Pandemia traz a urgência de discutir solidariedade e ações de cidadania em sala de aula

O contexto de emergência reforçou debates sobre empatia, cultura de doação, solidariedade e responsabilidade coletiva. Saiba por que e como professores podem trabalhar os temas durante as aulas

O financiamento coletivo foi uma das principais ferramentas usadas por diversos setores desde a chegada do novo coronavírus no país. O Monitor das Doações, por exemplo, criado para contabilizar o montante doado, aponta mais de R$ 6 bilhões arrecadados em todo o Brasil. Essa mobilização e o próprio estado de emergência colocaram na pauta do dia assuntos como solidariedade, apoio, cultura de doação, empatia, responsabilidade coletiva e muitos outros, que invariavelmente chegaram aos ouvidos das crianças.

Para Marina Pechlivanis, sócia da Umbigo do Mundo e idealizadora da Plataforma Todo Dia é Dia de Doar Kids, a pandemia fez com que esses temas ficassem muito mais próximos da realidade de crianças e jovens, com um conjunto de fatores atuando nessa direção. Muitas pessoas que perderam empregos precisaram buscar fontes de renda alternativas, grupos organizaram campanhas para vizinhos, amigos e conhecidos, multiplicaram-se as arrecadações de alimentos e iniciativas que passaram a ser abordadas diariamente pela mídia.

“Não dá para generalizar, mas assuntos como gentileza e generosidade eram tratados pontualmente pelas famílias com as crianças. Era um tema que vinha à tona no Natal, em alguma data especial ou quando a criança via uma pessoa na rua, por exemplo. A pandemia criou um contato sem precedentes com o assunto, e de forma inesperada as crianças tiveram que se aproximar de todo esse repertório”, explica Marina.

 

Importância da mudar a abordagem

Katia Campanile, consultora em aprendizagem solidária, vê a questão por outro ângulo. Para ela, esses temas não ficaram tão próximos de crianças e jovens durante a pandemia quanto poderiam, já que muitas escolas ainda seguem um padrão conteudista e, por priorizar as disciplinas tradicionais, não abrem espaço para debater outros temas.

“Um dos pontos que explicam por que o tema não está tão evidente é porque infelizmente escolas não tiveram como premissa oferecer espaço e tempo para olhar para essas questões. Em escolas que ainda são focadas no conteúdo e que não respeitam a capacidade de concentração dos estudantes, fica tudo mais exaustivo. Por outro lado, aquelas que já romperam com esse olhar conteudista e que consideram a BNCC [Base Nacional Comum Curricular] e apoiam o trabalho nas habilidades, competências e projeto de vida, têm uma vantagem maior”, explica.

Katia defende que, nesse momento, uma possibilidade é adotar a aprendizagem solidária, ou seja, propor ações solidárias atreladas a eixos de aprendizagem do currículo como uma forma de aproveitar temas que estão em alta devido à pandemia e abordá-los em sala de aula, seja presencial ou virtualmente.

“É possível estudar um desafio social brasileiro levando em consideração os aspectos geográficos, políticos, históricos, de línguas, artes e diversos outros eixos, por exemplo. O bacana disso tudo é que, no final, esse trabalho dá origem a ações mais consistentes com maior possibilidade de promover transformações.”

 

Participação das famílias

Um dos pontos fundamentais desse trabalho voltado à solidariedade desde cedo é a participação das famílias. Estabelecer essa parceria possibilita a aproximação e fortalece relações. Além disso, Katia reforça que esse contato mais próximo pode, inclusive, potencializar ações dentro e fora da escola.

“Em 2019, quando no episódio do derramamento de óleo no litoral brasileiro, as crianças estavam muito preocupadas. Tenho relatos de alunos que falaram para os pais que não podiam jogar plástico fora porque as praias estavam cheias de óleo e as tartarugas não poderiam lidar com as duas coisas. Então mesmo famílias nas quais isso não era costume, passaram a mudar o comportamento diante de materiais recicláveis, por exemplo. As crianças têm um potencial incrível de ver o mundo com a lente delas, às vezes muito mais prático do que nós”, explica a consultora.

 

Existe assunto de criança?

Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu – ou até mesmo falou – “isso não é assunto de criança”. Mas no caso de solidariedade e empatia, é sim. Para Marina, quanto antes esse tipo de repertório for discutido com os alunos, mais cedo despertarão sua consciência social, o que, consequentemente, terá efeitos disseminados nas sociedades do futuro. “Devemos entender que, além de seus direitos, as crianças também têm deveres cívicos e para com o próximo, já que vivem em uma sociedade na qual todos os processos são interdependentes.”

O projeto Todo Dia é Dia de Doar Kids visa trabalhar um conjunto de sete princípios com as crianças: gentileza, generosidade, sustentabilidade, solidariedade, respeito, cidadania e diversidade. Para Marina, a não valorização desses temas explica diversos acontecimentos atuais, como a inconsequência de gestos políticos e econômicos. “Se você aprende ou tem contato com esses temas desde cedo, naturaliza gestos e hábitos que, depois de crescidos, fica bem mais difícil de entrar com essa informação. As crianças captam as informações muito rápido e facilmente, e logo entendem que ser generoso é bom, ser gentil é melhor ainda e que quando ela doa, a sociedade ganha como um todo.”

Iniciar esse tipo de discussão desde cedo significa atuar na formação das pessoas, e não na correção de um comportamento. “Se a escola não oferece tempo e espaço para esse tipo de diálogo, como saberemos de fato se crianças têm ou não maturidade para essas discussões? Eu discordo. Acredito que elas são solidárias em sua essência”, completa Katia.

 

Como debater o tema

Existe uma multiplicidade de atividades a serem realizadas com os estudantes para refletir, debater e colocar os temas em prática. No âmbito da doação, as crianças podem fazer as doações mais intuitivas, como brinquedos ou roupas. Marina aponta, entretanto, que também é possível doar tempo para ensinar alguma coisa que se sabe.

Já na sala de aula, seja presencial ou virtual, a especialista reforça a importância de professores e estudantes mapearem junto a comunidade onde a escola está inserida e, a partir desse levantamento, elencar possibilidades de ações. No contato com associações e instituições do entorno, as crianças podem compreender quais são as maiores necessidades.

“Ao invés de só pedir alimentos, por exemplo, é importante trazer o problema para a sala e discuti-lo. Tenho certeza que os alunos trarão soluções muito especiais para resolver os desafios. Isso é assunto para criança sim, pois é a comunidade delas, e essa é uma forma de tratarem dos desafios conjuntamente e pensar na melhor forma de resolvê-los”, explica Marina.

Katia, por sua vez, reforça outras possibilidades, como alinhar as propostas pedagógicas com a BNCC e o trabalho por competências e habilidades, e aponta para a importância do protagonismo dos alunos. Ela cita uma experiência que usou a metodologia de aprendizagem por projetos para trabalhar desafios sociais e alimentação. Um dos grupos decidiu falar sobre o tema a partir da ótica de desigualdade social. Apesar de ter iniciado a pesquisa olhando para a África, os estudantes perceberam que também existe fome na cidade de São Paulo, e com isso quiseram saber como contribuir.

“Nesse projeto os estudantes trabalharam química, usaram matemática para entender quanto de alimento precisavam para fazer kits de entrega, envolveram arte para fazer as embalagens. Por isso sempre reforço a importância de perguntar aos alunos. São perguntas simples. ‘Como você acha que as pessoas estão se virando para se alimentar?’ ‘Como uma pessoa em situação de rua tem acesso a água potável?’. Eu acho uma tristeza e um desperdício as escolas estarem só focadas em resultado e desempenho. Infelizmente não existe momento melhor para falar sobre isso do que o que estamos vivendo”, completa Katia.

