o professor sente
Com o momento que vivemos,
Pois é tudo diferente.
Em tempos de pandemia,
Que abalam a nossa alegria,
Tudo ocorreu de repente.

Com o socioemocional
Quase sempre revirado,
O valente educador
Tem ficado atribulado.
Tem feito de tudo um pouco,
Tem vivido no sufoco,
E muitas vezes, calado.

Cobranças de toda parte
Se dirigem ao professor,
Que com a cabeça erguida
Demonstra o seu valor.
Nunca se dá por vencido;
É ousado e atrevido,
É, de fato, um sonhador.

A aula foi transferida
Para a sala de estar.
O modelo agora é outro,
Tivemos que adaptar:
Por vezes, aulas gravadas,
Remotas, mas planejadas;
Outras formas de ensinar.

Estimado professor,
Adorável professora:
Vocês são a esperança
De uma nação promissora,
Depositando uma semente,
Crendo muito firmemente
Na escola transformadora.

 

A sensibilidade como forma de resistência
Gilson comenta que dedicou-se inteiramente à jornada emoções, sem deixar nenhum conteúdo sem ser visto nos mínimos detalhes. Para ele, essa dedicação trouxe novas descobertas a cada exploração. “Eu chorei para lavar a alma mesmo. Pude olhar para dentro de mim, perceber como sou importante, quem eu sou, e assim, melhorar para o meu aluno e para a minha família.”

Enquanto docente, ele comenta que é necessário ir além do que a profissão pede. “De vez em quando, temos que fazer alguns atrevimentos. Temos que ter muita criatividade, mas também muita paixão para se manter animado, com a narrativa sempre otimista e alto astral, porque realmente não é fácil.”

Apesar dos desafios, ele vê na comunidade de professores um refúgio, onde pode recarregar as energias e se inspirar com as trajetórias e vivências dos colegas. “O professor embaixador da Vivescer tem que ter esse perfil. É o cara que traz conhecimento, serenidade, que tem uma fala mansa e acolhedora, mas também é sensível, criativo, apaixonado. Não é por acaso que professores incríveis estão na Vivescer. Eles são capazes de mudar uma escola e toda uma região.”

Gilson completa afirmando que, nesse momento, a função desses atores é mostrar para outros profissionais da educação a importância da sensibilidade e da capacidade de amar, entendendo que a educação tem desafios, mas que existe beleza em ser educador.

***
José Gilson Lopes Franco é licenciado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará, especialista em ensino da Língua Portuguesa, professor de Língua Portuguesa na Rede Pública Municipal de Fortaleza (CE), coordenador da Rede Conectando Saberes, apoiada pela Fundação Lemann, poeta e cordelista. Está na educação pública há 15 anos e, atualmente, é professor de Língua Portuguesa de turmas do Ensino Fundamental 2 na Escola Municipal de Tempo Integral Prof. Ademar Nunes Batista, em Fortaleza.