 

* Conteúdo em parceria com Porvir

 

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Campanha propõe reflexão sobre mudanças necessárias nas escolas no pós-pandemia

Iniciativa do Centro de Referências em Educação Integral, a campanha #ReviravoltaDaEscola reúne ideias para um novo modelo de escola que faça sentido para educadores, alunos e famílias 

Incentivar uma reflexão sobre qual é o papel da escola hoje e no cenário de pós-pandemia, bem como assegurar que a transformação da educação seja sinônimo de garantia de direitos são alguns dos principais objetivos da campanha #ReviravoltaDaEscola.

Apesar de o momento de emergência ter delimitado o que é possível de ser feito, Helena Singer, vice-presidente da Ashoka para a América Latina – uma das organizações que integram a campanha –, explica que tem visto algumas iniciativas que estão tentando promover mudanças, ainda que pontualmente.

“Tenho recebido notícias de coisas novas que se criam sem necessariamente um planejamento, mas que são, de fato, muito transformadoras no universo escolar. Um exemplo simples: a professora estava dando aula e a avó de um dos alunos estava no mesmo ambiente do neto e acompanhou a aula. Aquilo não estava no planejamento e a professora não estava preparada, mas a participação da avó na aula foi muito rica e contribuiu para a conversa. Outro caso é que professores percebem que os alunos não estão realizando nenhuma tarefa de casa. Assim, decidem se organizar e mandar uma única proposta conjunta. O trabalho interdisciplinar, que nunca antes foi colocado em pauta e planejado em uma escola regular, passa a acontecer”, explica Helena.

Diante de inúmeros debates que estão marcando a educação nesse momento, como discussão sobre o retorno ou não das aulas presenciais, a vacinação de professores e funcionários e o atendimento prioritário às crianças e jovens, Helena reforça que um movimento como a #ReviravoltaDaEscola é importante por promover uma mudança coletiva de postura e atitude.

“O que nós podemos fazer é aprender com essa experiência para projetar um mundo melhor que esse. Precisamos entender o que causou a pandemia e como nos organizamos enquanto humanidade para evitar que aconteça novamente, além de, coletivamente, reinventar práticas, instituições, relações e projetos. Isso nos dá energia e ânimo e estimula a solidariedade, pois é um trabalho colaborativo que ajuda a não cair no desespero e enxergar novas possibilidades.”

Participação das famílias  

Algumas escolas já estão usando o momento de suspensão de aulas presenciais para repensar seu funcionamento e os moldes das instituições de ensino brasileiras. É o caso do Centro Municipal de Educação Infantil Pio Bittencourt, em Salvador (BA). Sob a gestão de Consuelo Almeida, o centro deu início, em 2020, a um processo de reconstrução de suas práticas.

A instituição já contava com alguns projetos que prezavam pela gestão democrática da escola, o que implicava na ampla participação das famílias em diversos processos, bem como na intersetorialidade, isto é, parceria com diversos setores e instituições em prol do bom cuidado para com as crianças, como postos de saúde, universidades e conselho tutelar, por exemplo.

Consuelo explica, ainda, que mesmo que a prefeitura de Salvador tenha os protocolos próprios de retorno que as escolas devem seguir, cada instituição pode elaborar suas diretrizes. Para isso, a escola realizou algumas pesquisas junto às famílias, como para entender quais redes sociais eram mais utilizadas e quais seriam as mudanças necessárias na rotina da instituição para aquelas que se sentissem confortáveis em mandar novamente os filhos para a escola.

“Nós procuramos ouvir essas famílias sobre as estratégias que usamos nos vídeos produzidos pelos professores e também nos blocos de vivência impressos. Quisemos saber o que acharam da qualidade dos materiais, se estavam ajudando ou não, se eles conseguiam entender as propostas e quais eram as maiores dificuldades, ao que responderam que era o tempo para estar junto com a criança e executar as atividades”, afirma a gestora.

Atenção ao professor 

Antes de todo esse processo, entretanto, a escola precisou dar dois passos atrás para atender a equipe de professores e funcionários, que, com a chegada da pandemia no Brasil e a falta de respostas concretas sobre o cenário, sentiu-se vulnerável e fragilizada. Nesse sentido, Consuelo explica que a instituição continuou com a ideia de pensar articulações com as famílias nesse momento inicial e, paralelamente, também apoiar os próprios funcionários da instituição por meio de uma rede de parceiros.

“Nós trouxemos terapeutas e psicólogos para realizarem oficinas de relaxamento e respiração, promovemos uma conversa com uma infectologista da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) para explicar a doença e criamos o Café Pedagógico, que são encontros sobre poesia e bate-papo. Se alguém demandasse um atendimento mais individualizado, verificávamos se algum psicólogo poderia atender gratuitamente. Com isso, fomos fortalecendo nossa equipe para que, depois, o planejamento pudesse fluir.”

Outro ponto de destaque ao longo de 2020 foi a possibilidade de entrar em contato com redes de ensino de outras regiões e compreender o que estavam vivenciando e quais soluções estavam adotando para seus desafios. Nessa linha, ela reforça a importância de considerar as particularidades e características dos territórios, bem como incentivar a participação de diversos atores na elaboração dos protocolos de retornos e das mudanças que serão necessárias para as escolas no pós-pandemia.

“Não dá para o Executivo e as secretarias de educação do município ou do estado fazerem protocolos únicos ou pensarem a rede como uma só. É importante que se pense não de forma globalizada nem uniforme, mas sim respeitando as especificidades de cada local a partir de uma escuta”, completa.

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* Conteúdo em parceria com Porvir

Como a formação continuada de professores pode ajudar o ensino durante a pandemia

Estratégias inovadoras usadas na formação inicial podem ser adaptadas para formações online, estreitando laços entre teoria e prática na sala de aula.

A formação de professores é uma verdadeira equação constituída por etapas finitas e contínuas durante a trajetória profissional, que devem observar tanto aprendizados teóricos, a prática e também o desenvolvimento integral do educador enquanto ser humano.

A formação inicial, por exemplo, é uma etapa que precisa ser repensada, o que já vem acontecendo em diversos países que têm promovido maior aproximação entre teoria e prática. Esse movimento de aproximar o que futuros professores veem ainda enquanto estudantes e o que vivenciam em estágios durante sua formação também pode ser aplicado na formação continuada, outra fase importante da trajetória profissional.

“Esse movimento de buscar na teoria subsídios que ajudem a resolver questões da vida real na escola tende a ser muito mais eficiente e ter muito mais impacto tanto na formação do professor, quanto em sua atuação em sala de aula, o que vai se refletir na melhor aprendizagem dos alunos. Países com resultados de aprendizagem mais satisfatórios do que o Brasil realizam as formações dessa maneira”, explica Maria Alice Carraturi, doutora em educação pela USP (Universidade de São Paulo), organizadora da BNC (Base Nacional Comum para a Formação de Professores) e uma das consultoras da nota técnica “Formação inicial de professores: Uma visão para a construção de propostas pedagógicas orientadas para a prática”, publicada pelo Instituto Península

A especialista comenta que as formações brasileiras são demasiadamente teóricas, e que palestras sobre um determinado tema, como metodologias ativas, por exemplo, têm baixo impacto efetivo na atuação do professor em sala de aula. Adotar formações mais práticas e “mão na massa”, entretanto, não significa fazer com que o professor vivencie as mesmas propostas que irá oferecer a seus alunos. “O docente é um adulto, com um desenvolvimento cognitivo diferente do estudante. O que ele precisa entender é quais são as competências e habilidades que são desenvolvidas com determinada proposta ou objeto, quais são os raciocínios dos alunos e como é possível ajudá-los a atingir níveis mais elevados de compreensão”, explica Maria Alice.

 

Importância da formação continuada

Estudos e pesquisas mostram que os docentes brasileiros buscam cursos, formações e atividades para se manterem atualizados, ao passo que o contexto da pandemia de Covid-19 chamou ainda mais atenção para a importância desse constante aprimoramento. Na primeira etapa da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, do Instituto Península, 60% dos professores indicaram que estavam usando seu tempo para estudar e se aprimorar.

Maria Alice pontua que as formações continuadas, sobretudo no momento de pandemia que migrou desde a educação infantil até o ensino superior para o ambiente online, devem se atentar a três pontos principais. São eles: 1. investir em reflexões e planejamentos, 2. que ajudem a modelar essa nova metodologia de ensino para a educação básica que é a educação a distância – inclusive inspirando-se na experiência EAD no ensino superior -, e 3. entender quais mídias estão disponíveis e qual é a melhor forma de usar cada uma delas.

“Neste momento, existem vários recursos online, mas eu acredito que o principal é colocar o professor como pensador, pesquisador, que comece na prática, vá para a reflexão, e volte para a prática. Nós nunca podemos perder o contato com a sala de aula, pois ela é o grande foco de atuação e pesquisa e precisa estar sempre em voga”, afirma.

Vale ressaltar que um dos pilares para que o professor esteja bem em sala de aula é a atenção ao lado emocional. Para Maria Alice, o desenvolvimento socioemocional docente é fundamental não apenas por conta do próprio professor enquanto ser humano, mas também para que seja possível o mesmo trabalho com os alunos. Além disso, a especialista pontua que, apesar de muitas pessoas estarem preocupadas principalmente com conteúdos curriculares, o momento também pode ser usado para o desenvolvimento de competências gerais descritas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), como solidariedade, relacionamento, flexibilidade, comunicação e outras.

 

Estratégias para formação continuada e online

Algumas estratégias que são aplicadas na formação inicial podem ser adaptadas para a formação continuada de professores. Entretanto, o momento impõe um desafio a mais: a necessidade de fazer as formações a distância, em razão do agravamento da pandemia. Maria Alice cita alguns exemplos que podem ser adaptados para as capacitações online. Confira a seguir.

→ Troca de experiências entre professores da mesma escola de forma estruturada

“Na Finlândia e na China, o locus de formação é na escola e entre pares. Os próprios professores se organizam e fazem a formação. Na Finlândia, se um professor faz um curso, depois ele compartilha com outros colegas da escola. Se um aprende uma coisa diferente, divide com os outros. Também existem as formações oferecidas pela rede no início do semestre letivo, mas durante o ano são os docentes que tocam o processo.”

→ Filmar a aula

“Tem algumas técnicas usadas na formação inicial por instituições de ensino superior públicas de Michigan, nos Estados Unidos, que podem ser usadas na formação continuada, como o professor filmar a sua aula e discuti-la posteriormente com colegas a partir de rubricas de qualidade. Não basta assistir o vídeo e discutir, mas sim eleger um critério para avaliar a aula ministrada. Nesse processo é possível identificar falhas, ganhos e o que ainda pode melhorar.”

→ Assistir gravações de aulas de terceiros

“É possível encontrar aulas online de professores desconhecidos, criar rubricas sobre o que os professores deverão olhar no vídeo e depois discutir o conteúdo. Essa análise e trabalho de reflexão pode ajudar a pensar o que faria se isso acontecesse em sua sala de aula, e faz o professor refletir sobre sua prática.”

→ Transcrição

“Uma estratégia é ter casos, reais ou fictícios, apresentados aos professores com um objetivo de aprendizagem. Essa transcrição pode ser de uma boa prática ou não. E então, usando critérios, o professor reflete como atuaria naquela situação. Existem diversas situações em sala de aula que o professor tem uma reação mais imediata. Mas ter esses momentos em que ele pode refletir sobre esses eventos reais e ver situações similares, possibilita uma reação mais apropriada da próxima vez. O exemplo usado pode ser, inclusive, de vivência dos próprios professores, em um movimento de discutir um problema da vida real no grupo e depois procurar algo teórico nesse sentido, sobre quais reflexões já foram feitas sobre o tema.”

→ Dramatização

“A dramatização consiste em colocar cinco professores atuando em determinada situação como quando, por exemplo, um aluno xinga o outro em sala de aula. O que o professor pode fazer na hora? Ele pode ficar bravo, pode conversar. Mas essa conversa precisa ser qualificada, para que ele aborde a questão de um jeito que leve o estudante a refletir.”

→ Vivência de ambientes de bem-estar

“Na Finlândia, o bem-estar faz parte do currículo. Ele é essencial para a realização pessoal. Não tenho dúvida que isso tem um significado muito importante não apenas na formação do professor, mas em sua vida. É necessário que a pessoa esteja em um ambiente acolhedor e amigável para desenvolver o bem-estar, e acredito que nós aprendemos melhor quando vivenciamos alguma situação, do que quando só ouvimos alguém falar sobre. Por isso, é importante que o professor vivencie ambientes de bem-estar na formação continuada, para que ele possa observar e replicar em sua sala de aula.”

 

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* Conteúdo em parceria com Porvir

Pandemia e tecnologia: por que algumas propostas são e outras não são consideradas ensino híbrido?

Como definições diversas, modalidade de ensino que integra o presencial e o online prega protagonismo estudantil e visa despertar curiosidade e criatividade dos alunos.

Por mais que seu uso não seja novidade para a educação, a tecnologia figurou como protagonista em 2020 por possibilitar que milhões de estudantes ao redor do mundo continuassem conectados às suas escolas, universidades e professores. Esse novo elemento na equação que é o processo educacional trouxe avanços, adaptações, processos de tentativas e erros e também muitas dúvidas.

Ao longo dos meses, foi possível notar escolas que adotaram diferentes estratégias para manter o contato com os alunos. Se algumas driblaram a falta de internet e equipamentos enviando apostilas aos estudantes em casa, outras criaram grupos de discussão no WhatsApp, promoveram encontros por plataformas online, fizeram transmissões e muitas outras ações. Entretanto, algumas medidas estão sendo erroneamente classificadas como ensino híbrido, o que tem contribuído para disseminar concepções incorretas sobre a abordagem.

 

Multiplicidade de conceitos e abordagens 

Leandro Holanda, diretor da Tríade Educacional, explica que o conceito começou a ser discutido muito antes do surgimento do novo coronavírus por uma gama de autores, o que acarreta a existência de diferentes abordagens e compreensões sobre o mesmo tema.

“Existem vários referenciais e o que nós seguimos é a abordagem dos autores Clayton Christensen e Michael Horn, que define ensino híbrido como uma modalidade de ensino que integra o presencial e o online”, afirma Leandro.

Mas o que tem se observado durante a pandemia é a substituição da parte ‘online’ do conceito por atividades remotas, ou seja, na casa de cada estudante. Portanto, o que está acontecendo em 2021 com a reabertura parcial das escolas é a integração entre aulas presenciais e propostas remotas.

“Até a pandemia, as dinâmicas estavam muito focadas no ensino híbrido que acontecia dentro da escola, na sala de aula. Essa etapa remota praticamente não existia. A discussão estava focada nas dinâmicas, nas metodologias ativas e em como colocar o aluno no centro do processo. Hoje, o debate enveredou para um lado que é como cuidar, ao mesmo tempo, de quem está na escola e em casa. E essa não é a discussão do ensino híbrido”.

Leandro explica que um dos princípios da modalidade é criar estratégias para engajar os estudantes. Muitos modelos adotados de forma emergencial por algumas escolas diante da pandemia não têm essa preocupação, e sim dão prioridade para um mesmo professor conseguir atender dois grupos de estudantes. “Para alguns autores, a transmissão das aulas é um modelo possível de ensino híbrido, mas essa configuração não estimula criatividade e colaboração entre os alunos. É um modelo com foco na logística, e não no pedagógico.”

Além disso, a mera transposição das aulas que eram realizadas presencialmente para o online tem contribuído para criar certa resistência dos estudantes diante das aulas remotas. Isso porque não promover adaptações e submetê-los a longas jornadas diante da tela, além de não estimular a criatividade e protagonismo, é cansativo.

 

Estratégias para a pandemia

●      Sala de aula invertida

Existem alguns princípios dessa modalidade de ensino que podem ser úteis principalmente nesse momento de aulas semipresenciais e rodízio entre grupos de uma mesma turma. Um deles é a sala de aula invertida: o estudante recebe uma proposta para fazer em casa e, quando for presencialmente para a escola, a aula terá início com uma discussão do que foi feito em casa. Essa técnica também pode ser aplicada ao trabalho com projetos. “Uma atividade não vai sobrepor o que já foi feito, mas sim trabalhar em cima da produção feita de forma assíncrona em casa. No presencial, o aluno conta o que fez em casa e reflete sobre os conteúdos envolvidos nessa experiência.”

●      Uso de dados e acompanhamento das produções

A tecnologia também pode ajudar os professores a elaborar as atividades e pensar na configuração dos grupos de alunos de forma a potencializar a aprendizagem. Algumas ferramentas podem ajudar o professor a entender se os estudantes estão ou não fazendo os trabalhos e, a partir desses dados, ele pode criar grupos específicos para ajudar a combater a defasagem da aprendizagem.

Por exemplo: se o professor já sabe que determinado grupo de estudantes não está realizando as propostas, para o dia que esse grupo frequentar a escola, serão necessárias atividades de reforço. Já para aqueles que estão realizando os trabalhos, o momento em sala de aula será destinado para aprofundar os conhecimentos.

Essas informações podem ser coletadas em planilhas ou até mesmo de forma mais simples: estudantes que realizam as propostas podem enviar fotos, áudios e vídeos curtos para o professor. “Acredito que o maior risco das atividades é os alunos se sentirem sem suporte e apoio dos professores. De certa forma, esse acompanhamento mostra que as atividades estão sendo vistas. Sabemos que o processo não se restringe a entrega de conteúdos, mas nesse momento estamos lutando para não perder alunos. Então em uma primeira camada pode-se verificar se estão fazendo ou não e, na segunda, mais profunda, como e o quanto estão aprendendo.”

●      Replanejamento curricular

Um movimento que pode ser interessante nesse momento é repensar o currículo e esclarecer o que é essencial que os alunos aprendam. Para isso, Leandro indica os Mapas de Foco produzidos pelo Instituto Reúna.

 

O que é e o que não é?

Definir o que é e o que não é ensino híbrido é uma tarefa desafiadora justamente por existirem muitos autores com diferentes concepções e abordagens do mesmo conceito. Entretanto, ao seguir a visão de determinado autor, é possível estabelecer alguns limites da modalidade. Seguindo a concepção de Clayton Christensen e Michael Horn, Leandro explica que:

Não pode ser configurado como ensino híbrido:

●      estratégias voltadas apenas a resolver a logística presencial e à distância de professores e estudantes;

●      gravação e envio de videoaulas como única estratégia sem outros complementos;

●      abordagens que não façam uso de metodologias ativas.

Pode ser considerado ensino híbrido:

●      integrar atividades online com atividades presenciais;

●      possibilitar e planejar processos que estudantes tenham contato entre si;

●      pensar em propostas que envolvam uma camada de produção dos estudantes além das videoaulas e textos, de forma a incentivar processamento e reflexão das informações.

 

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Flexibilidade e acolhimento são chave para apoiar o trabalho do professor diante das incertezas

Professores embaixadores da Vivescer relatam receio de contaminação e importância do acolhimento e flexibilidade para adaptar processos nesse período

Se no final de 2020 a maioria das pessoas não acreditava que 2021 traria de volta a vida nas escolas, o aumento no número de infectados e vítimas da doença no Brasil demanda ainda mais paciência e novas medidas para possibilitar a continuidade da educação. O cenário criou terreno fértil para o surgimento de múltiplos arranjos adaptados à realidade enfrentada em cada região. A Vivescer conversou com dois de seus embaixadores para entender como tem sido o início das aulas.

A escola Nelson de Miranda Coutinho, da rede municipal de Joinville, em Santa Catarina, por exemplo, dividiu as turmas em dois grupos, que fazem um rodízio semanal. O grupo que está em casa recebe atividades via plataforma do Google. “Nós planejamos um roteiro de estudos quinzenal, onde o professor já contempla atividades presenciais e remotas. Para alunos que não têm acesso à internet em casa, a escola disponibiliza tablets com todos os materiais de maneira offline para que as crianças possam acompanhar as atividades de casa”, explica Rosiane Justino, coordenadora pedagógica da escola.

A realidade é bem diferente em Paripiranga, município da Bahia. José dos Santos, mestrando em linguística e professor de Língua Portuguesa da escola municipal Maria Dias Trindade, explica que o ano letivo de 2021 foi dividido em dois: até junho serão trabalhados conteúdos de 2020, que darão lugar ao conteúdo de 2021 de junho a dezembro.

O grupo de professores da escola se reuniu para elaborar, de forma colaborativa, sequências didáticas que são enviadas a cada 15 dias para os estudantes no formato de apostilas. Além disso, também são promovidos encontros online síncronos, pela plataforma Google Meet, e assíncronos, nos quais os professores se disponibilizam para esclarecer dúvidas e conversas com os alunos via WhatsApp. “Os alunos estão fazendo de tudo para não perder a aula. Aqueles que não têm internet em casa vão para a casa do vizinho, outros dividem o celular com o irmão. Eu vejo que esse modelo está fazendo efeito porque os alunos estão interagindo”, comenta José.

 

Sentimento docente

Rosiane explica que muitos docentes da escola sentem-se esperançosos com relação ao novo modelo adotado para o ano letivo de 2021 e estão empenhados em seguir o planejamento à risca. Entretanto, o aumento de casos nesse primeiro trimestre do ano – e mais acentuadamente em março – gera uma situação de desconforto.

“Na primeira semana de março tivemos uma baixa grande do número de estudantes frequentando a escola presencialmente, porque as famílias começaram a deixar os filhos em casa. Isso acarreta uma desmotivação dos docentes, porque eles planejam a aula com cuidado, o que gera uma expectativa, e quando chegam na sala de aula encontram três ou quatro estudantes, sendo que tivemos cerca de 12 em semanas anteriores”, comenta a coordenadora.

José, por sua vez, comenta que ficou assustado diante da proposta de dividir o ano letivo em dois, mas que o balanço até agora tem sido positivo. “O trabalho do professor dobrou, porque precisamos corrigir as atividades das sequências didáticas de muitos alunos. Mas, ao mesmo tempo, nos sentimos mais confortáveis pois a questão principal era o medo de voltar ao presencial, pois sabemos que o vírus ainda está circulando muito”, explica.

 

Maior familiaridade com tecnologia

O uso de tecnologia foi uma constante durante o distanciamento social e têm sido ferramenta fundamental para possibilitar a continuidade das aulas. As atividades produzidas para as sequências didáticas oferecidas pela escola de Paripiranga foram elaboradas pelos próprios professores e, segundo José, esse movimento incentivou que se aproximassem ainda mais da tecnologia.

“Muitos professores não tinham esse molejo de lidar com a tecnologia. Então foram obrigados a aprender, e alguns sofreram bastante e ficaram emocionalmente abalados, porque é tudo muito novo.”

No caso de Joinville, Rosiane reforça que a vivência da suspensão das aulas fez com que professores pudessem desenvolver mais intimidade com as ferramentas tecnológicas e passassem a utilizá-las por mais tempo.

“As lousas digitais nas salas de aula estão ligadas em tempo integral, o que não era uma vivência de um ou dois anos atrás. Além disso, os professores passaram a fazer seu planejamento usando o notebook que a rede disponibiliza, sendo que até então era um movimento de usar caderno e caneta”, explica.

 

Momento demanda flexibilidade

O planejamento das próprias atividades também precisou mudar. Rosiane explica que a escola em que trabalha precisou montar uma organização para que os professores conseguissem corrigir as atividades dos estudantes e realizar uma devolutiva. “O planejamento que antes era semanal agora é quinzenal, porque se repete para os dois grupos. Além disso, para as devolutivas, organizamos roteiros em dois cadernos: o par e o ímpar. Na semana que um está com o aluno, o outro está na escola para ser corrigido.”

A flexibilidade para encontrar novas soluções a problemas nunca antes vivenciados pela educação também deve se aplicar ao tratamento dos docentes para consigo mesmos. Para a coordenadora, é importante que os professores permitam-se sentir vulneráveis. “Às vezes, vejo que alguns profissionais se frustram e até adoecem porque se sentem incompetentes diante dessa situação. Mas é necessário entender que uma estratégia pode dar certo hoje e amanhã não, e não trazer isso para o pessoal.”

 

Importância do acolhimento

Para Rosiane, umas das estratégias que mais têm ajudado na retomada gradual das atividades na escola é o acolhimento tanto para professores como para estudantes. “Toda a compreensão e o olhar humano para professores, famílias e alunos é algo que conseguimos perceber como importante em todas as ações. Esse ‘novo normal’ na escola fez com que nós olhássemos para o outro como seres humanos”, explica Rosiane.

O acolhimento denota a importância de apoios e de redes nesse momento, onde professores podem buscar suporte uns nos outros. “Por mais que você tente ser forte e empoderado, isso não vai dar certo agora. Não podemos fazer isso sozinhos. É necessário manter um vínculo.”

 

 

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Escola trabalha com a natureza e estimula o desenvolvimento socioemocional dos estudantes durante a pandemia

Localizada ao lado do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a escola Vila Verde combina autoconhecimento,valorização das emoções dos alunos, protagonismo, trabalho por projetos, independência e autonomia.

A frase ‘a natureza é uma escola’ ganha novo significado na escola Vila Verde, localizada ao lado do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso, em Goiás. Gerida pelo Instituto Caminho do Meio, a instituição usa sua área de 46 hectares e uma abordagem de ensino considerada inovadora e criativa para incentivar que alunos aprendam sobre o entorno e sobre suas próprias emoções.

Para Daniela Razuk, professora de turmas de oitavo e nono ano do Ensino Fundamental e membro da coordenação pedagógica, foi justamente essa abordagem voltada ao socioemocional que ajudou os alunos a lidarem melhor com a pandemia. Ela explica que, além do fato de os estudantes já estarem acostumados a falar sobre seus sentimentos, entendendo que existe essa abertura na escola e que se trata de um espaço seguro, as práticas online durante aulas remotas tiveram muitas conversas com esse caráter.

“Queríamos entender como nossas crianças e jovens estavam se sentindo, como foram as adaptações e quais eram as expectativas de futuro. Entendemos que, principalmente no começo da quarentena, era fundamental priorizar no currículo o trabalho com questões socioemocionais para que eles tivessem mais esse espaço de expressão e vazão de seus pensamentos”, afirma a professora, que também já esteve na gestão da escola em 2020.

 

Práticas pedagógicas e o socioemocional

A conversa sobre os sentimentos e as vivências durante a pandemia também apareceram em propostas pedagógicas ainda em 2020, como nas aulas de língua portuguesa para os anos finais do ensino fundamental. O projeto “Memórias de uma Quarentena” uniu o aprendizado de gêneros literários e os sentimentos. “Em uma semana, os estudantes aprenderam sobre poesia e as métricas, e depois precisaram escrever um poema sobre como se sentiram durante o ano. Em seguida, foi a vez de contar o fato mais engraçado do ano em um texto narrativo. Os alunos também aprenderam a fazer entrevistas, e conversaram com algum familiar sobre a vivência em quarentena”, explica Daniela.

Para a professora, esse trabalho com as emoções está muito relacionado à missão da escola de educar para a felicidade. Esse bem-estar está intimamente conectado ao autoconhecimento. Por isso, se expressar e refletir sobre seus sentimentos é uma forma de, primeiro, entender como cada pessoa funciona, o que faz bem ou não para cada um e o que é possível fazer para se sentir melhor.

“Esse processo de [os estudantes] reconhecerem e colocarem para fora tudo o que foi vivenciado e sentido, como ansiedade, medo e tristeza, foi a forma que encontramos para garantir um espaço para tudo isso sair de cada um e, uma vez no mundo, pensarmos juntos o que poderíamos fazer para ter uma adaptação melhor e mais saudável diante desse cenário. A busca da felicidade foi nesse sentido, de se adaptar à nova realidade, aceitá-la e, dentro dessa aceitação, buscar válvulas que te deixam melhor.”

 

Emoções, trabalho por projetos e o protagonismo estudantil

A pandemia trouxe, para muitas escolas, algo que já era institucionalizado na escola Vila Verde: o trabalho por projetos. Para Daniela, o fato dessa prática já estar internalizada entre os estudantes e ser encarada como algo do dia a dia da instituição foi de grande ajuda durante a adaptação para o mundo online. Isso porque os alunos já tinham a autonomia e consciência necessária para realizar suas pesquisas de forma independente.

“Observamos que os estudantes que mais estavam sofrendo nessa transição eram de escolas mais tradicionais, onde estavam acostumados a receber todas as orientações dos professores. Nós não tivemos dificuldade nenhuma nesse sentido, porque nossos alunos estão habituados e encaram com naturalidade essa independência. Há tranquilidade para buscarem as informações, enquanto os encontros online ficam reservados para professores tirarem dúvidas e orientarem”, explica a professora.

Além disso, a consciência dos estudantes também facilitou que eles participassem das decisões tomadas pela escola e pudessem, aos poucos, lapidar as práticas durante a pandemia. “Nós dialogamos muito abertamente, perguntando como poderíamos adaptar para que todo o processo ficasse mais leve. E eles realmente deram dicas, opiniões e sugestões sensatas e pertinentes e entenderam que, até certo ponto, poderíamos mudar, mas que em outros assuntos não havia o que fazer, então também foi um aprendizado de lidar com a própria frustração.”

 

Retomada verde no ensino híbrido

Ainda em 2020, a coordenação da escola, juntamente com os professores, percebeu a importância de diversificar as propostas pedagógicas para os estudantes e incentivar que desenvolvessem projetos mais práticos e menos teóricos, com o objetivo de ampliar os estímulos e reduzir o tempo de tela. “Começamos a estimular que os alunos desenvolvessem projetos ligados à saúde física, mental e aspectos relacionados à natureza, sugerindo informações sobre plantio, como fazer uma horta no quintal ou apartamento. Além disso, reforçamos a importância de praticar exercício físico, fazer alongamentos e priorizar atividades que fossem boas para o corpo e a mente.”

Pensar em práticas alternativas será, inclusive, algo a ser mantido na retomada gradual das aulas presenciais. Seguindo as diretrizes de retorno com apenas 30% da capacidade, Daniela explica que a equipe da escola tem discutido sobre formas de aproveitar melhor os momentos presenciais, unindo a necessidade de estar ao ar livre por conta da pandemia, com os benefícios que essa vivência traz aos estudantes.

Para a professora, uma das práticas que foi prejudicada em 2020 e que poderá ser resgatada nesse retorno é a vivência do lado artístico com pinturas e desenhos, que indiretamente está relacionado à regulação das emoções.

“Estamos pensando em manter a parte mais formal, do desenvolvimento de projetos, de forma online para que, quando estivermos na escola, possamos fazer atividades juntos, respeitando o distanciamento. É um movimento de resgatar a sociabilidade, o que não significa estar em contato físico, mas estar junto, mesmo que distante, nessas micro-sociedades que são a escola e as turmas”, completa.

 

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Devolutiva do professor deve equilibrar desafio e motivação de estudantes

Parte importante do processo de aprendizagem dos estudantes, os feedbacks podem ser usados ao longo do ano de forma a incentivar o desenvolvimento de crianças e jovens.

Desde o nascimento, o ser humano aprende a cada segundo. Primeiro, a mamar. Depois, a comer, beber, andar, falar, escrever e por aí vai. Por isso, até o momento da morte, pode-se aprender a cada dia e, dessa forma, não existe alguém que detenha todos os conhecimentos.

Essa mesma lógica deve ser aplicada na escola. Mesmo diante daquele estudante que está muito à frente dos colegas, professores precisam estimulá-lo para que não se acomode e continue empenhado em suas descobertas educacionais. Por outro lado, alunos com dificuldades de aprendizagem também precisam ouvir palavras encorajadoras e não serem desmotivados por seus professores. Como encontrar esse equilíbrio?

No ambiente educacional, os docentes têm um papel central no processo de ensino-aprendizagem, o que envolve dar feedbacks aos alunos, ou seja, as devolutivas sobre o desempenho nas atividades propostas. Para entender o que está por trás dessas mensagens às crianças e jovens, bem como algumas técnicas para acertar o tom, a Vivescer conversou com Vanessa Zito, professora e especialista em psicopedagogia. Confira a seguir.

 

Vivescer: Qual é a importância do feedback personalizado e individualizado do professor no processo de aprendizagem dos estudantes?

Vanessa: Acredito que, em primeiro lugar, o feedback em relação às tarefas é respeitoso com o aluno. Essa devolutiva faz com que ele ou ela se sinta pertencente ao processo de aprendizagem. É diferente quando corrigimos uma tarefa e mandamos um recado automático, seja ‘parabéns’ para alguns ou ‘reveja’ para outros, de quando realmente paramos para olhar com mais sensibilidade, percebendo quais habilidades foram atingidas e quais ainda estão abaixo do esperado. Ao longo do ano, elenco algumas tarefas e atividades para realmente me dedicar ao feedback. Penso nas expectativas que tenho de aprendizagem, nas habilidades que os alunos precisam alcançar e, a partir disso, penso em devolutivas mais direcionadas, tanto escrita como de forma mais pessoal, com conversas para apontar caminhos para a criança desenvolver aquilo que ainda não foi possível.

 

Vivescer: Qual deve ser a postura dos docentes diante de estudantes que têm mais facilidade? Como é possível ser honesto com esse aluno e, ao mesmo tempo, garantir que ele não irá se acomodar no seu processo de aprendizagem?

Vanessa: Para estudantes que têm altas habilidades e que caminham com mais autonomia, o feedback se torna uma forma de ir além e desenvolver outras competências. Essa devolutiva pode, justamente, servir para que ele não se desmotive no seu processo de aprendizagem por estar em uma situação mais confortável. Eu trabalho com plataformas educacionais, então quando percebo que o aluno já está nessa posição mais avançada, passo desafios que não estavam no meu planejamento e observo como responde. Outra forma de estimular essas crianças é trazê-las como tutoras de colegas que precisam de mais apoio. Esse trabalho entre pares é uma forma de motivar os dois lados: tanto o aluno que já desenvolveu o que é esperado, como aquele que ainda não chegou nesse ponto.

 

Vivescer: Nos casos de estudantes que apresentam maior dificuldade, quais cuidados o professor precisa tomar para passar a mensagem de que é preciso melhorar, mas não desmotivá-lo completamente?

Vanessa: Quando vamos dar um feedback, precisamos olhar com sensibilidade para a atividade ou trabalho em questão, e elencar, sim, o que é necessário modificar, mas também ter um olhar cuidadoso para aquilo que o aluno conseguiu fazer e jogar o holofote em cima disso. Independente do retorno e da qualidade da tarefa, eu acredito que o professor precisa reforçar um ponto positivo com o objetivo de motivar. Além disso, escolher as palavras que vai direcionar à criança ou ao adolescente. Muito mais do que falar ou escrever, é necessário dar suporte, ensinar e mediar para que esse aluno consiga desenvolver a habilidade. Isso é muito importante para o processo de metacognição, ou seja, o estudante pensar no seu processo de ensino-aprendizagem, refletir sobre o que ele já sabe e sobre o que vai fazer para desenvolver aquilo que ainda não foi possível.

 

Vivescer: Esse trabalho entre pares pode ser um caminho para os casos em que a explicação do professor não consegue atingir alguns alunos?

Vanessa: A linguagem utilizada no trabalho entre os pares é muito mais próxima. Nesses casos, vejo o professor como um mediador desse processo, ou seja, pensar nos pares ou grupos, estabelecer um roteiro, elencar objetivos, ajustar o processo quando for necessário. Acho que é um conjunto: não é apenas a responsabilidade daquele aluno considerado excelente, e também não só do professor. É justamente o aluno como protagonista do processo de aprendizagem, o que vale tanto para aqueles que já atingiram o esperado como para os que ainda não.

 

Vivescer: Pode ser que, mesmo que sem intenção, professores acabem repetindo estereótipos no processo de ensino-aprendizagem que podem criar barreiras nos estudantes, como a frase ‘ciências não é para menina’ ou ‘você não é de exatas’. Como é possível contornar essas eventuais situações?

Vanessa: Isso é uma questão de mentalidade fixa e de mentalidade de crescimento. O feedback contínuo é importante nesse sentido. Ao elencar algumas atividades ao longo do ano para fornecer um feedback mais profundo, ajudamos que o próprio aluno possa perceber seus avanços e, com isso, mostrá-lo o quanto é capaz. Nesse processo, vamos ajudando-o a modificar essa mentalidade fixa de que não é bom em Língua Portuguesa, por exemplo, ou que não é bom em matemática. Por isso que também é importante pensar no suporte depois do feedback, ou seja, quais caminhos serão usados para que o estudante supere as dificuldades e quais mensagens serão usadas quando ele atingir seus objetivos. Tudo isso faz parte do processo de metacognição, durante o qual o aluno vai se conscientizando sobre seus avanços. Esse percurso demanda uma sensibilidade do educador, com um trabalho muito específico e cuidadoso.

 

Vivescer: Para terminar, qual seria o primeiro passo para quem deseja começar a entender mais a fundo o processo de dar retorno direcionados aos estudantes?

Vanessa: Eu acredito que o primeiro passo é se colocar no lugar do aluno. Há pouco tempo, concluí uma formação na qual me senti muito frustrada ao enviar tarefas e receber apenas uma nota. Quando eu e outros alunos fomos questionar, nos disseram que não era possível um retorno personalizado pela grande quantidade de estudantes no curso. Com isso, fui me desmotivando. Às vezes tinha uma nota muito boa, outras vezes nem tanto. Queria saber o que deveria modificar para a próxima entrega, não apenas para ter uma nota 10, mas para avançar no processo de aprendizagem. Antes disso eu não tinha esse olhar e essa experiência me ajudou muito como educadora. Passei a valorizar ainda mais esse retorno de atividades e tarefa de casa, com mais cuidado, respeito e atenção, porque sei o quanto pode fazer a diferença.

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Mensagens positivas de professores ajudam a controlar ansiedade matemática

De acordo com dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o desempenho brasileiro em matemática é o pior entre os países latino-americanos analisados. Segundo a edição 2018, 68,1% dos estudantes com 15 anos de idade não possuem nível básico na disciplina, mesmo depois de tantos anos na escola. E para isso existem infinitas hipóteses.

O desafio diante da disciplina é tão grande que existe até mesmo um termo para designar o medo da matemática: ansiedade matemática. “Esse cenário pode ter origem na forma equivocada que ensinamos a disciplina nas escolas, um método procedimental, voltado a fórmulas, e não voltado às conexões e à beleza da matemática”, explica Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta, citando estudos que mostram o Brasil no terceiro lugar no ranking mundial de ansiedade matemática.

Segundo a especialista, uma das formas de contornar essa aversão à disciplina é mostrar, desde crianças até adultos, que a matemática é inerente ao ser humano e está em todos os lugares no dia a dia: na escolha em atravessar uma rua em linha reta, no lugar da cama onde se senta para deitar-se com apenas um movimento, a posição na qual coloca o despertador para facilitar desligá-lo pela manhã, todas são escolhas que, invariavelmente, envolvem a matemática.

 

A importância das mensagens
É devido a esse cenário que programas como o Mentalidades Matemáticas encontram solo fértil no Brasil. Cocriado pelo Instituto Sidarta e pelo Centro de Pesquisas Youcubed, da Universidade de Stanford e inspirado em estudos de especialistas da universidade americana, como da professora e pesquisadora Jo Boaler, o programa tem como objetivo mostrar que a matemática pode utilizar práticas abertas, criativas e visuais de aprendizagem colaborativa centradas em investigações.

Um dos pilares importantes do programa é o conjunto de mensagens que são passadas aos alunos, com o objetivo de permitir cada vez mais processos de exploração da disciplina, e não delimitá-la a procedimentos e padrões desconectados de sentido.

Pesquisadores envolvidos na metodologia defendem que toda criança é capaz de aprender a disciplina em profundidade e, por isso, uma das principais abordagens é considerar e valorizar todas as diferentes formas de pensar e solucionar problemas. A metodologia também reforça que a velocidade de resposta a um desafio, por exemplo, não tem relação direta ao nível de conhecimento da pessoa sobre a disciplina.

Considerado não apenas aceitável, mas parte do processo de aprendizagem, o erro é outro quesito muito abordado. “A aprendizagem é um processo, e não um momento final. Quando aprendemos a andar de bicicleta ou a dirigir, na maioria das vezes caímos ou deixamos o carro morrer. Por que em todas as outras áreas do conhecimento entendemos que errar faz parte do processo e na educação o erro é punido?”, reflete Ya Jen.

 

Trabalho em grupo

Trabalhos em grupo podem ser desafiadores, mas é impossível negar que várias cabeças pensando em um mesmo problema ampliam as possibilidades de solução. “Nós costumamos brincar que a melhor resposta para um desafio matemático começa com a palavra ‘depende’”, explica Ya Jen. Quantas pessoas cabem em uma mesa de festa de 1,60m por 1,20m? Isso depende se todos sentarão à mesa, qual é a medida de cada cadeira e muitos outros fatores que podem ser observados por várias pessoas que formam um grupo de estudos.

“Quando falamos em trabalho em grupo, não significa dividir tarefas, mas sim o debate sobre os exercícios matemáticos, que possibilita conjecturas e os processos de se convencer e convencer o outro. É nesse trabalho de discussão que aprofundamos nosso pensamento matemático. Quando trabalhamos com uma visão fechada ou binária de resposta – certo e errado – na educação, limitamos as possibilidades de desenvolvimento de raciocínio mais profundo.”

 

Aplicando a metodologia na rotina escolar

Todos os conceitos teóricos citados por Ya Jen ganham vida na rotina da Escola Estadual Henrique Dumont Villares, em São Paulo (SP). Nádia Moya Brocarrdo, coordenadora pedagógica da instituição, orgulha-se em comentar que a aplicação da nova abordagem surtiu efeitos que vão além da aprendizagem dos estudantes.

Para ela, o primeiro passo para mudar toda a cultura da escola é começar com a formação dos professores. “Muito se fala em letramento de alfabetização, mas pouco sobre letramento de matemática, sobre como ensinar essa disciplina. A cultura matemática dos nossos professores era ‘um mais um são dois e só’. Começamos a mostrar, a partir da neurociência, como acontece a aprendizagem, as conexões cerebrais e então começamos a abordar a importância do erro”, explica a coordenadora.

“Nós não colocamos mais o ‘x’ de errado no caderno, colocamos um risquinho para que a criança saiba que ainda não chegou no resultado. Essa mudança na forma de tratar o erro mudou até mesmo como os estudantes enxergam a avaliação. Se antes tinham medo da prova, hoje eles gostam e ficam felizes, porque não há mais o medo de arriscar.”

Pode parecer utópico para quem vê de fora, mas Nádia faz questão de reforçar que não foi um caminho fácil, sendo necessário alguns anos de formação e conscientização docente. Para a coordenadora, muito do medo que crianças têm da disciplina pode vir dos próprios professores que, inconscientemente, repetem padrões sobre os quais foram ensinados. Além disso, a participação de todos os docentes da escola nos processos de formação facilitou a construção dessa nova cultura que valoriza os desafios e dificuldades e não condena o erro durante a aprendizagem. “Começamos a mostrar que quando um professor acredita no potencial do aluno e faz boas perguntas, isso impacta a aprendizagem. Assim, demos voz aos alunos e o professor saiu daquela posição de maestro que ocupava na frente da sala.”

 

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7 dicas de perfis para qualificar seu tempo nas redes sociais

Ao invés de desconectar completamente, que tal qualificar o tempo nas redes sociais? Produtores de conteúdo incentivam novos hábitos, prática de exercício físico sem sair de casa, reorganização da rotina e reflexão sobre propósito. Confira

Não é mais segredo para ninguém que as redes sociais são pensadas de forma a fisgar os usuários e viciá-los na navegação pelos feeds infinitos. O filme “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix, traz depoimentos de profissionais envolvidos em grandes empresas de tecnologia afirmando que de fato existem estratégias pensadas especificamente para manter as pessoas conectadas, navegando pelos aplicativos.

Com a pandemia, muitas pessoas tentaram suprir o distanciamento social com uma conexão 24/7, ou seja, 24 horas por dia e sete dias por semana. Com quase um ano da chegada do novo coronavírus ao Brasil, já foi possível notar que esse modelo está longe do ideal. Mas, como muitas coisas, o segredo é o equilíbrio. Ao mesmo tempo em que as redes sociais podem despertar sentimentos de comparação, ansiedade e consumismo, também existem produtores de conteúdos que se especializam em determinados nichos e, com isso, qualificam o tempo que as pessoas passam nos aplicativos.

Por isso, a Vivescer fez uma seleção de alguns perfis que mostram um outro lado das redes sociais, ao incentivarem novos hábitos, darem dicas de organização da rotina, sugerirem exercícios físicos e de autoconhecimento e reflexões relacionadas ao propósito de vida, todas elas de alguma forma ligadas ao princípio de desenvolvimento integral do ser humano defendido pela plataforma. Confira a seguir.

 

– Corpo e mente

Pri Leite Yoga

Com 931 mil inscritos no YouTube, o canal de Priscilla traz a mensagem ‘Retire os sapatos, receba o meu abraço e pode entrar: você está em casa!’. São 344 vídeos que trazem exercícios de yoga tanto para pessoas iniciantes que nunca praticaram, como para aqueles mais avançados, que desejam aprimorar seus movimentos. Os vídeos incentivam o trabalho com flexibilidade, relaxamento, equilíbrio, fortalecimento e alongamento. A prática de yoga é conhecida por unir o trabalho entre corpo e mente: ao mesmo tempo que o corpo é exercitado, a mente relaxa. O canal conta também com conteúdos produzidos especialmente para a realização junto com crianças. Confira.

Norton Mello

Treinos online sem a necessidade de materiais de ginástica. Essa é a proposta do personal trainer e orientador físico Norton Mello, que, desde o começo da quarentena, realiza transmissões ao vivo para seus 595 mil seguidores no Instagram. A ideia é mostrar que qualquer pessoa pode praticar exercícios sem a necessidade de estar na academia. Os treinos, com duração média de 40 minutos, podem ser realizados por qualquer pessoa, independente de seu condicionamento físico. O preparador defende que as transmissões foram a forma encontrada para manter a atividade mesmo em meio à quarentena, fundamental, sobretudo, para quem passa o dia todo sentado em frente ao computador. Saiba mais.

Monja Coen

Engana-se quem pensa que o perfil de Monja Coen no Instagram é dedicado a falar exclusivamente sobre budismo. Com 2,4 milhões de seguidores, Monja Coen fala sobre assuntos diversos que se aplicam a todas as pessoas do mundo, como a importância de fazer o bem, como lidar com a dor, dicas de leituras, a busca por caminhos alternativos à violência, entre outros conteúdos. Além da série Monja Coen Responde, essa no YouTube, seu canal no Instagram é abastecido com vídeos sobre budismo, ansiedade e estresse, mensagens e preces, que alcançam milhares de reproduções. Assista.

 

– Autoconhecimento e hábitos

Eurekka.me

Originalmente uma clínica de psicologia fundada em 2017 por três jovens psicólogos de Porto Alegre (RS), a Eurekka conseguiu, com sua presença online, levar conteúdos sobre saúde emocional para todo o Brasil, além dos atendimentos presenciais. As produções envolvem vídeos no YouTube, a publicação de livros, terapia online e presencial, um aplicativo de fácil acesso aos conteúdos e uma ferramenta de inteligência artificial para fornecer apoio emocional. Diariamente os 553 mil seguidores no Instagram recebem dicas sobre relacionamentos profissionais e pessoais, comportamentos, como praticar autoconhecimento, enfrentamento da ansiedade, transtornos de alimentação e muitos outros temas, todos abordados de forma simples e acessível. Conheça.

Bookster

Qualquer um dos 293 mil seguidores de Pedro Pacífico no Instagram já sabe que “leitura é hábito”. O advogado usa sua página na rede social para incentivar o hábito da leitura. Além de publicar resenhas das obras que lê, ele mostra novas leituras e incentiva o engajamento dos seguidores com desafios do tipo clubes de leitura. Considerado uma das 30 pessoas mais influentes com menos de 30 anos pela Forbes, Pedro comanda um perfil literário que visa descomplicar a leitura, desencorajar comparações do tipo ‘quantos livros você lê?’, discutir produções brasileiras e internacionais e mostrar que o conhecimento das páginas pode não somente ser um passatempo, mas também mudar vidas. Acesse.

Hábitos que mudam

Trabalhando com planejamento estratégico há mais de sete anos, Laris Rodrigues decidiu criar a Hábitos que Mudam, página no Instagram dedicada ao compartilhamento de dicas e sugestões que, ao serem implementadas na rotina, podem ajudar na organização, produtividade, criação de novos hábitos e aprimoramento de práticas não tão boas. Com mais de 135 mil seguidores, os posts apostam em cores e desenhos para chamar a atenção do público para práticas de foco, como lidar com situações no home office, dicas de séries e filmes sobre organização, a importância da criação do hábito do descanso, como se planejar para mais realizações, como tirar projetos do papel, entre outros conteúdos. Saiba mais.

 

– Propósito

Marisa Bussacos

Com um olhar integral para o ser humano, Marisa Bussacos atua em processos de coaching, biografia humana e propósito. A partir dos princípios da antroposofia, Marisa incentiva, em mais de mil publicações, reflexões sobre vida, propósito, valores e conexão interna. Com posts no Instagram, em seu site e em outras redes sociais, aborda temas diversos como integração entre as chamadas hard e soft skills, dicas para como encerrar bem um ciclo, autoconhecimento, a compreensão de jornadas, a separação entre a pessoa e sua vida profissional e outros assuntos. Conheça.

 

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Aprendizados ao longo de 2020 ajudam escola a acolher professores neste ano letivo

Práticas de acolhimento e escuta de professores ao longo de 2020 pode continuar em 2021. Conheça exemplos

EMEI Orígenes Lessa, de São Paulo, criou o hábito de realizar encontros virtuais para incentivar autoconhecimento, meditação e autocuidado dos professores.

Muito tem se falado sobre a importância de garantir espaços e momentos na ressível, mais seguros para retomar a vida na escola?

Essas são algumas perguntas que começaram a ser estudadas ainda em 2020 pela Escola Municipal de Educação Infantil Orígenes Lessa, em São Paulo (SP). Rosamaria Cristina Silvestre, diretora da instituição, explica que as atividades foram pensadas para incentivar o autoconhecimento em um movimento de promover um cuidado com as profissionais. Para Rosamaria, somente quando um profissional é assistido que ele poderá assistir os outros.

“Durante o ano passado, nossas professoras precisaram lidar com as emoções das crianças, que ainda não sabem verbalizá-las, e também com as emoções das famílias, já que muitos responsáveis perderam o emprego e tinham entes queridos infectados com a Covid-19. Se as professoras não estivessem minimamente fortalecidas ou com uma abertura para acolher as crianças e os pais, o trabalho com as crianças não poderia ser feito. Sempre soubemos da importância da relação família-escola, mas 2020 deixou isso ainda mais evidenciado”, explica a diretora.

Parceria com curso de pedagogia

Em parceria com a UniSant’Anna, cada aluno do curso de pedagogia ficou responsável pela tutoria de duas professoras. A ideia era aproveitar o conhecimento em tecnologia dos jovens estudantes de ensino superior, para apoiar professores da escola a produzir e editar vídeos e outros conhecimentos para possibilitar as aulas a distância. “Ao mesmo tempo, havia uma troca na outra via também, porque as professoras contavam aos alunos como é a realidade do trabalho com crianças na educação infantil”, afirma Rosamaria. Ao final do processo, as professoras receberam um comprovante da universidade, atestando sua participação.

Luto e perda: como lidar?

Assim como muitas outras escolas, a Orígenes Lessa também vivenciou situações de luto: uma funcionária da escola faleceu em 2020 e professoras perderam parentes para a Covid-19. Por isso, a escola convidou a professora Maria Khadiga Saleh, supervisora escolar aposentada da rede municipal de São Paulo, para participar de uma conversa online com o corpo docente. “Depois que a professora se aposentou, ela atuou no serviço funerário de São Paulo. Em razão disso e de sua vasta experiência nas escolas, convidamos para uma conversa sobre perda, sobre luto e sobre morte.”

A importância do autoconhecimento, autocuidado e de conhecer os professores

Em outra parceria, dessa vez com o Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, a escola contou com a participação de psicólogos em quatro encontros, que ajudaram em conversas sobre a vivência da pandemia, como professores podem se acolher e se conhecer cada vez mais. Rosamaria conta que ao longo do ano passado precisou estar atenta a diversas situações entre o corpo docente. “Certa vez marquei reunião com uma professora e ela não entrou online na hora combinada. Fui verificar o que estava acontecendo e ela explicou que, como tinha insônia e não dormia à noite, trocava o dia pela noite e acabou perdendo a hora.”  Segundo a diretora, os psicólogos conseguiram mostrar que são pequenas ações do cotidiano que podem evoluir para quadros mais graves, como uma depressão, por exemplo. “Eles nos mostraram que podemos prevenir essa evolução se nos conhecermos e nos acolhermos.”

Meditação e ioga

A sequência de encontros online com especialistas ao longo de 2020 também abordou o mindfulness e ioga. Assim como nos encontros anteriores, saúde mental foi um tema muito abordado. Rosamaria explica que sentia a necessidade de trabalhá-lo com os docentes a partir das conversas do dia a dia. “Tivemos duas professoras que perderam parentes para a Covid-19. Então precisamos acolhê-las, mas chega um momento que é aquele ditado ‘santo de casa não faz milagre’. Então trazer alguém de fora, mesmo que seja falar a mesma coisa com outras palavras, ajudou muito nesse acolhimento, tanto das professoras, como comigo da gestão.” A diretora conta que Luiz Gebara, profissional especializado em mindfulness (atenção plena) convidado para participar, mostrou a importância de professores estarem conectados conectarem-se a si mesmos, e terem um olhar respeitoso para si. Esse processo de fortalecimento do profissional acaba refletido no trabalho com os estudantes.

Próximos passos

A vivência de acolhimento ao longo de 2020 permitiu que Rosamaria já levantasse algumas hipóteses sobre o que será necessário ao longo de 2021, no sentido de continuar o processo de acolher os docentes. Um movimento que a escola já realizou foi contabilizar todos os materiais enviados pela prefeitura – como máscaras para adultos e crianças, além de copos individuais –, e também realizar a compra de outros. A ideia é apresentar o levantamento aos docentes quando voltarem à escola, com o objetivo de deixá-los mais seguros quanto aos protocolos sanitários. Também está na lista de afazeres um mapeamento sobre as atividades realizadas no ano passado que podem ser desenvolvidas novamente em 2021. “Não é como se 2020 fosse um livro que acabou e fechamos. Há materiais riquíssimos que os professores elaboraram, então não precisarão fazer tudo do zero novamente.”

Ela também reforça que 2021 irá requerer maior flexibilidade por parte dos professores, que voltarão à escola em um modelo diferente do qual estão habituados: com turmas reduzidas, protocolos a obedecer, entre outros fatores.

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